
Volume 6 - Capítulo 8
The Water Magician
Um convidado incomum estava hospedado no anexo da residência principal do Margrave Lune. Ele era originário desta cidade, mas vendeu a antiga casa de sua família e agora morava na capital real. O anexo era o local mais conveniente possível para realizar o trabalho para o qual fora contratado tanto pelo príncipe herdeiro quanto pelo margrave — um trabalho que ninguém mais em todo o Reino, ou mesmo em todas as Províncias Centrais, poderia realizar. Foi por isso que ele, o Barão Kenneth Hayward, veio para Lune em primeiro lugar.
Um dia, um mensageiro chegou trazendo uma carta de seu pai, que atuava como seu representante oficial na capital sempre que ele estava ausente.
Kenneth franziu a testa depois de lê-la. — Isto é... — começou ele.
Ele entendeu o conteúdo desagradável, mas não conseguiu pensar imediatamente em uma contraestratégia. Sabia com certeza, no entanto, que definitivamente não era algo que pudesse ignorar.
Raden, o subordinado e braço direito de confiança de Kenneth, notou a expressão preocupada de seu chefe. — Diretor, algo está errado? — ele perguntou.
— Raden, vou sair um pouco. Se alguém vier me procurar, diga que fui ver alguém que pode ajudar a resolver um problema que surgiu em minha propriedade.
Com isso, o Barão Kenneth Hayward deixou o anexo.
◆
A Estalagem Onda Dourada era um dos estabelecimentos de primeira classe de Lune. Servia como alojamento confiável para um certo grupo de aventureiros de Rank A sediado ali. Abel, o líder e um espadachim de Rank A, costumava ler livros na sala de jantar da estalagem. Hoje, um certo alquimista se aproximou dele enquanto ele fazia exatamente isso.
Este alquimista não tinha afinidade com magia de água.
— Kenneth? — disse Abel, surpreso com a aparição de seu amigo. — Por que você está aqui? Você não deveria estar na capital?
— Olá para você também. Estou aqui a pedido de Sua Senhoria. Mas não se preocupe com isso. Tenho algo que gostaria de discutir com você.
Embora fosse um aventureiro de Rank A e um dos melhores espadachins do Reino de Knightley, Abel não era nobre. Kenneth Hayward, por outro lado, era um barão legítimo, embora novo... Em outras palavras, ele era um nobre. Apesar da diferença de status social, ambos eram membros do clube de bebedeiras da capital real, a Aliança dos Segundos Filhos.
Foi a amizade deles que incentivou Kenneth a procurar Abel para pedir conselhos.
Kenneth entregou a carta a Abel, que o espadachim leu.
— Um wyvern apareceu perto de sua mansão? — ele perguntou. — E seu pai enviou isso?
— Sim — respondeu Kenneth com um aceno de cabeça. — Meus pais podem lidar com os problemas do dia a dia sem minha intervenção, mas isso decididamente não é do dia a dia. Eles poderiam solicitar ajuda da guilda, mas eu só seria informado depois do fato. Como você bem sabe, um wyvern requer uma equipe de extermínio em grande escala. Até agora, apenas um avistamento foi confirmado, o que significa que ainda há tempo... e é por isso que estou pedindo seu conselho.
Se o wyvern já tivesse atacado, seus pais e funcionários na capital teriam solicitado ajuda imediatamente. No Reino, uma mansão era como uma pequena vila que um barão adquiria ao receber seu título. Exceto que esta vila também vinha com várias dezenas de lares... Embora fosse padrão para as mansões manter uma guarnição, a maioria nunca o fazia. Mesmo que empregassem algumas pessoas, seu papel era manter a ordem pública, em vez de lutar contra monstros poderosos. Eles eram o equivalente a guardas de segurança modernos em condomínios fechados.
— Eu sei que uma caça ao wyvern requer pelo menos vinte aventureiros de Rank C ou superior, com um grande número de magos. É impossível reunir tantas pessoas da mansão, mas pedir ajuda da guilda próxima também levará tempo.
Kenneth franziu a testa. Caçadas de wyvern geralmente significavam baixas, mesmo com a mão de obra apropriada, o que significava que os aventureiros geralmente relutavam em aceitar tais trabalhos. Sua mãe e seu pai, a quem ele deixou encarregados da mansão, também sabiam disso. Não era à toa que lhe enviaram uma carta pedindo conselhos.
— É... isso é um pepino. Espere. Acabei de me lembrar de algo. Um wyvern apareceu no sul há pouco tempo, certo? Alguns conhecidos meus estavam lá na hora e conseguiram derrubá-lo.
— Isso, na verdade, aconteceu na vila de Ahzone, que fica ao norte da nossa mansão.
— Sério? — Abel perguntou surpreso.
— Sim. Meus pais estavam recebendo queixas sobre o desaparecimento frequente de ovelhas e vacas por lá. Então, pedimos à guilda de aventureiros em Acray para fazer uma busca, já que o senhor do território onde fica a vila é aparentemente difícil de contatar. A causa acabou sendo um wyvern.
— Essas coisas comem qualquer coisa quando estão com fome, e já são ferozes por natureza. Definitivamente, é melhor lidar com este antes que comece a caçar humanos.
Depois de ouvir o resumo de Kenneth, Abel achou que deveria agir rápido. Então, ele teve uma ideia.
— Kenneth, tenho um plano. Venha.
Os dois saíram da cidade a pé. Depois de um tempo, chegaram a uma grande casa de fazenda.
— Este não é... — começou Kenneth, com a nostalgia estampada em seu rosto.
— Sim, sua antiga casa. — Abel assentiu com um sorriso. Ele se aproximou das três portas da frente e bateu na que estava mais à direita.
— Pode entrar! — uma voz chamou de dentro.
Abel abriu a porta e eles entraram.
— Com licença.
— Obrigado por nos receber.
Kenneth olhou ao redor. — Nossa, isso traz tantas lembranças.
O proprietário havia comprado e exibido muitos móveis novos, mas ele ainda reconhecia alguns de quando sua família morava ali.
O dono da casa, Ryo, saiu de um quarto nos fundos. — Uau. O que vocês dois estão fazendo aqui? — ele exclamou surpreso.
Ele estava acostumado a ver Abel, que o visitava com bastante frequência, mas Kenneth era a primeira vez. O choque de Ryo fazia sentido, é claro. O Barão Kenneth Hayward era um alquimista no Centro Real de Alquimia na cidade capital, e ele não era um alquimista qualquer. Não, ele era um gênio, considerado um tesouro nacional, e isso significava que raramente saía da capital. Ora, pouco antes de Ryo partir para Twilightland, Kenneth permitiu que ele estudasse um dos golens artificiais capturados da Federação no Centro.
Mas por que ele estava em Lune? Ryo tinha um palpite.
— Kenneth, Abel te convocou, não foi?! Ele provavelmente te disse algo como ‘Agora que sou um aventureiro de Rank A, você pode me parabenizar com uma caixa de bolos!’ Que espadachim arrogante...
— Que inferno, eu não fiz isso! E como se eu fosse fazer algo assim! Além disso, que tipo de idiota pede para alguém vir de tão longe da capital por algo tão trivial?
— Bem, você é um espadachim que não opera dentro dos limites da lógica, Abel, então é totalmente possível.
— Pare de me confundir com você mesmo! — ele retrucou.
Kenneth riu enquanto ouvia.
— De qualquer forma — continuou Abel —, acabei de saber que Kenneth estava em Lune. E a razão pela qual o trouxe aqui é porque você é a única pessoa que pode resolver o problema dele.
— O quê? Eu?
— O quê? Ele?
Ryo e Kenneth inclinaram a cabeça em uníssono, ambos confusos.
◆
— Entendo. Uma caça ao wyvern... Pela primeira vez na vida, você está certo, Abel. Eu sou a única opção. — Ryo inclinou a cabeça com orgulho.
— Você é mesmo?! — Kenneth perguntou, genuinamente surpreso.
— Deixando de lado a atitude dele, Ryo é realmente muito bom em caçar wyverns. Mantenha isso entre nós, no entanto, Kenneth.
— Por quê? — perguntou Kenneth.
— Eu sou mesmo! Você nunca deve contar a outra alma. Guarde isso bem no fundo do seu coração, Kenneth. — Ryo aproximou o rosto, sua expressão intensa.
— Hum... Tudo bem... — Sentindo-se pressionado, Kenneth balançou a cabeça em concordância frenética. Ele não entendia exatamente qual parte deveria ser mantida em segredo, no entanto.
Depois de silenciar Kenneth com sucesso, Ryo pareceu se lembrar de algo.
— Falando nisso, Amon não foi lançado voando para o céu durante uma caça ao wyvern?
— Como é que é? — Kenneth ficou mais uma vez confuso.
— O que estávamos falando antes. Ahzone — explicou Abel.
— Você sabia, Kenneth? Aparentemente, a mais nova estratégia entre os espadachins é derrotar wyverns se arremessando pelo ar.
— Impressionante! Usando magia de ar? Ou algum tipo de ferramenta alquímica que eu não conheço?
— Kenneth, ele está brincando com você. Foi a pura força humana que fez o truque.
Abel estava certo. Gohrikii das Seis Flores havia agarrado Amon pelos pés, girado e o arremessado para o céu — tudo usando sua própria força...
— Ahem. Certo, então, Abel e eu aceitaremos essa caça ao wyvern. Você pode ficar tranquilo, Kenneth.
— Muito obrigado!
— Espere, eu vou também? Eu não achei que você precisaria de mim...
Mas os outros dois não ouviram o resmungo perplexo do espadachim.
◆
— Eu vou imobilizá-lo, e você dará o golpe final, Abel. É assim que sempre caçamos wyverns. Não me diga que você já esqueceu? — Ryo perguntou, balançando a cabeça em exasperação. Eles mataram um monte de monstros a caminho da Floresta de Rondo para a cidade de Lune.
— Não, seu idiota. Só estou dizendo — essa estratégia funcionou nas Montanhas Maléficas, mas não estamos mais nas Montanhas Maléficas, estamos? Não seria mais fácil se você simplesmente acabasse com ele com magia?
— Você é sempre assim, Abel. Nunca pensando além da sua próxima refeição grátis. Acho que seria melhor se você tomasse a iniciativa e realmente se esforçasse às vezes.
— Poupe-me. Você fica enfiado em casa e nem aparece na guilda!
Eles haviam deixado Lune, passado por Acray e agora se aproximavam de Ahzone, que fazia fronteira ao norte com a mansão de Kenneth. A vila já fora uma cidade de trânsito relativamente grande na rota de abastecimento agrícola para Acray, a maior cidade do sul do Reino. Agora, no entanto, ainda estava se recuperando de ter sido devastada pelo wyvern que o Quarto Dez e as Seis Flores finalmente derrotaram.
— Uau, o wyvern fez um estrago sério em tudo, incluindo as pousadas e hotéis. Ouvi dizer que eles eram de primeira linha aqui.
— É realmente horrível. E ainda assim...
Ryo viu o quão terrível era o estado da vila, mas também notou que as pessoas que a reconstruíam não pareciam nem um pouco desanimadas. Elas conversavam confortavelmente umas com as outras, algumas até sorrindo, enquanto começavam a seguir em frente em direção ao futuro.
— Tenho certeza de que os aldeões ficarão bem — disse ele com um aceno de cabeça firme.
Abel entendeu o que ele quis dizer e concordou. Após uma breve pausa, ele continuou: — Eles ainda têm um longo caminho a percorrer antes de poderem receber quaisquer viajantes.
— Uma pena.
Então, eles desistiram da ideia de ficar lá.
