Advento das Três Calamidades

Capítulo 571

Advento das Três Calamidades

Uma mentira.

"...Tia, eu entendo tudo."

A vida que ela viveu era uma mentira.

Da mulher que ela mais odiava até aquela que ela mais amava.

Tudo havia sido uma mentira.

"Sei que você também foi vítima de tudo isso. Peço desculpas por como te tratei no passado. Você nunca foi a vilã."

Tudo. Todo mundo.

Era tudo por causa dela.

Porque ela existia.

"...Agora entendo quem é o verdadeiro vilão."

Só agora ela compreendia a verdade.

E o pensamento...

Ele quebrou todas as peças frágeis que ainda a sustentavam.

"Fui eu. Eu era a vilã desde o começo."

Foi a realização que a mudou.

Ela perdeu de vista seus sentimentos, e a escuridão que tanto temia de repente pareceu tão reconfortante.

E, de repente, ela se encontrou em um estado estranho.

Um estado em que tudo ao seu redor era escuro, e ela se sentia sincronizada com o mundo. Mas, ao mesmo tempo, parecia perder a noção de si mesma.

Ela estava...

Desaparecendo.

Pingue...!

Uma lágrima quente escorreu por sua bochecha.

Ao abrir os lábios trêmulos, ela olhou para sua tia, que a encarava com a boca aberta. Não, o olhar dela não estava nela.

Estava no diário que ela segurava na mão.

'Ah, certo...'

Kiera jogou o diário de volta para ela.

Os lábios dela tremiam enquanto tentava dizer algo, mas as palavras se recusavam a sair.

No fim, conseguiu recuperar a fala.

"Pode olhar... É dela."

A tia hesitou antes de pegar o diário, os dedos tremendo ao tocar a capa gasta.

Finalmente, ela abriu na primeira página.

A expressão dela mudou completamente ao lentamente levantar a cabeça para encarar Kiera, que sorria para ela.

"Viu?"

Apesar do sorriso, os olhos dela estavam vazios.

"...Sou a vilã, não sou? É melhor eu... desaparecer—"

"Você tem razão. Você é a vilã."

De repente, Rose interrompeu Kiera, fazendo-a ficar imóvel.

Fechando os olhos, a voz fria de Rose ecoou no ar.

"Você que é a razão dela ter ido embora."

"A assassina dela."

***

Evangeline Mylne.

Esse era o nome dela.

O nome da mãe de Kiera e da irmã de Rose.

Ela era bonita, gentil e inteligente. Era a personificação da perfeição.

...Mas até as flores mais belas tinham suas imperfeições.

Algumas eram evidentes, outras quase invisíveis.

[Não há nada melhor que a primavera]

[É doce e delicada.]

[...Mas também dolorosa.]

[Porque me lembra a liberdade que jamais poderei ter.]

[Minha filha.]

[Eu a odeio.]

[Sempre que a vejo, tenho vontade repentina de fugir.]

[É sufocante.]

[Tudo isso.]

[Me ajuda.]

Imperfeições nem sempre eram fáceis de perceber.

Algumas escondiam suas imperfeições, enquanto outras as exibiam com orgulho.

Evangeline era uma dessas primeiras.

Ela escondia suas imperfeições do mundo, nunca deixando que ninguém visse.

E isso... isso foi o que, no fim, a consumiu.

'...Será que realmente foi isso que você achou que aconteceu?'

Uma voz sussurrou suavemente ao lado do ouvido de Rose enquanto a figura de Evangeline sentava-se de pernas cruzadas em frente a ela.

'Você acha que eu saí por causa disso?'

Rose apertou o diário, os dedos tremendo contra a capa usada. Ao ler as primeiras linhas, seu peito ficou pesado. Cada palavra a perseguia, sufocando sua respiração.

Quanto mais ela lia, mais afundava, como se as páginas a puxassem para uma escuridão sem saída.

No entanto, dentro da escuridão do diário, Rose percebeu algo mais.

Algo... que Kiera provavelmente não viu.

'Você está vendo, né? A razão pela qual eu precisei partir. Você está vendo, né?'

Rose mordeu os lábios, respirou fundo e levantou a cabeça. Dois olhos congelados encontraram os dela enquanto Rose fechava o diário nas mãos.

"É verdade. Você foi a razão pela qual ela morreu. Mas... Você não é a única culpada. Eu também a matei."

A boca de Kiera se abriu, mas Rose não deixou ela falar mais.

"Eu não fui a melhor irmã. Para ser perfeita, sua mãe lutou bastante."

A razão de Evangeline ser perfeita não era só porque queria agradar os pais.

Muito pelo contrário.

Ela também queria proteger a própria irmã.

Para...

Dar a ela a liberdade que nunca teve.

"Eu sabia das dificuldades dela, mas nunca fiz nada para ajudá-la. Eu a matei, assim como você."

O peito de Rose tremeu.

As palavras doíam tanto, mas também pareciam libertadoras.

"Seu pai também a matou. Ele foi muito rígido com você quando era criança. Sua mãe não gostava disso, e eles frequentemente brigavam."

"O que você..."

"E também o fato de que a primavera estava quase no fim. Ela gostava muito de primavera. Provavelmente é a estação que ela mais apreciava."

Primavera...

Ela realmente gostava de primavera, não era?

Rose lembrou-se do motivo pelo qual sua irmã aprendeu a pintar.

Era para poder capturar a primavera e se lembrar dela quando ela desaparecesse.

"As expectativas dos nossos pais também foram o que a destruiu. Acho que eles tinham orgulho dela, mas ao mesmo tempo, não conseguiam vê-la como uma pessoa, e sim como uma ferramenta."

Foram eles os primeiros a colocar correntes nela.

E os primeiros a privá-la da liberdade.

