
Capítulo 563
Advento das Três Calamidades
"Com o que recebi recentemente de recompensa, aliado a este espelho... não acho impossível fazer você recuperar seu corpo."
Não havia instruções de como usar o espelho. Contudo, apenas olhando para ele, dava para perceber que era capaz de conter almas.
Nesse sentido, então...
'E se ele puder conter a alma do Pedregulho?'
Nesse caso, não seria possível transferir a alma do Pedregulho para seu novo corpo?
Quanto mais pensava nisso, mais plausível esse cenário parecia. Ajudar o Pedregulho a conseguir um corpo seria uma coisa boa para mim.
Assim como aconteceu com a Águia-Forte, o mesmo poderia acontecer com 'Passo de Supressão' – ele poderia evoluir. Claro, até agora, a habilidade deixava a desejar, principalmente porque eu não a utilizava corretamente.
Infelizmente, estava muito focado em outras coisas e acabei negligenciando dominá-la melhor.
Sabia disso porque o Pedregulho sempre me lembrava do quão ruim era meu controle sobre a habilidade.
"Humano, você acha que é possível?"
Ao direcionar minha atenção para o Pedregulho, que encarava o espelho com um brilho incomum, franzi os lábios antes de, hesitante, assentir com a cabeça.
"Não posso afirmar com certeza, mas acho que deveria ser possível. Vou pesquisar mais tarde, mas agora mesmo tenho outras questões para resolver."
Como... recuperar o controle do meu corpo e finalmente eliminar o perigo oculto que era Julien.
"Hoh."
Respirei fundo e olhei fixamente para o espelho à minha frente.
"Então, como exatamente faço isso?"
...Quem é você?"
Julien conseguiu a voz, saindo rouca. Olhando nos dois pares de olhos carmesim desconhecidos, seu semblante começou a se deformar.
Ele não sabia o que estava acontecendo.
Mas, se havia uma coisa de que tinha certeza, era que tinha recuperado o controle do corpo.
Mas, ele estava feliz com a situação?
Não estava.
'O que aquele idiota está planejando?'
Julien considerou a possibilidade de que algo tinha dado errado com o parasita, levando a essa situação, mas, após tudo o que havia acontecido, não acreditava mais em coincidências assim.
"Kh—!"
A mão de Julien ficou roxa enquanto segurava o pescoço da garota estranha. Se fosse o caso, ele garantiu de incapacitar completamente a garota em suas mãos.
Pela sua observação, ela parecia próxima do parasita.
Não só isso, mas ao ver a outra mulher, que parecia mais ameaçadora, hesitar, Julien percebeu que, enquanto mantivesse ela como refém, ela não ousaria atacá-lo.
"....."
O que veio a seguir foi um curto período de silêncio enquanto os dois se encaravam.
"E daí?"
Julien falou mais uma vez, lambendo os lábios secos, de maneira hesitante.
Se havia uma coisa que ele entendeu agora, era que ele estava em desvantagem. A mulher à sua frente exalava uma presença sufocante, e se ela quisesse, seria capaz de matá-lo num piscar de olhos.
Sua única esperança era a garota que segurava.
"Você não vai me responder?"
"...."
A mulher continuava a olhá-lo em silêncio, com os olhos estreitados. Quando a tensão no ar tornou-se insuportável, quase como se fosse se afogar, ela finalmente falou.
"Isso é algum tipo de encenação?"
Encenação?
"Percebi algo? É por isso que está agindo assim? Pode ser que realmente seja você?"
"O quê?"
Julien franziu a testa, sem entender completamente as palavras dela, mas logo algo clicou em sua mente.
'Entendi o que está acontecendo aqui.'
Ele se lembrou de algo parecido que aconteceu no passado.
'Aquele parasita... Ele está usando eu como uma desculpa para se livrar da situação em que se encontra.'
Julien odiou o fato de que seus dentes cerraram, seu peito ficou apertado de raiva.