◆
A mansão do Barão Kenneth Hayward era chamada de Vila Motchumochi. Seus pais também moravam lá e agiam como seus representantes oficiais do território sempre que ele estava ausente.
— Vila Motchumochi... Parece delicioso.
— Do que você está falando? — Abel balançou a cabeça em confusão.
— De onde eu venho, há um provérbio que diz que ‘nomes e naturezas muitas vezes concordam’, então tenho certeza de que a comida na Vila Motchumochi é *mochi mochi* e deliciosa.
— Eu sequer quero saber o que ‘mochi mochi’ significa...?
Talvez mochi não existisse no Reino de Knightley. Pelo menos, Abel não parecia saber sobre isso.
Ahzone e Motchumochi eram vilas adjacentes, mas uma pequena colina e uma floresta ficavam entre elas. No entanto, levava apenas cerca de uma hora para atravessar essa extensão. Enquanto os dois se aproximavam da Vila Motchumochi, ouviram crianças gritando: — Eles estão aqui! Eles estão aqui! — Kenneth já havia informado os aldeões.
— Que lugar pacífico.
— O que é meio estranho, já que eles já deveriam saber que um wyvern foi visto por perto... — disse Abel pensativo.
Eventualmente, um casal de idosos os cumprimentou.
— Bem-vindos — disse o homem. — Eu sou Brandon Hayward, o administrador da propriedade.
— E eu sou Dahlia, sua esposa. Nosso filho nos falou muito sobre vocês. Ele disse que vocês são amigos dele e estão entre os melhores aventureiros do Reino. Estamos tão felizes que pessoas tão incríveis tenham vindo... Vê, querido? Foi uma boa ideia consultá-lo, não foi?
— Você estava certa, como sempre. Nosso filho não erra nunca.
A mãe e o pai de Kenneth ficaram muito felizes em elogiar o filho na frente dos outros — e o fato de os “outros” serem amigos de seu filho era a cereja do bolo.
— Sr. e Sra. Hayward, deixem conosco. Não faremos nada para manchar a reputação de Kenneth!
Ryo sorriu para eles.
Ao lado dele, Abel assentiu em silêncio.
— Por favor, sirvam-se.
— Obrigado.
Os pais de Kenneth os levaram para a casa da mansão, onde lhes ofereceram chá junto com pequenos doces do tamanho de um polegar que, aos olhos de Ryo, pareciam dango. Ryo se perguntou se era algum tipo de lanche.
— Isso é delicioso! — disse Ryo depois de provar um. — A doçura combina perfeitamente com o chá.
Dahlia sorriu feliz de volta para ele. — Fico feliz que ache isso.
Ao lado deles, Abel e Brandon foram direto ao assunto.
— Então este é maior do que o que destruiu Ahzone?
— Sim. Depois que enviei a carta para Kenneth, um aldeão de Ahzone foi comigo para inspecionar o wyvern, e ele é mais de duas vezes maior.
— Droga. O de Ahzone era supostamente um wyvern jovem, mas este provavelmente é totalmente crescido. Você pode nos levar onde ele está, certo?
— Sim. O capitão da guarda atuará como nosso guia amanhã.
Naquela noite, Abel e Ryo ficaram na casa da mansão. Apesar do nome, era apenas um pouco maior que uma casa normal e do mesmo tamanho que a de Ryo em Lune. Não chegava nem perto da magnificência da propriedade do Margrave Lune. No entanto, o prédio bem conservado, as refeições fartas e a hospitalidade calorosa garantiram que tanto Ryo quanto Abel pudessem descansar confortavelmente.
Após o café da manhã na manhã seguinte, o casal de idosos os apresentou ao capitão da guarda.
— Este é o Capitão Bure.
Ele era um homem muito jovem, provavelmente com não mais de vinte anos. Embora a expressão de Abel não tenha mudado, ele sentiu que a de Ryo mudou.
Bure sorriu conscientemente para eles.
— A ‘guarda’ do meu senhor consiste em apenas duas pessoas, incluindo eu mesmo. O outro está se aposentando no final deste ano.
— O quê? — Ryo ficou chocado.
— Bem, é assim para barões que não possuem muitas terras — acrescentou Abel.
Afinal, mesmo na Terra moderna, não era incomum que policiais ou médicos recebessem postos solitários em ilhas remotas e coisas do tipo... Então, talvez não fosse tão estranho assim — ou pelo menos foi assim que Ryo tentou se convencer.
Então, uma voz chamou à distância.
— Bure! Não se esqueça do seu almoço!
— Já volto — disse ele e saiu apressado.
— O exército de Kenneth tem duas pessoas? — perguntou Abel.
— As coisas são diferentes quando você está baixo na escada aristocrática.
— ‘O Exército de Um Homem Só Que Lutou Contra um Wyvern e Viveu para Contar a História’ — disse Ryo, como se estivesse dando um título a uma light novel inventada.
Abel, sempre confiável, revirou os olhos. — É, isso não parece o tipo de coisa que eu leria.
Com a marmita que sua mãe havia feito em mãos, o Capitão Bure guiou Ryo e Abel a um vale a duas horas de caminhada da vila. Antes mesmo de chegarem, eles avistaram o wyvern voando nos céus acima.
— Olhe para ele voando. É como se não tivesse nenhuma preocupação no mundo.
— Pelo menos nos poupou o trabalho de procurá-lo.
— Aquele tamanho... — murmurou Ryo.
— Sim — disse Abel. — É um wyvern totalmente crescido, assim como discutimos ontem. Wyverns errantes são quase sempre jovens. É raro um adulto se afastar tanto de seu habitat.
— Este lugar é longe de seu habitat natural?
— Sim — respondeu Abel, imaginando o mapa do Reino em sua cabeça. O fato de wyverns estarem aparecendo tão perto de Acray era incomum por si só. — Falando nisso... O Barão Hayward não foi específico sobre como deveríamos derrubá-lo, certo?
— Huh? É verdade — ele foi bem vago sobre o como — disse o Capitão Bure com um balançar de cabeça. Então ele olhou para o wyvern. — Vocês dois realmente vão enfrentar essa coisa sozinhos?
Ele parecia estar reconsiderando a realidade do que Abel e Ryo estavam prestes a fazer. De modo geral, as caçadas de wyvern eram conduzidas por grandes grupos de caça, e mesmo assim, as baixas não eram incomuns. A ideia de enfrentar uma daquelas feras com apenas duas pessoas...
— Sim, ficaremos bem. Normalmente, uma guilda exige a apresentação do olho direito do wyvern como prova da morte. Este não é um trabalho da guilda, no entanto, então você se importaria de atuar como nossa testemunha, Capitão Bure? — Abel perguntou.
Ryo olhou para o espadachim, confuso. — Não entendo muito bem o que tudo isso significa, mas nos preocuparemos com isso depois de derrubarmos o wyvern.
— Por mim, tudo bem.
— Icicle Lance 4.
Ryo criou quatro lanças de gelo grossas no ar e as impulsionou em direção ao wyvern. Elas perfuraram as asas do wyvern, o derrubaram do céu e o prenderam no chão.
— Sua vez, Abel!
— Cara, você realmente desafia todo o bom senso, Ryo... Me faz questionar se os wyverns sequer têm uma membrana de defesa contra o vento.
— Com licença! Meus métodos são mais normais do que lançar espadachins no ar.
— Quer saber? Você está certo. Isso também é bem absurdo. Quero dizer, as pessoas não podem voar. Nem mesmo os espadachins.
Ryo deu uma olhada de soslaio para Abel e achou que viu um brilho nos olhos do espadachim.
— Abel, isso é um completo absurdo. Existe uma técnica chamada Breakdown Rush neste mundo, veja bem.
— Uau, isso certamente traz de volta memórias. Você não me deu essa palestra antes? Algo sobre ser a tática ideal ou algo assim.
— ‘A tática ideal ou algo assim...’ — Ryo murmurou. — Como ousa?
A dor de não ser compreendido apunhalou Ryo. O mundo era frio, e a vida era dura — mas ele não seria derrotado!
— Tudo bem! Vou te iluminar e fazer você engolir essas palavras, Abel! Observe com atenção! — Ryo tirou Murasame de sua bainha e criou a lâmina de gelo. — Avatar.
Dois novos Ryos apareceram, um à sua esquerda e outro à sua direita. Clones.
Abel ofegou. — Que diabos?!
Mas Ryo não havia terminado.
— Icicle Lance Shower. Water Jet Thruster.
Todos os três Ryos dispararam uma barragem de lanças de gelo no wyvern preso ao chão. Simultaneamente, um gêiser de água irrompeu de suas costas, impulsionando-os para a frente na mesma velocidade das lanças de gelo. De uma só vez, os projéteis gelados e os três Ryos — agora cortando com suas espadas — atingiram o wyvern imobilizado. A coisa toda levou apenas segundos, mas uma vez que o ataque terminou, a única coisa que restou foi um cadáver de wyvern mutilado, seu corpo eriçado de lanças de gelo e sua cabeça e ambas as pernas decepadas.
— Dois avatares mais o original, lançando *Icicle Lance Shower* e *Water Jet* em conjunto — essa é a versão do mago de água de um *Breakdown Rush* — explicou Ryo, com uma expressão bastante presunçosa.
Mas Abel permaneceu congelado.
— Hum, alô? — perguntou Ryo. Ele esperava uma reação como Que diabos foi isso?! em vez de silêncio absoluto.
— Hã? Ah, desculpe, acho que estava sonhando...
— O que você quer dizer com isso?
Não me importa o quão extraordinário Ryo seja com magia; clones não podem atacar instantaneamente assim. Sim... Sim, devo ter alucinado.
Secretamente, Abel decidiu que fingiria não ter visto nada. Ainda assim, ele não podia ignorar a realidade dos restos do wyvern à sua frente, então se concentrou nisso.
— Cara, a barreira de vento de um wyvern pode muito bem não existir contra suas lanças de gelo, hein?
A insensibilidade de Abel apenas feriu o orgulho de Ryo, no entanto.
— Por que você está ignorando meu *Breakdown Rush*, Abel?
— Cara, a barreira de vento de um wyvern pode muito bem não existir contra suas lanças de gelo, hein? — Abel repetiu, mantendo firmemente seu pacto.
Com grande relutância, Ryo concordou. Apesar das aparências, ele era um cara legal. O wyvern havia implantado sua membrana defensiva, mas suas lanças de gelo a perfuraram.
— Acho que é por causa da aceleração uniforme. Minhas *Icicle Lances* estão em constante movimento, ao contrário da magia que outros magos usam.
— Aceleração o quê?
— É meio como a diferença entre uma bala e um míssil, mas isso provavelmente também não fará sentido para você. Como devo dizer... Ok, então a membrana — ela funciona forçando uma rajada constante de vento a soprar para fora do corpo do wyvern, certo?
— Sim, provavelmente.
— Bem, a maioria dos feitiços de ataque são como flechas: toda a força é aplicada no momento em que são lançados. Depois disso, eles estão apenas deslizando com essa força inicial, carregados pela inércia, certo?
— Certo...
— Bem, a membrana do wyvern não é uma parede. É uma resistência constante — como correr contra o vento — e, eventualmente, ela drena todo o momento de qualquer projétil que se aproxima. Mas a minha magia é autopropulsora. É meio como avançar com uma lança — você continua avançando, mesmo com o vento soprando contra você. Essa é provavelmente a diferença.
— Entendi. Acho que estou começando a entender.
Ryo de repente ficou feliz por ter prestado atenção no dia em que seu professor de ciências ensinou sobre aceleração uniforme. Claro, ele estava apenas adivinhando que era assim que a magia baseada em encantamentos funcionava. Ele fez uma nota mental para apresentar sua hipótese a Shinso na próxima vez que o visse. Afinal, o vampiro era diretamente responsável por popularizar a magia de encantamento nas Províncias Centrais.
