
Volume 6 - Capítulo 3
The Water Magician
Os funcionários públicos, Ryo e Abel viajaram de carruagem, os cavaleiros cavalgaram e o resto caminhou. Como resultado, o grupo se movia bem devagar. Twilightland ficava a sudoeste do Reino. A jornada de um mês da capital real até seu destino os levaria além de Acray, a maior cidade do sul. Na primeira noite, eles planejavam ficar na cidade de Deopham, após a qual viajariam pela Terceira Estrada para Acray, hospedando-se em várias outras cidades e vilas no caminho. Não havia planos de acampar ao ar livre antes de chegarem à fronteira. Embora os aventureiros e cavaleiros não tivessem problemas, teria sido desafiador para os funcionários públicos.
Considerando tudo, era um itinerário relativamente simples.
— Abel, vamos passar a noite em Deopham. Você se lembra de lá? Foi o primeiro lugar em que ficamos em nossa viagem do Palácio de Cristal para Lune. Tive meu braço esquerdo arrancado naquela viagem.
— Como diabos você consegue falar sobre ter seu braço arrancado com um sorriso? Não consigo decidir se você é durão ou maluco.
Abel parecia exausto, mas Ryo não era o único motivo para sua expressão.
— Você com certeza trouxe um monte de documentos com você, Abel.
— Bem, meu irmão me deu uma tonelada de dever de casa, entãooo...
Apesar de estar livre das intensas palestras do príncipe herdeiro, ele havia embarcado na carruagem com uma montanha de tarefas para completar durante a viagem. Essa era provavelmente noventa por cento da razão para sua expressão abatida.
— O escopo da punição para a infração do Conde A... — disse Ryo, lendo um dos documentos. — Quantos membros de sua família devem ser punidos e que tipo de punição devem receber... No palácio, ele sacou sua espada e atacou o Conde B, que estava encarregado da cerimônia... Uau, este cenário é tão detalhado, como um estudo de caso de um incidente real.
— Você não está errado. Isso realmente aconteceu.
— Talvez alguém tenha entrado correndo e os impedido gritando: “Como ousam?! Este é o palácio!”
A mente de Ryo relembrou a história de Asano Naganori (também conhecido como Takumi no Kami), o daimiô da região de Ako no Japão feudal, e Kira Yoshinaka (conhecido como Kira Kozuke-no-suke), o mais famoso mestre de cerimônias. O primeiro tentou matar o último no Corredor dos Pinheiros no Castelo de Edo.
— Não sei do que você está falando, mas neste caso específico, a família inteira do Conde A deveria ter sido exterminada. Exceto que as circunstâncias que levaram ao ataque foram complicadas... Ugh. — Abel suspirou do fundo de sua alma. — Por que isso é tão complexo?
— Se eu não soubesse, diria que você está sendo forçado a estudar como um príncipe de verdade.
— Como um príncipe de verdade? Você ainda não acredita em mim. Cara, como você pode ser tão teimoso?
— Claro que não. Quer dizer, se você realmente se tornasse rei por algum acidente estranho, então...
— Então o quê? — Abel insistiu, curioso sobre seu cenário imaginário.
— Então... ficaria muito mais difícil fazer você me pagar comida!
Abel se debruçou, sua cabeça batendo na mesa da carruagem. — Sim, foi o que eu pensei.
Ryo piscou. — Ah! Já que estamos no assunto...
— O quê? — Abel perguntou sem levantar a cabeça.
— Qual é o nome do seu irmão mais velho?
— Caindish Besford Knightley.
— Cain... — Ryo murmurou.
— Sim, eu o chamava assim às vezes quando éramos pequenos. Por quê?
Ryo imediatamente pensou na história de Caim e Abel. No Antigo Testamento, Caim cometeu o primeiro assassinato na Terra ao matar seu irmão mais novo, Abel.
Será que tudo isso é um plano de Caim para afogar Abel em uma pilha de dever de casa?
Claro que não.
