Advento das Três Calamidades

Capítulo 597

Advento das Três Calamidades

"....."

Já nem me surpreendia mais com isso.

Todo mundo gostava de entrar e sair do meu quarto sem nem mesmo perguntar se eu queria ou não. Nesse ponto, qual seria a diferença de manter a porta fechada?

'Tanto faz deixar a porta aberta para todo mundo entrar.'

Não que isso fosse fazer diferença.

"Você não parece muito feliz com a minha presença. É porque entrei sem avisar?"

"Então você sabe."

Pelo menos, ela parecia ter consciência disso.

"....Entendo. Peço desculpas pelo transtorno."

Apesar disso, ela se levantou e caminhou até a cadeira próxima, sentando-se. Eu só podia encará-la com uma expressão perplexa.

Ela pisqueou para mim.

"Encantado comigo? Pelo jeito que você está me olhando, não acho que esteja muito longe disso, certo?"

"Hã?"

Senti minha cabeça latejar. Quanto mais interagia com essa Santa, mais vontade eu tinha de cagar e sair. Ela era além de sem vergonha.

"Sim, bastante."

Sou feio de propósito, bati a mão com desdém, deixando claro meu sarcasmo.

'Na verdade, me dá é repulsa.'

Ela era como uma raposa. Uma raposa irritante, sem vergonha alguma.

"Ai, que fofo~"

Quanto mais ela falava, mais me enojava. A personalidade dela parecia despreocupada, mas ao mesmo tempo, lembrando dos acontecimentos anteriores, eu sabia que aquilo era só uma fachada dela.

E o fato de ela ter aparecido no meu quarto significava que ela queria algo de mim.

"O que você quer? Como está aqui, presumo que esteja curioso sobre alguma coisa."

"Vai direto ao ponto, né? Então, eu também vou direto ao assunto."

A expressão da Santa ficou um pouco mais séria enquanto sua postura mudava. Foi tão repentino e inesperado que quase me desconcertou.

Com um movimento da mão, uma barreira sonora se formou ao redor de nós.

"Como conseguiu perceber que o repórter iria agir primeiro?"

De novo... isso de novo...

Estava quase abrindo a boca para responder quando ela me interrompeu.

"Não venha me mandar papo de instinto de seus amiguinhos."

Os olhos da Santa estreitaram, sua cabeça se inclinou mais perto de mim, encarando-me fixamente.

"Se tivesse que chutar, diria que foi porque você viu algo, não é?"

"..."

Parecia que o ar tivesse sido sugado dos meus pulmões. Só consegui encarar a Santa com um olhar incrédulo. Que tipo de...?

"Hah."

Ela sorriu, me olhando com uma expressão impressionada.

"Seu rosto não mudou quase nada. Já conheci muita gente, mas você é um dos poucos cujo rosto de poker eu tenho dificuldade de decifrar."

"...Treinei bastante."

"Hahaha."

Sua risada clara ecoou silenciosamente pelo ambiente.

"Entendo, entendo."

Ela parecia bem divertida. Ou pelo menos, nesses próximos segundos, até sua atitude mudar novamente.

"Você é de alguma forma ligado ao Oracleus, certo?"

"....."

De novo, fiquei sem ar.

"Sabe, não sou a Santaufessa da Mesa Redonda à toa. Sou bastante sensível a assuntos das sete igrejas, e considerando o interesse que a Igreja do Oracleus demonstrou por você, estou inclinada a acreditar que vocês têm alguma ligação."

Ela prendeu o queixo e se inclinou ainda mais perto. Seu rosto agora ficava a poucos centímetros do meu.

"Pelo modo como vocês reagiram quase como se tivessem previsto tudo com antecedência, quero acreditar que é isso mesmo."

A Santa sorriu, finalmente recuando a cabeça.

"E chega ao motivo pelo qual acho que você viu algo no passado. Você..."

Seus olhos se estreitaram.

"...Você consegue enxergar o futuro, não consegue?"

Puxe os lábios e fiquei sem palavras, sem saber como responder. Ela apenas me observava com um sorriso suave nos lábios.

Naquele momento, parecia que ela podia ver através de tudo.

Eu sabia que qualquer coisa que eu dissesse logo seria analisada por ela, e mentir só prejudicaria minha situação.

