
Capítulo 541
Advento das Três Calamidades
'Traí-la?'
Como foi que eu realmente a traí?
Queria pronunciar essas palavras, mas me vi incapaz de desviar o olhar daqueles olhos fundos e negros dela. Só pude cerrar os lábios em silêncio antes de tentar me explicar.
"Ela... tem algo que eu preciso."
"Posso te dar isso."
"Não, não pode."
"…"
Ah, o olhar dela parece penetrante. Meu olho piscou involuntariamente e, apressadamente, comecei a falar novamente.
"A entidade dentro de mim. Ainda não está totalmente clara. Keira possui um item que pode me ajudar a me livrar dela."
".…É só isso?"
"Sim."
"Então não precisa se preocupar."
"Hã? O que?"
Eu não preciso me preocupar?
Fiquei confuso. Como exatamente eu não deveria estar preocupado? Sabia que o selo que o antigo Clérigo tinha colocado sobre mim era forte, mas senti sua força diminuir no momento em que minha progressão aumentou novamente.
Era como uma bomba-relógio, pronta para explodir a qualquer instante.
Eu precisava resolver essa questão agora, antes que fosse tarde demais.
"Já sabíamos do seu problema quando o Clérigo nos informou."
Nós? Quem eram nós…?
"A Academia conseguiu contato com um Clérigo de alta classificação. Eles devem ser capazes de te ajudar com esse problema."
"Espera, sério?"
Me vi piscando rapidamente, surpreso com essa informação inesperada. Era uma notícia agradável. Contudo, a alegria durou poucos segundos antes de se dissipar consideravelmente.
'Se é um Clérigo de alta classificação, com certeza vai perceber que algo pode estar errado comigo. Na verdade, podem até descobrir meu segredo. Isso…'
"O que há de errado?"
Como se percebendo minha luta interna, Delilah balançou a cabeça de leve.
"…Você não está feliz?"
"Estou…"
"Mas?"
"…Depois do que aconteceu na última vez, não me sinto à vontade com pessoas entrando na minha mente."
"Ah."
Delilah parecia compreensiva.
"Mesmo assim, você precisa se livrar disso."
…Ou pelo menos, eu achava que ela queria, mas ao olhar para ela, que franziu os olhos diretamente na minha direção, percebi que dei um passo atrás involuntariamente.
"Aquele ali…"
O rosto dela ficou ligeiramente gelado, até demonstrando sinais de repulsa.
"Não."
Foi tudo que ela falou antes de desaparecer e reaparecer na frente, enquanto o tempo voltava ao normal. Instintivamente, estiquei a mão em direção a ela, mas parei no momento em que senti um olhar me fitar vindo da minha direita.
"Você…"
Era o Leon.
Alternando o olhar entre ela e mim, sua expressão se fechou.
"Não é o que você pensa."
"Ah."
"…Só estava alongando o braço."
"Sim, faz sentido."
"Está meio tenso."
"Não, entendo."
"Esqueça o que viu."
"Já estou acostumado."
"Que se dane."
"Sim."
*
Apesar das palavras de Delilah, ainda assim decidi confrontar diretamente Keira sobre o espelho. Despedi-me e me aproximei dela. Ela estava sentada ao lado de Aoife, ambas quietas, olhando para frente, perdidas em seus próprios pensamentos.
Pelo que parecia, elas tinham brigado.
'Nada demais aqui.'
Brigas entre elas já eram algo bem comum. Na verdade, se elas não brigassem, eu acharia estranho.
"Sobre o que foi a discussão desta vez?"
Comecei com uma conversa trivial.
Não tinha muita ideia de como iniciar a conversa, afinal, não podia simplesmente perguntar onde estava o espelho, né?
Ela nos olharia estranho e ficaria extremamente cautelosa comigo.
'Que inferno.'
Ao lembrar do momento em que perguntei sobre a tia dela e a resposta dela, sabia que ela provavelmente podia montar um quebra-cabeça se eu não fosse cuidadoso.
"…Por que está perguntando?"
Apesar de meus melhores esforços para parecer menos suspeito, assim que me aproximei delas, ambas ficaram desconfiadas. Podia simplesmente perceber pelo jeito que olhavam para mim.
'Será que esse cara perdeu a cabeça?'
'O que ele quer comigo? Será que me deve dinheiro?'
Talvez esteja exagerando, mas certamente parecia que elas estavam pensando algo assim.
"Keum."
Passei uma tosse leve antes de me sentar ao lado de Keira.
"Você está louca?"
"…A cadeira tá ocupada?"
"Não…?"
"Então vou ficar nela."
"…"
Os olhos de Keira estreitaram, seguidos pelos de Aoife. As duas pareciam estar em sintonia hoje.
"Droga. O que você quer?" perguntou Keira, observando-me desconfiada.
"Aquilo…"
O que havia com ela?
