Advento das Três Calamidades

Capítulo 501

Advento das Três Calamidades

—Hupe—!

Meu corpo arremessou para cima e, antes que eu percebesse, estava totalmente na escada por onde havíamos vindo antes.

Clank—!

Sem esperar minha reação, a tampinha do chão fechou-se logo em seguida.

—O que aconteceu...?—

Com Caius e Kaelion olhando na direção da tampa, fechei os olhos e apertei os lábios.

—Ele esteve mentindo o tempo todo.—pensei, lembrando de todos os momentos e dicas sutis presentes na situação.

—Ele nunca soube onde o mestre tinha se escondido. Ele só falou aquilo para nos manter por perto pelo pouco tempo que lhe restava. Para alguém tão poderoso quanto ele, tenho certeza de que o mestre vai precisar concentrar toda a atenção nele. Provavelmente, ele apostou naquele momento para nos libertar, assim poderíamos liberar todo mundo enquanto a conexão estivesse enfraquecida.—

Que velho tão idiota.

'E eu achava que você odiava mentirosos. Você até me matou por isso.'

Mas aí está você, mentindo de cara limpa na nossa frente.

Seu lunático sem vergonha.

'Ainda assim, você realmente acha que vamos fazer as coisas do jeito que você quer?’

Como ele disse.

Somos idiotas.

Três idiotas.

Cra Crack—!

Um som agudo de estalo me tirou dos pensamentos. Virei a cabeça e vi várias figuras ao longe, todas se aproximando com a sua marcha caracteristicamente rígida e descoordenada.

—Eles estão aqui.—

Senti minha expressão endurecer ao vê-los.

Recordei a experiência assustadora de antes e quase senti o coração afundar, especialmente ao ver dezenas de outros surgindo logo atrás dos dois primeiros.

No entanto,

—Pare.—

Com um comando simples de Caius, as marionetes pararam.

Sua expressão vacilou um pouco ao olhar para a cena à sua frente.

—Minha coordenação parece ter melhorado bastante.—pôs, surpreso com suas próprias palavras.

Virei para observar as marionetes e dei um estalo com os dedos.

—....!

Minha expressão mudou ao ver a reação diante de mim.

Xiu, xiu—!

Não fui o único surpreso. Kaelion e Caius me olharam com expressões semelhantes, de surpresa.

E aquilo...

Virei o rosto para os fios que cobriam cada centímetro do cômodo e cocei a cabeça, tentando entender.

Percebi mais de sessenta fios, todos sob meu controle.

Com um simples pensamento, consegui mover cada um deles sem esforço.

'Não que eu não fosse capaz de fazer isso antes, mas nunca na vida minha mente esteve tão clara assim antes.'

Senti que tinha controle quase de tudo e, com um gesto, os fios sumiram no ar. E foi então que ouvi vários sons de batidas ao longe.

Thump, thump!

Vindo diretamente das marionetes enquanto cortava os fios bem acima delas.

—Vamos rápido, antes que os fios se reconectem com elas.—

Olhei para cima e vi os fios cortados tentando se reconectar às pessoas novamente. Mas, diferentemente do passado, onde se reconectavam em um instante, agora estavam muito mais lento.

Caius viu isso e levantou a mão.

—Deixa comigo.—

Instantaneamente, os dois corpos flutuaram no ar e se encaminharam para nós.

Os fios seguiram logo atrás, mas Kaelion estava preparado, com uma caixa familiar na mão.

Dang, dang~

Os fios pararam imediatamente, assim como as outras marionetes ao longe.

—Ei, quando você conseguiu isso?—

—...O velho lançou pra mim na última hora.—

—Ah.—

Com uma súbita percepção, olhei para os dois ao nosso lado.

Ambos pareciam jovens, na mesma faixa de idade que nós. Um era um rapaz com cabelo escuro e comprido, e outro uma menina com cabelos castanhos ondulados. Pela aparência deles, ambos pareciam bastante destacados e, pouco após a conexão se romper, os olhares deles começaram a tremer.

—Parece que eles estão despertando.—

Recuei um passo para dar mais espaço a eles.

Kaelion e Caius fizeram o mesmo, e logo depois, seus olhos se abriram completamente.

—......—

—......—

No começo, eles pareciam fora de foco, quase vazios. Mas, a cada piscar, a clareza foi retornando aos olhos até que, finalmente, eles olharam ao redor e perceberam os três de nós.

—Q... quem?—

—...Quem são...?—

Ainda não conseguiam falar direito, mas dava pra perceber que estavam começando a compreender o que acontecia ao seu redor.

Pousei alguns segundos, esperando, antes de falar.

