Advento das Três Calamidades

Capítulo 499

Advento das Três Calamidades

A atmosfera estava dominada por um cheiro de ferro passado. Quase como se o ar estivesse impregnado de sangue, cobria tudo como um tapete vermelho.

Tak, tak—!

"....."

Enquanto Kaelion caminhava pelo tapete vermelho, seus olhos permaneciam vazios, observando ao redor.

Sangue.

Tudo o que ele podia ver, ouvir, cheirar e provar... era sangue.

Suas mãos escorriam sangue, e seu corpo também se tingia dessa cor.

"Mais, preciso... de mais."

Para alimentar as crianças, ele começou a roubar dos ricos.

Ele roubava pouco, nem era algo tão grande; a quantidade que pegava deles não causava danos graves. Ainda assim...

'Mortos.'

As crianças tinham sido todas assassinadas por eles.

Como podiam fazer isso...?

Eram inocentes, e ainda assim eram vítimas dessa violência.

Foi nesse momento que Kaelion finalmente compreendeu.

'Matar.'

Todos precisavam morrer.

Todos os responsáveis pela morte das crianças. Eles tinham que morrer.

E assim, ele eliminou todos.

Ele não poupou ninguém.

"N-não, não fui eu...!"

"Eu... tenho uma família!"

"Por que estão fazendo isso comigo?"

Com olhos frios e vazios, Kaelion matou os ricos, roubou suas riquezas e tentou redistribuí-las. Ou pelo menos, tentou.

"A, ajuda. Estou com fome."

"...Preciso de comida."

Mas isso também não era suficiente.

As crianças continuavam a vir incessantemente.

"Minha mamãe precisa de comida."

Elas eram magras, com as bochechas encaixadas.

Kaelion nem percebia, mas ele próprio começava a parecer com elas.

Quando foi a última vez que havia comido uma refeição?

Não, como podia comer quando havia crianças sofrendo? Para alimentar mais um boca, ele esqueceu de si mesmo.

Mas isso não era quase nada frente à fome.

"P-por favor, ajude."

"M-mais."

"....Preciso de mais comida."

"Aguarde um minuto, acalme-se. Eu... tenho mais comida. Espere..."

Kaelion estendeu a mão até a bolsa de comida, mas parou ao perceber que estava vazia.

Como pode...

"Meu estômago dói."

"Ajude..."

"Ngh!"

Kaelion mordeu os lábios e olhou novamente para as crianças.

"A-ah."

Sua expressão quase se desfez ao perceber que havia ainda mais do que antes. Eram tantos que parecia não ter fim.

"Como isso...?"

Por quê?

Por que havia tantas crianças?

"Estou com fome... você matou meu pai."

"O-que?"

Kaelion abaixou a cabeça.

Os olhos de uma criança cruzaram com os dele.

"Você o matou."

Nesse momento, Kaelion se lembrou.

Essa criança... era uma das crianças das pessoas que ele havia matado.

Espera, será que...?

"Você também matou minha mãe."

"Meu pai perdeu o emprego por sua causa."

_"Somos pobres."

"Você nos fez pobres."

"Alimente-nos."

"N-não, eu..."

A expressão de Kaelion mudou quando ele sentiu algo agarrar sua perna. Olhando para baixo, viu mãos vermelhas saindo do chão, alcançando-o.

"Isto...!"

Kaelion tentou se afastar, mas mais mãos surgiram ao redor.

"Alimente-me."

"...Nos alimente."

"Estou com fome!"

"Comida...!"

Envolvido pela cena, Kaelion olhou ao redor e viu as crianças todas encarando-o com os mesmos olhos perdidos que ele já tivera um dia. E, ao perceber seu reflexo nessas crianças, seu coração parou.

'Tenho que alimentá-los.'

Ele não queria que eles sofressem como ele uma vez sofreu.

Ele...

Kaelion estendeu a mão para a mochila, procurando algo para dar, e então parou ao perceber que estava vazia.

"Meu estômago dói."

"Aajude..."

"Ngh!"

Kaelion mordeu os lábios, encarando as crianças novamente.

"A-aaaa."

Seu rosto quase desmoronou ao ver que havia ainda mais delas. São tantas que ele não via fim.

"Como pode isso...?"

Por quê?

Por que havia tantas crianças?

"Estou com fome... você matou meu pai."

"O-que?"

Kaelion olhou para baixo.

O olhar de uma criança cruzou com o dele.

"Você o matou."

Foi aí que Kaelion lembrou.

Essa criança... era uma das vítimas das pessoas que ele matou.

