
Capítulo 542
Advento das Três Calamidades
Voom—!
O espaço se deslocou, formando um pequeno portal por onde surgiram várias figuras.
"Estamos de volta...!"
"...É mesmo a Academia!"
"Não posso acreditar... será que estou sonhando?"
Ao entrarem no ambiente familiar, vários dos cadetes não conseguiram esconder a emoção. Apesar de não chegarem às lágrimas, era evidente a saudade estampada em seus rostos ao pisarem no local que reconheciam.
De fato, tinha sido bastante tempo. Finalmente, estavam de volta ao lar.
Pelo menos, foi assim que se sentiram inicialmente.
"Espera, a gente realmente voltou?"
No meio da comemoração, de repente perceberam o estado da Academia, e suas expressões mudaram rapidamente para reação de espanto.
"O que é isso...?"
"Voltamos de verdade? ...Ou ainda estamos na Kasha?"
Para seu choque e confusão, a Academia na qual haviam retornado não se parecia em nada com a que haviam deixado para trás.
Se alguém pudesse descrever o cenário atual, diria que era uma **'Ruína'**.
'Este lugar está totalmente destruído...'
Leon pensou enquanto observava ao redor. Os prédios estavam dilacerados, partes faltando, alguns colapsados ao chão. A vegetação estava destruída, vidros espalhados por toda parte, contribuindo para o caos.
Não era só isso.
Enquanto Leon analisava o ambiente, avistou vários Professores e guardas ao longe, todos se movimentando rapidamente.
'Corra! Precisamos de ajuda lá!'
'Rápido!'
Suas vozes eram abafadas pela distância, mas Leon conseguia ouvir tudo.
E, no entanto, aquilo não era a parte mais surpreendente.
De longe, bem longe mesmo.
"Olhem! Vejam o céu!"
Quando alguém apontou, os olhos de vários cadetes se arregalaram de choque. Eles olharam para uma parte do céu, completamente acinzentada, parecendo com o céu sombrio da Kasha de antes.
Felizmente, a mancha cinza no céu não era muito extensa; cobria uma área específica. Leon reconheceu instantaneamente a direção que ela cobria.
'Vem da mesma direção onde está a Fenda do Espelho...'
Seu rosto ficou sério, e quando virou para olhar para Julien, viu que a palavra que ele ia dizer ficou presa na garganta.
Que coisa...?
"Você está bem?"
Leon cutucou Julien no braço, mas não recebeu resposta.
Ao examinar melhor, o rosto de Leon mudou discretamente. Como ele não poderia ficar chocado?
Julien não era do tipo de mostrar emoções facilmente. Na maioria das vezes, ele tendia a esconder o que sentia, mesmo quando havia medo extremo.
Ele só costumava demonstrar quando não tinha mais jeito, geralmente em situações muito críticas ou quando não conseguia segurar uma risada.
Era assim que Leon entendia e conhecia Julien, após tanto tempo ao seu lado.
Era o normal, mas mesmo assim...
'O que aconteceu?'
A expressão de Julien era de surpresa clara, misturada com o que Leon só podia descrever como traços de medo fraco.
Medo?
"Julien?"
Seu rosto estava pálido, os lábios secos, e suas pupilas contraídas.
Nem mesmo nas situações mais desesperadoras Leon já tinha visto Julien assim. O que estaria acontecendo—
Uh?
E então ele se recompôs.
Como se sua alma tivesse acabado de retornar ao corpo, Julien tremeu, as pupilas balançando antes de finalmente seus olhos encontrarem os de Leon.
Leon aproveitou para falar. Queria entender o que estava acontecendo.
"Aconteceu algo—"
"Estou bem."
Mas Julien o interrompeu, com a voz um pouco rouca.
"...Estou bem."
Ele repetiu como se isso fosse convencer Leon.
Não convenceu.
"Ah, voltamos mesmo?"
Como se só agora tivesse percebido que estavam de volta à Academia, Julien olhou ao redor e assentiu.
"Foi bem mais rápido do que eu imaginava. Não achei que conseguiria tão rápido."
Julien fazia o possível para esconder o que o preocupava, e justo quando conseguiu, a Chanceler saiu do portal e deu ordem para dispensar a turma presente.
Antes de terminar, ela falou algo como: "Aulas serão retomadas em uma semana. Aproveitem para descansar. Estamos com falta de pessoal, então pode haver um pequeno atraso."
Ela não entrou em detalhes.
...Não precisou. Todos entenderam claramente que aquilo não era algo que deveriam saber de imediato.
No fim, cada um rapidamente se despediu, indo para seus quartos ou voltando para casa. Diante da situação, deixaram os cadetes saírem livremente do local.
Na verdade, até incentivaram isso.
"Vou me adiantar e sair primeiro."
Julien se despediu rapidamente, e Leon o observou com expressão séria até que, enfim, ele desapareceu de vista.
Leon ficou ali parado, por um tempo indeterminado, até que finalmente desfez seu olhar e olhou para frente.
Não entendia o motivo das ações estranhas de Julien, mas não quis insistir. Era uma questão dele, algo pessoal.
Se Julien não quis contar, então não era da conta dele.
Pelo menos, por enquanto.
'Também preciso voltar.'
Depois de conferir as horas e perceber que já eram cinco da tarde, Leon começou a caminhar de volta para os dormitórios.
O percurso não Era longo, cerca de cinco minutos a pé.
No caminho, olhava o estado da Academia. Estava um caos completo.
O parque por onde passava frequentemente a caminho do dormitório tinha ficado totalmente diferente. Muitas árvores estavam quebradas ou divididas ao meio, bancos virados, e muitas flores esmagadas.