"…Por que vocês estão agindo tão estranho? Eu só queria sentar e puxar papo."
"Esse é o problema."
Keira apontou.
"Você é a última pessoa que deveria fazer papo fiado."
"O quê? Isso é…"
De repente, minha mente viajou para o passado, e minha boca ficou seca. Reflito sobre isso, eles tinham um ponto. De fato, não sou de ficar trocando palavrório. Na verdade, não suporto isso.
Eui meus lábios, tentando afastar o desconforto, mas percebi Aoife olhando para mim com uma expressão estranha. Seus lábios se abriram enquanto ela começava a falar.
"Da última vez que tentei conversar com você, você me ignorou completamente."
"Foi?"
"Sim…"
"Ah… Desculpa—"
"Não, foi um bom esforço."
De repente, Keira deu um tapinha no meu ombro. Caramba, por que a parte de trás da minha cabeça ficou tão quente assim? Ignorei a sensação e fechei os lábios.
"Ah."
"Eu também ia fazer isso na sua situação. Aliás, a Aoife é mais tolerável do que a Evelyn."
"Evelyn? O que ela fez?"
"O que ela não fez?"
Keira fez uma expressão exagerada de repente.
"O que ela não fez? Aquela garota... fala demais. Parece uma maga de curto alcance, atacando com feitiços um atrás do outro, mais rápido que o próprio vento."
Queria discordar das palavras da Keira, mas o argumento nunca se formou de fato. Evelyn realmente era como uma metralhadora. Quando ela se sentia confortável, disparava uma palavra após a outra, cada frase mais rápida que a anterior, deixando pouco espaço para os outros falarem.
Só de pensar nisso, deu-me uma dor de cabeça.
Vendo Aoife concordar com a cabeça, parecia que ela pensava a mesma coisa.
Então, todos nós começamos a conversar juntos.
A conversa rapidamente saiu do meu objetivo inicial, indo parar em bobagens que nada tinham a ver com a situação. Aparentemente, as paredes do Kassha eram bem finas. Segundo Keira, às vezes Aoife cantava, assustando alguns cadetes e fazendo eles acharem que fantasmas hauntedavam alguns aposentos.
Foi bem divertido de ouvir. Principalmente quando vi Aoife tentando não ficar constrangida, murmurando: "Não foi tão ruim assim. Vocês estão exagerando."
Na verdade, era bem plausível.
Também rolou um boato sobre o Leon.
Esse foi bem interessante. Segundo Aoife, Leon ficava nervoso antes de suas lutas. Ele carregava um livro de piadas e recitava elas antes do combate para se acalmar.
Senti minha percepção de mundo mudando ao ouvir isso.
Quem diria que Leon era assim?
E além disso, aparentemente—
"Por favor, preparem-se. Iremos partir agora. Os portais já estão configurados, então recolham seus pertences e entrem no portal."
"Hã?"
Olhei na direção da frente e repentinamente notei um portal se formando com Delilah e os professores ao meu lado. Ao observar Delilah mais de perto, percebi que ela parecia um pouco diferente do que antes.
…Mas exatamente como?
Passei a mão na nuca.
Por alguma razão estranha, os pelos na parte de trás do meu pescoço estavam eriçados.
"Vamos embora? Acho que não suporto mais esse lugar."
Keira foi a primeira a se levantar, toda empolgada. Ela claramente não gostava de estar ali.
No entanto, ao vê-la assim, senti meu nervosismo aumentar.
'Ainda não, eu ainda preciso—'
E, antes que percebesse, minha mão estendeu-se em direção à dela.
"Espera."
"Hã?"
Keira parou no instante, seus olhos arregalados. E o pior não era isso. Era a frio na nuca, ameaçando me consumir completamente.
Em pânico, pressionei a segunda folha.
'Droga, devia ter feito isso desde o começo.'
…E então, eu vi.
A história de Keira no passado.
***
"Já foram embora?"
Rosanna Astrid perguntou, olhando pela janela de seu escritório. Seus olhos ficaram um instante no céu azul antes de descerem até a cidade lá embaixo.
Várias filas se estendiam, aguardando as refeições serem servidas.
Enquanto observava as filas, percebeu que a presença daqueles do Império ia desaparecendo, um a um, e sua expressão suavizou.
"As coisas vão ficar bem movimentadas logo. Preciso começar a me preparar."
Justo quando ia se virar, seus olhos pararam em uma fila específica.
"Hm?"
Lá, ela percebeu a silhueta de uma figura—uma que parecia familiares, mas não exatamente. Porém, exatamente quando tentou olhar melhor, a figura desapareceu de sua vista, deixando-a completamente perdida.
"Que estranho..."
Resmungou, massageando a cabeça.
"Muito estranho."
*
"Formem uma fila! Quem quiser comida, favor se organizar em uma fila única!"