'Se ela é tão ligada às sete igrejas, será que ela vai tomar minha sangue à força?'

O pensamento me deixou tenso.

Se fosse isso mesmo, não teria como me defender. Ela era muito mais forte do que eu.

Meu coração acelerou dentro do peito enquanto tentava me manter calmo.

'O fato de ela ainda não ter se movido significa que uma de duas coisas: ou ela não está confiante na hipótese e tenta avaliar minha reação, ou...'

"Vamos supor que você esteja certo e que eu possa ver o futuro. O que faria com essa informação?"

"Trouxe uma pergunta para tentar mudar o tom da conversa?"

A Santaufessa sorriu e deu de ombros.

"Nada de especial. A Mesa Redonda pode estar bastante ligada às sete igrejas, mas também não somos a mesma coisa. A menos que alguém ameace destruí-las, somos bastante indiferentes. No seu caso, estou aqui apenas para levantar uma hipótese com base na investigação que estamos conduzindo. Não precisa se preocupar com vazamentos de informações."

"Ah, entendi."

Como se eu fosse acreditar nisso.

"Lamento que ainda pareça desconfiar de mim, mas juro que não estou mentindo."

"Ok."

"....."

Seu sorriso vacilou, mas foi só por um momento, até que ela suspirou.

"Tudo bem, então. Acredite no que quiser."

Ela balançou a cabeça enquanto murmurava: 'Hoje em dia, os jovens sempre desconfiados das tias mais velhas e simpáticas.'

"....."

Maluca.

Ela era uma maluca.

"Keum... Voltando ao ponto principal da conversa."

Ela tossiu, se recompondo, e continuou: "Estou aqui apenas para investigar a situação baseada no que aconteceu alguns dias atrás. Estamos quase finalizando, e, pelos dados que coletamos, é seguro dizer que logo irão liberar os membros da Igreja do Oracleus. Há provas suficientes para afirmar que eles são inocentes."

"Ah."

Mentiria se dissesse que não fiquei um pouco desapontado, mas também não era surpresa.

Estava pensando em várias estratégias para mantê-los presos por mais tempo, mas a influência das igrejas é bastante grande.

Até Atlas estava sem jeito diante disso.

Isso, claro, se ele quisesse trilhar um caminho de guerra total contra elas.

Porém, acho que ele não tinha tanta intenção disso.

"Baseando-me nas minhas observações, você e os da Igreja do Oracleus têm alguma ligação, de alguma forma. Como, e por quê, eu não sei, por isso vim falar com você. Mas, vendo a sua calma, acho melhor ficar com minhas próprias apostas."

Ela deu de ombros.

"No final das contas, não posso obrigar você a falar. Isso não condiz com o título de Santaufessa."

Passando os dedos pelos cabelos dourados macios, ela se levantou lentamente e me encarou diretamente.

"Se tiver algo a dizer, pode falar comigo. Não vou me intrometer nos seus assuntos. Pode me ver como uma juíza imparcial."

".....Estou bem."

Respondi após pensar um pouco.

As palavras dela tinham um quê de charme, quase me fazendo querer confessar tudo, mas mantive a língua. Ela parecia confiar, mas eu absolutamente não confiava nela.

Quem garante que ela não ajudaria os da Igreja do Oracleus se descobrisse a verdade?

Na verdade...

"Como você veio até mim querendo uma resposta, presumo que os da Igreja do Oracleus também tenham ficado calados sobre a situação, certo?"

"....."

Ela ficou em silêncio também.

Então, sorri.

"Você não está sendo honesta, né?"

De mais ou menos, dava pra deduzir o motivo da curiosidade dela. Só de interagir um pouco, percebi uma coisa sobre ela.

Ela gosta de estar no controle. Apesar de falar que a Mesa Redonda é independente das sete igrejas, parecia quase que ela considerava as sete igrejas como subordinateadas a ela.

'Ela não gosta de saber que uma de suas subordinadas age sem o seu conhecimento. Por isso veio até mim, querendo encontrar algumas respostas.'

Isto...

Minha mente fervilhava.

Se fosse mesmo isso, talvez eu pudesse usar a situação a meu favor.