Lorde Shinso é verdadeiramente incrível.
Ryo havia sido tão preciso com suas lanças de gelo que nem sequer arranhou a pedra mágica do wyvern. Na verdade, as lanças rasgaram a carne circundante perfeitamente, facilitando a extração da pedra. Depois de colocá-la em sua bolsa, Ryo declarou: — A caçada acabou!
— Bom trabalho.
— Droga — murmurou Ryo.
— E agora? — perguntou Abel.
— Você não fez nada, Abel...
— Uh...
Em todas as suas caçadas anteriores de wyvern, Abel havia dado o golpe final, mas desta vez, o *Breakdown Rush* de Ryo havia feito todo o trabalho. E isso significava—
— Um espadachim de Rank A se aproveitando das realizações de um mago de Rank C... — Ryo murmurou baixinho.
— Ei, não coloque a culpa em mim! Eu te disse desde o início que você não precisava de mim! — insistiu Abel.
— Tudo bem, tudo bem, tudo bem. Como prova da morte, vamos levar a cabeça. Você pode carregá-la, Abel.
— Você só pode estar brincando...
Devia pesar facilmente mais de cem quilos.
— Eu tenho que carregar essa coisa?
Assim que seu desespero estava prestes a consumi-lo, Abel notou algo.
— Ei, Ryo. Você está sentindo um cheiro doce?
— Hã? Se você está tentando me distrair para não carregar a cabeça, vai ter que fazer melhor do que isso.
— Eu não estou, seu idiota.
— Não sinto cheiro de nada. E você, Capitão Bure?
Ryo se virou para o jovem, e só então percebeu que o capitão ainda estava congelado no lugar.
— Ele está sonâmbulo ou algo assim?
— Nunca vi isso antes.
Certamente, a conversa deles não teve nada a ver com isso... Felizmente, Bure recuperou a consciência no momento seguinte.
— O-o que aconteceu? — ele perguntou, aparentemente não tendo retido nenhuma memória enquanto estava congelado.
— Fácil. Derrubamos o wyvern — respondeu Abel, omitindo deliberadamente tudo o que aconteceu no meio do caminho.
— Vocês... Vocês conseguiram! Ele foi feito em pedaços... A vila está segura agora. Obrigado!
O Capitão Bure se curvou profundamente.
— Sem problemas. A propósito, você sente um cheiro doce?
— Algo doce? Hmm... Não consigo sentir cheiro de nada além do fedor do sangue do wyvern.
Abel sorriu ironicamente. — Ah, sim. É verdade.
Ainda assim, ele estava intrigado.
— Abel, você ainda tem um trabalho a fazer, e nada vai mudar isso — disse Ryo severamente.
Claro, a tarefa de Abel de carregar a cabeça do wyvern era totalmente inútil com o Capitão Bure tendo testemunhado a derrota da criatura...
Um pouco mais tarde, Abel caminhava pela estrada, arrastando a cabeça atrás de si. Ryo não era um monstro completo, então ele havia colocado uma *Ice Bahn* que tornava as coisas muito mais fáceis.
Ryo também havia criado um *Ice Cart* para transportar outras partes do corpo.
Quando viu, Abel balançou a cabeça. — Realmente não há sentido em me fazer carregar a cabeça, não é?
◆
Depois de levarem a cabeça do wyvern de volta para a Vila Motchumochi, todos, incluindo os pais de Kenneth, agradeceram. Uma grande festa foi realizada naquela noite, e carne de wyvern estava no menu.
Na manhã seguinte, Ryo e Abel partiram, e os aldeões os despediram com uma onda final e profusa de gratidão.
— Abel, este não é o caminho para Acray, é?
— Não. Quero verificar uma coisa.
Eles também não estavam indo na direção de Lune.
— É sobre aquele cheiro doce que você mencionou ontem?
— Sim. Não consigo parar de pensar nisso.
— Você tem uma ideia do que pode ser?
— Talvez. Algo que os wyverns gostam — Bem, tecnicamente, isso os enlouquece.
— Um cheiro que enlouquece os wyverns... — Ryo murmurou, uma imagem de um gato se deliciando com erva-de-gato surgindo em sua cabeça. Claro, wyverns eram um pouco maiores e um pouco mais intimidadores que gatos. — Um cheiro assim definitivamente atrairia wyverns! Devemos erradicar a fonte. De onde vem, afinal?
— Não se preocupe, não é de ocorrência natural. Você tem que extrair a essência de uma flor de banabana e queimá-la para produzir esse cheiro.
Ryo suspirou aliviado. — Ah, que bom, então.
Mas o fato de não ocorrer naturalmente significava...
— Alguém colocou lá intencionalmente? — disse Ryo.
— As chances são boas.
— Mas...
— Sim, os wyverns são os únicos atraídos pelo cheiro.
— Em outras palavras, isso foi orquestrado.
Tanto Abel quanto Ryo franziram a testa, naturalmente perturbados com esse novo desenvolvimento.
— Duvido muito que tenha sido alguém da Vila Motchumochi.
— Também acho. Refinar banabana é um processo bastante obscuro. Além disso, as flores de banabana nem crescem por aqui. Elas florescem no norte — em uma parte muito específica das Províncias Centrais, na verdade.
— Onde?
— Nas partes do norte do Império.
— Droga, o Império de novo! — disse Ryo, incapaz de esconder sua indignação.
Abel não entendeu muito bem o que Ryo quis dizer com “de novo”, mas não se demorou nisso. A essa altura, ele atribuiu isso ao conhecido ódio de Ryo por Debuhi — ou talvez Ryo apenas quisesse dizer “de novo” para efeito dramático. De qualquer forma, ele não precisava perder tempo analisando isso.
— Acho que o mundo seria mais pacífico se simplesmente destruíssemos o Império — disse Ryo.
No entanto, Abel não podia ignorar essas palavras. — Pare com isso — ele respondeu. — Nem pense nisso. Além disso, destruir algo em nome da paz é... bem, uma contradição, não é?
— Não preciso da sua baboseira pseudo-filosófica, Abel! As maquinações do Império estão sempre colocando em perigo o povo do nosso benevolente Reino. Não podemos mais fechar os olhos!
— Sim, mas ainda nem sabemos ao certo se o cheiro vem da essência de banabana...
— Certo. Se você estiver errado, no entanto, não teremos escolha a não ser fazer as pazes com o Império, oferecendo-lhes sua cabeça em uma bandeja.
— Nem pensar — e também, isso não faz sentido.
— Por que você sabe tanto sobre essa flor? Será que... — Ryo ofegou. — Você foi um cavaleiro de wyvern em outra vida, e usou esse mesmo cheiro para causar estragos em pequenos países?!
— Delirando muito? De qualquer forma, foi outra vida, em certo sentido. Aprendi sobre todos os tipos de coisas, incluindo a flor de banabana, quando morava no palácio real.
— Caramba, lá vai você de novo com a história de príncipe. — Ryo balançou a cabeça em exasperação.
— ‘História’, ele diz... — Abel suspirou. — É a minha vida, sabe...
Não era como se Ryo se recusasse a acreditar que Abel era o segundo príncipe... Ele realmente havia aceitado — só não queria admitir em voz alta.
— Além disso, você viu a montanha de lição de casa que meu irmão me deu, não viu, Ryo?
A caminho de Twilightland, Abel estava enterrado sob uma pilha de tarefas dadas por seu irmão mais velho, o Príncipe Herdeiro Caindish. Eles haviam compartilhado uma carruagem, então Ryo o viu trabalhar nisso.
— Espere, já sei. Você subornou alguém como Copilas, o dono da gráfica, para fabricar tudo, não foi? Um truque clássico. — Ryo assentiu para si mesmo.
— Por que eu faria isso?! — Abel retrucou.
Ryo balançou a cabeça. — Olha, eu acredito que você é o segundo príncipe, mas só porque Phelps disse.
— Então você acredita na palavra dele, mas não na minha, hein?
— Obviamente. Pense nisso: qualquer um é mais propenso a acreditar em um nobre como ele do que em um aventureiro — ou pelo menos alguém que parece um aventureiro — como você!
Phelps A. Heinlein era o filho mais velho do Marquês Heinlein e governava um território que incluía Acray. Um aristocrata incrivelmente bonito, ele era muito popular entre as mulheres. Ele também era um aventureiro de Rank B baseado em Lune e liderava o grupo de quarenta membros Brigada Branca.
— No entanto, vou reconhecer que você é superior a ele em alguns domínios, Abel.
— Ah, é? Como por exemplo?
— E-eu não consigo pensar em nada agora, mas me dê um tempo. Tenho certeza de que algo virá à minha mente.
— Então é assim que você me vê, hein? — Abel soltou um suspiro longo e teatral deliberadamente.
Nesse momento, uma ideia ocorreu a Ryo, e ele bateu palmas.
— Tenho uma!
— Diga lá.
— Você sempre me compra comida!
Abel olhou fixamente. — É só isso?
— Pagar refeições para as pessoas é uma característica de caráter valiosa!
— Você tem um ponto... Então, se eu parasse...
— Seu valor para a sociedade desapareceria completamente!
— Comida... Essa é a soma total da minha existência, hein? Ó grande e poderosa comida, eu sou apenas seu humilde servo. — Abel balançou a cabeça.
— Eu sabia que você entenderia. — Por alguma razão, Ryo sorriu para ele.
Eles claramente não estavam na mesma página. Talvez o verdadeiro desafio em entender outras pessoas resida em quão diferentemente elas veem o mundo...
Eles continuaram a conversar até chegarem ao local onde haviam derrotado o wyvern.
— Sim, o cheiro doce ainda está aqui — disse Abel.
— Hmm, agora que você mencionou, eu consigo sentir um pouco... Tenho pensado nisso por um tempo, mas Abel, você tem sentidos muito aguçados, não é?
— Tenho? — Abel respondeu casualmente, cheirando o ar enquanto procurava a fonte do cheiro. As pessoas raramente percebem se seus sentidos são mais aguçados que os dos outros.
— Tem sim. Mesmo quando estou cercado por inimigos, não consigo sentir a presença deles.
— Bem, você tem magia para isso, então você não precisa realmente, certo?
— Esse não é o ponto. Eu quero poder dizer, ‘Sinto algo!’ Isso seria tão legal. Você não entende? É ‘mono no aware’.
— O que significa?
Abel abriu caminho pela grama e parou.
— É aqui.
— Deixe-me ver.
Ryo espiou por cima do ombro dele. Um prato quebrado jazia no chão.
— Está quebrado. Talvez um wyvern enlouquecido tenha sido o responsável...
— Provavelmente. Quem quer que tenha armado isso pingou o líquido refinado no prato e o acendeu. O cheiro se espalha facilmente. Ele se apega à fauna circundante, e o vento o carrega para bem longe.
— Você disse que o covil dos wyverns fica longe daqui, certo?
— Sim. Um desses não teria sido suficiente.
— Eles devem ter alinhado um monte para atrair o wyvern até aqui...
A armação era elaborada demais para uma brincadeira. Ryo se aproximou do prato quebrado e, lembrando de suas aulas de ciências, usou a mão para abanar o cheiro em direção ao nariz.
— Tão perto, até eu consigo sentir. Você está certo, é doce...
De suas memórias da Terra, lembrava-o de baunilha, mas mais espessa, mais pegajosa.
— Active Sonar.
O feitiço de Ryo permitiu que ele usasse o vapor de água no ar para analisar seu alvo. Uma vez que terminou, ele assentiu.
