Advento das Três Calamidades

Capítulo 513

Advento das Três Calamidades

—“Hm?”

Ele virou a cabeça, e minha espinha arrepiou.

Parei imóvel, o coração batendo forte no peito, rezando para que ele desviasse o olhar, como se fosse uma coincidência comum, como sempre era.

Mas... ele não fez isso.

‘Ele... Ele... Ele consegue me sentir.’

—“!”

Meu coração quase saiu pela boca quando ele estendeu a mão na minha direção, como se tentasse me agarrar.

Uma mão enorme apareceu diante dos meus olhos, sua sombra querendo me engolir por completo.

Toda a minha pele gritava de medo, enquanto uma notificação piscava na minha visão, instando-me a correr, dizendo que aquilo era real, mas eu permanecia enraizado, paralisado por uma força desconhecida que me impedia de me mover.

‘Mexa! Mexa...! Preciso me mexer...!’

Não podia deixar aquela mão me tocar.

Não podia...!

Swoosh!

...A mão passou bem por dentro de mim.

—“Ah.”

Ao ver a mão atravessando meu corpo, meu corpo ficou fraco, mas ao mesmo tempo senti um alívio visível.

Porém, esse alívio não durou muito.

—“Estranho.”

Ao ouvir sua voz, minha boca secou completamente, e a sensação de pavor que senti antes aumentou mais uma vez à medida que ele se inclinava para frente, analisando o local onde eu estava.

—“...Consigo sentir algo, mas não consigo tocar.”

Apalpei os lábios.

—“Sim, sinto algo.”

E ele balançou a mão na minha direção, atravessando-me novamente.

—“Que coisa peculiar.”

Ele parecia intrigado.

—“Nunca vivi algo assim antes, mas posso mais ou menos sentir você.”

Ele levantou a cabeça e olhou diretamente para mim.

—“Você está aí, não está?”

Engoli em seco, mas me acalmei e retribuí o olhar para ele.

Ele se aproximou mais.

—“Você está me observando.”

Eu estou.

—“...Emmet.”

Esse sou eu.

Sithrus sorriu, de uma forma quase assustadora, mas direta.

—“Agora que achei uma saída para esse lugar miserável, você finalmente está se mostrando? É por isso que está observando?”

Não exatamente.

—“Eu... consegui.”

O dedo trêmulo de Sithrus apontou na minha direção, sua voz tremendo.

—“Anos estamos presos aqui — sozinhos, lutando para sobreviver, arranhando o vazio em busca de uma saída.”

—“Mas eu consegui.”

—“Tornei-me o mais forte.”

Sua mão se aproximou, mas seu dedo atravessou-me como se fosse um espectro.

—“Tornei-me o pilar deles.”

—“Tornei-me a esperança deles.”

—“Tornei-me... o deus deles.”

Sua voz ficou mais firme a cada declaração, e esticando a mão em direção ao espelho reluzente com rachaduras atrás dele, ele olhou para ele com uma reverência quase obsessiva.

—“E agora que me tornei o deus deles, eles passaram a ser meu povo.”

—“Sou a voz deles.”

—“Seus olhos.”

—“Seus ouvidos.”

Ele se virou completamente para mim, o olhar queimando.

—“Então, faça o que fizer, fique nas sombras. Continue observando, como sempre foi seu jeito covarde. Assista enquanto lidero o povo que você traiu pelo seu irmão. Assista enquanto reacendo as cinzas do que você abandonou.”

O ar ao redor dele vibrava com uma energia opressora, ondulando como uma entidade viva. Sem mais uma palavra, ele se virou e entrou na Rachadura do Espelho, sua forma dissolvendo-se na superfície fragmentada, sendo consumido pouco tempo depois.

Nos momentos finais, uma tênue reverberação de sua voz chegou aos meus ouvidos, permanecendo por um bom minuto.

—“Observe atentamente... e lembre-se.”

—“...Eu não estou errado.”

—“Você que estava.”

—“....”

O mundo ficou silente então.

Fiquei em silêncio, olhando para o lugar onde Sithrus tinha estado, meus pensamentos fechados enquanto processava tudo cuidadosamente.

Mas ao mesmo tempo, fiquei confuso.

‘Ele quer sair daqui, entendo isso.’

Ele virou a esperança deste lugar.

Ele criou as Rachaduras do Espelho para ajudá-los.

Ele se tornou o deus deles.

Mas e eu? O que aconteceu comigo?

Senti-me perdido ao tentar conectar todas as visões recentes com as informações que acabara de aprender. Do jeito que ele falou, parecia que eu os havia abandonado.

...Que eu era um traidor.

De certa forma, o vilão.

Mas será que eu realmente era?

—“Não... não sou.”

Para ele ter vivido tanto tempo, ao lado do povo aqui, só podia haver uma explicação.

—“Noel... Eles estão usando Noel como fonte de alimento.”

Meus punhos cerraram forte só de pensar nisso, principalmente ao lembrar do vídeo que vi no telefone refletido no espelho.

