Advento das Três Calamidades

Capítulo 572

Advento das Três Calamidades

Tudo ainda parecia uma confusão de imagens.

Aquele dia… o dia em que ela foi embora… ainda parecia uma confusão de imagens.

Rose realmente esqueceu tudo o que veio depois daquilo. A vida parecia acelerar cada vez mais, deixando-a para trás.

Aquele dia, ela perdeu tudo.

Sua irmã, seus pais e sua sobrinha.

Quando o tempo finalmente parou para ela novamente, uma década havia se passado.

Nessa década, ela apodreceu numa cela, gastando seus dias olhando sem propósito o passar do tempo.

Até que…

Ela reapareceu.

'Maste—Não, Rose.'

Ela era a cara dela.

Desde os olhos até os cabelos.

Mas também tinha suas imperfeições. Só que, ao contrário dela, ela mostrava suas falhas. Não tinha medo de exibi-las.

Talvez fosse uma coisa boa Kiera ter aprendido a odiá-la.

Assim, ela não precisaria chegar ao ponto de odiar a si mesma como sua mãe fez.

Assim…

Ela aprenderia a seguir em frente e finalmente avançar.

"Ugh…!"

Rose de repente se assustou.

A dor do braço São cortado começou a ficar mais intensa. Ela tinha perdido muita sangue. Sua visão ficou turva, e ela lutava para manter a respiração sob controle.

Estalo~

As chamas ao redor delas crepitavam, e ao longe, Rose podia sentir que algo estava acontecendo.

'Mais reforços?'

Rose sorriu amargamente.

'Parece que o fim chegou para mim…'

Ela perdera muita sangue. Mesmo que os 'reforços' chegassem rápido o suficiente para parar a sua hemorragia, ela ainda enfrentaria a sentença de morte.

Esse era o crime de fugir da prisão.

E não só isso, ela sabia que os superiores daquele lugar queriam sua morte.

Era…

O fim para ela, e Rose tinha essa certeza.

Levantando a cabeça quietamente, ela olhou para as chamas ao longe.

Estalo~

Elas crepitavam intensamente ao redor.

Estavam brilhantes.

Muito brilhantes.

Mas até o fogo mais intenso eventualmente se apaga.

Assim era como Rose enxergava a si mesma.

Uma chama morrendo.

…Ou ao menos, era o que ela acreditava. Justo quando ela se deitava, olhando para o céu, uma sombra caiu sobre ela.

"Hm?"

Ao olhar para cima, ela viu um par de olhos a hazel encarando-a de cima.

Rose franziu a testa, mas justo quando estava prestes a falar, viu Julien tirar um pequeno dispositivo do bolso.

"Encontrei isso há um tempo."

Era um cubo retangular pequeno.

"Estava bem escondido, mas consegui achar."

"Eu..."

"Acho que isso é seu?"

A visão do cubo deixou-a completamente sem palavras.

Ela, claro, sabia exatamente o que era aquele cubo. Era o dispositivo pelo qual vinha procurando desde o começo — a única coisa que poderia ter lhe dado uma fuga fácil e tornado a vida mais simples.

'Ele achou?'

Rose engoliu o seco silenciosamente.

Embora a visão do cubo a deixasse um pouco animada, ela lembrou-se de sua situação atual, e seu coração ficou mais tranquilo.

Até que ele a lançou para ela.

"Aqui."

"Eh…?"

Ela caiu com o cubo sobre o peito, piscando várias vezes, sem saber como reagir às ações inesperadas de Julien.

Ele realmente…?

"Não sei exatamente o que está acontecendo entre você e eles, mas, considerando que estão te perseguindo, provavelmente não é uma boa ideia voltar agora. Você deveria tirar um tempo para se recuperar… e ficar escondida. Talvez, quando passar tempo suficiente, as coisas se resolvam. Talvez eles te perdoem."

Rose engoliu em silêncio.

Embora ele estivesse falando de forma ambígua, Rose parecia entender exatamente o que ele tentava dizer.

'Vá e se esconda. Eu vou tentar resolver tudo para que você possa voltar.'

Em outras palavras, ele queria que ela se juntasse a ele.

Rose abriu a boca, mas, ao fazer isso, de repente sentiu um par de olhos carmesim fixos nela.