◆
Abel trabalhava diligentemente nas tarefas que o príncipe herdeiro lhe dera, com o rosto sério. Em contraste, Ryo sorria enquanto lia documentos e rabiscava notas. Embora ambos estivessem imersos na papelada, o contraste entre suas atitudes criava uma atmosfera estranha na carruagem. O fato de um estudar para se tornar rei e o outro estar tentando entender os mecanismos por trás dos golens apenas contribuía para a estranheza.
Embora sua carruagem para duas pessoas fosse menor que as carruagens para quatro, ainda tinha uma mesa, então eles podiam mergulhar em suas leituras sem se preocupar com mais ninguém.
Então, por volta das quatro da tarde, a delegação chegou a Deopham, onde passariam a primeira noite da jornada.
◆
Ryo olhou para o prédio, claramente de bom humor. — Abel, esta é a mesma estalagem em que ficamos antes!
O que o deixou tão animado? Bem, ele acabara de se lembrar que a estalagem tinha um grande banho.
— É de classe bem alta, mesmo para Deopham. Entendo por que o governo a escolheu para a delegação. Aparentemente, temos o lugar inteiro só para nós também — disse Abel. Ele parecia visivelmente exausto de estudar o dia todo. — Não se esqueça, vamos jantar com o emissário hoje à noite, às seis.
— Nããão...
Ryo parou abruptamente, seu pé direito parando no ar e seu braço direito no meio do balanço, literalmente congelado de choque. Ele não fez um único movimento; até seu rosto ficou imóvel. Então, com a expressão ainda imóvel, ele olhou para o espadachim.
— Abel, não estou me sentindo bem — disse ele com uma voz robótica. — Preciso pular o jantar.
— Me conta outra, que tal? Você sabe que isso não vai colar, especialmente porque isso faz parte do trabalho — respondeu Abel, suspirando exasperado.
Para Ryo, as palavras de seu amigo poderiam muito bem ter sido uma faca cruel.
— Me escuta, Abel. Você é um aventureiro de rank A, enquanto eu sou um mero rank C, e—
— Ryo, desista — continuou Abel.
— Tenho certeza de que o emissário é algum nobre de elite que despreza plebeus como eu como se fôssemos lixo... — Ryo continuou. Sendo um burocrata de alto escalão, o emissário do Ministério das Relações Exteriores do Reino supervisionava a delegação. — Eu não ficaria surpreso se ele jogasse vinho em todo o meu precioso manto e se recusasse a sentar na mesma mesa que eu.
O rosto de Ryo passou de impassível para suplicante em um piscar de olhos.
— Uau. Bem preconceituoso, não? Quero dizer, alguns nobres são assim, mas ainda assim... Enfim, ajudaria se eu te dissesse que ele é o segundo filho do Marquês Hope? Eles são uma família poderosa no oeste. Eu achooo que ele tem cerca de trinta anos ou algo assim.
— Um nobre poderoso...
Os olhos de Ryo ainda estavam lacrimejantes, e o desespero em seu rosto só se aprofundou.
— Olha, você não vai ganhar essa. Mas ei, pelo menos você pode usar suas roupas de sempre. Até mais, amigo.
Com isso, Abel seguiu rapidamente o resto da delegação para dentro da estalagem.
Deixado para trás, Ryo entrou arrastado, todo o vestígio de sua excitação anterior extinto.
◆
— Sejam bem-vindos, sejam bem-vindos. Eu sou Ignus Hagritt, o emissário desta missão. É um prazer conhecê-los.
Ele apertou suas mãos calorosamente. Ryo ficou surpreso com o quão pé no chão ele parecia.
— Você é o espadachim, Abel, certo? — Ignus perguntou. — Estamos sinceramente gratos por você ter assumido esta tarefa difícil. E você deve ser o mago, Ryo, certo? Ouvi dizer que você foi enviado como o cordeiro sacrificial do Lorde Hilarion... Meus mais profundos pêsames.
O sorriso e a disposição do negociador os fizeram pensar que ele poderia realmente ser uma boa pessoa. Não era de se admirar que o Ministério das Relações Exteriores o tivesse contratado. Embora não fosse particularmente bonito, ele certamente não era feio. No geral, ele exalava uma aura suave e gentil, que seu sorriso inabalável apenas realçava.
