
Capítulo 514
Advento das Três Calamidades
Rustle~
"...Você está se esforçando mais do que eu imaginava."
Os lábios de Seraphina se curvaram para cima ao notar que a árvore ainda resistia. Apesar de várias dezenas de fios conectados a ela, ela ainda não havia se rendido completamente.
Ela ainda resistia.
Virando a cabeça para olhar na direção das muralhas da cidade distante, ela assentiu discretamente e pressionou a mão contra a casca da árvore.
"Não devo adiar isso por mais tempo."
Ao seu redor, a mana começou a se aglutinar rapidamente e uma forte pressão explodiu de seu corpo repentinamente.
Para que tudo fluísse de forma suave, ela precisava tomar o controle total da árvore.
Ela quase lá, mas faltava a última peça.
"Pare de resistir."
Surgiram trilhos ao redor, e sua mente se concentrou em um ponto específico.
Aonde uma figura parecida com uma coruja se impunha.
'Eu te vejo.'
Como se a percebesse, os olhos da coruja se abriram repentinamente, mas já era tarde demais.
"!"
Antes que pudesse reagir, os trilhos se conectaram ao seu corpo e logo após, várias raízes surgiram do nada, prendendo seu corpo.
"Peguei você!"
Rindo, Seraphina apertou a casca da árvore.
As raízes continuaram a envolver a coruja, e Seraphina sentiu sua força sobre ela aumentar.
Enquanto isso acontecia, a coruja tentou resistir, mas era inútil.
"Pare de resistir, acabou."
Voo—!
Sua mão brilhava ainda mais intensamente, e as tentativas da coruja se tornaram mais esforçadas.
Não havia como escapar dela.
Era o fim.
Era...
"Huh?"
Levando a cabeça, Seraphina percebeu uma pequena folha vermelha caindo sobre ela. Outra, e logo mais folhas seguiam a primeira.
Gradualmente, mais folhas começaram a cair da árvore, deixando seu corpo desnudo.
Seraphina olhou para a cena com expressão vazia, antes de sorrir.
"Parece que você finalmente desistiu."
A perda das folhas significava uma coisa só.
A consciência da árvore ia ceder.
Ela não tinha mais como resistir.
Então, pensou em seu filho, que estava dentro da árvore, e lambeu os lábios.
Depois de dominar a árvore, o próximo seria ele.
"...Só mais um pouco."
Voo—
A mana ao seu redor começou a girar ainda mais veloz.
Existir.
O que significava existir?
Não há resposta definitiva para essa questão.
Todos os seres vivos têm propósitos e aspirações diferentes.
Para alguns, a resposta era simples; sobreviver e reproduzir. Isso geralmente se aplica aos seres menos conscientes.
Mas e aqueles que têm pensamentos mais elevados?
Qual seria a razão de sua existência?
A resposta deles seria algo tão simples quanto sobreviver e reproduzir?
Não, não era algo tão trivial assim.
Havia mais na existência deles do que isso.
Owl-Poderoso compreendia isso. Tendo visto várias memórias, entendia esse conceito, mas quanto mais via, mais confuso ficava.
Seus pensamentos primários giravam em torno de "crescer, sobreviver e reproduzir". No entanto, à medida que sua consciência se expandia, começava a perceber que esses instintos já não eram suficientes.
Quanto mais despertava para sua própria consciência, mais profundo crescia seu desejo por algo além da mera existência.
Ele ansiava por um propósito que transcendesse o ciclo básico da vida, movido por uma curiosidade recém-descoberta e pelo desejo de compreender.
'Por que existo...?'
A dúvida o perseguia durante toda a vida.
Ele queria entender.
Ele queria saber.
...E por isso, fez algo que nunca tinha feito antes.
Deixou seu próprio corpo em busca de uma resposta.
Owl-Poderoso observava tudo, tentando decifrar a resposta. Queria entender.
Estava desesperado para saber, e quase encontrou uma resposta.
Seguindo Julien, Owl-Poderoso sentiu que havia captado alguma coisa.
Estava mais próximo do que nunca.
Mas...
'Eu...'
Squelch, squelch~
Ao ver suas próprias raízes cravando nele, Owl-Poderoso se sentiu preso. Apesar de seus melhores esforços para resistir, não conseguiu.