A sua boca abriu, mas logo se fechou ao pegar o cubo.

"...Tudo bem."

Sem olhar na direção de Kiera, Rose se forçou a levantar e cambaleou para longe do ponto.

Cada movimento causava dor por todo o corpo, mas ela seguiu em frente, mesmo assim.

Esse não era o melhor lugar para usar o cubo.

Justo quando ela se aproximava de uma árvore próxima, uma voz fraca chamou por ela às suas costas.

"Tia."

Rose parou por um instante, de costas para a voz.

Estalo~

Além do crepitar intenso do fogo, um silêncio inquietante se instaurou no espaço enquanto Rose esperava silenciosamente que Kiera falasse.

Ela mordeu os lábios enquanto aguardava.

…Por algum motivo, ela estava um pouco nervosa.

Ela iria ser repreendida por ter fugido de novo? Por escapar do império e das responsabilidades?

Seja lá qual fosse o motivo, Rose estava pronta para aceitar.

Porque, de fato, ela estava fugindo.

"Até mais."

Mas as palavras que ela esperava que saíssem da sobrinha nunca vieram.

Ao invés disso, ela ouviu um simples 'Até mais'.

A espalda de Rose tremeu levemente. Mas logo, um sorriso apareceu em seu rosto.

Sem olhar para trás, ela saiu silenciosamente do local.

Seu coração frio sentiu-se um pouco mais aquecido.

'É estranho como palavras tão simples conseguem me fazer assim. Será que é porque eu sempre quis que elas me dissesse? Assim… eu saberia que ela não iria desaparecer.'

"Que amargo."

Rose finalmente parou, a respiração mais difícil do que antes.

Estava quase completamente exausta.

Encostando-se numa das árvores, ela deslizou lentamente até quase cair.

"...Acho que já chega."

Ela olhou para o cubo na mão e canalizou a pouca mana que ainda tinha nele.

Logo após, uma leve luminância se manifestou sobre ele, e o rosto de Rose se contorceu de dor. Mesmo assim, ela segurou firme.

Ela estava perto.

'Saindo tão cedo?'

No meio da dor, uma voz fraca chegou até ela.

Quando levantou a cabeça, uma figura familiar apareceu diante dela.

Ela sorriu para ela.

'Fico triste que você vá embora tão cedo. Gostaria de ter ficado mais um pouco com minha filha.'

Em vez de ficar irritada ou ignorá-la como de costume, Rose sorriu.

"Idem. Ela cresceu bem."

'Bem, acho que…'

Evangeline colocou a mão no rosto e suspirou. Ela não parecia muito satisfeita.

"Que? Não me diga que ficou com ciúmes porque ela virou parecida comigo?"

'...Não, não tenho ciúmes.'

"Então, ao menos, olhe para mim quando disser que não está com ciúmes."

Evangeline deu de ombros, e Rose riu.

"Vadia burra, eu vejo completamente através de você."

Ela, certamente, tinha ciúmes.

Rose já tinha pensado nisso antes, mas era uma ideia bastante engraçada.

Porém, seu sorriso não permaneceu por muito tempo enquanto sua atenção se voltava novamente para o cubo.

"Agora que aquele 'lugar' deixou de ser seguro, estou meio perdida. O que eu faço agora?"

'O que fazer? Não está claro?'*

"O quê?"

'...Viva para si mesma.'

"Eh?"

Rose piscou os olhos e olhou para sua irmã.

"Viver para mim mesma? Que papo é esse?"

'Não é papo furado.'

"O quê—"

'Quanto tempo você perdeu vivendo na minha sombra? Desde o tempo que passou na cadeia até o tempo que desperdiçou na organização na qual nunca quis estar em primeiro lugar.'

"Nunca quis estar nela? O que fez você—"

'Você sempre soube que procuravam a Miranda. Eles te buscaram porque acreditavam que você me odiava—que você odiava toda a família por nos abandonarmos.'

"….."

'Você entrou para proteger a mim. A gente.'

Rose mordeu o lábio.

'Você conseguiu. Você nos protegeu. Mas agora, seu trabalho acabou. É hora de seguir em frente também. É hora de aprender a amar a si mesma.'

"Isso vem de você?'

'Hehe.'

"Por que está rindo feito idiota?"

'Só porque sim.'

