
Capítulo 570
Advento das Três Calamidades
Pingou!
‘Uau, você perdeu um braço e não está gritando?’
Pingou…!
‘Fiquei impressionada. Não achava que você teria esse tipo de força de vontade. A irmã que sempre chorava finalmente cresceu.’
Pingou. Pingou.
A cabeça de Rose estava turva, a visão embrulhada enquanto ela lutava para enxergar adiante. Seu lado direito estava dormente, mal conseguia focar, quanto mais pensar claramente.
O único som que persistia era a voz irritante da sua irmã.
Ela só continuava…
‘Você chorava horas por bobagens, hehehe. Ainda faz isso, mas menos.’
E ela não parava.
‘De qualquer forma, pelo ritmo que as coisas vão, não sei quanto tempo você aguentará. Tô preocupada que a gente vá se encontrar logo. Bem, não me importo.’
Rose sabia que tudo aquilo era uma invenção da cabeça dela, e ainda assim não conseguia fazer a voz parar de jeito nenhum.
Mesmo na morte, a imagem e as lembranças da irmã insistiam em assombrá-la.
“A-ah, para… por favor.”
‘Agora, por que você quer parar de ouvir minha voz? Que triste. E isso também me dá vontade de falar mais.’
Como podia ela odiar e sentir saudades de uma voz ao mesmo tempo?
Os lábios de Rose tremiam.
Porém, o tremor logo cessou. Uma mudança repentina no ambiente ao redor chamou sua atenção, e quando ela levantou a cabeça, uma figura familiar apareceu.
Suspiro~
Vindo de um arbusto distante, Rose viu Kiera surgir.
Seu coração acelerou, sua expressão ficou vazia.
“N-nã… por quê…”
Depois de tudo que tinha feito. Por que ela estava aqui? Não, ela devia ter previsto isso. A presença de Julien era clara nisso.
Sem ele, como Kiera podia fugir?
“…Ah.”
A dor invadiu finalmente a mente de Rose, seu peito subindo e descendo em respirações instáveis. Ela queria levantar, avançar, parar o que estivesse se desenrolando—mas no instante em que tentou, ela gelou.
Isso porque…
‘Seus olhos.’
Ela finalmente percebeu os olhos de Kiera.
Seu corpo inteiro congelou ao ver os olhos de Kiera.
Era… Era…
‘Uma cópia exata dos meus olhos?’
A fantasma da irmã apareceu ao lado de Kiera, olhando para ela com aquele sorriso meio triste, tão familiar.
‘Sim, sim… Eles parecem exatamente como os meus. Não acha?’
Na voz dela havia divertimento ao dizer essas palavras, e o corpo de Rose tremia toda.
“N-não.”
Ela estendeu a mão para tentar impedir Kiera, mas já era tarde demais.
O líder da Esquadrão Carmesim já tinha aparecido diante de Kiera. O corpo de Rose ficou tenso enquanto ela se preparava para agir, mas justamente quando ia fazer isso, percebeu que algo estava errado.
Inconscientemente, seus olhos se desviaram para a direita, focando em Julien.
“…!”
Seus olhos se arregalaram ao vê-lo se mover—sua mão negra como breu avançando, perfurando o espaço atrás do líder da Esquadrão Carmesim, que mal teve tempo de reagir.
As ações seguintes aconteceram em questão de segundos.
“Hiiiii…!”
No instante em que a mão de Julien tocou as costas do líder, um grito agudo rasgou a floresta. Foi ensurdecedor, ecoando por todos os cantos ao redor.
Todos ficaram paralisados diante da cena.
Todos, exceto Rose, que saiu correndo em disparada.
Swoosh!
Chamas envolveram seu corpo enquanto ela avançava num borrão veloz.
“Pare!”
“…Detenha ela!”
Quando ela se lançou, os membros da Esquadrão Carmesim reagiram—mas já era tarde demais. Rose já tinha aparecido na frente do líder, a mão estendida enquanto um círculo mágico aterrador se formava, consumindo o líder completamente.