Era uma cena que mostrava claramente o quão séria tinha sido a situação na Academia.
'O que exatamente aconteceu? Com certeza, a destabilização das Fendas do Espelho não pode estar tão ruim assim, né?'
Não era a primeira vez que isso ocorria.
Mas nunca tinha ouvido falar de uma tão poderosa assim. Ainda mais considerando que a Fenda do Espelho na Academia era uma das mais fracas.
Quão grave devia estar a situação em outros locais onde as Fendas do Espelho estavam repletas de monstros poderosos?
"...Tem bastante gente forte em Bremmer, então talvez esteja relativamente seguro, mas não tenho certeza dos outros lugares."
Algumas regiões poderiam até ser sacrificadas.
De qualquer forma, Leon sacudiu esses pensamentos e conseguiu chegar ao seu quarto, fechou a porta atrás de si e se sentou na escrivaninha. Perto dela, havia um espelho pequeno, onde podia ver seu próprio reflexo.
Estava prestes a se recostar na cadeira quando seu corpo inteiro congelou.
Ba... Estalo!
Uma pulsação forte e constante Latejava em sua mente, sincronizada com o ritmo de um coração.
Leon percebeu que não conseguia se mover.
Ba... Estalo!
A pulsação voltou a pulsar, sacudindo Leon, que instintivamente agarrou os pequenos braços da cadeira, suas mãos cravando tanto que a madeira rachou sob a força.
Barulho!
'O que está acontecendo—!?'
O medo começou a tomar conta de sua cabeça.
Era a primeira vez que algo assim acontecia, e ele sentia que perdia o controle do corpo.
"Que di—Uha?!"
A surpresa aumentou ao ele levantar o olhar, seus olhos fixando o reflexo. Linhas profundas e escuras marcavam seu rosto, se estendendo até o peito, onde um brilho sombrio e tênue transpassava a roupa.
Leon começou a respirar acelerado, o pânico dominando sua mente.
Ele tentou manter a racionalidade, mas não conseguiu. Perdeu completamente o controle e começou a tremer no local.
'O que está acontecendo? O que está se passando?!'
Querendo gritar, porém sua voz se recusava a sair.
Queria correr, mas suas pernas não se moviam.
Queria…
Voom!
Uma explosão de luz cegante saiu do peito de Leon, preenchendo o cômodo com um brilho intenso que engoliu tudo ao redor.
Leon se viu sendo lançado para trás pela luz, colidindo contra a cama atrás dele.
Bang—
"Ukh...!"
Seu corpo doía pelo impacto, mas Leon mal percebeu a dor. Conforme a luz se dispersava lentamente, ele conseguiu se mover novamente, uma sensação de alívio lhe invadiu.
"Sim... hn... Finalmente... hn..."
Suas palavras pararam de repente.
Levantou levemente a cabeça e fixou o olhar na coisa flutuante à sua frente.
Batendo em um brilho suave de luz branca, um cálice preto pairava a poucos centímetros de seu rosto, deslizando lentamente no ar.
Leon rapidamente abaixou a cabeça, olhando para o peito, e foi então que seus olhos se arregalaram enormemente.
"Ah..."
Gotejou. Gotejou.
Enquanto um som de gotejamento preenchia o quarto, a cor vermelha manchou o chão, formando uma poça ao redor de seus pés. Leon olhava para seu peito, ou melhor, para o que restava dele.
Focando na ferida aberta, voltou a levantar a cabeça para olhar para o cálice à sua frente, e de repente sentiu suas pernas fraquejarem.
Thud.
Caindo de joelhos, olhou assustado para o cálice no ar.
Como...?
Perdido na surpresa, o cálice deslizou suavemente para baixo, repousando logo abaixo de seu rosto. Os olhos de Leon fixaram-se no líquido escarlate, que enchia a taça, seu tom vermelho lembrando seu próprio sangue.
Na verdade, era seu sangue...
Dentro do líquido, seu reflexo o encarava — ou pelo menos, aquilo que ele achava que era seu reflexo.
Enquanto olhava para a imagem refletida, outra figura lentamente começou a sobrepor-se à sua. A imagem era confusa, impossível de discernir claramente, mas ele via a boca se mover.
A mente de Leon estava nebulosa, e numa situação em que já deveria estar morto, ele ainda permanecia consciente.
Leon focou na boca da figura dentro do cálice, quase sem conseguir captar as palavras. Nem tinha certeza se tinha lido corretamente, mas parecia que ela dizia: 'Beba...'
Beber?
A mente de Leon estava bastante confusa.
Com tanto sangue perdido, mal conseguia se manter consciente.
Seu raciocínio acelerou, mas devido ao peso da situação, Leon se inclinou para frente, tocando os lábios na borda fria do cálice.
A última coisa que lembrou antes de desmaiar foi o gosto metálico, que invadiu sua língua e ficou em cada canto da boca.
Depois disso, tudo parecia um sonho longo, do qual ele não se lembrava de detalhes.
Não, isso era mentira.
Ele se lembrou de algo, embora superficialmente. Era mais como várias vozes, uma parece uma conversa entre ele e alguém mais.
A figura na reflexão...
Era assim:
'Você... quem é você? O que... o que está acontecendo?'
'...Quem eu sou?'
Outra voz respondeu, cheia de hesitação, confusão até. Como se tivessem acabado de acordar de um sonho terrível e longo.
'Na verdade, nem me conheço direito. Faz tempo demais.'
'O que...'
'Noel.'
Foi assim que ele se chamou.
'Seu nome é esse?'
'Sim, esse é meu nome.'
'Eu sou Noel.'
'Noel Rowe.'
***
Fim do Volume [4] - Parte 1/2