"Para de graça. Eu não gosto."

'Ei, ainda sou a irmã mais velha aqui. Por que tem que me falar daquele jeito?"

"Porque você é uma vadia."

'Ai, você realmente influencia mal a Ki.'

"Se soubesse, então não teria morrido."

'Agora é tarde demais para arrependimentos.'

"Você tem razão... já passou do tempo de se arrepender."

Os lábios de Rose tremeram, e os olhos começaram a arder enquanto ela abaixava a cabeça.

"Mas… mesmo que seja tarde demais para se arrepender, se pudesse voltar no tempo, faria de novo?"

'…Provavelmente.'

"Eu—entendi."

Rose acenou com a cabeça, compreendendo.

"Você devia estar passando por uma baita luta, né? Eu—eu fui uma tola por não perceber, mas… você realmente precisou desistir de si mesma assim? Você… fez isso?"

Gotejou. Gotejou…!

De repente, lágrimas começaram a rolar pelo rosto de Rose.

"…Quando você desistiu, parece que desistiu de mim também—da sua filha, de todo mundo que um dia te amou. Como se nós não fosse suficiente para te fazer ficar."

Rose apertou a blusa.

"E isso doeu. Doeu pra caramba. Que sentido faz a gente falar que odeia alguém?"

Seu campo de visão ficou borrado com as lágrimas enquanto ela mordia os lábios tão forte que começou a sangrar.

"Eu te odeio. Mais do que você imagina. Você destruiu minha vida. Você é tudo que eu nunca quero ser. Porra… droga. Se um dia eu tiver que desistir de mim mesma, pelo menos não vou fazer isso sabendo que eu—"

Antes que Rose pudesse continuar, ela sentiu algo quente tocar sua pele.

Ao levantar a cabeça, ela viu a figura de sua irmã envolvida em um abraço apertado. Uma respiração trêmula escapou dela, e por um instante, ela se sentiu completamente sem ar.

'Eu sei.'

A voz suave de sua irmã sussurrou em seu ouvido.

'...E fico feliz que pense assim.'

"Por que—"

'Você é muito forte. Muito mais forte do que eu jamais fui.'

"Não, eu..."

'Está tudo bem, eu sei que fui fraca. Se não soubesse, não teria saído. Mas sabe… eu só estava cansada. Muito cansada. Queria apenas descansar.'

"...Eu sei."

'Como sempre, você me entende melhor.'

Evangeline sorriu.

'Por isso, sempre gostei de passar tempo com você. Nos poucos momentos que ficamos juntas, senti que podia respirar de novo.'

"...."

'E também cuidou de proteger a Ki pra mim.'

Evangeline de repente se recostou um pouco para olhar melhor para Rose. Seu sorriso sem força virou um sorriso sincero e caloroso.

'...Obrigado. Obrigado por carregar um peso tão grande por mim.'

Ao ver o sorriso caloroso dela, Rose ficou sem saber o que dizer ou como reagir.

Ela só conseguiu olhar.

Olhou para sua irmã, de olhos arregalados, enquanto uma luz branca brilhante surgiu repentinamente do cubo em sua mão, espalhando-se lentamente até consumir tudo ao seu redor.

As últimas palavras que ela ouviu foram simples:

'Até mais.'

Antes que tudo se tornasse branco e seu corpo fosse levado embora.

Quando Rose finalmente acordou, encontrou-se deitada sobre algo macio.

Olhar para cima, Rose rapidamente procurou por qualquer sinal de sua irmã, mas ela já não estava mais lá.

Ela tinha desaparecido.

"....Ah."

A compreensão veio rapidamente.

'Desapareceu. Ela se foi…'

Sua irmã...

A tórax de Rose tremeu, mas enquanto isso, ela sentiu algo tocar a ponta do seu nariz.

Piu~ Piu~

Era um pequeno pássaro marrom.

E foi então que ela finalmente notou o ambiente ao seu redor: estava deitada em um tapete de grama macia, cercada por flores em flor e árvores imponentes.

A paisagem era linda.

De tão bonita, Rose se pegou abrindo a boca sem perceber.

Mas logo se acalmou ao se lembrar de algo.

"Primavera..."

Ela resmungou, sua cabeça rolando de volta sobre a grama.

"Não é tão ruim assim."

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