— Abel, talvez eu consiga rastrear o cheiro de volta à sua fonte.
— Sério?! — Os olhos de Abel se arregalaram. Então, ele murmurou: — Meus sentidos podem ser aguçados, mas não são páreo para sua magia...
Juntos, eles seguiram o rastro do cheiro doce.
◆
— Entendo que este decreto vem diretamente de Sua Majestade — disse o General Rancius, comandante do Vigésimo Regimento Imperial, com uma carranca. — No entanto, eu teria preferido um aviso prévio.
— Peço desculpas. — Jurgen Barthel — ajudante do vice-comandante da Divisão de Magia Imperial — curvou-se diante dele.
Rancius leu a ordem novamente. Não havia dúvida: o Imperador Rupert VI a havia escrito ele mesmo. Só isso já a tornava incomum. A maioria dos decretos imperiais chegava como documentos redigidos pelo primeiro-ministro do Império e braço direito do imperador, o Conde Hans Kirchhoff.
Um decreto era absoluto, e este os ordenava a “criar um mapa do Reino de Knightley”. Para executá-lo, Jurgen precisava liderar dez membros da Divisão de Magia Imperial com o apoio das novas ferramentas alquímicas da Associação Imperial de Alquimia. O trabalho deles, por acaso, se sobrepunha ao do General Rancius e do Vigésimo Regimento Imperial. Felizmente, nenhum dos lados perdeu tempo discutindo sobre jurisdição.
No Império, Rancius entendia que você seguia ordens primeiro e fazia perguntas depois. Mesmo assim, a reclamação escapou — menos por ignorância e mais por orgulho do Vigésimo, que carregava outro nome: o Regimento Sombra.
Jurgen Barthel servia a um homem cuja fama alcançava além de Debuhi e abrangia todas as Províncias Centrais: Oscar Luska, o Mago do Inferno. Ambos os homens pertenciam à Divisão de Magia Imperial, o exército particular do imperador. Era até comandada por sua décima primeira filha, Fiona Rubine Bornemisza. As pessoas a chamavam de a carta na manga de Debuhi, tanto no nome quanto na substância.
Por outro lado, o Regimento Sombra do General Rancius era o ás na manga do Império. Ele operava nas sombras, invisível.
Rancius suspirou suavemente. — Não. É um decreto imperial. Claro que nossos superiores agiram sem nos informar. Perdoe meu lapso. — Ele inclinou a cabeça.
O gesto apenas deixou Jurgen perplexo. A velocidade importava, sim — mas Rancius operava dentro do Reino há algum tempo. Mesmo que fosse um decreto imperial, um aviso parecia ser de bom senso.
Na verdade, Jurgen e sua equipe haviam percorrido o Reino, coletando detalhes para a criação do mapa. Eles haviam se movido sem alertar o Vigésimo Regimento Imperial, que trabalhava tão silenciosamente por todo Knightley. Mas eles não conseguiram passar despercebidos pelo próprio General Rancius, que havia mudado sua base para Acray, no sul.
— A certeza topográfica é a espinha dorsal da guerra. Um bom mapa pode determinar o sucesso ou o fracasso das operações militares. Sua Majestade tomou a decisão certa ao confiar a tarefa à elite da Divisão de Magia Imperial.
Jurgen assentiu.
Ambos os homens faziam parte do núcleo militar do Império, então sabiam o que esses preparativos significavam. Uma grande guerra se aproximava: a invasão do Império Debuhi ao Reino de Knightley. A sabotagem do Vigésimo e os levantamentos da Divisão estavam ambos preparando o terreno, e nada mais. Embora servissem ao mesmo exército, seus movimentos eram mantidos separados para evitar vazamentos. Incidentes como este eram inevitáveis, mas era uma precaução incontornável. Os comandantes de campo teriam que resolver as coisas à medida que surgissem, e era só isso.
Após a discussão, Jurgen se preparou para deixar a base do Vigésimo e retornar à sua confecção de mapas.
— Meu senhor — chamou um de seus subordinados. — Recebemos a notícia de que dois indivíduos, muito provavelmente aventureiros, estão rastreando o cheiro.
— O faro deles é tão aguçado? Estou impressionado. Precisaremos atrair mais wyverns, então elimine qualquer um que ameace esse objetivo. Até onde eles chegaram?
— Eles já alcançaram o segundo ponto de controle.
— Então eles já estão à nossa porta! O que diabos os guardas estavam fazendo? Matem-nos. Agora!
Ao comando de Rancius, seu subordinado saiu apressado.
Então o general se virou para Jurgen. — O segundo ponto de controle que mencionei — é onde nos encontramos. Você conseguiu coletar os dados para aquela área?
— Não. Seu pessoal nos trouxe aqui antes que tivéssemos a chance.
— Ah, minhas desculpas. Assim que lidarmos com esses aventureiros, você pode prosseguir com seu trabalho.
— Obrigado, senhor.
O General Rancius abriu a porta do esconderijo e saiu. No momento em que ele se foi, o subordinado de Jurgen, que havia permanecido em silêncio até então, falou.
— Senhor, isso não é bom...
— Não poderia concordar mais, Klimt. É por isso que eu não queria me envolver... — murmurou Jurgen.
A estratégia de Jurgen era reunir informações em segredo e devolvê-las ao Império — tudo isso evitando o contato com as outras unidades imperiais estacionadas no Reino. Apesar de seus melhores esforços e os de sua equipe para evitar o Vigésimo, Rancius os descobriu. Não foi uma surpresa. Ainda assim, Jurgen esperava escapar no momento em que obtivesse as informações de que precisava.
— Estou com um mau pressentimento sobre tudo isso...
Era apenas um palpite. Jurgen era o segundo filho da família Barthel, que tinha uma longa história de produção de guerreiros. Ele treinava desde a infância, e isso, juntamente com sua experiência no campo de batalha, lhe dava uma experiência além de sua idade.
E esses instintos lhe diziam para ter cuidado. Infelizmente, sua intuição não podia lhe dizer do que ter cautela...
◆
— Abel, tem gente nos observando.
— Então eles morderam a isca.
— Hã? Espere, nós éramos iscas? — Ryo perguntou surpreso.
— Mais ou menos.
— Então você deveria ter me dito isso desde o início! Preciso de tempo para me preparar mentalmente!
— É mesmo? — Abel balançou a cabeça, confuso. Preparação mental para ser uma isca? Teria feito sentido se fosse qualquer um além de Ryo, que poderia derrotar qualquer ameaça em seu caminho. Aquele Ryo precisava se preparar para algo assim? Sim, claro.
— Sim! Tenho que pensar se devo contra-atacar com magia ou lutar com minha espada, se devo entrar em combate corpo a corpo ou sobrepujá-los com poder de fogo e mostrar a eles o quão superados estão. Há todo tipo de coisa a se considerar.
— É, eu não poderia me importar menos — disse Abel antes de olhar cautelosamente ao redor. — E então? Vocês, idiotas, vão nos atacar, ou o quê?
— Ah... Reforços chegaram — relatou Ryo, tendo-os sentido com seu *Passive Sonar*.
— Então eles estão atacando. Bom. Agora, o que nós devemos fazer? Espero que um deles seja um capitão ou algo assim. Isso tornaria as coisas mais simples — disse Abel, quase como se estivesse animado para o confronto.
Eles só tiveram que esperar um minuto.
Três homens apareceram de repente na frente deles.
— Parem aí mesmo! — gritou o homem no meio.
— Huh. Ele parece forte — sussurrou Abel.
— Sim, ele certamente parece — respondeu Ryo. — Três na frente, dois atrás, dois à direita, dois à esquerda. Nove no total.
— Entendido.
— Ugh... — Ryo gemeu. — Mais reforços? Outros dez... Eles estão ficando a uma curta distância.
— Dezenove no total. As coisas ficaram um pouco complicadas.
— Espere. Estou pegando outra coisa...
Ryo inclinou a cabeça enquanto analisava os dados de seu *Passive Sonar*.
— Hm... Reconheço alguém entre esses dez. Eles são definitivamente soldados imperiais.
— Interessante. Eu talvez saiba quem são esses caras.
— Sério?
— É apenas um palpite. Vamos ver se eles caem no meu blefe.
Abel assentiu.
— Aventureiros, nós sabemos o que vocês estavam fazendo! — disse o comandante na frente deles. — O que queremos saber é quanta dessa informação vocês relataram e quanto seu empregador sabe. Agradeceríamos sua cooperação.
— Se lhe dissermos a verdade, você nos deixará ir? — perguntou Abel.
O comandante assentiu. — Não está fora de questão.
Abel sorriu. — Mentiroso. O Regimento Sombra nunca nos deixaria escapar.
No segundo em que essas palavras saíram de sua boca, toda a atitude de seus oponentes mudou. Agora, eles estavam irradiando intenção assassina.
— Hm... Esse é um detalhe curioso de se saber.
— Seu ataque ao Marquês Hope falhou, não é? Ouvimos sobre isso dos aventureiros que o pararam. — Abel olhou intensamente para o comandante, como se tentasse se lembrar de um detalhe, por um momento. Então sua voz mudou, tornando-se mais lenta e deliberada. — O líder era o general do Vigésimo Regimento Imperial, o que faz de você o General Rancius, não?
O choque súbito dos soldados engoliu sua sede de sangue inicial. A maioria das pessoas, mesmo muitos entre a nobreza imperial, não sabia o nome do homem que comandava o Vigésimo. E isso significava—
— Você não é um aventureiro comum — disse Rancius, com expressão de aço.
— Nããão, eu definitivamente sou. — Abel deu de ombros. Ele tentou manter uma postura indiferente, mas por dentro, seus pensamentos estavam acelerados...
Já é ruim o suficiente que o Regimento Sombra esteja aqui, mas o próprio general? Eles querem causar problemas em Acray? Por quê? Além disso, estamos no território de Heinlein. O marquês tem a melhor rede de contrainteligência das Províncias Centrais, então nem mesmo o Regimento Sombra deveria ter liberdade para realizar sabotagens, certo? Talvez seja por isso que eles estavam usando os wyverns... Isso é tão básico, no entanto, que é quase estúpido. Ou talvez... qualquer coisa vale, desde que mantenha o marquês, seus cavaleiros, o Bureau ou os aventureiros de Acray ocupados em seu território? Com um bando de wyverns à solta, todos estariam ocupados demais lidando com eles para enviar reforços para outras partes de Knightley. Em outras palavras, eles estão apenas se preparando para outra coisa...
— Nenhum aventureiro comum saberia esse nome.
— Tem certeza? Porque todos os aventureiros no sul de Knightley sabem.
Assim que Abel terminou de falar, ele ouviu Ryo sussurrar atrás dele.
— Quando lutarmos contra eles, vamos com calma. Devagar. Deixe o outro grupo esperando na reserva impaciente, e nós os atrairemos dessa forma.
Abel não entendeu por que eles fariam isso. Afinal, o Regimento Sombra e o General Rancius eram oponentes formidáveis. Não havia como seu plano funcionar...
— Então você não nos deixa outra escolha a não ser capturá-lo e forçá-lo a falar. Uma pena.
Os soldados sacaram suas espadas.
— Acho que chegamos a um impasse, Ryo. Eu vou enfrentar o general, então estou deixando os outros com você!
Então, Abel arrancou sua lâmina da bainha, diminuiu a distância entre ele e Rancius em um piscar de olhos e atacou com força e rapidez.
— Ótimo. Mais uma vez, eu tenho que fazer todo o trabalho pesado. Puxa. Ice Bahn.
Ryo ficou momentaneamente surpreso com o pedido de Abel, mas se recuperou rapidamente e pavimentou uma camada de gelo no chão sob os outros oito soldados.