—“Não me provocam.”

De jeito nenhum eu estava errado.

Conhecia a mim mesmo melhor que qualquer um.

Não agiria a não ser que aquilo que vi me obrigasse a agir, sem escolha.

Havia uma razão para minhas ações.

Precisa haver.

—“Aí... Uh?”

Perdido em pensamentos, não notei as mudanças sutis que aconteciam ao meu redor. Quando recuperei a consciência, um tronco gigante se ergueu à minha frente, suas folhas vermelho-sanguento sussurrando com o peso do ar.

—“Espere, quando...?'

Na última lembrança, a árvore tinha sido destruída em milhares de pedaços por Sithrus. Como...?

Mas aquilo não era tudo.

Voom—!

Ao virar a cabeça, vi várias pessoas saindo da Rachadura do Espelho, com roupas desconhecidas e uma língua diferente também.

Tudo a partir dali pareceu um filme acelerado.

Vi cidades, impérios e civilizações caírem.

Tudo se movia em alta velocidade ao meu redor.

Mudanças continuavam acontecendo, e enquanto assistia a todas elas, a única coisa que permaneceu igual foi a árvore vermelha à minha frente.

Sussurro~

Apesar do tempo passar, a árvore permanecia alta. Ou melhor, ao olhar mais de perto, não era só uma árvore. Ao meu redor, percebi muitas outras. Centenas, talvez milhares, surgiram. Elas se estendiam sem fim, suas silhuetas fundindo-se com o horizonte.

Antes que percebesse, toda uma floresta se formara.

Verde, ou melhor, vermelho, cobria o céu enquanto as folhas eram levadas pelo vento.

Assisti em silêncio enquanto a árvore gigante começava a se mexer com vida. Humanos surgiam ao fim da floresta, com mandíbulas abertas e olhares vazios.

Squelch~ Squelch~

Sem uma palavra, ajoelhavam-se diante da árvore, sem pensamentos, enquanto suas raízes avançavam por seus corpos, se enroscando como correntes sinistras e vivas.

Depois, as raízes mergulhavam fundo na carne deles, drenando sua essência. Com os sons nojentos de alimentação no ar, a árvore crescia cada vez mais, seu dossel vermelho-sangue se espalhando a cada vida que consumia.

Squelch~

Com o tempo, a árvore começou a se destacar entre as demais, e mais humanos surgiram, reunindo-se silenciosamente abaixo dela.

Por um instante, quase consegui sentir os pensamentos do monstro vindo de lá.

‘Cresça, cresça...’

Ele queria crescer, ficar mais inteligente, entender mais.

Quanto mais crescia, mais esperto ficava.

Sussurro~

À sua volta, as outras árvores começaram a mostrar sinais sutis de vida também.

E assim, mais humanos começaram a aparecer.

Com eles, surgiram monstros; em pouco tempo, toda a floresta virou uma zona de morte perigosa.

Rumores se espalharam, e o número de humanos que apareciam começou a diminuir.

Numa situação assim, a maior árvore, agora claramente com consciência, desviou seu foco dos humanos para seus semelhantes.

Squelch! Squelch~

Não poupou ninguém.

Como a mais forte das árvores, começou a absorver as outras, usando-as como nutrientes para crescer ainda mais.

‘Cresça, cresça...’

As outras árvores tentaram resistir, mas era inútil.

Seu poder não era nada perto da árvore-primal, e, aos poucos, a floresta começou a diminuir.

Árvores moveram-se, migrando para diferentes áreas, enquanto as que não conseguiam morreram, servindo de alimento para a árvore principal.

Assisti a todas essas mudanças em tempo real, e vendo o quão desesperada a árvore estava, comecei a questionar:

‘Por quê?’

Por que ela estava tão desesperada por crescer?

Por que atacaria sua própria espécie?

...Parecia até que ela tinha consciência de que o tempo estava se esgotando.

De quê? De que estaria ela se esgotando...?

E então, a vi.

Sussurrar~

As inúmeras folhas caindo da árvore.

—“Ah.”

A compreensão veio rápida.

—“Depois de todo esse tempo, sua vida está chegando ao fim.”

Assisti tudo.

Vi o crescimento da árvore ao longo do tempo.

Sabia que ela era velha, mas, vendo que nunca mudava, tinha a impressão de que ela nunca iria morrer.

Estava enganado.

—“Cresça, cresça...”

A árvore não era imortal.

Squelch~

Nada é imortal mesmo.

Não, quase nada.

—“É ele...”

As folhas continuavam a cair, revelando os galhos nus da árvore.

Por fim, todas as folhas caíram, deixando a árvore nua.

—“Cresça... Cresça...”

Apesar de tudo, a árvore persistia em absorver tudo ao seu redor. Parecia uma última tentativa desesperada de tentar se segurar viva.

Mas...

Era em vão.

A idade não poderia ser ignorada.

