
Capítulo 486
Advento das Três Calamidades
Como é realmente sentir-se com fome?
Estômago roncando—!
Como uma falta de ardolência?
"Comida, eu preciso de comida."
...Ou mais como uma faca na barriga?
"Socorro, peço a sua ajuda. Minha s-sobrevivente..."
Não, era mais do que isso.
A dor não se limitava ao estômago; ela infiltrava a mente, obscurecendo pensamentos e drenando clareza do cérebro. Cada momento que passava parecia mais pesado, como se a cabeça não suportasse mais.
Começaria a usar gordura como fonte de energia.
Mas e se não tivesse armazenamento de gordura? O que aconteceria com ela?
Se tornariam apenas pele e ossos.
"P-por favor, me ajude..."
Kealion conhecia bem aquela dor, a fome e a sensação de desespero causada pela pobreza.
Por apenas um biscoito, conseguiu arrombar sua saída da caverna.
Ele ainda se lembrava vividamente da dor e do desespero que sentira nas vezes em que estivera com sua mãe.
Por isso, mesmo tentando ignorar a situação ao máximo, não conseguia deixar de alimentar as crianças.
"Façam fila em silêncio. Há comida suficiente para todos."
Segurando um balde grande de pão, calmamente entregou um pedaço para cada criança.
"E-eu quero um."
"Eu também quero."
Apesar do esforço de Kaelion para fazer as crianças se organizarem, a fome era maior e eles não conseguiam ouvir suas palavras. Assim que viam comida, todos corriam na direção dele.
Só quando uma outra figura apareceu que as crianças pararam.
"Façam fila direitinho."
Talvez fosse por causa do jeito dele, ou por causa dos olhos que pareciam sem emoções, as crianças se acalmaram rapidamente quando Caius virou a cabeça para olhar para Kaelion.
"O que você está fazendo?"
"Alimentando as crianças, não percebe?"
Kaelion entregou um pedaço de pão para uma outra criança, que apressadamente o escondia debaixo das roupas e saiu em disparada.
Observando tudo calmamente, Caius franziu o rosto.
Ao notar a mudança na expressão de Caius, Kaelion sorriu enquanto distribuía mais um pedaço de pão.
"Ser pobre é caro."
"...Hã?"
"Quando a pessoa mal consegue se preocupar consigo mesma, ela não tem capacidade de ser grata."
"Ah."
Caius assentiu, fingindo entender. Mas, na verdade, não entendia nada. Como alguém que nasceu rico, suas experiências eram bem diferentes das de Kaelion.
Ele mal compreendia de onde vinha Kaelion, e aos olhos dele, tudo aquilo parecia idiota.
Sabiam claramente que não podiam fazer aquilo, e mesmo assim, Kaelion foi em frente e ignorou uma das poucas regras que tinham imposto.
Mesmo assim, Caius não denunciou Kaelion.
Olhando para as crianças, ele não sentia nada. Seus corpos magros, bochechas fundos, olhos vazios e corpos trêmulos não o emocionavam.
Na verdade, parecia quase um desperdício para ele.
Dar pão para pessoas assim?
Eles morreriam logo, por que prolongar o sofrimento? Para ele, não fazia sentido nenhum.
E, no entanto...
Olhando para Kaelion, que costumava ser indiferente a tudo, Caius sentiu sua mão se mover sozinha e entregou um pedaço de pão ao menino mais próximo.
"Você..."
Seu gesto surpreendeu Kaelion, mas logo ele sorriu e murmurou: 'Acho que o treino com Julien não foi em vão.'
"Qu-quero mais."
"Por favor. Minha irmã está doente..."
No começo, Kaelion conseguiu controlar a quantidade de crianças. Eram apenas algumas dezenas e ele tinha pão suficiente para alimentar pouco mais de cem. Achou que seria suficiente, mas...
"Mais, por favor."
"Eu... tô com fome."
Progressivamente, mais e mais crianças começavam a aparecer.
Observando a cena, Kaelion acelerou a distribuição do pão, entregando mais rápido às crianças, mas quando chegou a uma menininha com cabelo desgrenhado, sua mão parou.
Aquilo...
Ele tinha acabado o pão.
"Ah."
Kaelion levantou a cabeça para olhar a menina, que fixava o balde com uma expressão vazia.
Ela não demonstrava tristeza nem raiva. Apenas encarava o balde vazio em branco e virou-se, desanimada.
Provavelmente, essa não era a primeira vez que ela tinha se desapontado.
Aquela menininha...
Ela provavelmente já estava acostumada com isso.
"...."
Kaelion mordeu o lábio.
Ela lhe lembrou seu eu do passado. Ele também tinha sido assim, mas, diferente dela, tinha alguém para voltar. Pelo olhar vazio no rosto dela, dava para perceber que ela não tinha ninguém a quem voltar.
Se tivesse alguém, ela choraria.
Choraria por não conseguir dar um pedaço de pão para ajudar as pessoas.
Kaelion sabia disso porque já tinha passado por uma situação semelhante no passado. Seus lágrimas não eram por não poder comer, mas por não poder ajudar sua mãe.
"Espere."
Kaelion colocou a mão no ombro da menina e a parou.
Ela parou e olhou de volta para ele.
Silenciosamente, cerrando os dentes, Kaelion tirou alguns moedas e tentou entregá-las a ela. O valor era pequeno, mas suficiente para comprar um pão.
Kaelion sabia que riqueza era perigosa neste lugar, então entregou apenas o suficiente para duas fatias.
"Aceite isso."
"...."
