
Capítulo 564
Advento das Três Calamidades
Ao que meus olhos se abriram, constatei que estava caída no chão, completamente paralisada. Meu mana tinha acabado, e eu sentia várias limitações prendendo meu corpo, impedindo qualquer movimento.
‘...Droga.’
Diantede de mim, havia um par de olhos carmesim, olhando friamente para mim.
Senti a sobrancelha esquerda se contorcer.
‘Já tava esperando por isso desde que acordei.’
Todo esse cenário era exatamente o que eu previ que aconteceria ao recuperar o controle do meu corpo.
Embora as circunstâncias fossem realmente ruins para mim, não estava exatamente preocupada.
Não achava que Rose tinha coragem de matar eu ou Kiera.
Ela... não era o que parecia à primeira vista.
—>Você pode me liberar agora. Eu... estou bem.
Quando abri a boca para falar, minha voz saiu bastante rouca. Era de se esperar, considerando tudo o que meu corpo tinha acabado de passar.
Junto com minha voz, meu corpo inteiro também sofria.
Senti convulsões leves nos meus pés e braços, com pequenos rechunos de dor piscando na minha mente. Não eram insuportáveis, apenas incômodos.
Mas o que mais pesava agora não era a dor.
Não, era o olhar dela...
“....”
Ela me encarava em silêncio, com os olhos entrecerrados. Eu não conseguia entender nem um pouco o que ela estava pensando.
Ela ainda estava pensando no que tinha acontecido antes? Consegui dissipar suas suspeitas...? Ou...?
O silêncio era sufocante, e justo quando achei que não aguentaria mais, a boca dela finalmente se abriu.
— Você está procurando o espelho por isso?
Demorou um instante para entender as palavras dela, e assim que compreendi, franzi a testa e não respondi de imediato.
Foi só após alguns segundos que finalmente acenei com a cabeça.
— ...Sim.
Ao mesmo tempo, olhei para Kiera, que tava deitada ao meu lado. Ela parecia anormalmente pálida, e embora não estivesse atada como eu, claramente não estava em boas condições.
O que exatamente aconteceu com ela?
'Vendo o jeito que ela olha para mim, talvez Julien tenha feito alguma coisa com ela...'
Sim, quem eu tava mentindo?
Provavelmente foi isso que aconteceu.
— Tive dificuldades... de controlá-la; por isso pedi ajuda à Kiera. Mas ela recusou.
— Ela recusou?
Rose olhou na direção de Kiera, que inclinou a cabeça e retribuiu o olhar de desaforo.
— Como eu disse... Não tenho a menor ideia de onde ela está. Quantas vezes tenho que repetir isso?
Antes, eu não acreditaria nela, mas agora, acredito.
Depois de tudo, eu tinha o espelho...
— "...."
Os olhos de Rose se entrecerraram como se ainda duvidasse da sobrinha.
Kiera a encarou com um olhar ainda mais severo, e por alguns segundos, as duas ficaram de frente uma para a outra, num silêncio carregado de confrontos, como tia e sobrinha numa espécie de batalha de olhares.
Aproveitei esse tempo para observar ao redor e procurar uma forma de sair daquela situação.
Várias ideias passaram pela minha cabeça, mas antes mesmo de agir, de repente, a cabeça de Rose virou na direção da janela do cômodo.
Sua expressão mudou levemente antes de se virar em minha direção. De repente, uma pressão sufocante emanou de seu corpo.
— Foi você?
— ...O-que?
Assustada, tentei olhar na direção dela, mas meu pescoço ficou preso em uma posição fixa.
— O que está acontecendo?
Kiera também parecia surpresa ao olhar para trás, mas não parecia perceber nada e inclinou a cabeça confusa.
— Não vejo nada. Que... Eekh!
— Droga!
Reclamando baixinho, a figura de Rose ficou embaçada e desapareceu da minha visão. Antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, ouvi Kiera gritar ao meu lado e senti algo pressionar minha cintura, levantando-me do chão.
— ...Ah.
Sem forças, só pude assistir ao chão cada vez mais se afastando de mim.
Quando finalmente percebi o que estava acontecendo, um estrondo ensurdecedor ecoou pelo ar, e o som de vidro estilhaçando encheu o cômodo.
Estrondo—
Meu cabelo começou a voar com o deslocamento do vento, enquanto minha visão se desviava, e vimos do lado de fora da janela, caindo em direção ao chão.
Foi aí que realmente entendi o que estava acontecendo.
'Estão me kidnappando'
Ótimo.
— Kyaaah!
Era a Kiera, não eu.
***
Alguns momentos antes, no quarto de Aoife.
— Quão longe estão?
— Devem chegar a qualquer momento.
— Mais rápido do que eu esperava.
Evelyn olhava para o horário. Fazia só uns quinze minutos que Aoife pediu ajuda ao Império. Ela tinha dito que demoraria uma hora, mas, surpreendentemente, eles chegaram bem antes.
Aoife também parecia surpresa, mas, refletindo, era algo esperado.
A Família Real tinha forças estacionadas em todas as principais moradias. Alegavam que era para auxiliar quando necessário, mas a verdade era bem diferente.
Na verdade, era mais para manter a maioria das Casas sob controle.