— Vamos continuar esta conversa à mesa do jantar. Sentem-se, por favor. O jantar será servido em breve, e uma refeição é melhor apreciada enquanto ainda está bem quente, sabe. Afinal, essa é a maneira adequada de mostrar respeito ao chef.
A primeira refeição de Ryo com Ignus, que também serviu como uma reunião, correu bem. O emissário havia quebrado completamente as ideias erradas de Ryo sobre nobres de alto escalão, e em pouco tempo, Ryo estava se divertindo muito. Comida deliciosa, conversa divertida... Ele ficou feliz em aprender como a classe alta fazia as coisas.
— Ignus é um cara decente, não acha? — Ryo perguntou a Abel mais tarde.
— Sim. O pai dele, o Marquês Hope, mantém distância da política do Reino, mas ele tem uma ótima reputação pela forma como administra seu território. Os impostos são baixos, o comércio está em expansão e as pessoas estão seguras. O marquesado originalmente prosperou na agricultura, mas ultimamente também está decolando como um centro de comércio e indústria. Eu gostaria de visitá-lo um dia — explicou Abel, recitando detalhes que aprendera durante uma das palestras de seu irmão. — Tenho certeza de que Ignus também devia estar se sentindo um pouco ansioso, considerando que ele nem chegou a nos encontrar antes de deixarmos a capital.
— Falando nisso, por que não participamos da cerimônia oficial da delegação?
Aconteceu quando Ryo estava enfurnado no Centro de Alquimia e Abel estava frequentando suas aulas intensivas. Não era tão surpreendente, em retrospecto...
— Porque havia uma chance de eu encontrar pessoas que conhecia da minha vida no palácio. O grão-mestre e meu irmão discutiram e decidiram que, como somos aventureiros, não deveríamos ir.
— Lá vai você de novo, entrando no personagem. Tenho que admitir, Abel, estou impressionado com o quão bem você interpreta o papel do príncipe. — Ryo suspirou e encolheu os ombros, ambos os gestos deliberadamente teatrais.
— Ah, é? Bem, sabe o que eu acho impressionante, Ryo? O fato de você ainda não acreditar em mim, mesmo depois de tudo — resmungou Abel, seu suspiro mais profundo e genuíno.
— Mas se, por alguma reviravolta estranha do destino, você realmente se tornar rei, Abel, então—
— Então você não pode me fazer pagar comida para você, certo? Sim, sim, me diga algo que eu não saiba.
— —então você pode usar seus poderes reais para perdoar toda a dívida que você tem comigo!
— Por que diabos você está me pintando como algum tipo de monstro?! — berrou Abel.
Mas então, um momento depois, ele de repente percebeu algo.
— Espere um minuto... não me lembro de te dever nada...
— Você deve sua própria existência a mim.
— Isso não faz o menor sentido!
— Você não está no seu melhor hoje, Abel. Tsc, tsc.
Abel não pôde fazer nada além de fuzilar o mago da água com o olhar.
Na manhã seguinte, cavaleiros e aventureiros praticavam sua esgrima no pátio da estalagem. Zach Kuhler, um Cavaleiro Real, liderava a sessão. Abel, balançando sua espada ao lado dele, notou que o cavaleiro parecia surpreendentemente diferente.
— Você mudou, cara — disse Abel. — Se eu não te conhecesse, não te reconheceria.
— Pode apostar. É isso que acontece quando você quer se tornar um cavaleiro digno de estar ao lado de Sera.
— Ceeerto...
Abel desviou o olhar quando percebeu a razão para a nova diligência de seu amigo na arte da lâmina. Ele não conseguia pensar no que dizer ao seu companheiro de bebida sobre seu amor não correspondido e condenado. Mesmo que pudesse encontrar as palavras, ele não ousaria dizê-las — porque tinha medo de que isso provocasse um duelo entre Ryo e Zach...
◆
Em uma das carruagens oferecidas à delegação, um espadachim levantou os olhos dos papéis à sua frente e suspirou.
— Ugggh...
— Você está tentando mostrar o quão duro está trabalhando, Abel? Seu espertinho!
