
Capítulo 543
Advento das Três Calamidades
Toc-toc—!
Fechei a porta atrás de mim.
Mal conseguia pensar. Tudo ao meu redor era uma mistura de imagens desfocadas enquanto eu cambaleava, com as mãos tocando a parede em busca de apoio até finalmente chegar à minha cama e me sentar.
"Haa... Haa...!"
A minha respiração acelerava, e imagens continuavam a se repetir na minha mente.
'Como foi...?'
Usei a segunda folha em Kiera.
Funcionou.
...Consegui vislumbrar o passado dela. O que ela sentiu, e entender exatamente o que aconteceu com ela antigamente.
Mas isso não foi o que me chocou.
Não, muito pelo contrário.
"Névoa... Névoa negra."
No véu da minha visão, uma tênue névoa preta avançou lentamente, escondendo-se em uma cena específica, até engolir tudo, bloqueando completamente minha visão. Não consegui enxergar além daquele ponto, e no próximo instante, me vi acordando de novo.
Aquela névoa... Era sufocante.
E, ao mesmo tempo, parecia quase uma sintonia.
Algo na névoa ressoava comigo, e essa ideia fez meu corpo inteiro arrepiar-se.
Normalmente, algo assim não me perturbava, mas, por alguma razão, a névoa negra me repelira profundamente, enchendo-me de um medo profundo e inquietante.
O que era aquilo?
"O Espelho..."
A parte mais assustadora era o que a névoa negra escondia. Ela envolvia a própria cena relacionada ao trauma mais profundo de Kiera, a peça chave para entender onde estava o espelho.
Tudo ali foi cortado daquele ponto em diante, e eu não consegui descobrir o que aconteceu depois.
"Que problema..."
Limpei o suor da testa e olhei para o espelho mais próximo, verificando meu reflexo. Meu cabelo estava despenteado, e minha face pálida.
Parecia que eu tinha acabado de acordar de um coma prolongado. Talvez de vários anos.
'...Achava que, ao usar a segunda folha, obteria minhas respostas, mas só complicou mais as coisas pra mim. O que é essa névoa negra, e por que me sinto tão desconfortável com ela? E o espelho? Onde ele está? ...Será que realmente não tenho escolha a não ser falar sobre isso com Kiera? E quanto ao que a Clériga Delilah mencionou? Devo...'
De repente, uma enxurrada de pensamentos e perguntas invadiu minha cabeça.
Me deixaram completamente confuso, lutando para decidir qual direção tomar.
Contudo, eu sabia que não podia perder tempo me perdendo em minhas próprias ideias.
Por isso, após poucos minutos, cerrei os dentes e levantei-me.
'Mesmo que tudo pareça seguro por enquanto, não posso mais perder tempo. Pode ser que ele tente assumir o controle deste corpo de novo.'
"Sim, preciso falar com ela."
Já tinha adi ido demais nessa história.
"...Tenho que descobrir onde está o espelho antes que seja tarde demais pra mim."
"Que sufocante..."
Um par de olhos vermelhos encarava, vazios, o teto branco acima.
"Tudo parece sufocar."
Suaves murmúrios dela ecoavam no quarto silencioso enquanto ela segurava a cabeça entre as mãos.
O quarto estava escuro, e seus olhos brilhavam na penumbra.
Kiera odiava o escuro de verdade.
Era um lembrete constante daquele 'tempo'. E, mesmo assim, ela não conseguia ficar sem a escuridão. Seus poderes estavam ligados exatamente à maldita escuridão.
Por isso, ela escolheu permanecer na escuridão.
Senti-se sufocada. Odiava cada segundo daquilo, mas também não conseguia ficar sem.
Será que era assim que funcionava com dependentes de drogas?
"...Kaka."
Kiera soltou uma risada suave.
Era uma daquelas risadas estranhas de sempre, mas ela não sorriu de verdade. Mais de uma maneira, aquela risada parecia forçada.
Trr—
Naquele momento, o dispositivo de comunicação dela vibrou. Ela lentamente o pegou, revelando uma mensagem nele.
[Falaram sobre a pausa. Volte para casa.]
Quem enviava era ninguém mais que seu pai.
Cra—
Um som de estalos ecoou na mente dela; como o som de uma rachadura se formando numa placa.
Logo depois, uma nova mensagem apareceu.
[Faz tempo que você não volta pra casa. Seria bom se você viesse. Traga suas colegas.]
Craaa—
Mais rachaduras começaram a se espalhar na placa, aumentando de tamanho a cada momento.
O rosto de Kiera começou a mudar, ficando tenso.
[...Sua madrasta está grávida. Você vai ter uma irmã, então—]
Bang—!
O dispositivo de comunicação voou pelo ar, estourando em milhões de pedaços ao impactar o chão.