O líder da Esquadrão Carmesim nem teve tempo de reagir antes de ser totalmente engolido, as chamas do ataque de Rose rasgando tudo ao seu redor.
Pum!
Rose caiu de joelhos logo depois, o peito subindo e descendo repetidamente, o rosto pálido.
Estava exausta, além do limite.
“Haa… Haa...”
Mesmo assim, embora estivesse exausta, ao olhar para frente e ver um corpo carbonizado caindo sem vida diante dela, soube que tinha conseguido.
De alguma forma, ela conseguiu matar o líder da Esquadrão Carmesim.
Todo aquele confronto não durou mais que um segundo, e ainda assim, ela saiu vitoriosa. Contra alguém tão forte… Isso foi graças a ninguém além da sobrinha dela e Julien.
Eles…
'Movam-se, preciso me mover.'
Rose rapidamente saiu do transe. Entendia claramente que tudo ainda estava longe de acabar.
Os membros do Esquadrão Carmesim permaneciam, mas antes que Rose pudesse se virar para encarálos, Kiera deu um passo à frente. Suas mãos estavam completamente negras, ela levantou um dedo em direção a Julien—que de repente sentiu suas próprias mãos escurecerem.
Como se entendesse o que estava acontecendo, Julien apenas pressionou a mão para baixo, e uma mão surgiu atrás de um dos membros do Esquadrão Carmesim que se aproximava.
“Cuidado—!”
Um dos membros percebeu a anomalia, reagindo rapidamente e afastando-se do local onde o espaço oscilava. Mas, como se previsse esse movimento, justo quando o homem forte do Esquadrão Carmesim recuou, uma mão apareceu no mesmo lugar onde ele tinha se movido.
“Droga!”
Quando perceberam que haviam caído numa armadilha, já era tarde demais.
“Aaaaah!”
Outro grito cortou o som das chamas ao redor.
“Isso…”
Rose observou ao redor, seu olhar finalmente parando em Kiera, que agora parecia uma pessoa completamente diferente.
Os olhos dela estavam frios, e todo o corpo ficava cada vez mais escuro a cada segundo.
O que ela viu…
Era uma lembrança distante.
'Ah? Ela não lembra muito de mim?'
Não, para com isso.
'Eu também já fui assim, não é?'
Não quero ouvir isso.
'...Quando eu tinha abraçado a escuridão totalmente. Ninguém podia me parar naquela época. Parece que ela está virando cada vez mais parecida comigo.'
“A-ah, ha.”
O peito de Rose tremeu ao ver aquilo.
De fato, Kiera começou a se parecer cada vez mais com a mãe. Desde o vazio nos olhos até seu comando sem esforço sobre as trevas. Era como se ela estivesse virando um espelho da mulher que Rose mais admirava.
E isso a assustava.
…Aquela mulher.
Ela não podia deixar Kiera seguir por esse caminho.
“Ahh…!”
Outro grito ecoou de repente no ar. Desesperada, Rose se virou para a origem do som e viu outro membro do esquadrão segurando a cabeça em dor.
Rose percebeu o desespero e o choque no rosto deles enquanto seguravam a cabeça.
Agora… só sobrava um membro.
“Pare! O que você está fazendo?! Sai daqui—Ukeh!”
De repente, duas mãos surgiram do espaço ao redor dela, pressionando ambas as sides do rosto.
Um grito similar ao anterior ecoou, cortando o ruído das chamas ao redor.
Era uma cena chocante.
Rose mal conseguia acreditar no que via.
Para o Esquadrão Carmesim, uma das forças de elite do Trono de Poder, ser eliminado assim… quem acreditaria?
Se ela não tivesse visto com próprios olhos, talvez não acreditasse.
Fora a magia emotiva de Julien, a transformação de Kiera foi de tirar o fôlego. O fato de ela controlar as trevas com tanta precisão—capaz de ‘carregar’ uma parte do corpo por elas sem ninguém perceber—foi realmente impressionante.
‘Não, isso não é exatamente assim…’
Depois de refletir mais, Rose percebeu que o motivo de nenhum dos membros do Esquadrão Carmesim ter percebido a magia sombria de Kiera vinha de vários fatores.