— O quê?! Não! Eu só estava suspirando. Como você sequer pensou nisso?
Mais uma vez, o espadachim e seu amigo mago caíram em sua rotina de comédia — ou melhor, o que passava por conversa para eles.
— Deixa pra lá. Estudar é divertido, sabe. Nada para suspirar. — Ryo sorriu, feliz em falar sobre seu assunto favorito.
— Olha, cara, até você estaria suspirando se tivesse que estudar algo como política.
— Ha! Abel, você diz isso simplesmente porque você é, digamos, não iluminado. Venha, consulte o maior cientista político que está diante de você sobre suas preocupações!
— Maior cientista político? Até parece... — Abel murmurou, então suspirou ainda mais profundamente do que antes, balançando a cabeça em frustração. — De qualquer forma, eu não os chamaria de preocupações, exatamente... Eu só me perguntei por que o conceito de realeza existe, só isso.
— Um príncipe questionando o significado da existência de sua própria família... Que filosófico...
— Não, eu não acho que seja filosófico, na verdade.
O olhar de Abel se fixou abruptamente nas mãos de Ryo, que giravam uma manivela. Embora o objeto parecesse de vidro, Abel sabia que era, na verdade, feito de gelo, criado pela magia da água. Depois de girar a manivela do objeto por mais um tempo, Ryo finalmente removeu sua tampa e transferiu o pó de dentro para um cilindro de gelo recém-construído.
— Ryo, o que exatamente você está fazendo? — ele perguntou.
— Sabe, eu estava com vontade de tomar um café. Quando estou em casa, eu moo meus grãos em um moedor feito pela empresa do Gekko, mas seria muito volumoso para trazer nesta viagem. Mas um moedor é um dispositivo simples, então eu fiz o meu próprio usando magia da água.
Depois de transferir os grãos de café moídos, Ryo entregou o moedor para Abel e despejou água quente na prensa francesa feita de gelo. Ah, a versatilidade da magia da água!
— Agora, contanto que eu tenha grãos torrados, posso desfrutar de café fresco enquanto viajo!
— Uauuu...
Os comportamentos de Ryo geralmente mistificavam ou exasperavam Abel, mas desta vez ele ficou genuinamente impressionado. O rico aroma de café Kona emanava da prensa francesa, que estava ao lado de uma ampulheta de gelo na escrivaninha. Olhando mais de perto, Abel percebeu que pequenos cubos de gelo enchiam a ampulheta em vez de areia.
— Uma família fundadora é uma bandeira — murmurou Ryo.
— Hã? — Abel estava legitimamente confuso.
— Ah, desculpe, eu estava falando sozinho. Uma família real é uma bandeira.
— Uma família real é uma bandeira...
Ryo assentiu. — Como você pode ou não saber, as pessoas têm dificuldade em sentir lealdade por coisas vagas e abstratas como organizações ou países. É por isso que você usa alguém que personifica ou simboliza uma organização, país ou algo assim para unir as pessoas.
Abel ouviu sem dizer uma palavra.
— Embora bandeiras e hinos nacionais sejam outra maneira de ganhar a lealdade dos cidadãos, eles não são perfeitos. Em última análise, o método mais confiável são as pessoas.
Na Terra moderna, os Estados Unidos, o lar da democracia, são talvez o melhor exemplo. O presidente americano é uma personificação duradoura do próprio país. Por essa razão, não importa o que aconteça, a segurança do presidente tem prioridade máxima. Mesmo que dezenas ou milhares morram, o país inteiro ainda garantirá a segurança do presidente. É assim que o sistema está configurado. Os fundadores da América devem ter sabido que a maneira mais eficaz de unir o povo é nomear alguém que simbolize o próprio país.
É por isso que esta nação, como um mosaico com sua mistura diversificada de raças, religiões e perspectivas, continuou a reinar no topo do mundo depois de experimentar apenas uma guerra civil em grande escala.
A história já viu sua cota de líderes carismáticos. Sob eles, conflitos raciais e religiosos não eram grandes problemas, e os países continuavam a funcionar. No entanto, após suas mortes, esses conflitos vieram à tona, desestabilizando nações e, acima de tudo, causando sofrimento ao povo. É por isso que um líder deve durar mais do que uma única geração, o que só é possível em um modelo que utiliza uma família inteira.
