
Capítulo 498
Advento das Três Calamidades
Tak—
assim que derrotei o monstro, o mundo virou e, antes que eu percebesse, estava de volta na void branca. Perto de mim, estava o velho.
Embora tentasse agir com calma, seu sorriso torcido revelava seus pensamentos de verdade.
"Então...?"
"Então, o quê?"
Observei-o virando o rosto para longe de mim.
"Posso adivinhar, você não esperava que eu fosse tão rápido, né?"
"...."
O silêncio dele era tudo o que eu precisava saber.
Mais uma vez, quase caí na risada. Por mais que esse cara fosse um louco, era fácil de entender. Ele era tão tímido que mal conseguia fazer elogios."
Sim, tímido.
"Não gosto da expressão que você está fazendo agora."
"Desculpa, o quê?"
Sentei no chão e alonguei os braços.
"Não vou cair na sua, como na última vez. Não estou fazendo nenhuma expressão. Você só está pensando demais. Só tenho um pensamento na cabeça neste momento."
"Qual é...? "
Com a testa franzida, o velho se inclinou um pouco para frente. Parecia curioso.
"Bem..."
Prolonguei o suspense por um segundo antes de dar de ombros.
"...Estava pensando em como você ficou surpreso e feliz com a minha conquista. Devia ter visto sua cara. Você não me deu elogios, mas eu senti que recebeu."
"Esse pivete."
A expressão do velho caiu e ele levantou a mão.
Eu não me esquivei, apenas sorri.
"Vamos, me acerte."
Sabia bem que ele não ia bater em mim.
Não estava mentindo sobre a expressão dele. Ele realmente parecia surpreso e feliz. Alguém que consegue fazer aquela cara não mataria só por algumas brincadeiras.
"Aigoo."
E eu estava certo.
Arrumando a cabeça, o velho abaixou o olhar.
"...Você é sortudo, garoto. Se fosse o 'eu' do passado, teria te matado sem piscar."
Relembrei minha primeira visão e assenti.
Ele parecia disposto a isso mesmo.
O velho fez cara de desaprovação ao ver minha reação, tocou o rosto enquanto murmurava: 'É tão fácil de ler minha expressão?'
Balancei a cabeça e fechei os olhos.
'Fazia tempo que não recebia um contato do Fúria-Sabedoria. Será que é por estar nesse espaço?'
Normalmente, eu conseguiria sentir o Fúria-Sabedoria, mas parecia que tinha perdido completamente a conexão. Tive um pouco de preocupação, mas, bem, tudo poderia ser devido ao espaço estranho em que me encontrava.
Ao abrir os olhos, percebi finalmente duas projeções próximas do velho.
"Isto é...?"
Observando melhor, vi Kaelion e Caius.
De silêncio, apreciei a cena que me recebia.
Os dois...
Estavam passando por maus bocados.
'Não é de se admirar que tenham perdido para mim.'
Monstros existem.
Alguns à vista de todos, outros escondidos nas sombras.
Na mente.
Explosão—!
Chovia forte lá de cima.
Chovia forte, como se o céu estivesse chorando sozinho.
Sob a chuva, duas pessoas permaneciam.
Explosão, Explosão—!
"Por que você reprimiu suas emoções?"
"Porque sou um lixo sem talento e sem emoções. Tirei minhas emoções por medo da dor."
"Boa, repita de novo."
"....Sou um lixo sem talento e sem emoções. Tirei minhas emoções porque tenho medo da dor."
Caius repete sem pensar, as mesmas palavras, uma atrás da outra.
Mesmo enquanto a chuva manchava suas roupas e cabelos.
Tudo o que podia ouvir era o ruído de fundo da chuva, sua respiração constante, o som da própria voz, e...
"Continue."
A voz cruel e indiferente do 'monstro'.
"Sou um lixo sem talento..."
Quanto tempo se passou?
Caius já tinha perdido a noção há muito tempo.
Ele apenas permanecia na chuva, repetindo as palavras do monstro sem parar.
Ele também sabia que aquilo era falso.
Sabia que era uma ilusão.
E ainda assim...
Não conseguia parar de repetir as palavras.
Por quê?
Por que não conseguia parar?
Se ele simplesmente permanecesse em silêncio, qual seria o pior que poderia acontecer? Uma pressão mais forte? Embora doloridas, as pancadas Caius suportaria.
Porém...
Não.
Essa não era a resposta.
"Por que você parou de falar?!"
Explosão!
Nem doeu.
Explosão—!
"Por que parou?"
Mal deu coceira.
Mas...
"Você perdeu a cabeça de vez?"
Explosão——!
Por que seu peito doía?
Essa dor... era um pouco diferente de qualquer dor física que já sentiu antes. Na verdade, ele tinha certeza de que sabia do que se tratava, mas não conseguia dizer ao certo. Sentia a resposta na ponta da língua.