As raízes eram demais, prendendo seu corpo.
'Ainda não...'
Owl-Poderoso continuou resistindo, mas não adiantou.
Seu próprio corpo o rejeitava.
'Não, pare...'
Owl-Poderoso bicou a raiz mais próxima com seu bico, mas foi inútil.
...Não conseguiu fazer nada.
'Ah.'
Um sentimento estranho começou a surgir dentro dele.
Era uma sensação desconfortável.
Algo que, ao refletir, não era tão estranho assim.
O que era essa sensação?
"Parece que você está frustrado."
A resposta veio na voz familiar. Levantando a cabeça, Owl-Poderoso cruzou os olhos com um par de olhos castanhos profundos.
"Humano..."
Por que ele estava ali?
Owl-Poderoso olhou ao redor, e, como esperado, percebeu que as raízes ao redor se mexiam.
"...Você deveria sair antes que seja tarde—"
Squelch, squelch!
Antes mesmo que pudesse terminar de falar, várias raízes surgiram sob Julien, que pisou firme e evitou as raízes.
Swoosh—!
Por um fio de cabelo, conseguiu escapar das raízes.
Mas aquilo era só o começo. Assim que desviou das primeiras raízes, mais raízes apareceram atrás dele, enrolando no ar como cobras.
Como se tivesse olhos nas costas, Julien manteve a calma e simplesmente estalou os dedos.
Thud, thud!
Eles se despedaçaram em uma dúzia de pedaços antes de caírem ao chão.
"Hooo."
O ar saiu da boca de Julien enquanto suas sobrancelhas se franziram fortemente. Ainda não tinha acabado. Olhando para baixo, para cima e para os lados, raízes surgiam por toda parte.
E mesmo assim, continuava a lutar.
"Por quê?"
Sua resistência fez Owl-Poderoso questionar sua decisão.
"...Por que você continua resistindo?"
Já era o fim.
Não fazia mais sentido resistir.
Owl-Poderoso estava a poucos minutos de ser absorvido.
Nesse momento, Julien também cederia. E mesmo se tentasse fugir agora, aquela mulher estaria esperando por ele lá fora.
"Já acabou, pare de resistir."
Não havia mais saída.
Xiu, Xiu—
Mesmo assim, Julien continuou lutando.
Owl-Poderoso já o tinha visto agir assim antes, na época em que conheceu o dragão boboca pela primeira vez.
A primeira vez que ficou realmente impressionado com um humano, e que despertou sua curiosidade, mas também o fez questionar.
"...Por que você luta diante da morte certa?"
"Por quê...?"
Ao ouvir a pergunta de Owl-Poderoso, Julien inclinou a cabeça de lado, winçando ao passar uma raiz rente à bochecha.
Julien tinha muitas respostas, mas, após algum tempo, uma realmente se destacou das demais.
"Porque já morri uma vez."
"...?"
"Hoo..."
Displicente, Julien abaixou-se, seus músculos inchando e os olhos se tornando vermelhos. Ele avançou com o punho ebateu as raízes que se dirigiam a ele.
Bang!
"Antes, eu vivia pelo meu irmão."
Relachando as costas, os olhos de Julien ficaram afiados.
"Eu não tinha mais ninguém além dele. Ele era o motivo pelo qual eu vivia. Era assim até depois de morto, mas agora é diferente."
"Diferente?"
"Aprendi a parar de viver com medo de viver. Agora comecei a viver de verdade, e a perder o sentimento de apenas existir."
Perder o sentimento de apenas existir?
Algo de diferente ferveu no peito de Owl-Poderoso.
O que ele queria dizer com isso?
"Sim."
Swoosh!
A perna de Julien tensionou, e sua figura ficou turva, desaparecendo a alguns metros de distância. Seu rosto ficou pálido enquanto levantava a mão, e mãos roxas surgiram do chão, agarrando as raízes que se dirigiam a ele como uma tsunami.
"Você não acha estranho que existam tantas versões de mim neste mundo? Para Leon.. Haa... Posso ser um mestre irritante que nem mesmo é o verdadeiro mestre deles. Uma pessoa irritante de modo geral."
O rosto de Julien ficou um pouco mais pálido.
"Para você, posso ser uma ferramenta simples feita para ajudar a entender emoções."