Sem surpresa, alguns notaram a mudança no terreno. Quatro soldados pularam para trás, e Ryo os seguiu, criando um espaço maior entre Abel e o General Rancius e os outros soldados. Como sempre, Ryo foi o auge da consideração.
Seu movimento também afastou os inimigos. Ele desembainhou Murasame, pronto para enfrentar os primeiros quatro sozinho. Ele tinha que ir com calma com eles — tinha que arquitetar um cenário que deixasse os dez na reserva impacientes o suficiente para se juntarem à briga.
— Hm... Melhor ter todos os oito aqui — Ryo murmurou, dispensando o tapete de gelo em que os outros quatro soldados ainda estavam escorregando.
O duelo de seu general com Abel era tudo menos comum, então os soldados restantes se levantaram e se juntaram a seus camaradas para cercar Ryo. Finalmente, o mago da água teve a luta de oito contra um que queria.
◆
— Então você sabe lutar um contra um também, hein? Não é à toa que você é o comandante do Regimento Sombra.
— E você... Você é realmente um aventureiro?
— O que mais eu poderia ser?
— Um assassino real?
— Interessante.
O General Rancius havia feito um palpite selvagem baseado na esgrima excepcional de Abel.
— Você é claramente um estudante do estilo Hume ortodoxo, mas incrivelmente fiel aos fundamentos...
— Sim, meu mestre me ensinou isso à força. Ele disse que negligenciar o básico te torna um alvo fácil.
— Você é realmente um aventureiro? — O General Rancius murmurou novamente com uma carranca. Os aventureiros que ele conhecia estavam preocupados com técnicas chamativas e golpes selvagens e pesados. Ele nunca tinha ouvido qualquer menção a palavras como “fundamentos” ou “básico”...
— Não junte os aventureiros do Império com os nossos. Há uma razão pela qual o Reino é conhecido como a terra dos aventureiros, ok? Nós somos os verdadeiros. — Abel riu com orgulho.
— É mesmo? Parece que terei que corrigir minhas concepções errôneas.
Depois de dar um golpe amplo, Rancius saltou para trás, criando distância entre eles. Ele respirou fundo e expirou, nada mais, mas algo mudou...
— Bem, bem... — disse Abel, incapaz de tirar a nota de admiração de sua voz. Tudo o que seu oponente fizera foi respirar, mas ele parecia mais afiado, mais feroz e mais intenso.
— Então o comandante do Regimento Sombra também tem profundezas ocultas.
— Veja por si mesmo, por que não?
E então o duelo deles foi para o próximo nível.
Perto dali, outra luta de espadas estava acontecendo. Normalmente, este tipo de batalha — um contra oito — teria sido decidido rapidamente. Se obstáculos atrapalhassem o campo de batalha, isso poderia ter prolongado a luta, mas esses nove lutavam em terreno aberto. E mesmo que houvesse, os oito soldados imperiais eram habilidosos em lutar em tais condições. Eles consideravam qualquer oponente que durasse mais de um minuto um verdadeiro talento.
No entanto, esta luta de espadas já durava vários minutos. Além disso, os soldados estavam sendo dizimados um por um enquanto acumulavam ferimentos à medida que a batalha se prolongava.
Klang. Klang. Klang.
Os sons de metal ressoavam ruidosamente enquanto suas oito espadas cruzavam as lâminas geladas de seu oponente.
— Gerando gelo para bloquear nossas lâminas...
— Como isso é possível?
— Puta merda, isso é difícil...
Os soldados continuaram a resmungar entre si, incapazes de acreditar que Ryo, lutando contra todos eles sozinho, estava controlando o ritmo da batalha usando Paredes de Gelo.
Ryo, é claro, estava apenas seguindo seu plano original. Ele não podia acabar com eles rapidamente, então precisava frustrá-los e atrair os outros dez que observavam à distância...
Mas esses outros dez ainda não haviam se movido, então Ryo começou a mover a batalha em direção a eles. Centímetro por centímetro, ele afastava os soldados do duelo de Abel e do General Rancius, e em direção aos outros dez que ele estava rastreando com o *Passive Sonar*...
Como ele decidiu derrubá-los um por um, Ryo deixou soldados derrotados espalhados pelo chão em intervalos quase iguais à medida que avançavam. Ryo sabia que o outro grupo estava observando através de telescópios, então ele gerou suas Paredes de Gelo sutilmente e deliberadamente não congelou aqueles que derrotou.
Afinal, seu alvo real não era ninguém do Vigésimo Regimento Imperial.
Eram as dez pessoas que assistiam na reserva.
Ou, para ser mais preciso, um indivíduo entre eles.
Ryo estava perto agora. Menos de cem metros os separavam.
— Ice Casket 3.
Ryo congelou abruptamente os três soldados restantes e disparou na direção do outro grupo. Simultaneamente, ele cantou: — Squall. Ice Casket 10.
Ele conseguiu congelar nove dos dez tão rapidamente que eles ainda usavam expressões de surpresa. Ryo sabia que todos os dez eram magos, então ele usou o *Squall* para encharcá-los com água antes de congelá-los...
Mas uma pessoa havia escapado: seu alvo.
— Excelentes reflexos, subordinado do Inferno sei lá o quê — disse Ryo. — Eu realmente não deveria me surpreender.
Ele percebeu imediatamente que seu alvo havia criado uma fina película de terra ao redor de si mesmo, impedindo que seu corpo se molhasse e permitindo que ele escapasse do *Ice Casket* de Ryo. Foi uma exibição surpreendente de reflexos e velocidade mágica.
Ryo e seu alvo se encararam. O homem já havia sacado sua espada, sua postura mais condizente com a de um espadachim do que a de um mago...
— Agora entendo por que você estava demorando — ele murmurou. — Nós éramos seus alvos o tempo todo.
— Reflexos aprimorados desde a infância... — Ryo murmurou, como se para si mesmo.
Os olhos do alvo se arregalaram, mas ele não respondeu.
— Não importa. Porque como um capitão trabalhando sob aquele idiota do Inferno, sua magia deve ser incrível, certo?
— Já nos encontramos em algum lugar antes?
— Você não se lembra de mim? No Principado de Inverey, você apareceu com o Homem do Inferno e levou o príncipe e sua comitiva para o Império, não foi? O Homem do Inferno, a princesa, você e mais alguém... Senti um grande poder em vocês quatro.
— Você estava lá? Aquele gelo significa magia de água, e se você é um mago de água do Reino... Não, poderia você—
— Você finalmente descobriu? Sou Ryo, mago da água, ao seu serviço. Qual é o seu nome?
O homem apenas olhou, perplexo.
— Vou descobrir eventualmente. Você é um dos chefões que trabalham na unidade do Homem do Inferno e da princesa, mas não posso continuar me referindo a você por títulos aleatórios.
— Jurgen.
— Entendo. Jurgen. Agora, quero saber o que você e seu grupo estavam fazendo. Estou ciente de que o Regimento Sombra estava atraindo wyverns para causar destruição, mas essa também era a sua missão?
— Sim.
— Você está mentindo — afirmou Ryo com confiança. — O que significa que você está aqui por um motivo diferente. Por que não me diz esse motivo?
— Eu te disse: estamos aqui para causar destruição usando wyverns.
— Então você insiste em mentir.
— Por que você acha isso?
— Posso ver nos seus olhos. Mentir é inútil. — A confiança de Ryo permaneceu inabalável.
Jurgen estudou o rosto do mago da água, tentando e falhando em determinar se ele estava dizendo a verdade.
— Não importa. Eu só preciso te derrotar. Aqui e agora — ele murmurou suavemente.
— Você consegue? — Ryo provocou.
— Impossível com magia, eu sei — mas não preciso dela!
Ele de repente correu para o alcance do braço, e—
Klang!
—Ryo habilmente aparou o golpe afiado de Jurgen com Murasame.
— Você percebe que seus subordinados estão congelados...
— Eles descongelarão assim que eu te derrotar — respondeu Jurgen com indiferença. — Odeio roubar essa vitória do vice-comandante, mas eu serei quem te derrotará, Ryo.
— Veremos isso.
E assim, o duelo mágico deles começou.
◆
Jurgen Barthel serviu como assessor de Oscar Luska, vice-comandante da Divisão de Magia Imperial e Mago do Inferno. É por isso que ele sabia que Oscar tinha o jovem à sua frente, Ryo, em alta consideração. Ele podia sempre falar de Ryo com amargura, mas Jurgen sabia que Oscar reconhecia que a magia de Ryo estava no mesmo nível que a sua, ou talvez até a superando.
Jurgen poderia derrotar tal oponente? Não em uma batalha de magia, e ele sabia disso. Não havia dúvida de que ele e Ryo eram ambos magos, mas isso não significava que eles tinham que lutar usando magia.
Espadas funcionavam tão bem quanto.
Ele era o segundo filho da família Barthel, uma linhagem de condes que produzia guerreiros e soldados. Aos quinze anos, ele derrotou seu tutor. Aos dezesseis, ele era tão habilidoso com a lâmina que nem seu pai, o chefe da família, conseguia vencê-lo. Mesmo agora, a única pessoa em seu círculo que poderia derrotá-lo era seu irmão mais velho, oito anos mais velho. E esse irmão era um dos Doze Cavaleiros do Imperador, o que significa que ele era um dos mais fortes do país. Era simplesmente impossível derrotar Jurgen com uma espada, a menos que você estivesse nesse nível também. Mesmo Oscar, a quem ele servia tão fielmente, provavelmente não era páreo para Jurgen em termos de pura esgrima.
Era compreensível, então, que ele se sentisse confiante contra Ryo. Claro, ele havia assistido o mago da água sobreviver a uma luta de espadas de um contra oito. Ele até achou que a esgrima do outro homem era surpreendentemente aprimorada para um mago, mas não considerava Ryo imbatível de forma alguma — mesmo que não tivesse chance de vencê-lo em uma batalha mágica. Além disso, com todos os seus aliados congelados, sua única opção era lutar com uma espada... Talvez isso fosse inevitável, mesmo desde o início.
◆
Sua esgrima é incrível.
Enquanto desviava dos ataques de Jurgen, Ryo se viu secretamente impressionado que um mago pudesse empunhar uma espada com tanta habilidade. Cada golpe descendente, golpe ascendente, corte diagonal e reverso, varredura e estocada era um produto perfeitamente refinado de dezenas de milhares de horas de prática.
Seu estilo me lembra o de Abel.
Sim, de fato. Habilidade obtida não por complacência, mas por esforço contínuo... Abel e Jurgen podem ter compartilhado circunstâncias semelhantes nesse aspecto. Ryo não sabia absolutamente nada sobre o passado de Jurgen, mas sua lâmina revelava tudo sobre como seu mestre vivera até agora, como enfrentara seus inimigos e mostrava, sem sombra de dúvida, que seu talento era forjado por meio de um esforço constante, sem cortar caminho.
Espadachins como este são formidáveis. E perigosos.
Ryo sabia que este não era um oponente contra o qual técnicas superficiais funcionariam. Não haveria vitória rápida contra este oponente.
Porque este oponente era mais forte que ele, e Ryo sabia que precisava lutar com esse conhecimento.
◆
Ele não vacila... Jurgen pensou enquanto balançava sua espada.
A esgrima do mago da água era sólida. Não importava como Jurgen atacasse, a lâmina de seu oponente não vacilava.
Esse nível de defesa... Significa que ele não tem tratado a esgrima como um hobby enquanto se concentra na magia. O estilo é diferente, mas sua estabilidade me lembra a do meu irmão.
