Advento das Três Calamidades

Capítulo 487

Advento das Três Calamidades

—O que você acha?

—Sobre…?

—A situação atual. Você não está nem um pouco preocupado? Sabe, enquanto tudo parece tranquilo agora, já estou ficando com um pressentimento ruim.

—Você tem razão em pensar assim. Afinal…

Pausing, Leon murmurou: '…aquele azarento está aqui.' Evelyn, ouvindo suas palavras, deu um sorriso amargo.

—Ouço isso com frequência, mas você realmente acha que ele é um azarento?

—Sim.

Não havia hesitação na fala de Leon. A rapidez e a certeza no tom fizeram Evelyn sorrir de modo mais amargo ainda.

—…Você realmente o odeia.

—Às vezes.

Leon deu de ombros, limpando o chão com a boina.

—Ele pode ou não ser um azarento, mas é inegável que tem estado no centro de todos os problemas ultimamente. Seja qual for a situação, acabamos de chegar, mas, pelos obstáculos que nos impuseram, a situação lá fora está bem complicada.

—Você não está errado.

Ao entrarem no corredor, Amell lançou um olhar para Leon e os demais, que estavam parados, acabando com o que estavam fazendo. Como todos já sabiam como eles aparentavam com o disfarce novo, ninguém tinha dificuldade em reconhecê-lo.

—Fiz uma investigação rápida enquanto vocês estavam limpando. Mais ou menos sei o que está acontecendo agora.

Ouvindo as palavras de Amell, Aoife levantou uma sobrancelha.

—Sério?

—Se os criados não mentiram para mim, então sim.

—Não me diga que os corrompeu?

—O que funcionar para resolver, já basta.

Amell deu de ombros, sorrindo. Nem precisou gastar muito, apenas alguns cristais de mana.

Como a moeda aqui era diferente, Amell precisava pagar com cristais de mana—formas condensadas de energia pura criadas a partir de mana. Esses cristais não eram apenas um meio de troca, mas também um recurso valioso para fortalecer habilidades e poderes.

Normalmente, eram a moeda usada em troca interestadual.

—Enfim, a situação é complicada.

Com um semblante sério, Amell começou a relatar suas descobertas:

—Pelo que consegui saber, os Kasha estão enfrentando problemas semelhantes com monstros. Normalmente, lidar com eles não seria um desafio, mas uma das facções mais poderosas dentro dos Kasha Orientais ficou completamente silenciosa, desaparecendo da vista de todos.

—Uma das maiores forças?

Aoife refletiu por alguns segundos antes de concluir:

—Está falando da Casa de Astrid?

—Exatamente.

Amell assentiu, com o rosto mais preocupado.

—Começou há um mês, mas de repente eles cortaram todo contato com o mundo exterior e com o povo dos Kasha. Como se tivessem se fechado para o mundo, cortando todas as ligações com ele.

—Por quê?

—Não faço ideia. Ninguém sabe.

Amell massageou a testa.

As coisas teriam sido mais fáceis se ele soubesse o motivo, mas, independentemente de quem tentasse corrompê-los, ninguém conhecia a resposta.

Se fossem os criados ou qualquer outro dentro da casa.

Ninguém sabia.

—Sem o apoio da Casa de Astrid, tudo aqui começou a desmoronar, inclusive o comércio. Antigamente, todas as mercadorias passavam pela Casa de Astrid antes de serem distribuídas pelos quatro Empires. Como os senhores da região, eles controlam tudo que atravessa as fronteiras.

—Ah—! E, uau, se eles se fecharam, não podem mais fazer comércio!

Evelyn bateu a mão na palma da outra, compreendendo de repente.

Porém, logo franziu o cenho.

—Espere, se a Casa de Astrid se fechou, eles não podem simplesmente contornar? Se não verificarem, tenho certeza de que poderiam—

—Esse é o problema.

A expressão de Amell ficou ainda mais séria.

—Você pode dizer que eles se fecharam para o mundo, mas isso não é inteiramente verdade. Os Astrid ainda patrulham ao redor, e imediatamente cortam qualquer um que tente sair das muralhas da cidade.

—Espera, o quê?

Aoife colocou o balde de lado e franziu a testa.

—Se eles pararam tudo, por que ainda estão bloqueando o comércio?

—Não tenho certeza, mas mesmo quando outras Casas tentam confrontá-los capturando alguns dos guardas de menor patente, não obtêm respostas. Os criados afirmam que os guardas de repente ficam mudos. Por mais que seus manipuladores insistam—sejam cortando membros ou queimando a carne com ácido—eles se recusam a falar. É quase como se tivessem se tornado bonecos sem alma.

—Hiss…

Todos respiraram fundo, sentindo um arrepio.

Pela descrição de Amell, a situação era ainda mais complicada do que parecia.

—A Casa de Myron já espalhou a notícia para os Quatro Impérios, mas, como vocês sabem, eles não têm muito tempo para ajudar com a situação atual. Além disso, considerando a relação entre os dois lados, provavelmente eles são contra os Quatro Impérios oferecerem muita assistência. Não querem ficar em dívida com eles.

—Então preferem deixar seus próprios povos passarem fome?

—…Parece que sim.

Amell respondeu com um sorriso amargo.

Ele também não conseguia entender por que aqueles dos Kasha eram tão teimosos e odiavam tanto os Quatro Impérios. Não é como se os proibissem de entrar nos Impérios e se tornarem seus cidadãos.

O mesmo valia para o comércio.

Poderiam facilmente fazer troca com os Impérios se quisessem, mas simplesmente recusavam. Não queriam nada com os Impérios, e, se não fosse a situação tão grave, provavelmente nem permitiriam que entrassem na Kasha.

…Provavelmente precisavam de uma ajudinha de leve.

