
Capítulo 544
Advento das Três Calamidades
“Você já perdeu alguém importante pra você?”
A voz de Kiera flutuava despreocupada pelo ar enquanto ela olhava sem ânimo para o teto da sala.
Junto com o som de sua fala, fumaça girava pelo ambiente.
“…Eu já perdi.”
Uma voz seca respondeu logo após, com um par de olhos hazel fixos no teto acima. Os dois estavam lado a lado, envolvidos pelo aroma familiar e reconfortante da fumaça.
Nem tão perto, nem tão longe.
“Então, você se lembra da última coisa que disseram pra você?”
“Me lembro.”
“A última refeição que compartilharam?”
“Claro.”
“A última risada que dividiram?”
“Sim.”
“O jeito que olharam pra você antes de perderem?”
“....”
Julien fez uma pausa e olhou para Kiera. Ela parecia absorta em seus próprios pensamentos, sua mente voando para uma lembrança específica.
Ele assentiu mais uma vez.
“É tudo que eu posso fazer.”
Como poderia esquecer, se era tudo que ele costumava pensar?
A última refeição, a última brincadeira, a última despedida, a última... tudo.
Ele lembrava de tudo.
'É louco como a mente consegue lembrar nos momentos em que perdemos alguém.'
Um sorriso suave, mas disfarçado, marcava as feições de Julien.
“Certo.”
Kiera inspirou fundo a fumaça do cigarro, seus olhos rubis seguindo lentamente a trajetória da fumaça que se torcia no ar.
“Ninguém sabe exatamente quando vai ver alguém pela última vez. Eu, pelo menos, nunca imaginei que não veria minha mãe novamente na minha idade.”
*Puff*
Ela exalou na direção do ar.
“E então, um dia, elas simplesmente desaparecem. Sem volta, sem segunda chance... simplesmente se vão.”
Sua voz saiu um pouco carregada.
Ela nem tinha certeza do por que estava falando tanto, mas algo na queima dos cigarrilhas e no cheiro familiar que permanecia no ar a fazia se sentir tão... vulnerável.
Quando ela tinha ficado assim pela última vez?
“Nunca achei que ela ficaria comigo pra sempre. Não, desde novinha eu já tinha certeza de que um dia ela ia me deixar. Eu só...”
“Não achava que ela iria embora tão cedo?”
“É, acho que sim...”
A cabeça de Kiera finalmente desviou do teto e virou-se para Julien.
“...Parece que você passou por algo semelhante.”
“Talvez.”
Mas eu é quem fui embora.
Não ele.
Julien sorriu de forma ambígua, o olhar se desviando para o cigarro na mão dele.
Ele ainda detestava o sabor—a queima aguda que permanecia no fundo da garganta e o cheiro que parecia preencher o ar, forçando suas narinas a se fecharem.
E, mesmo assim...
Ele também sentia uma certa liberdade, de algum modo.
Quanto tempo fazia que não se sentia tão lúcido?
Ele deu uma tragada no próprio cigarro e começou a falar,
“Às vezes, eu me pergunto por que faço as coisas que faço. Será que só quero alcançar meu objetivo, ou é porque simplesmente não consigo seguir em frente?”
Ele deu de ombros.
“As pessoas dizem pra você seguir em frente, deixar pra trás, mas nunca explicam como fazer isso.”
“Conversa comigo.”
Kiera riu, dando uma tragada em seu próprio cigarro.
“É tudo que ouço, mas ninguém explica porra nenhuma. Como é que eu enfio o pé na jaca quando não quero esquecer? Quando eu esqueço, sinto que ela morre de verdade.”
“Hã?”
Mas ela não é—
“Dizem que alguém morre quando o coração para de bater, mas eu não acredito nisso.”
Kiera exalou lentamente, soltando uma nuvem de fumaça no ar.
*Puff*
“...É besteira. Sim, o coração para, mas você ainda é lembrada. Ainda é alguém pra alguém. Ainda existe. Mas e se esquecerem de você? Você ainda estaria aqui?”
