
Capítulo 500
Advento das Três Calamidades
Drogaa~
Da Da Da—
Drogaa— Da Da—!
Uma melodia animada ecoava no ar.
A nota fluía suavemente pelo espaço enquanto dois dedos grossos pressionavam elegance o teclado do piano.
Drogaa— Da Da—!
Era uma melodia simples, e mesmo assim... soava maravilhosamente no ar.
A música continuou tocando por mais alguns minutos antes de finalmente cessar.
"Muito bem, você melhorou bastante."
"Ah, mestre."
Arrumando a nuca, o jovem olhou para baixo com vergonha.
"Você antes não conseguia tocar a melodia, mas olhe só em quanto você está ficando mais inteligente a cada dia. Que tal? Sente as mudanças?"
"...Eu sinto."
Respondeu a criança, cuja voz agora soava um pouco mais profunda do que antes.
Alguns anos haviam se passado desde o dia em que ele foi trazido para aquela sala e treinado com seu mestre. Agora tinha treze anos e seu corpo tinha passado por diversas transformações. Estava maior, com uma estrutura mais robusta e músculos mais definidos.
'Tudo isso graças ao mestre.'
Os pensamentos da criança estavam agora mais claros que antes.
Ele conseguia falar fluentemente e absorvia todas as informações como uma esponja.
E tudo isso graças ao comprimido milagroso que seu mestre lhe ministrara. Sem ele, ele não seria nada.
"Me diga, quais são as mudanças? Quão forte você está agora?"
"...Não tenho certeza, mas estou quase desenvolvendo um domínio."
"Um domínio aos quatorze anos? Nada mal, nada mal mesmo."
O adolescente, que agora era um pré-adolescente, sorriu feliz.
"Fiz o meu melhor."
"Você superou de longe minhas expectativas. Acho que já está na hora de você sair."
"Sair?"
Uma expressão de empolgação brilhou nos olhos do garoto.
Nos últimos anos, ele estava preso na sala, treinando e aprendendo todos os dias. Não passava um dia sem que pensasse no mundo lá fora, no lugar de onde veio.
Ele queria ver o céu cinza lá fora.
Queria sentir o frio mais uma vez.
...E, acima de tudo, queria respirar o ar fresco do mundo exterior.
"Com seus novos poderes, em breve enfrentará mais responsabilidades, meu filho. Nem tudo será só dias de sol e arco-íris."
"Nem...?"
"Nem."
O mestre balançou a cabeça, caminhando em direção ao adolescente que agora tinha mais altura que ele.
Sua mão foi pressionada contra o topo da cabeça do garoto.
"Você ainda é ingênuo, mas com a sua nova inteligência, sei que conseguirá enxergar além do que antes não via. É só então que você tomará o comando."
"Eh?"
O mestre sorriu.
"...Não estará muito longe o dia em que você se tornará o próximo líder da Casa Astrid."
*
"Então, a energia está quase acabando da caixa e logo as marionetes começarão a atacar este lugar também."
"...Isso... está correto."
O velho acenou com a cabeça, mexendo na caixa em suas mãos.
"Por quanto tempo acha que a caixa vai durar?"
"Um dia... talvez dois?"
"O quê?"
Toquei minha testa, sentindo uma dor de cabeça chegando.
"...Se for assim, qual a razão de terem nos fazer passar por tudo aquilo?"
Sim, agora éramos mais resistentes aos fios, mas isso importava? Eu tinha certeza de que conseguiríamos aguentar uns dois dias.
"Você não aguentaria esse tempo."
"Hã?"
"...A deterioração mental... que aumenta com cada fio no corpo. Sua mente... ficará muito confusa."
"Entendi."
Mas ainda achava que daria tudo certo.
Olhei para o velho que parecia ainda mais envelhecido, e uma ideia me veio.
'Talvez, ao invés de garantir que sobrevivêssemos mais tempo, ele fez isso porque não consegue durar muito.'
Ele queria criar esperança.
Para o caso de não aguentar, ele queria que nós resistíssemos.
Talvez, nós éramos a última esperança que ele tinha para resolver toda essa situação.