"Também tem o fato de que você sempre esteve grudada em mim. Olha só para você — pode até ter o rosto dela, mas seu coração, suas maneiras... são minhas. Acho que ela tinha ciúmes."

'Eu não tinha ciúmes.'

Ela tinha.

A irmã perfeita dela ficando ciumenta...

O pensamento era até um pouco cômico.

"H-á-há."

Era tão absurdo que até fez ela rir, embora o som de seus lábios fosse tenso e contido.

Chutando os lábios, Rose olhou para Kiera.

Ela agora olhava para ela, lágrimas escorrendo pelos dois lados do rosto.

"Kh..."

Rose segurou o braço amputado e gemeu.

Finalmente, a dor da luta começava a se fazer sentir.

No entanto, ela estendeu a mão restante em direção a Kiera.

"Era muito jovem e imatura para entender como sua mãe se sentia na época. Ignorei todos os sinais. E é por isso... que sou a mais culpada."

Rose fechou os olhos, o peito se contraindo com tanta intensidade que a dor do braço cortado pareceu distante, quase insignificante em comparação.

Ao abrir os olhos novamente, seu rosto suavizou.

"...Mas e daí se somos culpadas? Na época, eu era jovem e ingênua. Por isso, não pude fazer nada por ela. Quanto a você, era só uma criança. O que poderia ter feito por ela?"

De certas formas...

"Pode dizer que a morte da sua mãe foi resultado de várias circunstâncias infelizes."

Desde as brigas com seu marido, passando pela primavera, até os ciúmes, e mais...

"....."

Rose parou.

Sua vista começou a ficar embaçada, as lágrimas ardendo nos olhos.

Olhando à frente, duas figuras apareceram.

Uma era Kiera, a outra era Evangeline.

Ambas a encaravam.

Os lábios de Rose tremeram ao vê-las.

"No... final, embora culpável, a razão de tudo ter acontecido foi porque... ela nunca aprendeu a cuidar de si mesma."

Ela estudou para deixar os pais orgulhosos.

Ela estudou para dar liberdade à irmã.

Ela lutou com o marido para dar liberdade à filha.

Mas e ela?

Quem lutou por ela...?

"Você sabe qual é a imperfeição dela?"

Kiera balançou a cabeça, os olhos enchendo-se de lágrimas ainda maiores.

Então, Rose sorriu.

"Ela amava demais."

Até o ponto de esquecer de se amar.

"...Essa falha é a razão de ela não estar mais aqui."

Porque essa falha a levou embora deles.

"Aqui."

Rose virou repentinamente a próxima página do diário e a entregou a Kiera.

"Dê uma olhada você mesma."

Kiera balançou a cabeça, mas Rose não se importou e simplesmente devolveu o diário para ela.

Foi aí que os olhos de Kiera recaíram sobre o diário novamente, nas linhas que ela jamais tinha conseguido ler.

Seu corpo todo travou então.

"A-ah."

O peito de Kiera tremeu mais uma vez.

[Sempre que vejo seus traços suaves e delicados, não consigo deixar de me sentir sufocada.]

Lendo a primeira linha, quase sentiu vontade de largar o diário de novo.

Doía...

Doía tanto.

[Eu odeio vê-la.]

Por que eu deveria ler isso?

[Eu odeio tanto que ela se pareça comigo.]

Pare, eu...

[Mas...]

O corpo inteiro de Kiera petrificou-se.

[...Eu também a amo.]

[Eu a amo demais.]

[Até o ponto de sentir medo.]

[Medo de amá-la demais.]

[Eu não sou uma boa pessoa. Sou perfeita, mas tão imperfeita.]

[E é por isso que me sinto tão sufocada ao olhar para ela.]

[Porque tenho medo de ela crescer com uma mãe tão imperfeita quanto eu.]

[Mas ainda assim, tentei.]

[Por minha filha, tentei.]

[Tentei ficar o máximo que pude.]

[Mas...]

[...Quanto mais ficava, mais começava a detestar a mim mesma.]

[Cada imperfeição se destacava como uma luz ofuscante. Cada falha era amplificada, inegável. Tudo em mim... era um lembrete das minhas falhas.]

[Junto com o ódio, senti.]

[Desespero.]

[Tristeza.]

[...E solidão.]

[Cada dia parecia mais sufocante. Como se a pouca liberdade que tinha estivesse sendo lentamente retirada, e foi então que percebi que não podia ficar mais.]

[Tentei, mas falhei.]

[...Por isso estou escrevendo isso.]

[Porque falhei.]

[Falhei ao não enxergar além das minhas imperfeições. Ao não superar isso.]

[Nada disso é culpa de alguém.]

[Simplesmente não sou feita para este mundo.]

[E...]

[Nos poucos anos que estive aqui, esses últimos foram os melhores.]

[Eu odeio minha filha.]

[Mas também a amo mais do que tudo neste mundo.]

Gotejamento...!

Vários pingos de repente mancharam o diário quando Kiera chegou à última página.

Pela primeira vez depois de um tempo, seus olhos recuperaram alguma clareza.

Nesse momento, ela ouviu a voz da tia novamente.

"Ela... não te odiava pelo que fez; ela se odiava por amar você tão profundamente, porque nesse amor ela via o quanto não valorizava seu próprio... valor."

Com dificuldade para controlar a respiração, Rose respirou fundo.

"Por isso, não pode dizer que quer desaparecer."

"Que sua vida não vale nada."

"Porque a que ela amava mais... não era outra senão você."

"...E ela queria que você soubesse disso."

Rose virou lentamente a cabeça, focando na outra figura que olhava para ela com seu sorriso meio desanimado habitual.

"Não tenho certeza se estou certa?"

Não é essa a razão de você continuar me assombrando?

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