Espera, será que...?

"Você também matou minha mãe."

"Meu pai perdeu o emprego por sua causa."

"Somos pobres."

"Você nos deixou na pobreza."

"Nos alimente."

"N-não, eu..."

A expressão de Kaelion mudou quando sentiu algo agarrar sua perna. Olhando para baixo, viu mãos vermelhas saindo do chão, estendendo-se para ele.

"Isto...!"

Kaelion tentou se afastar, mas mais mãos apareceram de repente, cobrindo tudo ao seu redor.

"Me alimente."

"...Nos alimente."

"Estou com fome!"

"Comida...!"

Sobre o horror diante de si, Kaelion olhou ao redor e viu as crianças encarando-o com os mesmos olhos perdidos de antes. Sua imagem refletida neles fez seu coração parar.

'Tenho que alimentá-los.'

Ele não queria que sofressem como antes.

Ele...

Kaelion estendeu a mão para seu bolso e tirou seu último pertence.

"Ah, isso..."

Era um biscoito.

Um biscoito amassado.

'Não, não posso dar isto. Não posso.'

Ele daria tudo, menos isso. Esse biscoito era feito por sua mãe.

"Biscoito...! Quero biscoito."

"Me dá!"

"Não, não é isso."

Kaelion segurou a mão na frente e parou as crianças.

"Não posso te dar isso."

"Mas estou com fome."

"Eu... minha mãe."

"Desculpe."

Kaelion mordeu os lábios e olhou para o biscoito na mão.

'Posso dar tudo, menos isso.'

Esse biscoito em sua mão representava tudo para ele. Era seu símbolo de esperança, a única coisa que o impulsionou a sair daquela caverna.

Era o símbolo de seu passado.

...Uma lembrança de seu sofrimento e da sua criação.

E uma recordação de sua mãe.

"Não, não posso. Não deste."

Erguendo a cabeça, Kaelion adotou uma expressão resoluta. Ia guardar o biscoito quando parou.

"O quê? Onde estão todos...?"

Olhou ao redor e percebeu que estava sozinho.

Não havia ninguém.

Tudo o que viu foi uma longa faixa vermelha.

"O que aconteceu? Por que...?"

"Estou com fome."

"!"

A cabeça de Kaelion virou rapidamente para a origem da voz.

Seus olhos, enfim, caíram sobre uma criança pequena.

Com olhos vermelhos profundos e cabelos negros, a criança parecia exatamente com ele. Suas bochechas estavam afundadas e os olhos vazios, como se tivesse desistido da vida.

"....."

Kaelion sentiu uma vontade de engolir em seco.

Essa criança...

"...Comida."

Era ninguém menos que ele mesmo.

"Estou com fome."

Pause por um momento, a criança olhou para cima, cruzou o olhar com o de Kaelion e fixou-se no biscoito em sua mão.

"...Você vai me dar?"

Um pouco de esperança surgiu em seu rosto ao ver o biscoito.

Isso...

Kaelion olhou para o biscoito na mão e apertou os lábios.

'Isso é meu.'

Como podia ele abrir mão de sua posse mais preciosa?

Mesmo se fosse seu eu mais jovem, como Kaelion poderia entregar esse símbolo?

Ele não queria entregá-lo. Recusava-se a fazê-lo.

"Entendo."

Como se tivesse percebido seus pensamentos, o jovem Kaelion assentiu com a cabeça, seus olhos tornaram-se vazios novamente.

Virando-se, começou a caminhar para longe.

Tak, tak—

Seu semblante parecia frágil, seu corpo pequeno.

Kaelion sentiu o peito apertar ao vê-lo, mas ao olhar para o biscoito na sua mão, aquilo o fez se sentir melhor.

'Sim, ele vai receber seu biscoito logo adiante.'

Por que ele tinha que abrir mão do seu?

Sim, aquilo era tudo para ele.

E ainda assim...

Olhar para o biscoito na mão, Kaelion sentiu os lábios tremerem.

Para ele, o biscoito era...

Uma lembrança da dor que havia sofrido.

Uma lembrança de sua última esperança.

Uma lembrança de sua mãe.

Sua...

Obssessão.

"Aqui está."

"....."

Kaelion não soube exatamente quando, mas a criança já estava na sua frente.

Com o biscoito na mão, Kaelion olhou diretamente nos olhos da criança. Viu a vida retornar a eles e sua expressão se suavizar.

Isso era o bastante.

'Sim, não preciso mais de lembretes.'

Ele não estava mais com fome.