A árvore só podia assistir sua existência começar a desaparecer.

Squelch~ Squelch~

Em seu estado debilitado, as demais árvores começaram a absorvê-la, assim como fizeram no passado com as outras. A árvore tentou resistir, mas era inútil.

Raízes surgiam por toda parte, cavando fundo e sugando seu interior.

Com o tempo, a árvore começou a definhar, encolher e perder vitalidade. Os dias passavam e ela apodreciu até restar apenas uma carcaça vazia.

Cra Crack—

O núcleo quebrado, símbolo do seu fim, caiu ao chão e rachou ao meio.

Nos últimos momentos, fiquei olhando para a árvore em silêncio.

Foi então que percebi: ‘Posso me mover novamente.’

E assim, fiz.

Avançando, cheguei ao tronco e coloquei a mão sobre ele.

—“Existência.”

Uma voz familiar chegou aos meus ouvidos.

—“...Por que eu existi? Para que propósito?”

Nos seus últimos momentos, a árvore começou a questionar sua própria existência.

—“Comi tudo o que pude. Tornei-me mais forte que qualquer coisa que se pudesse imaginar. Devorei e vivi as memórias de todas as minhas presas, e ainda assim... estou mais confuso.”

—“Eu como. Eu observo. E eu cresço.”

—“É só isso a minha vida?”

—“Sei que 'eu' existo, mas não entendo o que é esse 'eu' que 'eu' conheço.”

—“O que estou perdendo?”

—“Se ao menos...”

As ideias pararam ali, e o silêncio veio logo depois.

—“Gonado.”

Percebi então que a árvore havia desaparecido.

...Não havia salvamento possível.

Ou pelo menos, era o que eu achava, até que...

Sussurrar~

Uma pequena folha vermelha surgiu debaixo do tronco.

Fiquei olhando para ela por um instante, e então, silenciosamente, franzi os lábios e compreendi.

—“Renascença.”

Não entendia exatamente como, mas a morte não era o fim.

Havia algo mais nisso, e logo a árvore voltou a crescer.

Porém, diferente de antes, ela não ficou no mesmo lugar. Fraca e incapaz de competir com as demais, ela arrancou suas raízes e começou a percorrer os terrenos. Como antes, absorvia tudo pelo caminho e continuava a se expandir.

...Ela comia, absorvia e repetia.

Assisti tudo em silêncio, e em cada momento, a única coisa que a árvore nunca deixava de fazer era:

—“Por que eu existo.”

...Questionar sua própria existência.

Mesmo com sua vida chegando ao fim novamente, e o ciclo de renascimento começando outra vez, a árvore persistia em seu ciclo repetitivo. A cada absorção, adquiria compreensão, mas ao mesmo tempo ficava mais confusa.

O paradoxo de sua existência se aprofundou, presa em um ciclo sem fim de entendimento e dúvida.

Mas, apesar de todas as tentativas, ao longo de toda a sua vida, ela nunca compreendeu.

...E foi nesse momento que a visão terminou.

Quando recuperei-me, estava de volta em frente ao corpo principal do Bicho-Papagaio.

Levantei a cabeça e encontrei com o olhar a árvore me encarando. Suas folhas sussurravam suavemente, produzindo um som tranquilo, estranho, que ecoava no silêncio. Por outro lado, as raízes estavam firmemente presas ao meu corpo, entrelaçadas e me mantendo no lugar.

—“.....”

Com o silêncio se instaurando, a árvore parecia me questionar,

‘Por que eu existo?’

Para isso, balancei a cabeça e olhei através da árvore, onde uma figura parecida com uma coruja, toda entrelaçada com raízes, apareceu.

—“.....Era você o tempo todo.”

Pensei na primeira vez que encontrei o Bicho-Papagaio.

Naquele momento em que vi o mundo de Karl — o Líder dos Cães Negros — e ele questionou sua própria existência.

‘O que há de real na vida que não é falsificado...?'

Suas palavras ecoaram mais uma vez na minha cabeça.

‘Estou aqui? Você está aqui...? Existe algo, em geral, de fato aqui?’

Pensava que esses eram seus pensamentos.

‘Acordo, tomo café, vou ao trabalho, volto pra casa, janto, e repito tudo. Estou vendo meus dias se fundirem numa sequência sufocante e interminável, que esgota minha vida.’

Achava que a árvore só estava usando a crise dele para se divertir às custas dele.

‘Quanto você realmente lembra da sua vida? Acho que esqueço o que fiz ontem assim que acordo. Mesmo que me lembre, dois dias depois já não lembro nada. Você pode dizer que vive mesmo, se acaba esquecendo tudo?’

Porém, eu estava enganado.

—“Qual é a finalidade?”

Essas nunca foram as verdadeiras ideias de Karl.

—“Estou apenas à deriva, perdendo tempo, vendo-me repetir as mesmas ações sem poder parar.”

Essas sempre foram as ideias da árvore.

Por que eu existo?

Por que você existe?

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