Ela colocou o cigarro de lado, deixando a cinza cair ao chão, e deu um estalo no ar com ele, como se quisesse reforçar seu ponto.
“Pra mim, é aí que alguém realmente morre.”
“Quando não sobra mais ninguém ou nada pra te lembrar.”
Julien não teve o que dizer em resposta.
Ele pensou nisso. Tentou argumentar, e ainda assim...
Nada.
Não tinha chão pra rebater.
Deitou a cabeça pra trás e, de repente, se viu sorrindo.
“Acho que você tem razão... Em certo sentido, nunca deveríamos esquecer.”
“.....”
Kiera fez um biquinho, seu olhar vago fixo no teto.
A única coisa que conseguiu ouvir foi a voz suave e seca de Julien.
“Seguir em frente significa apagar o passado.”
Parecia terapêutico.
Relaxante, quase...
“Deveríamos apagar o passado? Apagar tudo que nos trouxe até aqui?”
Julien balançou a cabeça.
“Acho que não. O mais importante não é aprender a seguir em frente, mas aprender a carregar isso com você—não como um peso, mas como um lembrete. Um lembrete de onde você já esteve e onde está agora.”
Quanto mais Julien olhava para Kiera, mais sentia que ela implorava pra se moldar na pessoa que um dia foi.
Ele reconhecia esse olhar com facilidade.
A força sufocante do passado, incapaz de soltar, agarrada às memórias que moldaram todas as decisões—ele já tinha passado por isso. Entendia exatamente como era.
Será que era por isso que ele falava assim?
Ele não tinha certeza.
Apenas sentia que via seu próprio reflexo.
Sim, uma mensagem.
Era um recado pra si mesmo do passado.
“Então, o que você quer dizer?”
De repente, os olhos de Kiera se desviaram do teto.
“...Quer dizer que eu deveria me lembrar da dor? Apoiar nela, pra que eu possa recordar o passado? Essa é sua forma de dizer que eu preciso ser mais forte?”
“Não.”
Julien balançou a cabeça, franzindo os olhos enquanto pensava,
“Força não vem de fingir que a dor não existe. Ela existe, e ignorá-la só significa ignorar todos os seus problemas. Quanto mais algo dói, maior é o problema.”
Ele descobriu a dura maneira.
Achava que era forte. Suportava a dor. Enfrentava o máximo de sofrimento possível, levando o corpo ao limite.
Na verdade, não era.
Era fraco.
Ainda é, mas está ficando mais forte a cada dia.
E isso já basta.
“Força... vem do momento em que você percebe que a dor existe e não pode ignorá-la.”
Julien abaixou o olhar para o cigarro entre seus dedos.
Isso lhe trouxe memórias do passado.
“Vem de quando você encontra coragem pra fazer algo a respeito. Afinal...”
Os momentos difíceis e dolorosos. As horas intermináveis de batalha. O câncer. Aceitar a inevitabilidade da morte.
E... deixar ir.
“A vida não espera por nós.”
Se ao menos ela parasse... Como seria mais fácil, hein?
Mas...
“Ela continua avançando, implacavelmente.”
Não espera ninguém.
“...Assim como nós também devemos.”
Então, de certo modo,
“Trata-se de honrar o que foi, enquanto abre espaço para o que pode vir.”
Porque, afinal,
“É assim que alguém cresce.”
“....”
Essas foram as palavras finais trocadas entre eles antes que a sala mergulhasse em completo silêncio.
Além do som suave da fumaça sendo exalada e da respiração constante, não havia mais nada que preenchesse o espaço.
Então, Kiera quebrou o silêncio.
“Você éforçado, sabia?”
“....Haha.”
Julien não pôde deixar de rir com ela.
“Ukh.”
Kiera deu um empurrão nele, dando um tico na fumaça antes de se levantar.
“Me dá arrepios. Tô quase recebendo arrepios mesmo.”
Vendo ela daquele jeito, Julien não conseguiu se zangar. De certa forma, ela talvez tivesse um ponto.