A habilidade de seu irmão mais velho, Hartmut, com a espada era inigualável no Império, então qualquer um com defesa comparável era extraordinário.
Se eu entrar em pânico, vou perder...
Jurgen se preparou desde o início. Ele não esperava um oponente fácil, mas acreditava genuinamente que uma luta de espadas seria mais manejável do que um combate mágico... Não, claro, ele sabia que estava enfrentando um oponente verdadeiramente difícil, mesmo nesta arena.
Ele é humano, o que significa que vai cometer um erro. Vou simplesmente esperar pelo meu momento...
Desde o início, Jurgen estava atacando e Ryo defendendo. Contanto que ele mantivesse sua vantagem como o atacante, ele poderia explorar qualquer brecha na armadura proverbial do homem e vencer.
◆
Ryo às vezes fantasiava sobre o que aconteceria se ele lutasse com Abel a sério. Ele imaginava que isso nunca aconteceria em sua vida, mas talvez sua batalha com Jurgen fosse perto o suficiente.
Em pura esgrima, Ryo não estava confiante de que poderia vencer Abel. Ele havia começado recentemente a adquirir uma técnica semelhante ao Manto de Vento de Sera, permitindo-lhe aumentar sua velocidade... Se ele pudesse usá-la, ele poderia ser capaz de sobrepujar Abel — mas Ryo só conseguia acessar esse poder quando estava total e completamente concentrado. Ele não conseguia se colocar nesse estado de espírito sempre que queria, infelizmente, então derrotar Abel ainda permanecia fora de alcance. Se ele tivesse alguma esperança de superá-lo, teria que ser combinando esgrima com magia. Ele não tinha ideia de como fazer isso, no entanto, então ele ficou com uma opção: voltar ao básico.
Era a regra de ouro. Aqueles com um sólido domínio dos fundamentos são sempre fortes. Era também a razão pela qual Ryo respeitava Abel tão profundamente.
Ryo exalou profundamente, inspirou e então assumiu a postura adequada. Essa era toda a preparação que ele precisava fazer. Agora, ele só precisava se concentrar em sua esgrima e defender!
◆
Ele ficou ainda mais forte?
Jurgen franziu a testa interiormente. Ele não esperava enfrentar um oponente tão forte e inabalável. Ele vinha pressionando sua vantagem o tempo todo, tentando encontrar uma abertura, mas Ryo permanecia firme. Na verdade, ele parecia estar ficando mais forte a cada momento que passava.
Se seus camaradas não tivessem sido capturados, ele teria recuado. O pensamento deles cintilou intrusivamente na mente de Jurgen. Ele olhou para eles de soslaio, seus corpos envoltos em gelo. Eles estavam bem? Não, ele não conseguia imaginar que estivessem bem naquele estado, e era exatamente por isso que ele não podia simplesmente ignorá-los e recuar sozinho. Além disso, o General Rancius provavelmente ainda estava lutando...
Primeiro, seus pensamentos vacilaram, e então seu coração, e finalmente sua espada.
Na frente de seu oponente inabalável, ele vacilou.
E Ryo balançou sua espada em um amplo arco horizontal.
Jurgen normalmente teria aparado, mas por uma fração de segundo, sua reação foi retardada. Ele firmou os pés, com a intenção de bloquear, e então seu pé escorregou. Tarde demais, ele percebeu que gelo havia se formado sob ele. No momento seguinte, uma dor aguda atingiu-o na parte de trás da cabeça... e ele perdeu a consciência.
◆
Enquanto os dois magos duelavam, um aventureiro e um comandante militar continuavam sua própria luta.
— Eu imaginei que você me daria trabalho desde o início, mas caramba — você é mais forte do que eu imaginava — disse Abel com leveza.
Seu oponente, o General Rancius, permaneceu em silêncio.
E a diferença em suas atitudes era um reflexo direto da própria luta.
Que tipo de aventureiro é ele?! Sua ofensiva e defensiva são perfeitas, e sua técnica está além da comparação! Como isso é possível?!
Rancius rangeu os dentes, em pânico com a força inesperada de Abel. Claro, ele não era o espadachim mais poderoso do Império. Como comandante do Regimento Sombra, ele estava confiante de que era incomparável como mente militar — mas havia outros superiores a ele em combate individual. Ele não duraria mais do que alguns segundos contra um dos Doze Cavaleiros, por exemplo, e não sentia vergonha disso. Na verdade, ele recuaria. E agora, ele se sentia da mesma maneira. Mas...
O outro derrotou meus homens.
Oito de seus subordinados haviam cercado um aventureiro vestindo um manto que parecia um mago, mas ele podia ver daqui que eles haviam sido reduzidos a quatro. Inacreditável. Um lugar como este não era onde o Regimento Sombra se destacava. Eles preferiam muito mais uma cidade ou uma floresta densa. Embora esta fosse uma floresta, era uma área bastante aberta... Mesmo assim, deveria ter sido impossível para oito membros de seu regimento enfrentarem um único aventureiro e saírem perdendo. Para adicionar insulto à injúria, o aventureiro estava derrotando-os um por um com o passar do tempo...
Então o mago derrotou mais um, restando apenas três.
Nesse momento, Rancius viu o aventureiro de manto começar a correr enquanto os três restantes congelavam simultaneamente.
— Que diabos?!
Que visão chocante. O choque poderia não ter sido tão ruim se tivesse acontecido bem na sua frente, mas a distância e o fato de sua atenção estar em outro lugar atrasaram a reação do General Rancius. Este era um campo de batalha, e seu oponente não era o aventureiro de manto.
— Para onde você está olhando?
Essas foram as últimas palavras que ele ouviu antes de cair inconsciente.
Quando Ryo derrotou Jurgen, todos os dezenove membros do exército imperial se tornaram prisioneiros dele e de Abel.
◆
— Conseguimos! — Ryo gritou de alegria. — Excelente captura, não acha?
Como de costume, Abel franziu a testa enquanto caminhava ao lado do mago da água.
Ryo conhecia aquele olhar. Ele estava prestes a reclamar, mas desta vez, ele se anteciparia!
— Abel, por favor, não diga uma palavra.
— Ah, então você sabia que eu ia dizer alguma coisa.
— Claro. Há quanto tempo nos conhecemos? — Ryo respondeu com confiança. — Suponho que você ia reclamar porque está com fome e de mau humor, certo?
— Não, seu idiota! O que nessa situação te levou a pensar isso?!
Ele tinha razão. Pela “situação” deles, Abel se referia ao fato de que dezenove *Ice Carts*, cada um carregado com uma “escultura”, seguiam Ryo em fila única. Incomumente, não se podia nem dizer o que as esculturas — ou, mais precisamente, blocos de gelo — continham. Independentemente disso, qualquer um que passasse descreveria a cena como magnífica.
Abel, obviamente, sabia que os blocos de gelo continham as pessoas que eles haviam acabado de lutar e capturar.
— Alguma razão especial para você ter feito as caixas opacas desta vez?
— Beeem... Eles eram pessoas más que realizaram sabotagem e colocaram cidadãos em perigo por todo o Reino, mas fizeram isso sob as ordens do Império e lutaram bravamente... então não quero exibi-los como um show de horrores. Chame isso de compaixão de um samurai.
— O que diabos é um samurai?
— Hum, deixe-me pensar... ‘Cavalheirismo’ te soa familiar?
— Hã?
— O que você quer dizer com ‘hã’?
Ryo entendeu que “samurai” poderia não ser traduzido, mas como alguém em um reino com cavaleiros poderia não saber o que era cavalheirismo?
— Sabe... Cavaleiros lutando por seu senhor, resgatando belas donzelas... Isso não existe?
— Não faço ideia. Em livros e histórias, com certeza, mas... — Abel deu de ombros.
— Entendo.
Aparentemente, nada permanecia consistente quando seu mundo inteiro mudava.
— Parece que vivemos em uma era onde as pessoas alcançarão seus objetivos a qualquer custo, então, hm?
— Uau. Isso é um pouco... demais, não é?
— Ugh, por que você sempre tem alguma pequena réplica? Os espadachins são egoístas demais para o próprio bem. Eu gostaria que você pelo menos tentasse entender as sensibilidades de um mago.
— Sim, não. Parece mais um problema ‘seu’, Ryo. — Abel olhou para o comboio de Carros que seguia Ryo. — De qualquer forma, não posso acreditar que o Império tenha se tornado tão ousado.
— Quantos bandidos já pegamos? Somos praticamente uma unidade de contraterrorismo de dois homens!
— Não tenho certeza do que ‘contraterrorismo’ significa, mas aposto que grupos como esse bando são muito mais comuns do que sabemos.
— Que mundo aterrorizante.
Ryo balançou a cabeça horrorizado.
◆
— Ei, você mencionou que conhecia uma das pessoas daquele outro grupo, certo?
— Sim.
— É alguém que eu conheço também?
— É o Jurgen.
— Quem?
Ryo, sempre generoso, dignou-se a dar a Abel uma explicação adequada.
— Você se lembra daquele mago do Império? Ele tinha algo sobre fogo em seu apelido.
— O Mago do Inferno, Barão Oscar Luska. E o apelido dele tem duas míseras palavras, Ryo. Eu sei que você sabe.
— De qualquer forma. Jurgen é subordinado dele.
— Hã?
Apesar da explicação perfeita de Ryo, Abel demorou a entender.
— Jurgen é subordinado do Homem do Inferno.
— Sério?
— Por que eu mentiria?
— Calma. Só estou surpreso. Então ele trabalha para ele, hein?
Abel pressionou a mão na testa. Em outras palavras, o comboio deles incluía o ajudante de Oscar e o General Rancius, o comandante do Vigésimo Regimento Imperial. Ambos eram, sem dúvida, figuras-chave no Império.
— Problemas à vista. Posso sentir.
— Como cidadãos de Knightley, não podemos simplesmente ignorar atores mal-intencionados subvertendo o reino, podemos? — disse Ryo, com a voz séria.
— Você está certo. Mas... — Abel parou. Ele sabia que Ryo estava certo, mas outra coisa o incomodava. — Acho que você mencionou antes que as pessoas que você congela podem ouvir o que está acontecendo ao redor delas. Então elas podem ouvir nossas vozes, correto?
— Boa memória. Sim, eu disse. Elas podem ouvir perfeitamente — se estiverem dentro do meu *Ice Casket* normal.
— Ok...
— Mas esta versão é diferente. A temperatura é extremamente baixa, colocando-os em um estado de animação suspensa. Portanto, eles não podem ouvir nossa conversa.
— E o que isso significa, exatamente?
— Bem, hm... Significa que eles estão meio mortos.
Claramente, a criopreservação ainda não existia no Reino.
— Uau. E por que você decidiu deixá-los meio mortos?
— Porque aquele sujeito, Jurgen, é um mago excelente, o que significa que é totalmente possível que ele possa lançar feitiços sem palavras — apenas com seus pensamentos. Então, achei prudente remover sua capacidade de ter pensamentos.
— Espere, o quê? É possível lançar magia sem um encantamento ou mesmo uma palavra-gatilho?
— Sim, sim, essas são as frases. ‘Encantamento’ e ‘palavra-gatilho’.
— Espere um maldito segundo. Você está dizendo que você pode usar magia apenas pensando nela?
— Sim, posso. Eu não te contei?
— Esta é a primeira vez que ouço falar disso.
Que revelação chocante! Agora Abel sabia o segredo de Ryo!
Abel olhou para a mão de Ryo e viu que ele estava segurando algo. — O que é isso?
— Isto? Jurgen estava segurando.
Ryo mostrou a ele um cubo, com cerca de dez centímetros de cada lado. Emitia uma luz fraca e parecia metálico, mas era impossível dizer o que havia dentro ou sua função.