—Não precisam ficar nervosos. Estamos aqui para ajudar vocês.—

—A... ajudar?—

A garota piscou com seus olhos grandes, azuis cristalinos, fixando o olhar em mim.

—O que aconteceu?—

—Ah, parece que vocês não sabem.—

Fechei os lábios e olhei na direção dos marionetes, que estavam parados, congelados. Vi várias outras marionetes se acumulando atrás delas e sabia que não tínhamos muito tempo antes de sermos sobrecarregados por elas.

Depois de pensar por um momento, peguei alguns comprimidos que tinha guardado e coloquei na boca deles.

—Começam a comer, vai acelerar a recuperação.—

Embora relutantes, os dois não tiveram escolha a não ser confiar em mim, mastigando lentamente as pílulas.

Os efeitos foram quase instantâneos. Em pouco tempo, começaram a demonstrar mais sinais de recuperação, lentamente sentando-se.

A velocidade de reação deles foi suficiente para surpreender Kaelion, que virou-se para olhar para mim.

—O que deu para eles comer?—

—...Eh, nada de especial, pra ser sincero.—

Era só uma pílula simples que clareava a mente.

—Na verdade, eles não estavam feridos, então não dei nada pesado. É mais uma estimulada para ajudar a despertar.—

—Entendi.—

—Ugh.—

—Minha cabeça.—

Segurando suas cabeças, as caras deles ficaram contorcidas.

—O que... No mundo aconteceu?—

—...Não me lembro de nada.—

—Isso não importa muito.—

Caius se aproximou, abaixou-se na altura deles e olhou nos olhos.

—Sua casa toda está em crise, e não temos muito tempo antes de sermos atacados. Vejo que vocês dois não são fracos, então recuperem-se logo para começarem a nos ajudar.—

—Você—

Deixando a mão na boca do rapaz, ela olhou para Kaelion e assentiu.

—Entendemos.—

Depois, virou-se na nossa direção.

—Meu nome é Kora Astrid, e sou uma das sete lanças da Casa Astrid.—

Sete lanças?

Apesar de confuso, não demonstrei. Mas bastou para que a menina entendesse.

—Entendo. Então vocês não são daqui.—

—.....—

—Seu silêncio só confirma meu ponto. Pela reação de vocês, não fazem ideia do que são as sete lanças.—

—Acho que não.—

Caius respondeu, com seu tom indiferença habitual.

Kora riu de forma amarga antes de falar:

—As Sete Lanças são as principais candidatas da Casa Astrid, todas com menos de vinte e cinco anos. Somos as pessoas mais talentosas da Casa, e as próximas na linha para a posição do Lorde.—

—Então acha que não somos daqui por não conhecê-las?—

—Não saber é normal, mas...—

Ela olhou para nós três antes de sorrir.

—Vocês também não são comuns. Não tenho certeza da força de vocês, mas não são fracos. Pessoas do seu calibre certamente saberiam sobre nós se fossem do Extremo Kasha. Eu também saberia de vocês. E o fato de eu não saber...—

—Tudo bem, entendi.—

Pousei um suspiro silencioso e arrumei a máscara, passando a mão pelo rosto.

'De que adianta usar uma máscara se eles já sabem quem somos?'—pensei, considerando tirar, mas decidi não fazê-lo.

Nunca se sabe. Desde que o mestre não fosse descoberto, não tinha intenção de tirar a máscara.

—Não somos daqui, mas estamos aqui para ajudar.—

—Você é de algum Império?—

—.....—

—Não é difícil de imaginar, na verdade.—

A menina sorriu de lado ao ouvir.

—A situação indica que nossa Casa provavelmente fechou as portas para o mundo externo, e, sem nós, muitas coisas deixaram de funcionar. Uma das poucas áreas mais afetadas por nossa ausência é o próprio Império, que não consegue mais fazer comércio conosco.—

Ela não estava totalmente errada, mas algo na expressão sutil dela, como se dissesse “eu vejo através de você”, me incomodou.

—Achava que os habitantes do Kasha eram brutos.—

—Isso se aplica só se vocês vêm de uma família pequena. A Casa Astrid pode proporcionar educação básica a todos os seus membros.—

Ela se encolheu e deu um jeito de ajudar o colega ao lado.

—Ele é Serge, e, embora não seja uma Lança, é bastante forte. Não subestime.—

—......—

Serge nos olhou em silêncio, sem dizer uma palavra.

Apertei o olhar dele e virei a atenção para as marionetes ao longe.

Cra Crack—!

Agora, havia muitas mais e eu sabia que não demoraria para quebrar a defesa. Depois de pensar um pouco, olhei ao redor.

Estávamos em uma sala bem grande.