Ele refletiu sobre suas próprias palavras, pensando em como Leon teria reagido se estivesse ali ouvindo aquilo.
Não demorou muito até uma imagem se formar na cabeça.
‘Ele provavelmente estaria encurvado junto à parede, com a mão na boca, fazendo o máximo pra não vomitar.’
Só de pensar nisso, deu uma risada incoerente.
Talvez, até o dedos dele começassem a tremer.
‘Deveria ter uma conversa parecida com ele?’
Quanto ele conseguiria fazer ele vomitar?
“Ugh, droga.”
De pé ao lado da escrivaninha, Kiera tinha a mão no ombro enquanto mutava uma sequência de palavrões baixinho.
Quanto mais Julien olhava pra ela, mais ela parecia refletir seu próprio eu do passado.
Será que foi por isso que ele falou tanta besteira?
'Talvez sim...'
Provavelmente, ela não entendia o que ele quis dizer com aquilo por enquanto.
Provavelmente, não entenderia por um tempo, e isso tava tudo bem.
Julien passou por dores e sofrimentos intermináveis até chegar nesse ponto. E mesmo assim, ainda não era perfeito.
Ele ainda estava em crescimento, e aceitava isso com tranquilidade.
Ela ainda não tinha chegado lá, mas Julien via que ela tentava, mesmo que estivesse falhando miseravelmente.
Era por isso que ela lembrava tanto seu eu do passado.
Mas, mesmo assim, essa não era a razão por que ele tinha vindo conversar com ela.
“Ugh... Eu também não era tão bom, mas você—”
“Preciso da sua ajuda.”
“Huh?”
Ela foi interrompida no meio de uma maldição, ao virar a cabeça pra ele, percebendo a mudança de Julien—de uma presença calma e centrada para algo mais frio.
A mudança repentina a desconcertou.
Que tipo de...
“Tenho alguma coisa em mim.”
Julien baixou a cabeça pra segurar a camisa.
“Está tentando dominar meu corpo, e mesmo que eu consiga selar isso por enquanto, não sei quando o feitiço vai se romper. Pode ser mês que vem, semana que vem, amanhã, ou até... agora.”
Kiera ficou imóvel, ouvindo suas palavras.
“Eu tô me segurando até agora, mas tá cobrando preço de mim, sabe?”
Kiera lambeu os lábios.
“Não saber quando essa bomba-relógio explode? Se ela realmente tomar conta, o que eu faço? Como posso parar isso?”
“Isso...”
Kiera coçou a testa.
“Você não pode simplesmente—”
“Contar pra Academia?”
“....Sim.”
“Já contei. O motivo de estar selado é porque recebi ajuda deles.”
“Então...”
“Não é suficiente.”
Kiera engoliu em seco, uma onda repentina de nervosismo dominando ela. Algo na forma como tudo se desenrolava a deixava desconfortável, como se ela pudesse sentir pra onde aquilo ia levar, e isso a fazia arrepiar.
Isso, não pode ser...
Não, é impossível. Não pode ser.
Mas, quando ela levantou a cabeça pra olhar pra ele, tudo que viu foi o olhar de todo o conhecimento em seus olhos.
“...Ah.”
“O espelho, eu preciso dele.”
Kiera sentiu seu corpo descer como se mergulhasse fundo no escuro do oceano, a pressão se fechando ao redor dela, sufocando com cada respiração. Sem perceber, deu um passo atrás, instintivamente tentando fugir do momento.
“Você, como...”
Mil pensamentos giraram na cabeça dela.
‘Como ele sabe? Não há como ele saber... Não pode ser que ele...!’
Mas antes que as coisas piorassem, Julien pressionou o dedo contra a têmpora.
“Tenho uma habilidade.”
Ele falou, sua voz mal passando por ela.
Quando ela parou pra olhar, ele cerrnhou a mandíbula por um momento, soltando uma respiração baixa antes de continuar:
“São apenas vislumbres, imagens, mas por um breve momento... consigo ver o futuro.”