'Haha.'
Esse velho lunático.
'...Ele realmente era tímido.'
Observei ao redor e vi Kaelion e Caius com expressões de compreensão similares. O velho parou, franziu a testa e deu um peteleco na língua.
"Três idiotas, vocês são três idiotas."
Cruzando os braços, ele se sentou no chão com as pernas cruzadas e suspirou.
"Será que estava esperando demais? Por que acabei tendo esses idiotas na minha última hora? Deveria simplesmente jogar a toalha?"
Com um olhar resignado, ele deu um suspiro.
"...Eu desisto."
Balancei a cabeça ao vê-lo.
Assim, ele não era só um lunático e uma pessoa tímida, mas também um dramático. Quanto mais conhecia o velho, mais excêntrico ele parecia.
De qualquer forma,
"O que devemos fazer agora?"
"Hm?"
"...Você disse que tinha uma ideia sobre o cérebro por trás de tudo. Como só nos restam alguns dias até a caixa acabar, não deveríamos tentar descobrir quem é o mestre ou pelo menos fugir daqui?"
"Ah, é mesmo."
Com a barba pensativamente, o velho abriu a boca para falar, mas hesitou. Seus olhos pareciam buscar as palavras certas no ar, até que fechou a boca, em silêncio.
Olhou para nós, lambeu os lábios e voltou a fechar a boca.
"Não, ainda não é a hora."
"O que? O que—"
Ping, ping.
Batendo no chão ao lado dele, ele fechou os olhos.
"Descanse por enquanto. Avisarei quando chegar a hora."
A partir daquele momento, ele deixou de falar.
Tentei dizer algo, mas...
"Uarrkh—!"
Seu ronco alto abafou minha voz.
Sem outra alternativa, só pude me sentar no chão e descansar.
O que mais eu poderia fazer?
*
Quando alguém fica mais inteligente, o mundo muda na visão dessa pessoa.
Tudo fica mais claro instantaneamente e começam a perceber as coisas subjacentes que antes não conseguiam enxergar.
"Ei, não é...?"
"Meu Deus, é aquele cara. Pensei que ele tinha morrido."
"Ele é aquele retardado."
Pessoas que antes eram vistas como gentis, de repente, deixaram de parecer tão boas.
Pelas palavras, expressões faciais e ações.
De repente, tudo ficou claro.
'...Estavam me zoando.'
Mas por quê?
Por que zombariam de alguém por ser um pouco burro?
Qual o problema em ser um pouco burro?
"Como você está? Pensei que tinha morrido. Melhorou na limpeza? Foi por isso que saiu—"
"É divertido?"
"Hã?"
"...É divertido rir de quem não consegue pensar direito? Atacar alguém por suas limitações é o menor poder que alguém pode ter."
Uma pessoa burra ainda é uma pessoa.
E não há deficiência maior do que não conseguir perceber o verdadeiro valor de alguém.
"Que tipo de não—"
"Eu já não sou mais como era antes. Consigo enxergar suas palavras, expressões e intenções. Sou mais inteligente do que você jamais será, e o mesmo vale para o meu poder."
Palavras saíram da boca do adolescente.
Quanto mais fluentemente ele falava, mais as pessoas ficavam chocadas.
Era uma memória gravada profundamente na mente do garoto, marcando o dia em que ele mudou.
Naquele dia, as pessoas aprenderam a valorá-lo não como um tolo, mas como alguém inteligente.
"Não tenho nada que você queira, e tenho tudo o que você gostaria. Quero que continue me observando. Veja enquanto eu ascendo a um lugar que você nunca alcançará. Veja enquanto alguém que um dia zombou de mim se torna exatamente aquilo que você desejava."
Com essas palavras, ele foi embora.
...E permaneceu fiel ao que disse.
Com a ajuda do comprimido do mestre, conseguiu subir em poder muito rapidamente. Tornou-se mais forte a cada dia, mais inteligente ao mesmo tempo.
Tão inteligente que todos ao seu redor pareciam idiotas.
'Agora consigo perceber.'
E foi nesse momento que ele entendeu.
'...Sei por que me zombavam antes.'