Primeiro, a atenção deles sempre estava toda voltada a ela, enquanto ignoravam Kiera como a menos ameaçadora, negligenciando sua presença por completo.
Quando a situação mudou, ao invés de redirecionar o foco para Kiera, eles concentraram tudo em Julien, achando que ele era a origem do caos. Essa foi, na verdade, a maior estratégia deles. Se tivessem prestado mais atenção a Kiera, então…
'Não faz diferença. Já foi tarde demais.'
Mais importante ainda, Rose conseguia prever o quão poderosa Kiera poderia ficar no futuro, caso usasse essa habilidade com maestria.
Desde que ninguém fosse consciente de sua presença, ela poderia virar o jogo em segundos.
Isso, somado à magia emotiva de Julien, faria com que elas pudessem vencer até adversários muito mais fortes.
"....."
Mesmo assim, ao olhar para Kiera, Rose não sentia nenhuma alegria.
Na verdade, o que ela só sentia era medo e apreensão.
Quanto mais olhava, mais clara ficava à sua imagem a de sua mãe, e isso fazia uma ponta subir na garganta.
“Ki—
Rose ia falar quando Kiera de repente se moveu, direcionando o olhar para os membros do Esquadrão Carmesim que ainda estavam vivos.
Com seu olhar frio e vazio, ela parou diante deles.
Ficou ali, silenciosa, encarando-os enquanto Julien a olhava silenciosamente.
Justamente quando ia abrir a boca, Kiera levou a mão à frente dele.
Swoosh!
Chamas surgiram de sua mão de repente, consumindo os membros do Esquadrão Carmesim por completo, incinerando-os na hora.
Seus atos deixaram Julien e Rose chocados.
“Kiera…?”
Quando o fogo se apagou, não sobraram nem as cinzas dos membros do Esquadrão Carmesim. Apenas seus restos carbonizados. O mesmo aconteceu com o líder do Esquadrão Carmesim que Rose havia eliminado.
O que restou, além das cinzas, foi o som de crepitar das chamas ao redor.
As roupas de Kiera bambearam enquanto ela permanecia em silêncio, sem dizer uma palavra.
“Ki…”
Foi então que Rose conseguiu balbuciar algumas palavras.
Seu corpo doía, sua visão embaralhava, mas ela ainda tinha força suficiente para chamá-la.
“…..”
Porém, suas palavras pareciam não chegar aos ouvidos dela.
Kiera permaneceu imóvel, indiferente a tudo. Quanto mais assim ela ficava, mais dolorida Rose se sentia.
Ela ia se tornando cada vez mais parecida com a mãe.
“Ki… O-que aconteceu com você?”
Mesmo lutando, Rose forçou a voz para sair.
“Você… costumava ter medo da escuridão. E seus olhos, eles…”
Não era só a dor que fazia Rose tropeçar nas palavras.
“…Você parece… cada vez mais com sua mãe.”
Ela própria tinha dificuldade em articular os pensamentos.
“Não deixe a escuridão te consumir.”
O medo de ver o passado se repetir deixou Rose sem fôlego. A cada palavra que dizia, ela sentia sua energia se esvair ainda mais.
“…Não repita o que sua… mãe fez. Não….”
“Você pode parar.”
A voz de Kiera de repente ecoou, interrompendo a de Rose.
Enquanto seus cabelos prateados suavemente flutuavam, Kiera virou a cabeça.
“…Tia, eu entendo tudo.”
Algo na voz dela deixou Rose desconcertada.
“Não, você não—”
“Entendo que você também foi uma vítima de tudo isso. Desculpe por como te tratei no passado. Você nunca foi a vilã.”
“Isso… eu…
Rose se sentiu completamente sem fôlego.
Ao olhar nos olhos de Kiera, de repente, tudo ficou tão sufocante.
Porque…
“…Agora eu entendo quem é o verdadeiro vilão.”
Uma lágrima escorreu repentinamente pela bochecha de Kiera, enquanto ela pegava um pequeno diário.
“Fui eu. Eu sempre fui a vilã desde o começo.”