Embora dissesse que não se envolvia nas disputas internas entre as famílias, se algum conflito colocasse a Família Real em desvantagem, eles se infiltrariam discretamente para intervir nos bastidores.
As forças que estavam vindo eram exatamente esse tipo de força.
— Convocamos o Leon e os outros. Vou explicar tudo a eles. Acho que também perceberam algo errado com a Kiera.
— Boa ideia.
Num instante, alguém bateu à porta.
— To-que!
Era Leon e os demais.
— O que aconteceu?
Ao olhar ao redor, Leon franziu a testa ao observar eles. Vendo que Aoife disse que era urgente, ele não tinha um bom pressentimento sobre a situação.
Normalmente estaria mais preparado, mas, desde aquele incidente, sua cabeça parecia estar mergulhada numa neblina profunda.
Tudo o que pensava pesava, dificultando o raciocínio.
Ele tentou esconder, mas Julien percebeu logo. Não tinha jeito.
Leon precisava de um tempo para se ajustar à situação.
Depois de tudo...
— Ah? Onde está o Julien?
Ele olhou ao redor e percebeu que Julien não estava ali. Vendo atrás dele, estavam Caius, Amell e Kaelion. Contudo, os únicos que faltavam eram Kiera e Julien.
Leon fechou os olhos.
'Deveria ter previsto... Afinal, Julien está aqui. Aquilo—'
Naquele momento, ele percebeu que suas preocupações não eram infundadas.
— Entendo seu ponto, Leon, mas acho que Julien não tem nada a ver com isso agora.
Percebendo também que Julien não estava presente, a expressão de Aoife ficou tensa, mas ela fingiu afastar a preocupação e rapidamente explicou o que tinha feito e como sentia que algo estava errado com a Kiera.
— Então, você usou seu poder familiar porque sentia que tinha algo estranho com a Kiera?
— Err...
Os olhos de Aoife hesitaram, enquanto ela coçava a bochecha de lado.
— Bem, eu... sim? Afinal, o Julien está aqui...
— Mas você disse que Julien não tinha nada a ver agora?
— Ah, sim, só que...
— Boa, fez bem.
— Hein?
Leon não esperava essa resposta e piscou, tendo diante de si uma expressão parecida com a de um pai orgulhoso vendo o filho crescer.
— Uma coisa que aprendi neste último ano é que, se algo parece errado, provavelmente é mesmo. Vi muita coisa neste ano. E você fez bem em chamá-los cedo.
Não há nada mais seguro do que agir com cautela.
Qual o risco de algo dar errado mesmo estando errados?
'A Aoife não será expulsa da família real por usar suas próprias forças.'
Provavelmente, só eu e Evelyn pensávamos assim. Pensando bem, Leon via o rosto confuso de Caius e dos outros.
Até Amell olhava para ele de modo estranho, murmurando algo como, 'Não é um desperdício de recursos?'
A ingenuidade de Amell o fazia balançar a cabeça.
Ele já devia entender como as coisas funcionam por aqui, mas ainda não conseguia compreender o motivo das ações de Aoife. O mesmo valia para os outros dois; porém, olhando para trás, era provável que eles não tivessem testemunhado o quão sério as coisas tinham ficado no passado.
Não podia culpá-los por isso.
— Ah, parece que estão quase chegando.
Ao levantar o rosto e olhar para longe, de sua comunicação, Aoife sorriu.
Estava prestes a dizer mais alguma coisa quando, de repente, um som de vidro quebrando ecoou de cima.
Estrondo—!
Como se estivesse em sincronia, todos os olhares se voltaram na direção da janela, onde uma figura desceu de um andar superior.
Com toda a força que tinham, assistiram em câmera lenta enquanto uma figura pulava do andar acima, agarrando-se a duas outras figuras nos ombros.
Naque brevíssimo momento, o olhar de Leon encontrou um par de olhos cor de avelã, parece que vazios, como cansados de tudo.
— Então era você mesmo.
Os olhos deles se cruzaram por um instante, antes de desaparecerem finalmente da vista.
— Kyaaah—!
Um grito abafado ecoou logo depois.
— .....
— .....
O silêncio tomou conta do cômodo logo após, enquanto a boca de Aoife permanecia aberta, sem conseguir pronunciar uma palavra.
Nem Evelyn nem os outros conseguiam compreender completamente o que tinha acontecido, ajustando os olhos em choque.
O único que conseguiu manter a calma foi Leon, que fechou os olhos e suspirou.
'Preciso de um aumento.'
Abriu os olhos novamente, olhou para as pessoas ainda atônitas e se dirigiu à porta.
— Ah, é verdade.
Antes de sair, ele virou-se e falou:
— O Julien foi quem gritou.
Só senti que precisava avisar todo mundo.
Clank—
Nisso, os demais finalmente despontaram, enquanto Aoife olhava apressadamente para seu dispositivo de comunicação, dando ordens freneticamente.
Por outro lado, Caius olhava para Kaelion, que retribuía o olhar.
— Era mesmo o Julien que gritou?
Kaelion pensou por um momento. Ele conseguiu avistar a figura de Julien por um breve instante; Caius provavelmente também.
Seus olhos pareciam mais mortos do que tudo...
Na verdade, mais importante:
— Alguém acabou de sequestrá-lo?