— Então, você está dizendo que um rei, ou uma família real, é um símbolo necessário para unir um país e seu povo. Ou, para ser mais claro, você acha que é o sistema mais eficaz?
— Correto. Admito que é um pouco desumano. Afinal, um rei não pode mais desfrutar dos prazeres da vida comum.
O pai de Ryo havia dito que uma família fundadora era uma bandeira. O princípio se aplicava também aos negócios, onde as famílias eram símbolos que uniam os funcionários e também uma das maneiras mais eficazes de administrar uma empresa. De fato, basta olhar para as empresas que se tornaram corporações e removeram seus fundadores décadas depois. Existem milhares de empresas no Japão que operam há séculos, e quase todas elas tinham uma família fundadora. Se não tivessem, não durariam.
A história prova isso. A história não mente. A história pode ser... cruel, às vezes.
Claro, os membros de uma família fundadora poderiam se tornar prisioneiros de sua própria família. Não ter a liberdade de escolher uma carreira ou a trajetória de sua vida seria desumano, mas a história não leva tais coisas em consideração.
— Uma bandeira unificadora em si não é necessariamente um bom líder. Alguns argumentariam que nada mais importa, desde que cumpram seus deveres adequadamente e se cerquem de pessoas talentosas. Tudo o que você precisa fazer é olhar para a longa lista de reis idiotas ao longo da história para ver isso. Obviamente, é sempre melhor se o símbolo for um indivíduo excepcional, mas mesmo que não seja o caso, não há necessidade de se sentir muito desanimado.
— Espere um segundo... Você está falando de mim? — Abel estreitou os olhos.
— Oh, céus, veja só. A ampulheta acabou. Hora de uma pausa!
Ryo pousou a prensa e despejou o café recém-preparado em uma xícara de gelo que estava, de alguma forma, em temperatura ambiente. Ele a entregou a Abel.
— Oooh, obrigado. — Abel a pegou e não pôde deixar de sorrir com o aroma. — Devo dizer, nunca pensei que seria capaz de beber café recém-preparado em uma carruagem.
— Heh heh heh. Deleite-se na grandiosidade da magia da água!
Com esse floreio dramático, Ryo sorriu com o aroma delicioso.
◆
Enquanto isso, em algum lugar do Reino...
— Lorde Black, tudo está pronto.
Mais de dez homens e mulheres se ajoelharam diante do homem conhecido como Black, curvando a cabeça e esperando ordens. Eles eram o novo alto escalão da Seita dos Assassinos.
— De acordo com o novo contrato, eu autorizo o ataque à delegação. Natalia, assuma o comando.
— Sim, meu senhor.
Depois de dar suas ordens, Black desapareceu. No entanto, os outros permaneceram imóveis por algum tempo. Dois longos minutos depois, Natalia se levantou e o resto a seguiu.
— Ele é mais intimidador que o último líder — resmungou o homem mais velho entre eles.
Natalia o fuzilou com o olhar, mas não disse nada em voz alta. Todos eles tinham o mesmo rank, mas a longa filiação do homem na Seita o tornava mais poderoso. Mesmo que Black claramente a favorecesse e lhe confiasse o comando de grandes operações como esta, no final das contas, ela não os superava em rank.
Um dia...
Natalia saiu da sala, silenciosamente determinada a um dia se erguer acima desses homens. Seu destino era Acray, a maior cidade na parte sul do Reino.
◆
Dez dias haviam se passado desde que a delegação deixou a capital real. Eles seguiram para o sul pela Terceira Estrada e finalmente entraram em Acray, a maior cidade do sul, a capital do marquesado de Heinlein e, ao lado de Lune, uma das maiores cidades do país. O marquês era o ex-comandante dos Cavaleiros Reais e o pai de Phelps, um aventureiro de rank B baseado em Lune.