De uma ajuda suficiente para não ficarem em débito com os Impérios.

—Ugh.

Kiera fez careta, encostada na parede.

—No final das contas, essa politicagem de merda é sempre assim. Essas criaturas têm egos maiores que o meu. Se abaixassem o orgulho, poderiam ter resolvido mais rápido, já que os Impérios poderiam ter ajudado há um mês. Mas agora já era. Eles fizeram isso a si mesmos.

—…O ressentimento deles contra nós é maior do que você imagina. Não há nada que você possa fazer sobre isso.

Amell deu de ombros e olhou para Leon, que estava pensativo. Depois de um tempo, Leon balançou a cabeça e suspirou.

—Já que a situação está assim, o melhor é aguardarmos um pouco para entender melhor como a Casa de Astrid funciona atualmente. Considerando os monstros, eles podem até nos obrigar a lutar contra eles, então pode ser que não tenhamos tanto tempo assim.

—Ah, é verdade.

Virando-se para olhar pela janela, em direção às muralhas grossas ao longe, a expressão de Amell ficou séria.

—Ouvi dizer que lá fora há muitos monstros de Ranking Terror. Se eles realmente nos enviarem lá, tenho minhas dúvidas se conseguiremos entender o que está acontecendo a tempo. Não sei de vocês, mas quero voltar logo.

—Sim.

Leon concordou.

Este lugar… mesmo tendo ficado só algumas horas aqui, já parecia extremamente abafado para ele. Ele já queria voltar.

—Hm?

Justo quando virou o rosto para a janela, ele percebeu algo.

—Espere, cadê o Julien?

Leon virou a cabeça para o lado direito e depois para o esquerdo. Mas, independentemente de onde olhasse, não conseguiu encontrar uma única pista do Julien.

—Onde foi…?

—Talvez ele tenha saído?

Kiera murmurou, apontando para uma das janelas abertas do corredor.

—Ele parecia bastante irritado, pelo que me lembro. Aliás, nem terminou de limpar a janela.

Arriscando a nuca, Leon virou-se em direção à janela onde Julien trabalhava e viu que ela estava só pela metade limpa. Ao lembrar das brincadeiras que fizeram com ele, Leon balançou a cabeça.

‘… Acho que o que Kiera disse faz sentido.’

Se Leon estivesse na posição de Julien, também teria ido embora.

Olhando para fora da janela, Leon observou as ruas vazias abaixo, sentindo uma brisa leve tocando sua pele. Era fresca, mas ao mesmo tempo pesada.

Era difícil de descrever, mas definitivamente não era algo agradável.

‘É como uma mistura da atmosfera do Espelho Dimensional com o mundo real.’

Ela balançou a cabeça mais uma vez e tentou fechar a janela, empurrando a maçaneta. Mas, justo quando o vidro começou a deslizar, ele parou no meio do movimento.

—Isto…?

Estendendo a mão, ele pegou o que parecia ser uma folha vermelha como sangue.

Olhando para ela, Leon sentiu a respiração prender por um segundo. Por algum motivo… aquela folha parecia assustadoramente familiar.

Mas onde…

Onde ele tinha visto aquilo antes?

***

Toc, toquinho! Toc, toquinho!

Um som de batida rítmica forte ecoou na minha cabeça, batendo incessantemente e me sacudindo do transe.

Toc, toquinho! Toc, toquinho!

Estavam altos.

Foi demais.

—Hã?

De repente, meus olhos se abriram completamente e minha expressão mudou drasticamente.

Toc, toquinho! Toc, toquinho!

A cor vermelha dominava meu entorno enquanto multidões se reuniam de todas as direções, seus olhares fixos no centro de um campo aberto cercado por edifícios brancos imponentes.

No centro do campo, várias figuras trajando vermelho vibrante, cada uma segurando grandes tambores que reverberavam a cada golpe forte de seus paus.

Toc, toquinho!

—O que está acontecendo?

Deixeado pelo susto, tentei recordar o que tinha acontecido poucos instantes antes, e logo veio à memória.

—Ah.

Justo quando pulei para ajudar Kaelion, alguns centenas de pessoas saíram correndo das casas como se estivessem esperando ali o tempo todo. Tentei reagir, mas antes que pudesse fazer algo, minha visão começou a escurecer.

—Isto é ruim.

Olhei ao redor e vi as pessoas ao meu redor aplaudindo e pulando, com os lábios secos de nervosismo.

Porém, ao invés de entrar em pânico, mantive a calma.

Eu era bom em manter a calma nessas situações.

—Hoo.

Respirei fundo, fechei os olhos e relaxei completamente.

—Pela situação, fui emboscado e levado para este lugar. Tudo aconteceu tão rápido que é bem provável que Leon e os outros nem tenham percebido. Ainda mais porque as pessoas não usaram mana ao nos derrubar.

Pelo menos, não senti mana deles.

—Já que estou aqui, tenho certeza de que Kaelion e Caius também estão, mas onde eles estão?

Olhei ao redor na esperança de encontrá-los, mas havia tantas pessoas ao meu redor que não consegui enxergar direito.

—Por agora, preciso sair daqui e procurar por eles.

—Hmm…?

Com um plano na cabeça, tentei me mover, mas tive uma súbita percepção.

—Isto…

Olhando para as minhas pernas, percebi que não conseguia me mover de jeito nenhum.

Não só isso…

Cra-crac—

Um som estranho de rachadura ecoou no ar, e antes que pudesse entender, minhas mãos se moveram sozinhas. Seus movimentos rígidos e hesitantes me pegaram de surpresa.

E, antes que eu percebesse,

Aplaudi, aplaudi!

Olhei para meus braços e, mais especificamente, para a corda presa a eles, e meu estômago deu uma cambalhota.

Isto era ruim.

Extremamente ruim.

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