Se fosse seu antigo eu, que tinha caído na armadilha, ele teria se entregado. Mas as coisas haviam mudado. Julien agora via através do esquema do parasita e pretendia revelar a verdade, na esperança de conquistá-la para seu lado.
Como diz o ditado, 'o inimigo do meu inimigo é meu amigo.'
'Essa é minha única esperança.'
Julien abriu os lábios, prestes a falar, quando, de repente, sentiu uma sensação estranha de coceira subir de seu peito profundo.
"Huh?"
A princípio, ele ficou confuso.
A sensação... não era nada grande, mas era difícil de ignorar. Isso ficou ainda mais difícil de ignorar quando Julien ficou muito atento a qualquer coisa suspeita. Imediatamente, seus pensamentos se voltaram ao parasita.
Será que...?
"—!"
De repente, a sensação de coceira mudou. Ela ficou mais ardente, espalhando-se por cada parte de seu corpo.
Os olhos de Julien se arregalaram.
"O-que é... o que é isso?!"
Julien ficou alarmado. Sentiu a sensação aumentar a cada segundo, e seu aperto na garota enfraqueceu um pouco.
'Não, esse idiota...!'
O rosto de Julien corou de raiva enquanto olhava rapidamente na direção da mulher de olhos vermelhos.
"Me ajude!"
"....."
"Eu... kh... eu não sou ele! Eu...!"
Com o passar do tempo, a sensação ficou cada vez mais insuportável. Ficou mais difícil de falar, seu peito foi se comprimindo, ficando mais pesado a cada momento. Parecia que algo estava sugando sua energia, deixando-o completamente exausto e sem forças.
Foi nesse momento que Julien compreendeu o que estava acontecendo.
'Algo está drenando minha mana...!'
"Me-ajude!"
Continuou implorando à mulher de olhos vermelhos, mas a única resposta foi um olhar frio e indiferente dela.
"Kh!"
Os olhos de Julien ficaram vermelhos de raiva ao perceber.
"Sua vadia!"
Começaram a sair palavrões de sua boca.
Puft!
Sem perceber, seu aperto na garota enfraqueceu e ela caiu ao seu lado. Infelizmente, Julien mal conseguia pensar nela, pois a mana de seu corpo começava a se esgotar ainda mais.
'Onde...?!'
Os dentes de Julien cerraram forte enquanto saliva voava de sua boca.
Em um momento de desespero, seus olhos se fixaram no anel em seu dedo, e logo a compreensão o atingiu.
'Será que...'
"Kh—!"
Julien cambaleou até os joelhos, com os olhos ainda fixos no anel preto do dedo. Quanto mais olhava para ele, mais tinha certeza.
'O anel... está drenando minha mana.'
Ele ainda assim hesitava em tocá-lo.
Lembrou-se do que aconteceu no passado ao tentar interagir com o anel, e, ao lembrar daquele momento, sentiu-se relutante.
O que aconteceria se ele tocasse no anel?
Seu consciente seria puxado novamente para aquele estranho mundo branco?
"N-não, droga!"
A face de Julien ficou vermelha ao pensar nisso.
De jeito nenhum!
Porém, suas opções eram limitadas. Sua mana estava sendo drenada constantemente, e ele precisava parar isso. Com os dentes cerrados, estendeu a mão para pegar o anel no dedo, decidido a puxá-lo.
"Argh!"
No instante em que seus dedos tocaram o anel, uma sensação de resfriamento estranho percorreu seu corpo. Julien ignorou e se esforçou para remover o anel. Contudo, quanto mais puxava, mais ele se recusava a ceder, impossível de tirar.
'Não, como...?!'
Julien tentou mais algumas vezes, mas o anel continuava firme, sem se mover.
O pânico começou a se instalar ao sentir sua reserva de mana se esvaziar completamente. A situação parecia sem esperança, e, ao tentar puxar o anel mais uma vez, percebeu que não tinha mais força no corpo para isso.
"Ah..."
Puft!