A comida ia sendo distribuída lentamente às pessoas na fila. Os trabalhadores eram rápidos, entregando uma marmita e uma bebida de cada vez. Apesar da eficiência, a fila parecia interminável. Desde crianças até adultos, todos desesperados por comida.
"Carne ou legumes?"
"…Hehehe."
Um idoso sorriu de repente, passando a mão nas costas com um sorriso tímido.
Seu olhar alternava entre a sopa de carne e de legumes.
'Em gosta de ambos, qual escolher?'
Estava com fome.
"Em quer carne."
"Carne?"
O trabalhador deu uma olhada rápida nele antes de encher a tigela.
"Certo…"
"Obrigado."
O trabalhador entregou rapidamente a comida ao idoso, que saiu de cabeça baixa, silenciosamente.
Era comida.
O velho se sentiu bastante agradecido ao trabalhador. Eles eram muito gentis. Apesar de ser tolo, eles lhe deram bom comida.
"Hehehe."
Segurando a tigela, o idoso seguiu seu caminho.
Ele não sabia exatamente para onde ia, mas seus passos o levaram a um lugar que parecia conhecido. Era uma rua silenciosa, e ele se sentou em frente a uma pequena escadaria, começando a comer.
Justo quando ia dar sua primeira mordida, um grupo de pessoas apareceu na sua frente. Roupas rasgadas, corpos magros. Apesar de as coisas melhorarem lentamente, a comida ainda era escassa.
"Ei."
O velho ergueu a cabeça ao ouvir alguém chamando por ele.
Um sorriso alegre surgiu em seu rosto.
"Sim?"
As pessoas não responderam, apenas olharam para sua comida.
"Você, isso é bastante comida."
"…Ah, sim."
O velho olhou para a comida na tigela e riu.
"Muita comida, hein!"
Parecia bobo para sua idade, causando uma leve risada no grupo.
Eles zombaram dele, chamando-o de vários nomes.
"Retardado."
"…Fácil tirar comida dele."
Ao ouvir esses comentários, Em deu um sorriso interior.
'Eles falam comigo. Como são gentis…'
Ninguém gostava de conversar com Em.
Seria possível que ele se tornasse amigo deles?
Um deles deu um passo à frente, apontando para a comida do velho.
"Dá pra gente."
"Eh…?"
Em ficou surpreso. Querem sua comida?
"Mas…"
"Precisamos de comida para trabalhar. Alimentar nossas famílias. Você não trabalha, né?"
"Ah."
Faz sentido…
'Sim, Em é burro. Ele não trabalha, e eles trabalham. Mesmo sendo bobo, ele é gentil! Ele ajuda as pessoas!'
"Tudo bem."
"…Que legal!"
"Hahaha, é fácil assim?"
Quando o velho estendeu sua tigela, o grupo tentou pegá-la, mas no momento em que foram tocar, uma voz alta ecoou.
"Ei!"
"Hã?"
"Que diabos…!?"
Três pessoas apareceram na esquina da rua. Olharam para o velho, que quietamente entregava sua tigela, e então voltaram sua atenção para o grupo. Com facões na mão, pareciam ameaçadores—o suficiente para fazer o grupo recuar assustado.
"Droga!"
"Corre…!"
"Hã? Espera!"
Ao verem eles fugindo, o velho tentou se levantar e correr atrás, mas foi rapidamente detido pelo trio.
"Para."
"Mas—"
"Está tudo bem."
Um deles o interrompeu, arranhando o lado do pescoço.
"Não precisa dar sua comida assim. Coma primeiro. Eles têm bastante."
O velho arregalou os olhos ao olhar para as três pessoas. Pareciam tristes. Por quê? O que causava a tristeza?
"Ah, se você diz assim."
Apesar de dizer isso, ele não mexeu na comida. Quando elas voltaram, ele deu a eles.
Ao ver isso, a expressão dos três mudou mais uma vez.
"Ei, quer ser nosso amigo?"
Amigos? A cabeça de Em virou para os três, os olhos brilhando. Amigos? Eles querem ser amigos? …Mas por que parecem tão tristes?
"Pode me chamar de Gig."
Eles começaram a se apresentar.
"Kon pra mim."
"…E eu sou Min."
"Gig, Kon, Min?"
"Sim."
De repente, Em sorriu. Por que esses nomes soavam tão familiares? Ele não se lembrava direito. Que pena, não consegue lembrar. Não importa! De repente, ele se sentiu transbordando de alegria. Fez amigos! Ele, que é tão tolo, fez amigos!
Estendendo a mão, Kon falou suavemente:
"Vamos, vamos lá."
"Sim!"
O velho segurou a mão de Kon e se afastou da rua. Enquanto fazia isso, seus olhos se voltaram para o céu acima e um sorriso feliz surgiu nos seus lábios.
'O céu está feliz, Em também está feliz.'