"Você não vai dizer nada?!"
Explosão———!
A cabeça de Caius se jogou de lado com a força do golpe.
Ao virar a cabeça e olhar para o homem à sua frente, sua visão clareou um pouco.
No entanto, mesmo olhando claramente para ele, suas feições pareciam estranhas.
Ele parecia...
'Monstro.'
Sim, parecia um monstro.
"Por que você não está falando?! Já perdeu a cabeça completamente? Você entende que posso te eliminar como fiz com seus irmãos? Posso criar um novo qualquer hora que eu quiser. Você só está vivo porque ainda guarda uma faísca de esperança de me suceder!"
Caius sentiu seu corpo ser levantado quando o monstro agarrou sua gola, levantando-o do chão.
"Por mais sem talento que seja, posso te melhorar! Então, escuta o que tenho a dizer e comece a treinar. Entendeu?"
"....."
Caius assentiu.
"Boa."
Finalmente, soltando Caius, o homem recuou.
"Agora, repita comigo: Sou um lixo sem talento e sem emoções. Tirei minhas emoções porque tenho medo da dor."
"Sou um..."
Na metade da frase, Caius parou.
"O que foi? Você—"
"Será que realmente não tenho talento?"
"....He?"
"Sou melhor."
"Que besteira...?"
"Sou melhor."
Caius repetiu.
Essas eram as palavras que costumava dizer para si mesmo no passado. Apesar de pronunciá-las, nunca sentiu que era realmente melhor. Afinal, ele era um lixo talentoso.
O que havia era que todo mundo era pior do que ele.
Num mundo de lixo, ele era o lixo mais “refinado”.
Por isso;
"Sou melhor."
Era apenas uma forma de reafirmar seu status.
Pelo menos, assim era no passado. Mas e agora? Caius pensou em Haven; o lugar com os maiores talentos dos Quatro Impérios.
O lugar de onde vinha Julien—o cara que o derrotou. Depois de passar um tempo na Academia, Caius entendeu algo.
Ele era melhor.
Seja em exames físicos, de mana, mentais ou teóricos, ele sempre estava no topo ou perto dele. Não havia alguém que se comparasse a ele nos quatro aspectos.
Até Julien, que o derrotou, não chegava perto nessas áreas além do mental.
Nessa linha de raciocínio, Caius começou a questionar as palavras do monstro.
Ele era realmente um lixo sem talento?
Explosão!
"Por que você não está falando de novo?"
Caius levantou a cabeça e olhou novamente para o monstro.
Sob a chuva forte, sua imagem parecia aterrorizante, mas, para Caius, que não conhecia medo, não parecia tão imponente quanto antes.
Na verdade, ele tinha a mesma altura de antes.
Já foi mais alto.
...As rugas que antes tinha também desapareceram, e seu rosto ficou mais claro na mente de Caius.
"Vou dizer de novo. Repita comigo. Sou um talentoso—"
"Sou sem talento?"
"He?"
Caius olhou fixamente para o monstro, com os lábios entreabertos.
"Não há ninguém melhor que eu neste Império ou em qualquer outro."
Ele estava no topo de tudo.
"Que tipo de—"
Acadêmico.
"...Você mentiu para mim."
Físico e mental.
Mal havia alguém tão bom quanto ele.
"Perdi, mas isso não me torna sem talento. É normal perder."
Perder não era o fim.
...Só significava que podia ser melhor.
Caius sabia que podia ser melhor.
Ele era, afinal...
Melhor.
"Não reprimi minhas emoções por medo da dor."
Caius levantou a cabeça e olhou bem para o monstro diante dele.
Pela primeira vez em muito tempo, conseguiu ver sua forma completa. E foi então que percebeu.
'...Eu sou meu próprio monstro.'
Aquele que o impulsionava o tempo todo.
O monstro que assombrava sua mente.
Era...
NADA MAIS, nada menos do que ele mesmo.
Blanqueando os olhos, a figura à sua frente ficou cada vez mais nítida. A única coisa que permanecia era a chuva e ele próprio.
Era como no passado.
Sempre esteve sozinho.
Seu pai nunca se importou com ele.
Quando treinava no ar, estava sozinho.
Quem lhe dava umas palmadas sempre era ele mesmo.
A quem falava, também sempre era ele.
Ele...
Gotejando—
"Ah, entendi."
Nesse momento, Caius compreendeu.
O 'Monstro' nunca foi real.
Era apenas uma forma de lidar com a solidão.
Era seu verdadeiro companheiro.
E...
Sua obsessão.
Elevando a cabeça, o monstro reapareceu.
"...."
Banho de chuva, Caius virou-se e foi embora.
Obrigado, e adeus.
Monstro.