Recuando, as raízes diante dele desaceleraram.
"Alguns me veem como uma criatura fria e indiferente, que não podem tocar ou alcançar, enquanto outros me consideram um cara arrogante, nascido em berço de ouro e com talento de sobra."
Pausou, balançou o pulso e todas as raízes se dividiram.
"Mas essas versões de mim são o verdadeiro eu?"
Owl-Poderoso pensou por um momento antes de balançar a cabeça.
"Não são."
"Exato."
Julien sorriu.
"São apenas pedaços e fragmentos moldados pela maneira como as pessoas me percebem através das poucas interações que tiveram comigo."
Na realidade, não eram ele de verdade.
"Será que a soma de todos esses fragmentos é o verdadeiro eu?"
Mas e se a impressão que alguém tem de mim estiver totalmente errada?
Esse fragmento contaria?
"...Ou será que o verdadeiro eu é aquele que eu mesmo percebo?"
Owl-Mighty ficou em silêncio, sem conseguir responder.
"Acho que também não é isso."
Julien continuou.
"Meu julgamento é falho, tendencioso, e também os fragmentos que os outros veem de mim."
Quanto mais falava, mais suas palavras ressoavam no espírito do coruja.
"Sou indefinível..."
Não definido.
"...E é isso que me faz existir."
Mais uma vez, fez uma pausa e olhou diretamente para o owl.
"Existiria unicamente com base nas escolhas que faço, nos caminhos que trilho e nas emoções que sinto."
"Quero ser feliz, mas me apego às coisas que me deixam triste."
"Se eu esquecer toda a dor, fizer ela desaparecer, serei feliz. Consigo fazer isso. Tenho o poder."
"...Mas não consigo esquecer."
"Sou quem sou por causa da dor que vivi."
"Sou quem sou por causa das minhas experiências."
Sou quem sou pela dor que suportei? Sou quem sou pelas minhas experiências?
Owl-Mighty sentiu seu peito vibrar ainda mais.
Ergueu a cabeça, e seus olhos se arregalaram ao ver uma raiz se prender a Julien.
"Kh!"
Julien tentou resistir, mas não adiantou. Quando seus movimentos desaceleraram, mais raízes surgiram, agarrando-o firmemente.
"Ah, acho que eles me pegaram."
...E mesmo assim, apesar da situação, ele continuou falando, seus olhos nunca desviando do coruja.
"Desde o momento em que você deixou de ser uma árvore e começou a questionar sua própria existência, você passou a forjar uma identidade."
Owl-Mighty abriu o bico, querendo dizer: 'Pare de falar. Concentre-se em si mesmo', mas as palavras não saíram.
As palavras de Julien pareciam hipnotizá-lo.
"Você deixou de ser definido e passou a ser indefinido."
Tudo o que ouvia eram as palavras dele.
"...Você deixou de ser uma simples árvore com folhas vermelhas."
Um monstro...
"Você começou a fazer suas próprias escolhas, trilhar novos caminhos e sentir emoções."
O peito do Owl-Mighty continuava a se agitar, e algo dentro de sua mente se quebrou.
"Você está existindo."
Existindo?
"Dentro da sua mente, você existe."
Eu existo?
"Para mim, você existe."
Mas...
"E isso já basta."
É?
"Sim."
'....'
"Então..."
Owl-Mighty olhou nos olhos de Julien.
"Floresça."
"Faça sua existência ser conhecida pelos outros."
"Floresça."
"Crie os pequenos fragmentos que te definem."
"Floresça."
"Pare de perguntar, comece a ser."
"Floresça."
"Não desista de existir."
...E uma breve pausa veio logo depois.
Foi um silêncio que durou apenas alguns segundos antes do Owl-Mighty fechar os olhos.
A partir daquele momento, uma mudança aconteceu.
"Uh?"
Seja Seraphina ou as pessoas dentro da cidade.
"O que está acontecendo?"
Todos perceberam as mudanças.
"O que está acontecendo?"
Não dava para deixar passar despercebido.
Depois de tudo, naquele dia, uma árvore floresceu.
Era uma árvore alta.
Muito alta.
Que parecia tocar o céu e alcançar a mente de todos presentes.
Nesse dia, fragmentos foram criados.
Nesse dia...
Owl-Mighty realmente começou a existir.