A única saída era a porta por onde estavam as marionetes, com a tampa do chão bem atrás de nós.

—Nosso melhor plano é que os três contenham cuidadosamente as marionetes, cortando lentamente a conexão com cada uma e ajudando na recuperação delas na parte de trás.—

Enquanto Caius falava, olhou para Kora.

—Você parece apta para lutar. Caso não consigamos segurá-las totalmente, pode interferir. Enquanto isso, ele ajuda sua gente a recuperar-se.—

—Posso fazer isso.—

Kora confirmou com determinação.

Olhando para eles dois, olhei para a entrada e depois para a caixa.

'Sim, não é um mau plano. Quanto mais conseguimos ajudar a transformar de volta, mais fácil fica para nós.'

Minha única preocupação era a acumulação de marionetes.

Se muitas se acumulassem, ficaríamos encrencados.

Como se fosse ler meus pensamentos, Kaelion tossiu e puxou o cabelo para trás.

—Se vierem muitas de uma vez, posso usar a mim mesmo como isca para tirar algumas delas. Assim, dá tempo de todo mundo trocar de sala e repetir o ciclo.—

—Isso funciona.—

Sentir-se rodeado por um grupo que entendia tudo perfeitamente dava uma sensação boa. Com as preocupações fora do caminho, fechei os olhos lentamente, respirando fundo.

—Então que comece quem puder.—

Tak—

Ao dar um passo adiante, uma película negra escorregou de baixo de mim, cobrindo toda a área à minha frente.

***

—Confiamos neles?—

Logo após Julien dar o passo à frente para enfrentar as marionetes, Kora ouviu o sussurro baixo de Serge. Ela apertou os lábios e olhou para ele.

—Não sei.—

Mas...

—Que outra escolha temos? Se não fosse por eles, ainda seríamos marionetes.—

—Mas claramente são do Império.—

—E...? Como eu disse, que outra opção temos?—

—Então? Ainda são...!

Voom—!

Nesse momento, elas sentiram.

Uma pressão poderosa, quase sufocante, emergiu de um dos três que as ajudaram. Quando suas cabeças se voltaram na direção da fonte, seus olhares caíram sobre o velho com aparência de antigo.

Kora franziu as sobrancelhas ao ver aquilo.

—Domínio.—

Ela também tinha domínio, mas mesmo assim, quem pudesse desenvolver um domínio era bastante respeitado dentro do Kasha.

Um Usuário de Tier-5 tinha grande respeito.

Porém, sua surpresa não parou aí. Logo, toda a sala escureceu e mãos roxas surgiram do chão, agarrando várias marionetes ao longe.

Eram de todos os lados, dobrando o próprio tecido do domínio, alcançando desesperadamente as marionetes.

Era uma visão fria, que fez as sobrancelhas de Kora se franzirem ainda mais.

'Pelo tom de voz, eles não devem ser muito mais velhos do que a gente. Talvez estejam na faixa dos trinta.'

Kora percebeu que todos estavam usando disfarces.

Isso se devia ao fato de que eles não se incomodaram em mudar o tom de voz.

'Considerando a idade e o poder, devem ser bastante habilidosos.'

Até demais, para estar à altura dela.

Ainda assim, ela confiava que poderia vencer se os dois lutassem.

Até que...

—Uh?—

—O que...!?—

O domínio mudou.

Sim, mudou.

Naquele instante, Kora levantou-se, assim como Serge.

Enquanto olhavam para o mundo escuro que se transformava lentamente, onde a grama surgiu sob seus pés e o céu se abria acima, sentiram a pressão anterior se intensificar, quase dobrando de força.

Como isso era possível?

Não fazia sentido algum.

Olhando para a cena à sua frente, ambos estavam sem reação.

Era um segundo domínio? Como isso era possível? Não tinha lógica!

Empurrando as mãos para longe, as mãos roxas, carregadas de marionetes, moveram-se para o lado, enquanto mais de uma dúzia apareceu logo atrás.

Cra Crack—

Elas todas correram na direção de Julien, que começou a se contorcer e a expelir sons estranhos.

Fechando o punho, ele apertou as costas, e a espinha estalou.

Num movimento rápido, deu um golpe no inimigo à frente.

Bang!

Um estrondo retumbou no ar logo depois, enquanto as marionetes eram derrubadasSeveral meters para trás.

—Ah.—

—Isso...—

Embaleados, Kora e Serge mal conseguiam achar palavras ao ver uma série de corpos lançados na direção deles.

Thump, thump—

Logo após, uma voz fria veio na sequência.

—Cuidem deles. Garantam que eles saibam o que está acontecendo e que se recuperem o mais rápido possível. Vamos segurar a linha pelo máximo de tempo que pudermos.—

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