Ele caiu de costas logo depois.
O mundo ao seu redor começou a girar, e sua visão ficou turva.
Deitado no chão, seu corpo convulsionando sem controle, ele via o teto acima de si.
'Ah, droga...'
Julien foi tomado por um sentimento de desespero.
Por que isso estava acontecendo com ele? Tudo que queria era recuperar seu próprio corpo. Este era seu corpo. De mais ninguém.
Ele não queria voltar à endless escuridão que o aprisionara nos últimos anos.
Preferia morrer a voltar para aquilo.
"Huak—!"
Julien apertou o peito.
Sentia-se frustrado com a situação. Não pediu por nada disso, e, ainda assim...
Por essa razão...
"Você está frustrado, não está?"
De repente, uma voz sussurrou na cabeça de Julien. Surpreso, ele se viu diante de um mundo branco.
Dentro do mundo branco, via um palácio alto e gigantesco.
...E, diante do palácio, uma figura idêntica a ele, segurando um espelho prateado. Ao seu lado, sentada, uma gata negra, olhando na direção dele com uma expressão curiosa.
"Você—!"
Os olhos de Julien pegaram fogo de raiva enquanto atacava, mas, assim que se moveu, o parasita agitou a mão. Num instante, o corpo de Julien ficou incrivelmente pesado, obrigando-o a ir até os joelhos.
"Q-que?!"
"Desculpe por isso."
Avançando alguns passos, o parasita se colocou diante de Julien, com os olhos olhando para baixo, enquanto ele levantava a cabeça para encará-lo.
N naquele momento, ao fixar o olhar no parasita, toda a resistência de Julien desapareceu.
Isso...
Só tinha visto olhos assim alguma vez antes, na época do seu pai.
Aqueles olhos frios e indiferentes.
Nesse instante, ele entendeu que, independentemente do que dissesse, o parasita não se importaria nem um pouco.
"Sei que esse não é realmente meu corpo—é seu. Também entendo o quanto você sofreu ao longo dos anos, e não vou ficar aqui dizendo que você merece isso, mesmo depois de tudo que passou no passado. Mas..."
O parasita falou, sua voz parecendo sem emoção.
"...Eu preciso deste corpo. Realmente preciso."
"N-não, isso... isso—"
Julien de repente teve uma sensação terrível ao olhar para o espelho nas mãos do parasita, que o encarava diretamente.
"Para alcançar meu objetivo, preciso deste corpo, e suas tentativas constantes de recuperá-lo têm atrapalhado meus planos. Por isso, tenho que fazer isso."
Julien fechou os olhos e voltou a atenção para o braço. Por um momento, sentiu-se tentado a usar a segunda folha sobre ele, para ver seu passado e entender o que o fez assim, mas sabia que ainda não era o momento.
Sabia que teria tempo para isso depois.
Portanto...
"Vou fazer rápido."
De repente, o espelho foi levantado e virado ao contrário. O rosto de Julien mudou drasticamente ao tentar desviar o olhar, mas antes que pudesse, duas patas pressionaram seu rosto, forçando-o a encarar o espelho.
Lá, ele viu seu próprio reflexo.
"Akhh—!"
No instante em que Julien viu seu reflexo, uma luz intensa irrompeu do espelho. Antes que pudesse reagir, sentiu seu rosto sendo puxado em direção a ele, como se o espelho estivesse sugando-o.
'Não!!'
A luta de Julien durou apenas um segundo antes de sua figura desaparecer completamente, deixando nada para trás.
O mundo ficou silencioso logo após seu desaparecimento, enquanto 'Julien' fechava os olhos e respirava fundo.
Ele não sentia nada específico ao fazer isso.
Para seu objetivo e para seu futuro, precisava fazer isso.
Não sentia pena ou tristeza.
Apenas...
Um pouco de empatia.
Ao abrir os olhos novamente, Julien guardou o espelho e olhou para cima.
"Adeus."
Para sempre.
Espero que sim.