— Isso é obviamente único. Sei que é algum tipo de ferramenta alquímica, mas não tenho ideia do que faz, qual o seu propósito ou como usá-lo...
Ryo parecia um pouco frustrado. Ele se aventurava na alquimia, mas esta caixa estava além de sua compreensão. Ele não conseguia descobrir como abri-la. Não havia um único botão ou algo do tipo... Embora o irritasse, ele sabia a melhor solução.
— Vamos pedir para Kenneth dar uma olhada.
O Barão Kenneth Hayward, o gênio alquimista, saberia mais.
— Vamos direto para Lune. Sem parar em Acray — disse Ryo.
— Por mim, tudo bem, mas estamos correndo apenas para levar essa caixa para Kenneth mais rápido?
— Em parte. O mais importante é que acho que devemos nos reportar a Hugh o mais rápido possível.
— ‘Reportar’, hein? Mais provável que você só queira largar esses caras na porta dele e deixá-lo lidar com o resto, certo?
— O-o que você quer dizer? Reportar prontamente é um dado adquirido para um profissional que trabalha — disse Ryo, evitando deliberadamente o olhar de Abel. Embora seu argumento soasse razoável, ele sabia que não era convincente.
— Bem, não é como se pudéssemos fazer algo sobre eles de qualquer maneira — observou Abel com um olhar para o comboio.
Ryo seguiu seu olhar. — Precisamente.
— Cara, Hugh tem uma vida difícil como mestre de guilda, hein?
— Concordo plenamente.
Abel e Ryo balançaram a cabeça ao considerar as desgraças que estavam prestes a acontecer a Hugh McGlass.
Como se eles não fossem os mensageiros dessas exatas desgraças.
◆
A Duquesa Maria Kulkova governava o Marquesado de Kulkova, que ostentava uma das principais cidades acadêmicas do Império.
Atualmente, Maria estava entretendo duas velhas amigas.
— Isto é... tão delicioso, Lady Maria!
— Maravilhoso. Fico feliz que ache, Lady Fiona. Tornou-se um doce popular aqui, e evidentemente, eles estão planejando expandir para a capital imperial. Dei-lhes meu total apoio, mas o dono da loja é cauteloso. Então, eu disse a ele que deveríamos obter a opinião de uma jovem que conheço com um paladar mais refinado que o meu.
Fiona Rubine Bornemisza corou. — Oh, você me lisonjeia. Seus gostos são muito mais sofisticados.
— Querida, você possui sentidos muito aguçados, e isso inclui seu paladar. Por favor, tenha mais confiança em si mesma — disse Maria com uma risada.
A outra amiga de Maria ouvia em silêncio, saboreando seu doce com um sorriso.
— Oscar, você sempre gostou de doces, hm? — Maria perguntou, observando-o devorar a mais recente criação de torta de seu conhecido com maneiras impecáveis à mesa.
— Mestre, sua etiqueta é tão perfeita como sempre...
— Embora equilibrar velocidade e boas maneiras possa ser incrivelmente difícil, não é?
Fiona e Maria estavam familiarizadas com o decoro impecável de Oscar, mas a visão nunca deixava de surpreendê-las. Até Oscar ficou um pouco desconfortável sob seus olhares fascinados. Essas mulheres o conheciam há muito tempo...
— O que posso dizer, exceto que esta torta é soberba.
Maria sorriu. — Informarei ao dono da loja que ele ganhou até o louvor do renomado Mago do Inferno. Isso deve lhe dar a confiança para expandir para a capital.
— Parece que a erudição não tem o monopólio da inovação em sua cidade. Até as artes culinárias prosperam.
— De fato, Lady Fiona. Posso atribuir isso à atmosfera da cidade, ou talvez ao meu território como um todo. Atraímos todos os tipos de pioneiros.
— Imagino que a falta de financiamento seja a dificuldade mais premente que qualquer inventor enfrenta, mas você fornece o capital inicial, não é, minha senhora?
— Sim. A maioria começa com nada além de centavos, o que é admirável. Descobri que aqueles que pegam emprestado desde o início geralmente fracassam em seus empreendimentos. Mas há outros que ficam sem dinheiro e precisam desistir pouco antes de alcançarem seu primeiro sucesso. Eu forneço fundos para o último grupo.
— E não como a marquesa, mas como uma benfeitora interessada, sim?
— Correto. Eu converso com eles diretamente, visito suas lojas se tiverem uma, e uso minha rede para perguntar sobre sua reputação... Um passatempo bastante agradável, devo dizer.
— Incrível... — Fiona ficou surpresa ao ouvir o quão feliz Maria parecia.
— O dinheiro é necessário para tudo. E eu tenho de sobra, então por que não usá-lo? E adoro ver os resultados, o sucesso e o crescimento.
Os olhos de Fiona brilharam enquanto ela olhava para ela. — Eu a admiro tanto, minha senhora.
Maria, por sua vez, não pôde deixar de sorrir ironicamente.
— Mas Lady Fiona, você faz sua parte nutrindo pessoas em campos que não posso alcançar.
— Você está se referindo à Divisão de Magia Imperial? — perguntou Fiona. Ela era a comandante da divisão.
— Sim. Em certo sentido, não somos tão diferentes — disse Maria com um sorriso gentil.
Um rubor de deleite floresceu nas bochechas de Fiona.
— Peço desculpas pela interrupção, mas trago uma mensagem urgente da capital — disse a ajudante de Fiona, Marie, enquanto entregava um pedaço de papel a Fiona.
Fiona ofegou depois de lê-lo. — Você deve estar brincando... — disse ela, lendo-o novamente para ter certeza. Então ela passou o papel para Oscar.
— Jurgen foi capturado? — ele perguntou. — E o General Rancius do Regimento Sombra também? Na parte sul do Reino, perto de Acray... Esse não é o território do Marquês Heinlein? Ele poderia estar envolvido?
— O ex-comandante dos Cavaleiros Reais durante a Grande Guerra — disse Maria. Mesmo sem conhecimento de assuntos militares, ela sabia das realizações do Marquês Heinlein. Ela franziu a testa. — Levará um tempo considerável apenas para chegar lá.
Mesmo de seu domínio na parte leste do Império, Acray ficava a uma boa distância.
Mas Fiona e Oscar souberam o que precisavam fazer assim que leram a missiva.
— Mestre, a carta termina com um decreto imperial de Sua Majestade. —
— Eu vi. ‘Use todos os meios necessários para recuperar rapidamente todos os ativos’... E ambos sabemos que a definição de seu pai de ‘todos os meios necessários’ é bastante exaustiva. —
Oscar e Fiona trocaram olhares, depois olharam para Maria, que os encarou de volta, intrigada.
— Minha senhora, eu gostaria de pegar algo emprestado de você... — começou Fiona.
◆
Dezenove “esculturas” congeladas alinhavam o chão da sala de armazenamento dentro da guilda de aventureiros de Lune.
— Então... O que exatamente estou vendo, rapazes? — perguntou Hugh.
— Blocos de gelo — respondeu Abel.
— Abel, por favor, seja mais preciso — interveio Ryo, o artista das ditas esculturas. — São caixões de gelo.
Hugh McGlass suspirou e balançou a cabeça. — Devia ter formulado melhor minha pergunta. O que está dentro do gelo?
— Pessoas más do Império que estavam envolvidas em atividades subversivas perto de Acray — explicou Ryo antes de acenar com a mão. O gelo cintilou e se tornou transparente, revelando o que estava dentro.
— Interessante... — murmurou Hugh. — Já que estão no seu gelo, ainda estão vivos, certo? — Hugh sabia da habilidade de Ryo de congelar pessoas vivas, mas queria confirmar.
— Sim, claro. Os, hum, especialistas do Reino não podem exatamente extrair informações de cadáveres, certo?
Ryo se lembrou de ter ouvido falar de maneiras sofisticadas de obter informações usando magia e alquimia, então ele evitou usar a palavra “tortura”.
— Estou supondo que você está falando dos torturadores? Não temos nenhum em Lune, mas há alguns na capital.
— Posso perguntar por que o título deles é tão... explícito? — Ryo parecia perplexo.
— No passado, eles usavam tortura para forçar as pessoas a falar. Eles não fazem mais isso, mas acho que você pode chamar isso de um resquício daqueles dias. — Hugh deu de ombros.
— Entendi. Ah, este é um dispositivo alquímico que eles tinham em sua posse.
Ryo mostrou o cubo a Hugh.
— O que isso faz?
— Não sei. Acho que apenas um alquimista do calibre de Kenneth poderia começar a determinar isso...
— Ah, o barão. Foi ele quem enviou o trabalho da caça ao wyvern para a guilda através de Sua Senhoria, não foi? Nunca imaginei que vocês rapazes voltariam carregando sabotadores imperiais.
— Você pode agradecer — ou culpar, melhor dizendo — a Abel por isso. Foi ele quem notou o cheiro suspeito...
— Colocando a culpa em mim, hein? Parece típico.
Hugh examinou os dezenove caixões de gelo, depois inclinou a cabeça pensativamente. — Aqueles dez — disse ele, olhando para o grupo de Jurgen —, são todos magos, certo?
— Sim — respondeu Ryo.
— E os nove restantes estão com armaduras leves para soldados imperiais... Mas o equipamento deles é de alta qualidade... Nada disso faz sentido para mim.
— Isso é porque são duas unidades separadas — Abel interveio.
— O que você quer dizer?
— Estes nove são do Vigésimo Regimento Imperial, também conhecido como Regimento Sombra, e os outros dez são da Divisão de Magia Imperial. Duas unidades diferentes.
— Regimento Sombra? Divisão de Magia Imperial? Não... Agora espere um maldito momento...
— Sim. O General Rancius está aí em algum lugar, a propósito, junto com um Jurgen, que por acaso é o assessor do Mago do Inferno.
— Hã?
Hugh não conseguiu acompanhar. Nenhuma surpresa, na verdade. Ele, é claro, sabia do Regimento Sombra e da Divisão de Magia Imperial. Embora um aventureiro comum pudesse não saber, qualquer mestre de guilda que se prezasse sabia sobre as cartas na manga do Império.
Mas se o comandante do Regimento Sombra e o ajudante do infame Mago do Inferno da Divisão de Magia Imperial estavam entre os capturados...
— É melhor você não estar brincando comigo, Abel.
— Ele não está. Este é o general, e aquele é Jurgen. — Ryo apontou.
A compreensão atingiu Hugh como uma tonelada de tijolos. Seu rosto empalideceu. Não havia como ele permanecer composto em uma situação como essa.
— Isso é ruim... Isso é muito ruim — ele murmurou, incapaz de se conter.
Ryo piscou, assustado. — Mas... Mas eles estavam envolvidos em sabotagem...
— Eu entendo isso. Não estou culpando vocês, rapazes. Na verdade, vocês fizeram um bom trabalho. O problema é que fizeram um trabalho bom demais.
Ryo respirou aliviado, feliz por Hugh não estar com raiva dele. Abel apenas balançou a cabeça.
— Porque estamos falando do Império. Agora eles virão com tudo para recuperar seu pessoal e ferramentas alquímicas.
— Isso não levaria à guerra? — Ryo perguntou, preocupado.
— Talvez com o rei antigo, mas com o atual e sua turma... duvido que eles tenham estômago para travar uma guerra de verdade com o Império. — Hugh franziu a testa.
— Você está sugerindo que eles vão apenas se desculpar? Mesmo que o Império nos ataque?
— Se o Império tentar nos conquistar, pode haver resistência. Mas se for apenas um único ataque? Knightley provavelmente não irá à guerra.
— Ah, acho que entendi agora.