Os funcionários públicos, cavaleiros e escudeiros ficariam na propriedade do lorde. Quartos haviam sido reservados para os aventureiros em uma estalagem luxuosa nas proximidades. Oficialmente, isso era para lhes dar espaço para relaxar após o constrangimento de comparecer à cerimônia de boas-vindas.
Extraoficialmente, era por causa de Abel, que se tornara um aventureiro de rank A apesar de ser o segundo príncipe. Havia um entendimento tácito entre os que sabiam que Abel deveria ser mantido fora das cerimônias do Reino tanto quanto possível. E o Marquês Alexis Heinlein era uma dessas pessoas cientes de sua real identidade.
A estalagem onde os vinte e dois aventureiros, incluindo Abel e Ryo, estavam hospedados ficava ao lado da mansão, tornando-se um estabelecimento de ultra-alta classe. Normalmente, era o tipo de lugar onde ricos comerciantes ou nobres e suas comitivas que visitavam o marquês se hospedavam. O vasto saguão tinha incrustações de mármore, atingindo o equilíbrio perfeito entre opulência, elegância e conforto.
— Abel... Este lugar é... incrível...
— Sim. Não só é o melhor do sul, mas também é um dos mais luxuosos de todo o Reino.
A equipe era de profissionais consumados. Eles cumprimentaram os aventureiros, muitos dos quais eram rudes, com sorrisos, o que fez os aventureiros sorrirem de volta.
Enquanto Ryo e Abel admiravam a vista, dois funcionários se aproximaram deles.
— Mestre Abel, Mestre Ryo, as formalidades foram resolvidas, então agora vamos levá-los aos seus quartos.
— Nós levaremos sua bagagem.
Seus quartos eram os dois últimos no segundo andar. O de Ryo apresentava uma espaçosa sala de estar com um sofá suntuoso e uma elegante cadeira de balanço. O quarto era separado, com uma cama king-size macia. Havia até um banho ao ar livre!
— Incrível... — Ryo não conseguiu conter sua admiração.
O funcionário que o acompanhou sorriu, depois saiu com uma reverência.
Uma estalagem administrada por um nobre... Foi uma experiência verdadeiramente nova para Ryo.
Depois de um mergulho relaxante no banho ao ar livre em seu quarto de hóspedes, Ryo vestiu a roupa de descanso fornecida e desceu para a sala de jantar no primeiro andar. Lá, ele encontrou os aventureiros, já meio bêbados... Ele avistou um feroz espadachim de rank A entre eles e se moveu rapidamente para um canto escondido para evitar ser visto.
— Ah, não, Ryo, você não vai escapar! — gritou Abel. — Você não vai se livrar dessa!
— Quem é esse Ryo? Você se enganou de pessoa.
— Enganei uma ova!
Um Abel bêbado o pegou e o arrastou em direção aos outros. Eles o entupiram de comida e bebida. Estranhamente, Ryo logo se viu imprensado entre aventureiras, que o paparicavam com comentários como “Meu Deus, você não é simplesmente adorável?”. Talvez seus traços orientais o fizessem parecer um garoto?
Como Ryo só conhecia um punhado de aventureiros em Lune, ele se sentiu totalmente deslocado...
Enquanto todos ao seu redor ficavam cada vez mais bêbados, o mesmo acontecia com Ryo. Ele cambaleava para lá e para cá, comendo seu prato de carne quase sem pensar. Então ele avistou alguém do lado de fora da janela que não deveria estar lá.
Quando seus olhares se cruzaram, essa pessoa acenou para Ryo se aproximar. Ryo olhou ao redor e viu que todos os outros haviam desmaiado em algum momento. Como ele era o único acordado, o indivíduo do lado de fora devia estar gesticulando para ele. Após chegar a essa conclusão, ele saiu da estalagem.
— É você mesmo? — Ryo perguntou ao homem que esperava do lado de fora.
— Olá, Ryo.
Era Phelps, o líder da Brigada Branca, um grupo de rank B baseado em Lune.
— Por que você está aqui?
— Porque esta é a casa da minha família, é claro.
— Ahhh, é verdade!
Phelps A. Heinlein era o herdeiro do Marquês Heinlein, e eles estavam em Acray, a capital do marquesado.