Olhar fixamente para as moedas, a menina estendeu a mão, quando de repente uma voz ecoou lá de cima.
"Ei."
O corpo de Kaelion congelou por um instante, enquanto virou a cabeça para olhar para cima.
Lá, com o corpo apoiado na janela, estava uma figura de aparência antiga, com quem Kaelion conhecia muito bem.
"...Você sabe que não podemos fazer isso, né?"
A voz fria e indiferente de Julien ecoou de cima.
Kaelion olhou para ele, abriu a boca para falar, mas as palavras ficaram presas na garganta. Ele apenas balançou a cabeça e colocou as moedas nas mãos da menina.
"Vá, compre sua comida."
Tomando as moedas, ela se virou e saiu.
Ao ver sua silhueta desaparecendo, Kaelion olhou para trás e viu Julien encarando-o com a mesma expressão de sempre.
O coração de Kaelion afundou ao ver que ele balançava a cabeça.
'Três coisas que dizem que sou azarado.'
Balanceando a mão, uma caixa grande apareceu do nada. Os olhos de Kaelion se arregalaram ao ver aquilo, mas logo ele se recompôs e avançou, agarrando a caixa que começava a cair.
"Isto..."
Ao abrir a caixa, seus olhos se arregalaram ainda mais.
"...Como assim?"
Comida.
Viu muita comida na caixa.
Era muito mais do que tinha antes, e tudo parecia delicioso. Kaelion olhou para a caixa em choque. Como Julien tinha aquilo com ele? Onde tinha conseguido? Será que tinha furtado...?
"É meu."
"....Hã?"
Levando a cabeça, Kaelion olhou para Julien.
"Essa é minha comida. Eu não roubei."
"Não, eu..."
"Só olha sua expressão. Claramente, você achou que eu roubei a comida. Eu não roubei."
"Err..."
Kaelion só conseguiu forçar um sorriso. Ele tinha sido pego na mentira.
"Enfim, você me deve um favor. Seja mais discreto ao distribuir coisas. É só um crime se você for pe—"
As palavras de Julien ficaram presas na garganta ao mudar sua expressão de repente.
Percebendo a mudança, Kaelion virou-se e viu que as crianças que antes o cercavam, implorando por comida, tinham desaparecido.
"O que..."
As pupilas de Kaelion se estreitaram visivelmente, enquanto Caius franziu o rosto e assumia uma postura defensiva. Um silêncio estranho caiu na área, enquanto os dois olhavam ao redor, tentando detectar qualquer sinal de movimento. Mas quanto mais olhavam, menos encontravam.
Estava assustadoramente silencioso.
Até demais.
"Vamos voltar."
"...Sim."
Kaelion assentiu levemente, quase recuando, mas então parou.
Tak—
Suas orelhas se mexeram, e ambos se viraram para as pequenas casas à frente.
Seus olhos se estreitaram na mesma direção.
Sem trocar palavras, ambos assentiram, e Caius deu um passo à frente. Mas então seu olhar piscou na sombra dele mesmo e sua expressão mudou. Ele pisou forte no chão e correu de volta.
Swoosh—!
Uma figura surgiu no lugar onde ele tinha acabado de ficar.
Bang!
O chão sob ele cedeu, e uma pressão invisível caiu ao redor.
Antes deles, apareceu um homem de cabelo castanho curto, olhos azuis penetrantes, feições bonitas e vestindo uma túnica vermelha. Parecia humano, mas…
Cra crack—!
Cada movimento do homem era rígido, acompanhado por sons inquietantes de estalos.
Ele olhou ao redor, com os olhos vazios de vida.
Cra Crack—! Cra—
Kaelion sentiu nó na garganta, incerto do que estava vendo.
...O único negócio dele era a força. Era em um nível que ele não podia ignorar.
Felizmente, ele pareceria que ainda não tinha notado eles.
Pelo menos, ainda não.
Cra—
A figura se inclinou, levantando as mãos de forma desajeitada, enquanto as pernas se torciam de maneira bizarra. A cena era tão grotesca que parecia que ele era uma marionete.
Mas o homem claramente estava vivo.
Gotejou! Gotejou…!
Por que mais ele choraria?
Kaelion hesitou, sem saber o que fazer. Justo na hora em que ia agir, Caius o parou, colocando a mão firmemente no ombro dele.
"Q—!!"
Antes que Kaelion pudesse reagir, uma mão cobriu sua boca por trás. Seu coração quase explodiu de susto, mas ele se acalmou rapidamente ao reconhecer o rosto envelhecido de Julien.
Espera—quando ele tinha chegado ali?
'Fique quieto. Fiz uma ilusão ao nosso redor.'
Ao ouvir o sussurro de Julien, Kaelion assentiu, compreendendo. Julien tirou a mão, mantendo os olhos fixos na marionete enquanto franzia a testa. Pressionando a mão contra o ombro de Caius, ele indicou a janela.
'Precisamos recuar.'
Caius deu um leve aceno, deu um passo para trás, mas então—
Creak— Cra Crack!
O som de rachaduras encheu o ar, congelando todos no lugar.
A expressão de Julien mudou, enquanto olhava para os telhados, onde várias figuras se moviam de maneira trôpega, quase robótica.
Subiam nos muros e se deslocavam com as cabeças oscilando de um lado para o outro.
Num piscar de olhos, estavam cercados por todos os lados, e a expressão de Julien mudou ao interromper o que estivesse fazendo.
"….."
Enquanto o silêncio se instalava, Julien olhou para Kaelion e levantou a mão.
'Vou te derrotar.'