Se o poder militar de Knightley era inferior ao do Império, essa era sua única opção.
— Se a guerra estourar com o Reino, o Império fará o que puder para vencer — disse Abel. — Mas Knightley não tem a determinação para fazer o mesmo. Uma diferença de poder cria uma diferença de resposta.
— Aqueles bastardos imperiais farão qualquer coisa para recuperar Rancius e Jurgen, no mínimo.
— Siiim. Não discordo de você.
Tanto Hugh quanto Abel sabiam da situação.
— Então precisamos agir o mais rápido possível. Nina — disse Hugh, chamando a recepcionista que ouvia em silêncio.
— Sim, senhor.
— Relate tudo o que acabamos de discutir a Sua Senhoria. Além disso, diga a ele que queremos usar dezenove grilhões de atordoamento e quantas cadeiras de quebra-mente ele puder nos poupar.
— Entendido — disse Nina, saindo prontamente da sala de armazenamento.
— Abel, o que é um ‘grilhão de atordoamento’? — Ryo perguntou, não familiarizado com o termo. Ele também não tinha entendido o que eram “cadeiras de quebra-mente”, mas decidiu começar pelo menos perturbador.
— É uma coleira que você coloca em criminosos perigosos. Mantém-nos inconscientes. Você geralmente precisa de vários soldados para transportar um único criminoso, o que é um incômodo logístico, então o dispositivo garante que eles não escaparão. Ninguém, independentemente de ser um lutador ou mago poderoso, pode correr se estiver desacordado.
— Incrível. Esses grilhões de atordoamento definitivamente usam alquimia, certo?
— Sim. O design original foi desenvolvido durante o reinado do Rei Richard, e a fórmula mágica tem sido guardada a sete chaves desde então. Certo, Hugh? Porque seria muito ruim se caísse nas mãos erradas. Ainda assim, não deveria haver tantos no Reino, então como diabos Lune tem dezenove à mão?
— Porque estamos no meio do nada. Temos a maior parte depois da capital — respondeu Hugh com um sorriso malicioso.
Embora ele conhecesse Hugh muito bem agora, Ryo achou aquele sorriso assustador. No entanto, ele não conseguiu esconder seu alívio.
— Pensei que teria que ficar pessoalmente com eles o tempo todo.
— Não, eu não faria isso com você.
Hugh era um mestre de guilda sensato.
Ryo, incapaz de conter sua curiosidade mórbida, perguntou: — E o que é uma ‘cadeira de quebra-mente’?
— Praticamente exatamente o que parece — respondeu Abel. — É uma cadeira que força a entrada na mente da pessoa e extrai informações.
— Uau...
— Eu também nunca vi uma pessoalmente... Leva tempo, mas aparentemente, permite obter muito mais informações do que você jamais conseguiria fazendo perguntas uma por uma. O que a torna ainda mais útil é que você pode transferir as informações para um dispositivo alquímico dedicado e verificá-las mais tarde. No entanto...
— No entanto?
— Não pode ser feita usando alquimia moderna.
— Então também é da era do Rei Richard?
— Sim.
— Bem, graças a Deus por pequenas bênçãos — disse Ryo. O dispositivo podia ser mais inteligente do que a tortura antiquada, mas ele ainda não gostava da ideia de forçar a obtenção de informações contra a vontade de alguém. Claro, ele também sabia que quando o destino do país ou a vida de muitas pessoas dependia da obtenção de informações sensíveis, tais males às vezes eram necessários.
— Ryo, eu entendo como você se sente, mas...
— Pare aí mesmo, Abel. Eu simplesmente não gosto da ideia de coerção.
— Típico.
— Eu decido quando quero comer bolo, e eu decido quanto dele eu como. Acho que essa é a única maneira de uma pessoa viver sua vida.
Abel balançou a cabeça, exasperado. — Siiim. Clássico Ryo.
Talvez a leveza combinasse mais com eles do que a seriedade.
Depois que todas as dezenove pessoas foram equipadas com os grilhões de atordoamento, Ryo ficou livre de manter seus *Ice Caskets*.
— Eles não estão sendo enviados para a capital real, estão?
— Não. Eles provavelmente escapariam em um dia.
— Porque traidores os ajudariam, certo?! — Ryo perguntou, incapaz de se conter. Era uma ideia emocionante, já que não era uma ocorrência cotidiana. A excitação é apenas a natureza humana, e Ryo, como qualquer outro, não conseguia controlá-la conscientemente!
— Por que você parece tão feliz?
— Apenas uma parte inevitável de ser humano.
— Se você diz.
Os prisioneiros inconscientes foram carregados por eles enquanto conversavam. Ryo reconheceu alguns dos transportadores como cavaleiros do Margrave Lune. Se o Império enviasse agentes para recuperar os dezenove cativos, esses cavaleiros seriam a primeira linha de defesa.
— Você realmente acha que eles enviarão pessoas para resgatá-los? Quero dizer, Lune fica no sul de Knightley. Não é bem longe do Império?
— Sim. Tenho a sensação de que eles estão mantendo esses caras em Lune em vez da capital por essa exata razão. Lune fica mais longe do Império. O mestre da guilda relatou a Finley Forsyth, que concordou que seria melhor interrogá-los aqui.
— Finley Forsyth, o Grão-Mestre na capital? O pai da mulher que Hugh rejeitou?
— Você provavelmente deveria encontrar uma maneira mais diplomática de dizer isso, cara.
Três anos atrás, Hugh McGlass havia recusado uma proposta de casamento de Elsie, filha de Finley Forsyth, embora os dois tivessem sentimentos mútuos um pelo outro. Que desperdício.
— Relacionamentos são realmente complicados — murmurou Abel.
Ryo olhou para ele surpreso.
— O quê? — perguntou Abel.
— Às vezes você diz coisas sensatas, Abel.
— Às vezes? Mais frequentemente do que você, pelo menos.
— Eee lá vai você, estragando tudo.
— Ah, é? Bem, vá se ferrar você também!
Ambos eram farinha do mesmo saco...
◆
— Considerando o quão longe estamos da fronteira, o Império não conseguirá despachar uma grande força de ataque, certo?
— Provavelmente não. Se eu estivesse no lugar deles, planejaria um ataque surpresa a Lune.
— Hm, sim, qualquer grande exército seria facilmente detectado. Talvez uma equipe pequena e de elite, então?
— Também não consigo pensar em outra estratégia...
Ambos chegaram à mesma conclusão, por mais incerta que pudesse ser.
— Eles têm algo assim? Um esquadrão capaz de tomar a propriedade de um senhor ou o quartel de uma ordem de cavalaria?
— Esse seria o Vigésimo Regimento Imperial, também conhecido como Regimento Sombra, liderado pelo General Rancius.
— Entendo — respondeu Ryo com um aceno de cabeça.
Como o segundo príncipe de Knightley, Abel vinha aprendendo sobre as capacidades militares dos vizinhos do Reino desde a infância.
Em última análise, os conflitos políticos entre as nações são resolvidos de uma de duas maneiras: diplomacia ou força militar. Essas duas estão inseparavelmente entrelaçadas — uma não pode existir sem a outra — mas a relação não é igual.
O poder militar forma a base. A diplomacia apoiada pela força armada é comum, mas o poder militar apoiado pela diplomacia? Inédito. Uma nação mantém sua posição nas negociações precisamente porque tem forças armadas na reserva.
O Império entendia isso chocantemente bem. Abel aprendeu tudo isso durante seu tempo no palácio.
— Não podemos descartar a possibilidade de eles terem capacidades militares ocultas que não conhecemos.
— Você acha que conseguiremos defender Lune? — Ryo murmurou, com expressão preocupada.
— Nossas chances são melhores aqui do que seriam na capital, especialmente com os Cavaleiros Reais completamente dizimados. Além disso, Sera treinou os cavaleiros do margrave.
— Isso é verdade... Mas Jurgen é um espadachim incrível! Duvido que mesmo eles pudessem vencê-lo.
— Claro que ele é forte. Ele é o segundo em comando do Mago do Inferno. — Abel deu de ombros.
Os cavaleiros terminaram de carregar os prisioneiros restantes.
— Para onde será que eles os estão levando?
— Provavelmente para as cadeiras de quebra-mente.
— Mas Hugh disse que Sua Senhoria só podia poupar uma delas...
— Ah, sim, ele disse. Então Rancius ou Jurgen serão os primeiros. O resto provavelmente acabará na masmorra.
— A masmorra?! Então ela realmente existe! — A voz de Ryo subiu a um tom febril enquanto sua expressão preocupada se dissolvia completamente. Ele estava aprendendo sobre a existência de traidores, cúmplices e prisões subterrâneas — todas as coisas que ele nunca esperava ver fora de filmes e livros.
— O quê, você não sabia? Eles vão te jogar lá eventualmente, então é melhor dar uma olhada em sua futura casa.
— Bem, quando o fizerem, eu te arrastarei comigo, Abel!
— Eu nunca tenho um descanso...
— Se eu cair, vou te levar comigo.
A destruição mútua assegurada era a maneira infalível de Ryo de impedir que Abel o pegasse de surpresa!
◆
Ryo e Abel estavam em uma das quatro carruagens que transportavam as dezenove figuras inconscientes. Ryo havia pedido uma carona para a propriedade do margrave. Um dos cavaleiros, conhecendo Ryo de seus treinos diários com Sera no quartel, concordou.
— Você deveria me agradecer, Abel.
— Oh, eu agradeço. Genuinamente.
Ryo sorriu para ele. Claro, eles poderiam ter caminhado, já que era perto e ambos tinham muita resistência. No entanto, Ryo achou vital fazer Abel ficar em dívida com ele sempre que possível. Afinal, ele nunca sabia quando teria que cobrar o favor!
— O que eu quero saber é por que o Regimento Sombra se deu ao trabalho de invocar wyverns para sua sabotagem. É tão desnecessariamente complicado.
— Seu palpite é tão bom quanto o meu. Tenho a sensação de que eles tentaram fazer do jeito usual no início, mas depois as coisas tomaram um rumo diferente.
— Qual é o ‘jeito usual’ de sabotagem?
— Bem, assassinar o senhor da região local é um. — A expressão de Abel não mudou.
— Isso é comum? — Ryo olhou para ele surpreso.
— Matar uma única pessoa poderosa pode infligir grandes danos. Eficaz, não acha?
— Então por que não fizeram isso?
— Provavelmente não conseguiram. Você já sabe que Acray fica no marquesado de Heinlein. O marquês é um ex-comandante dos Cavaleiros Reais, e só isso já o torna perigoso o suficiente. Mas há mais... — Abel parou.
Ryo se inclinou, intrigado. — Conte mais...
— Ele é um mestre da contrainteligência.
— Ah, certo, lembro de ter ouvido isso.
— Supostamente, leva menos de vinte e quatro horas para seu pessoal prender espiões estrangeiros em Acray.
— Você está brincando...
O poder do aparato de contrainteligência de Heinlein chocou Ryo. Uma cidade onde os espiões não duravam nem um dia... Era difícil de imaginar, mesmo na Terra, onde as câmeras de vigilância modernas estão por toda parte.
— Que tipo de métodos eles usam?
— Não sei os detalhes, mas Phelps mencionou algo sobre alquimia.
— Alquimia! Claro! Por que não pensei nisso? Confie no marquês para encontrar o vice perfeito! — Ryo disse com orgulho, por algum motivo.
— Ótimo, chegamos.
A carruagem deles chegou à mansão do margrave. Eles agradeceram aos cavaleiros e desceram.
— Tudo bem, hora de conhecer o homem que está no auge da alquimia.
Então eles foram procurar o Barão Kenneth Hayward.