
Capítulo 562
Advento das Três Calamidades
— Não faça perguntas. Isso é apenas uma gravação.
Assim consegui me recompor. Por um momento, quase pensei que estivesse falando diretamente com meu eu do passado, mas parecia que não era o caso.
— Como você conseguiu ver essa gravação, deve significar que encontrou o Espelho Astral. Isso é bom.
Ele pareceu satisfeito com o desenvolvimento.
… Ou pelo menos, parecia. Embora fosse meu rosto, não consegui entender minha própria expressão de jeito nenhum.
Será que eu era realmente assim no passado?
— Muitas coisas podem não fazer sentido agora, mas vão fazer no final das contas. Só saiba uma coisa…
A face no espelho parou e me encarou de frente.
— Não somos os mocinhos. Não busco virtude. Só quero poder. Estou cheio de pecados, mas meu conscience está limpo. Nós… eu… simplesmente fazemos o que deveríamos fazer. Se somos bons ou maus, isso não importa.
O que isso está querendo dizer realmente?
Levei um momento para tentar digerir as palavras, com os lábios fechados com força.
— Tudo o que sei é que vejo demais. Passado, presente, futuro… vejo tudo, e esse poder… está me consumindo.
De repente, uma mudança aconteceu na face dentro do espelho.
Gradualmente, seus olhos começaram a ficar vermelhos, enquanto minha face afundava.
— Este poder… Não é algo que deveríamos ser capazes de controlar. É avassalador, exaustivo e está destruindo lentamente. Quanto mais vejo, mais entendo… e a cada realização, percebo o quanto o tempo que tenho é pouco.
A essa altura, já via o rosto atrás do espelho mudar para um muito familiar.
Isso…
— Estou morrendo.
A voz dele saiu rouca.
Tentei ouvir atentamente suas palavras, mas não consegui.
Algo no estado atual dele deixou minha mente completamente fora de foco.
— Eu… não quero morrer.
Algo pressionou meu peito.
— Mas tenho que morrer.
— …..
Seguiu-se um silêncio tenso pouco tempo depois.
Encarando meu velho rosto e vendo minha expressão finalmente mostrar sinais de rachaduras, pude perceber…
Vejo o desespero e o medo nos meus olhos.
— Não tenho medo da morte, mas tenho medo de me perder. Viver derrotado é morrer mil vezes. O destino de um homem não é moldado pelo acaso ou por quem decide seu caminho; é conquistado com as próprias mãos. Por isso, mesmo vendo, ajo. Mesmo que isso me custe a vida, ajo.
Ele parou, sua face tremendo levemente.
Mas, aos poucos, ele sacudiu a cabeça e ergueu novamente o olhar para mim.
— É por isso que, mesmo sem te ver, sei que você vai agir.
Ele pareceu aliviado, embora eu ainda pudesse sentir o cansaço que permanecia sob suas palavras.
De certa forma, ele me lembrou um pouco da mãe da Kiera.
Ela também parecia assim.
'Ah, é por isso que achei sua expressão tão familiar.'
Era porque ela me lembrava de como eu já fui.
— Hooh.
Fechando os olhos, minha face respirou fundo antes de me encarar novamente.
— O Extrator de Contenção, o Espelho Astral, os Olhos do Oráculo e a Taça de Coleção. Preciso que você reúna as quatro relíquias que deixei para trás.
Uh?
Deixei para trás?
— Para garantir que as coisas aconteçam como devem, você precisa coletá-las. Eu sei que atualmente você tem duas — o extrator e o espelho. Mas isso não é suficiente. Preciso que reúna as quatro. Quando fizer isso, tudo... e eu quero dizer tudo, ficará claro para você. Por que fiz o que fiz, e… onde está Noel.
Minha respiração parou ao ouvir Noel.
Ding—!
E então, uma notificação apareceu na minha visão, me deixando surpreso na hora.
[ ◆ Missão Principal Ativada: Reúna as Quatro Relíquias]
: Progressão do Personagem + ◆◆◆
: Progresso do Jogo + ◆◆◆
Fracasso
: Calamidade 1 + ◆◆◆
: Calamidade 2 + ◆◆◆
: Calamidade 3 + ◆◆◆
— Espera, espera…?
Friccionei os olhos para garantir que não estava vendo coisas.
'...Por que ainda não consigo ver os números?'
De olhos fixos na nova missão e nos números obscurecidos ao lado, eu não sabia como reagir. Que tipo de situação era aquela? Foi a primeira vez que algo assim aconteceu, e eu fiquei realmente confuso.
Mas, mais do que tudo, minha mente estava em outro lugar.
Noel…
Onde ele estava?
Como ele estava? Ainda estava vivo, certo? Ele…
Como se sentisse meus pensamentos, uma tristeza se desenhou no rosto dentro do espelho.
— Se acha que nossa vida é ruim, saiba que… Não é nada comparado ao que ele está passando. Não há nada mais assustador do que ser usado como instrumento para a sobrevivência da humanidade.
Uma onda de ódio verdadeiro invadiu meu rosto em um instante, fazendo seus olhos já vermelhos ficarem ainda mais intensos enquanto ele contorcia a face.
Isso…
— Por isso, temos que fazer isso.
Naquele momento, eu vi.
— Temos que acabar com todos eles.
Loucura.
— Todos os deuses… Temos que matá-los.
Loucura de verdade.