— Abel está lá dentro. Você quer que eu o chame para você?
— Não, estou aqui para falar com você, Ryo.
Phelps sentou-se em uma cadeira no terraço aberto. Ryo sentou-se na cadeira em frente a ele.
— Vou direto ao ponto. Você sabe sobre a Seita dos Assassinos, não sabe?
— Hum...
Claro que ele sabia, mas hesitou, sem saber se deveria responder honestamente.
— E-Eu não sei do que você está falando... — Ryo disse finalmente.
— Você sabia que é um péssimo mentiroso? — Phelps apontou com uma risada. — Eu sei que você exterminou a vila deles, Ryo.
— B-Bem, foi assim que as coisas aconteceram... — Ryo explicou freneticamente, surpreso com o quanto o outro homem sabia.
— Não, não, não estou te atacando.
— Ah, entendo — respondeu Ryo, aliviado.
— No entanto, a Seita está em movimento novamente.
— O quê? Mas o líder, ele está...
Morto. Depois de presentear Ryo com seus textos alquímicos, “Hassan” de fato morreu bem diante dos olhos do mago da água.
— Eu sei, mas outra pessoa assumiu, e temos motivos para acreditar que esta delegação é um alvo.
— O quê?! Por quê?!
— Isso, eu não posso dizer. Mas posso te dizer que pegamos alguns personagens suspeitos nesta cidade que estavam coletando informações sobre a delegação há algum tempo. Eles confessaram depois que os questionamos.
A expressão de Phelps não mudou, deixando para Ryo imaginar as maneiras aterrorizantes com que Phelps e seu povo haviam “pegado” e “questionado” os vilões. Ele não tinha nenhuma prova real, mas sentia que Phelps não tinha escrúpulos sobre esse tipo de coisa. Isso era uma coisa que o tornava tão diferente de Abel. Nesse ponto, uma possibilidade ocorreu a Ryo.
— Eles poderiam estar mirando em Abel?
O olhar de Phelps se intensificou. — Entendo que você conhece a verdadeira identidade dele? — ele perguntou com um leve sorriso. Embora ele tenha formulado como uma pergunta, seu rosto sugeria que ele já sabia a resposta.
— Se com isso você quer dizer a alegação dele de ser o segundo príncipe, então sim.
— A alegação dele, hein? — Phelps não conseguiu conter o riso. — Bem, é verdade.
— Gah... Eu tinha a sensação de que poderia ser o caso.
Sim, ele não estava mentindo, certo? A pura verdade de Deus.
— Não tenho certeza se Abel é o alvo deles nesta ocasião. O momento parece errado, considerando por quantas pessoas ele está cercado. Infelizmente, as chances não são zero...
— Entendido. Eu cuidarei dele — disse Ryo com um aceno de cabeça firme. Ele já havia adivinhado que parte da razão de Phelps ter vindo até aqui para vê-lo era para pedir ajuda secretamente para garantir a segurança de Abel, junto com a atualização sobre os movimentos da Seita.
— Agradeço. Com você do nosso lado, somos invencíveis. — Phelps se levantou com um sorriso. — Ah, a propósito, a situação em Twilightland está se tornando mais desagradável. Tenha isso em mente.
Então ele se dirigiu para a propriedade de sua família ao lado. Ryo o observou partir.
— Hm, hm, hm. E lá se vai um verdadeiro herdeiro nobre. Não que Abel não tenha refinamento ou algo assim, mas... Hm, como eu coloco isso...
— Ryo, você está falando em voz alta porque sabe que estou bem atrás de você? — disse Abel por cima do ombro de Ryo.
O Sonar Passivo de Ryo o alertara da presença de seu amigo, é claro. Abel havia chegado pouco antes de sua conversa com Phelps terminar.
— Não, não, claro que não. Por que você pensaria isso, meu lorde? — perguntou Ryo.
— Porque tudo que estou ouvindo são mentiras!
Ryo suspirou. — Abel, parece que eu te entendi mal.
— Espere aí. De onde vem essa revelação repentina? — Abel inclinou a cabeça curiosamente.
— Eu reconheço que você é o segundo príncipe.