O rosto de Kiera se transformou ao olhar para os destroços do aparelho.
Estava escuro, mas ela podia ver tudo.
"Sufocante..."
Murmu rando consigo mesma, Kiera se dirigiu à gaveta mais próxima, puxou alguns chicletes de vincar e os colocou na boca.
Eles ajudaram a aliviar um pouco do estresse, mas...
"Não é o suficiente."
Ela lambeu os lábios.
Estavam bastante secos.
Um estranho formigamento percorreu seu corpo, fazendo seu olho esquerdo piscar enquanto ela olhava para outra gaveta.
"Haa... Haa..."
Sem perceber, sua respiração ficou mais difícil.
Aquele...
"Um não faz mal, né?"
Kiera lambeu os lábios mais uma vez, sentindo uma estranha atração por aquela gaveta específica. Sua mão se estendeu devagar, abrindo-a para revelar uma caixinha dentro. Era uma caixa familiar, que ela não via há um bom tempo.
"Hoo."
Ao ver a caixa, seu peito tremeu. Ela estendeu a mão com tremor e pegou o pacote, respirando fundo.
Fazia tanto tempo...
"Sim, um não vai fazer mal."
Ela precisava disso desesperadamente.
Os chicletes não eram suficientes.
Com cuidado, ela lambeu os lábios e abriu a caixa, o aroma de tabaco se espalhando pelo ar. O corpo de Kiera tremia ao sentir o cheiro, enquanto estendia a mão para pegar um dos cigarros, sua respiração ficando mais pesada ainda.
Juntando os lábios, ela cuidadosamente encaixou o cigarro entre eles.
Levantou o dedo, e uma pequena chama começou a brilhar, iluminando ao seu redor. Quando a escuridão se dispersou, Kiera conseguiu enxergar melhor o cigarro preso nos lábios e seu peito tremeu.
'Sim, um só não vai fazer mal...'
Kiera aproximou a chama do cigarro e estava prestes a acendê-lo quando...
Toque—
De repente, alguém bateu na porta, fazendo-a sair de seu estado de transe.
"Hã?"
Percebendo o que ela estava prestes a fazer, Kiera rapidamente engoliu a saliva, colocou o cigarro de volta na caixa e o jogou na gaveta.
Depois, caminhou até a porta.
"Quem é?"
"...."
"Droga, por que você não responde? Não me diga que é aquela princesa irritante?"
O rosto de Kiera caiu, ela se aproximou rapidamente da porta e a abriu com força.
"Falta de consideração, vou—"
As palavras de Kiera pararam no meio, ao perceber a figura à sua frente. Imediatamente, sua boca se fechou e seus grandes olhos piscaram em sequência.
"Você, o que está—"
"Vai fumar?"
A voz de Julien cortou antes que ela pudesse terminar, deixando-a boquiaberta.
Observando-o, ela viu que ele parecia desleixado, pálido e exausto. Ele tinha acabado de chegar de um treino?
"Fumar? Do que você está falando? Por que eu...?"
"Posso sentir o cheiro de tabaco no ar."
"Ah..."
Kiera engoliu a saliva e pressionou os lábios.
Senti-se envergonhada, mas foi só por um instante, antes de franzir a testa de repente.
'Espera, por que me importo se ele sabe?'
Ela já era uma adulta. O que fazia era coisa dela, sua decisão, e só dela.
Algo dentro dela começou a ferver enquanto ela fixava o olhar em Julien.
"Droga, sabe de uma coisa? Eu estava."
Kiera adotou uma postura direta com ele.
"Eu ia fumar, ok? Estou bastante estressada ultimamente e precisava disso. Você tem problema com isso? Porque, se tiver, não dou a mínima—"
"Não, não tenho."
Julien a interrompeu, deixando-a surpresa.
"Você não?"
"Não, por que eu teria?"
"Mas..."
"Antes, sim. Agora, não me importo mais."
"Hã?"
"É passado. Já não fico mais presa a isso."
"O quê... o quê?"
Kiera piscou os olhos, confusa.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Julien entrou na sala, olhou casualmente ao redor, acendeu a luz e se sentou.
Naquele instante, seus olhos se fixaram em uma gaveta específica, que ele abriu, revelando uma caixinha.
Ele deu uma olhada rápida, pegou a caixinha e levantou-a até os lábios.
Enquanto fazia isso, ele olhou para Kiera, que ainda parecia estar em choque, e murmurou:
"Você também devia?"
Recuperando-se do susto, Kiera fechou a porta atrás de si, caminhando em direção a Julien, com as sobrancelhas franzidas.
"Devia o quê?"
*Puff*
Expirando lentamente, Julien respondeu secamente:
"...Parar de se apegar ao passado."