Não vivia mais sob constante perigo.

Ele...

...Precisava deixar seu passado para trás.

Sua obsessão mais verdadeira.

E assim fez.

"Coma. Está seco, mas é bom."

Ao ver seu eu mais novo pegando o biscoito, Kaelion sentiu seu ombro aliviar. Colocando a mão na cabeça da criança, murmurou:

"As coisas vão melhorar."

"Sério?"

Olhando para a criança, Kaelion sorriu.

"...Sim."

Porque...

"As coisas podem ser difíceis agora, mas..."

Kaelion soltou a cabeça da criança e virou-se.

"... Vamos superar isso. Eu sei que sim."

Adeus,

Minha obsessão.


A cor vermelha dissipou-se, dando lugar a um mundo branco e limpo.

Várias figuras surgiram ao longe, todas olhando em sua direção com expressões diferentes.

"Ah, bem feito. Você foi ótimo. Um pouco lento, mas foi bem."

"Sim, bom. Bastante bom."

"....."

Kaelion quase parou ao ouvir os elogios de Julien e Caius. Realmente estavam elogiando-o?

Não, talvez não.

"É isso que esse cara quer dizer, mas..."

"Ele é tímido."

"Vocês aí, parem com isso! Onde vocês achavam que eu ia falar algo assim?"

O velho segurou o rosto e massageou a barba, murmurando: 'Não tinha como eles perceberem que eu estava de guarda. Até fiz questão de controlar minha expressão.'

Com uma expressão de quem sabe de tudo, Julien olhou para Kaelion.

"Viu?"

Caius olhou para o velho e depois para Julien.

"Tão óbvio."

"Pois é?"

Julien tapou a boca e Caius levantou o lábio, ambos claramente lutando para não rir.

Espera, o quê?

Kaelion piscou, encarando Caius.

Ele está sorrindo?

'Como? Não perdeu...?'*

Não, antes disso.

"As expressões deles parecem um pouco demais iguais, não acha?"

Isso era uma coisa boa ou ruim?

Kaelion achava que era bom, mas, por algum motivo, algo na situação o deixava desconfortável. Era quase como se...

'Não, não pode ser.'

Ele balançou a cabeça e afastou o pensamento.

'...Não há como Caius ser corrompido por Julien.'

De jeito nenhum.

"Keh."

Quem quebrou o silêncio foi o velho, que tossiu. Quando todos olharam para ele, ele se manteve com as costas retas e as mãos atrás das costas.

"Vocês três, que passaram no teste, foram lentos, mas posso aceitar esse ritmo..."

Caius e Julien olharam um para o outro e concordaram com um aceno de cabeça, como se tivessem entendido algo entre si.

Percebendo o movimento, o velho mostrou um leve sorriso, mas preferiu ignorar.

"Hum... Com isso, vocês devem conseguir aguentar um pouco mais. Não perceberão as mudanças agora, mas em breve tudo será resetado. Tentem perceber vocês mesmos."

Aplaudindo—

O mundo branco se quebrou no exato momento em que o velho bateu palmas, e Julien e os demais se viraram para a sala antiga.

Justo na hora, uma linha apareceu do teto, presa a seus corpos.

Dessa vez, no ombro direito.

Os rostos de todos mudaram, incluindo o de Kaelion, mas no instante em que a linha se conectou a eles, suas mentes permaneceram surpreendentemente claras.

"Viu?"

Com as mãos na barba, o velho sentou-se na banqueta ao lado do piano.

"...O que eu disse? Agora que suas mentes estão limpas, vocês conseguirão aguentar mais tempo e... e... hã, terão uma chance melhor de avançar para o próximo nível. Ainda assim, isso não é o mais importante."

Ele abriu a tampa do piano e pressionou um botão com o dedo.

Dang~

"Agora que suas mentes estão claras, podemos começar a pensar em sair daqui."

Deng~

"Ah, isso não está muito certo."

Coçando a cabeça, o velho começou a murmurar: 'Como foi mesmo? Por que estou sempre esquecendo essa parte?'

Ele olhava para eles, que trocavam olhares, com uma expressão de esperança no rosto.

Logo, todos sentiam a ansiedade pelo fim dessa experiência, ansiosos para sair daquele lugar.

Dong~

"Err..."

Porém...

Dung~

"Isso soa melhor."

O velho era realmente confiável?

"Ah, certo."

Após uma pausa, ele olhou para os três.

"Na real, não sou velho. Tenho vinte e oito anos."

"...."

"...."

"Uau, sério? Que loucura..."

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