Não sabia exatamente quando, mas também começou a rir deles, assim como eles haviam rido dele uma vez. Mas isso não era o que mais doía.
O que mais doía era perceber que também ria de como era antigamente.
Isso doía demais.
Machucava de verdade.
Com o cérebro mais desenvolvido, começou a aprender sobre outras emoções.
Aprendeu sobre arrogância, e sua inocência anterior foi dissipando. Diversos pensamentos intrusivos invadiram sua mente, levando a obsessões intermináveis.
Tentou se livrar deles, mas quanto mais inteligente ficava, mais obcecado se tornava.
De repente, sentiu-se preso dentro de sua própria mente.
'Estou lentamente desmoronando e perdendo a noção do que me faz... eu mesmo, e isso me assusta. Não quero deixar de ser quem sou.'
Parecia que olhava a vida através de uma janela.
Porém, encontrou uma maneira de limpar sua mente mais uma vez.
Viu uma luz dentro do túnel escuro de sua mente.
'... Está próximo, eu sinto.'
O túnel rumo ao próximo nível.
O famoso Auge.
Contanto que atravessasse esse degrau, seria livre.
Se ao menos...
"Eu... não tenho muito tempo de vida."
As coisas aconteciam sempre de forma inesperada.
"Estou muito feliz com o que... você virou."
Seu mestre.
"Você superou todas as minhas expectativas anteriores, e espero que conduza a Casa a uma era de prosperidade..."
Aquele homem que o criou do zero morreu aos sessenta e sete anos.
A partir de então, ele se tornou o Líder da Casa Astrid.
Naquele dia...
Sua pena de prisão se prorrogou.
*
"Acorde—" Uma voz baixa me despertou dos sonhos. Quando abri os olhos, surgiu uma barba longa e espessa bem acima de mim e quase tive um ataque cardíaco.
Estava prestes a reclamar, quando uma mão pressionou contra minha boca.
"Fique em silêncio."
Olhei para cima e vi o velho olhando com uma expressão extremamente séria.
Naquele momento, meu coração afundou.
'O que está acontecendo?'
Olhei ao redor e vi Kaelion e Caius encarando na mesma direção do velho, com expressões parecidas.
Se eles agiam assim...
"...Está quase na hora. Prepare-se. Em breve vocês três precisarão sair daqui."
Antes que eu pudesse falar, o velho falou por cima de mim.
"Eu... não tenho muito tempo."
Sua voz tremia, mas fazia sentido.
"...Vai acabar assim que me pegarem, mas... esse também é o melhor momento para vocês resolverem isso."
Ele abaixou a cabeça, olhando para mim.
"Com toda a energia focada em mim, as marionetes não reagirão muito. Libertem-nas, tirem-nas daqui."
Mei abriram os olhos de surpresa ao entender.
Este sujeito...
"Mas você—"
"Tudo bem."
O velho sorriu.
"...Sou o chefe desta casa. É meu trabalho garantir que todos sejam libertos, mesmo que isso me custe a vida. A preparação veio de longe. Só não tinha as pessoas certas para ajudar. Quem diria que três idiotas aparecessem de repente?"
Ele riu, olhando para cada um de nós individualmente.
"Fico feliz por ter conhecido todos vocês."
Por um momento, sua imagem se sobrepôs à do garoto na primeira visão.
Ele...
"...Se alguém precisa estar preso, que seja eu."
Nunca descobriu quem era o cérebro por trás de tudo.
Ele tinha planejado tudo desde o começo, na surdina.
Esperou até o último instante, quando tudo estava focado nele, para nos fazer libertar todos e fugir.
Desde o início, não tinha esperança de si próprio.
Estendeu a mão para frente.
BANG—
A porta se arrombou, e senti uma força poderosa me empurrar para cima.
"Vão."
"Ukh...!"
Nos últimos momentos, olhei para trás e vi o velho sorrindo.
Logo depois, dezenas de fios surgiram do alto, todos se fixando ao seu corpo.
O último rosto que vi antes de ser lançado para cima foi a sua voz frágil, porém orgulhosa.
"Libertem... todos eles, idiotas."