E, vendo o estado em que eu me encontrava, percebi que tinha os lábios bem apertados. Ainda mais ao perceber que essa loucura vinha do poder que eu empunhava.
De repente, uma ideia surgiu.
'Será que vou ficar louco depois de herdar completamente todas as minhas memórias e poderes?'
Não, em primeiro lugar, a minha morte foi causada por câncer ou…?
— Aposto que você está confuso. Sobre tudo, e sobre as pequenas coisas que te contei… É frustrante, não é? Saber que poderia estar te contando tudo agora, mas não estou.
Minha face sorriu de leve.
— Como disse, reúna as quatro relíquias, e as respostas vão surgir. Se eu explicasse tudo agora, levaria dias — e nenhum de nós tem esse tempo, nem você precisa saber de tudo. Isso não mudará o quanto você é impotente agora. É melhor que você veja tudo por si mesmo. Só assim vai entender de verdade.
Abri a boca, quase por reflexo, esquecendo que era uma gravação, e justo quando ia falar, hesitei.
No fim, a única coisa que pude fazer foi encarar meu velho rosto enquanto ele me encarava de volta.
Agora, ele parecia diferente do que antes.
Seu rosto estava afundado, e o cabelo tinha caído todo. Ele parecia exatamente como eu era antes de chegar a este mundo.
Durante todo esse tempo, ele não disse nada, apenas deixou que eu visse seu estado.
Isso durou alguns segundos antes de sua imagem desaparecer e minha própria reflexão surgir.
Mas, mesmo assim, não consegui desviar o olhar do espelho.
Não consegui.
Como poderia, depois de tudo que acabei de ouvir?
Eu…
— Humano.
De repente, ao lembrar que não era o único presente, virei-me para olhar para Pebble, que descansava sobre meu ombro.
Abri a boca mais uma vez, minha mente fervilhando com várias ideias enquanto buscava uma maneira de explicar o que tinha acontecido com Pebble quando…
— Por que mostra minha verdadeira aparência no espelho?
Ah.
Foi então que a compreensão me veio repentinamente ao olhar no espelho.
Com a língua nos lábios, perguntei cuidadosamente,
— É só isso que você vê?
— Hein?
Pebble me olhou confuso.
— Era pra eu ver alguma coisa diferente?
— Você não me vê?
— Vejo.
— Então…?
— Já sei que isso não é seu corpo verdadeiro, humano. Não fico muito surpreso com sua mudança de aparência.
— Não é isso… Você— Esquece.
Não fazia diferença pra mim se Pebble via ou não. De qualquer forma, Pebble já sabia meu segredo, assim como Owl-Mighty.
Mesmo que Pebble tivesse escutado algo da conversa que tive com o espelho, não faria muita diferença, considerando tudo que já sabia.
… E, mais do que tudo, havia questões mais urgentes em que eu precisava me concentrar.
Como…
'Reunir as quatro relíquias.'
Ainda não tinha certeza do quanto eram importantes ou do que exatamente faziam, mas, com as informações que tinha, reunir elas era imprescindível.
Só tinha um problema…
'Como exatamente vou tirar a taça do Leon?'
Sim, Leon era quem possuía a terceira relíquia, a Taça de Coleção. E pior: foi eu quem lhe dei a taça.
Agora que precisava dela, achar uma maneira de pegá-la dele parecia complicado…
Como exatamente ia fazer isso?
E o Olho do Oráculo, onde estaria?
— Ukh.
De repente, suspirei incomodado.
As coisas ficaram mais difíceis, mas pelo menos agora tinha um objetivo mais concreto para seguir.
— Mas, no fundo, que será que vou descobrir ao reunir as quatro relíquias?'
Na verdade, seriam só respostas? Havia mais nas relíquias do que me contaram… Afinal, se Sithrus as desejava tanto, devia haver algo além do que eu sabia, algo que eles não deixavam eu ver.
Mas que se dane. Eu ia descobrir de um jeito ou de outro.
— Pondo isso de lado, como exatamente uso essa coisa?
Segurando o espelho, bombeei mais mana nele. Sentia mudanças acontecendo no meu corpo lá fora, mas, como estava preso na corrente, não conseguia perceber exatamente o que acontecia.
O único pensamento que tive foi: Julien provavelmente estava passando por uma situação difícil lá fora.
— Já coloquei tanta mana nisso, e até agora só recebi uma mensagem de vídeo. Como é que eu…
Minha mente foi abruptamente interrompida quando uma mudança brusca ocorreu — o espelho começou a brilhar com uma luz branca ofuscante.
Assustado, quase soltei o espelho, mas consegui segurá-lo antes que caísse, enquanto meus olhos eram cegados pela luz.
Demorou alguns segundos até eu recuperar a visão, e, ao abrir os olhos, minha atenção foi imediatamente ao espelho, onde uma mudança visível tinha acontecido.
— Isto…
Encarei o espelho, minha mandíbula caiu na forma de um 'O' enquanto as palavras parecia que escapavam de mim.
Somente após alguns segundos consegui fechar a boca, puxando os lábios suavemente para cima.
—… Esquecer de apenas selar o Julien. Essa coisa pode ser muito mais útil do que eu imaginava.
lentamente olhei para Pebble, que parecia ter tido uma epifania repentina.
— Humano…
— Eu sei.
Assenti lentamente, olhando de volta para o espelho.
— Você talvez consiga um corpo antes do que esperava.