Claro, não fui de imediato nessa ideia e acalmei meus nervos. No fim, ela só tinha um dia de contato comigo — ainda não tinha certeza se podia confiar nela ou não.

"Que pena."

A Santaufessa se levantou, mexeu na cabeça como se sentisse algo, e cancelou a barreira sonora.

De repente, ela levantou uma sobrancelha, como se percebesse algo, e aproximou a cabeça da minha, o sopro suave tocando meu rosto.

"Então... sobre o que eu disse antes, o que acha de se casar comigo?"

"O quê?"

Vi sua postura mudar novamente, e olhei para ela com estranheza. Antes que pudesse falar, ela pressionou o dedo nos meus lábios.

"Hã—"

"Pensando bem. Se você se casar comigo, ninguém no mundo vai te incomodar. Sei que você é muito talentoso, então, se tiver alguém te protegendo o tempo todo, poderá crescer sem problemas."

Ela falou cada palavra em um sussurro, com uma voz extremamente sedutora.

Mas eu não me comovi. Percebi à primeira vista que ela não tinha intenção séria com aquilo.

Nem pensaria em aceitar.

Na verdade, preferiria morrer solteiro do que ficar com ela.

Por outro lado, a proposta dela não era de todo sem graça. Como ela mesma disse, isso faria os da Igreja do Oracleus hesitarem. O mesmo valia para o Inverted Sky.

Porém...

'Não, assim tô bem mesmo.'

"Não posso dizer que tua proposta não é tentadora, mas—"

"Hoho, então você ficou tentado."

Ela me cortou e riu, aparentemente satisfeita, sem perceber minha clara tentativa de recusar. Ou talvez ela soubesse e já tivesse cortado antes mesmo que eu pudesse dizer não.

Ela não queria que recusassem assim tão facilmente, hein?

"Acho que meu charme nunca falha~"

Ela piscou para mim, se aproximando ainda mais, sussurrando no meu ouvido enquanto eu franzia a testa. Justo na hora em que ia empurrá-la para longe, ela recuou, com as mãos no ar.

"Bom, foi uma conversa bem interessante. Não posso dizer que não fico lisonjeado pelo seu interesse, e quando chegar a hora, podemos marcar um casamento entre nós."

Depois, mandou um beijo na minha direção.

"Vou indo então."

E sua figura desapareceu logo em seguida.

Em poucos minutos, ela veio, agitou tudo e foi embora.

Revendo tudo o que aconteceu, me senti completamente esgotado.

'Quanta exaustão. Espero nunca mais encontrá-la.'

"Haa."

Suspiro enquanto murmurava, "Ela até que era bonita, hein—"

Parei na hora, ao notar uma figura parada no canto do quarto. Seus olhos de obsidiana estavam fixos em mim, sem expressão.

"Ho, era você."

Reforcei a mão no peito, percebendo quem era.

Sério, por que ninguém simplesmente entra no meu quarto do jeito comum?

Derramei uma risada amarga.

"Percebeu? Parece que vou me casar, aparentemente."

Balancei a cabeça. Que coisa ridícula.

Fui até meu bolso para pegar uma barra de chocolate que tinha guardado para a hora que ela inevitavelmente aparecesse, e ia dizer casualmente o que aconteceu para Delilah, quando sua voz suave sussurrou no ar.

"Por quê?"

De repente, sua voz saiu um pouco diferente do habitual.

"Hm, o quê?"

"....Por quê?"

Olhei para ela, levantando a cabeça.

"Wha..."

Foi então que tudo parou no meu corpo.

Fiquei imóvel, o corpo inteiro preso, enquanto a cena antes de mim se gravava na minha memória. Sua expressão. A expressão vazia, perdida, que parecia lembrar a que tinha visto nela antes....

Ela ainda assim me encarava.

"Por quê?"

Ela perguntou, com os olhos ainda mais vazios.

E aí percebi. A pequena lágrima cristalina escorrendo pelo seu rosto.

"Por quê...?"

Ela repetiu, e quando abri minha boca para responder, as palavras simplesmente sumiram. No fundo, eu não conseguia falar.

Vendo ela assim, senti o ar sair dos pulmões como se fosse apertado. Estendi a mão para ela.

Mas quando fiz isso...

"Por quê?"

Já era tarde demais.

Sua figura desapareceu.

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