— Ryo, seu filho da... Você não acreditou quando eu disse, mas acreditou em Phelps? Assim, de repente?
— Por que você está surpreso? Se um vigarista te dissesse que era um príncipe, você acharia impossível de acreditar, certo? Mas se o herdeiro de um marquês te dissesse que o mesmo homem era um príncipe, você acreditaria nele. Não concorda?
— Eu não acho... que essa seja uma boa... analogia... — Abel balançou a cabeça ligeiramente. — Ah, tanto faz. De qualquer forma, por que Phelps estava aqui, afinal?
— A Seita dos Assassinos. Eles estão ativos novamente e aparentemente mirando nesta delegação. — O tom de Ryo era chocantemente casual, como se estivesse discutindo o que comer.
— Eu nunca vou entender como você consegue ser tão indiferente sobre as coisas mais importantes — disse Abel com um suspiro. Ele também não estava errado.
— Fácil! Porque desta vez, temos muitos cavaleiros e aventureiros conosco. O que significa que podemos relaxar... quero dizer, contar com os outros! Apoio! Sim, é isso. Temos apoio!
— Não pense que eu não ouvi essa parte sobre relaxar.
— Não tenho ideia do que você está se referindo, meu lorde.
◆
— Vamos ver muito mais árvores daqui em diante — disse Abel a Ryo depois que eles deixaram Acray.
— Isso significa que é aqui que a jornada real começa — respondeu Ryo com um aceno de cabeça sério, um olhar de determinação sombria em seu rosto.
— Eu não iria tão longe. Eu diria que as coisas não ficarão “reais” até passarmos por Bardon Blaine esta noite.
— Puxa, então por que você não me contou tudo isso amanhã? — Ryo suspirou e balançou a cabeça em exasperação.
— Quer dizer, não é como se a viagem tivesse sido um passeio no parque até agora — retrucou Abel.
A brincadeira deles era normal para os dois. Dito isso, as coisas haviam mudado um pouco. Ontem, a carruagem era uma verdadeira sala de estudos móvel; hoje, o número de documentos que atravancavam a mesa havia sido reduzido pela metade. Por quê? Bem, duas razões: uma, eles não estavam mais na Terceira Estrada, que era completamente segura, e duas, o aviso de Phelps.
— Estive pensando sobre o que Phelps me disse sobre ele e seu pessoal pegando e questionando agentes da Seita em Acray...
— Sim, ele é bom nesse tipo de coisa. — Abel assentiu.
— Bem, se eles foram capturados tão facilmente, então eles não devem representar uma ameaça real.
— Eu teria que... discordar de você nisso.
— Por quê? — Ryo pressionou.
— Porque Acray — o marquesado de Heinlein inteiro, na verdade — tem algumas das melhores capacidades de contrainteligência do Reino.
— Já que Phelps é “bom nesse tipo de coisa”, como você disse?
— Isso é parte disso, mas o pai dele é uma parte maior. Ele ensinou a Phelps tudo o que ele sabe — respondeu Abel, lembrando-se do que sabia do atual marquês de Heinlein.
— Ah, certo. Ele não é o ex-comandante dos Cavaleiros Reais?
— O comandante antes do último, na verdade.
O comandante de cavaleiros mais recente, Baccala Tow, havia morrido durante o Caos da Capital.
— Durante seu tempo liderando os cavaleiros, o pessoal chamava Alexis de demônio. Mas ele entendia a importância da inteligência.
— “Demônio” não é a primeira palavra que penso quando imagino um comandante de cavaleiros...
— Nisso, concordamos. Ainda assim, graças a ele, Knightley venceu a Grande Guerra dez anos atrás. O próprio Alexis disse que devíamos isso ao poder da informação.
— “Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas” — Ryo murmurou, recitando a famosa citação de Sun Tzu.
— Disse o quê agora? — perguntou Abel.
— Apenas algo que as pessoas dizem de onde eu venho que descreve a importância da informação na guerra.
— Fico feliz em ver que você também entende, então.
Ryo era fã de jogos de estratégia desde criança.
— É de conhecimento comum lá.
— É mesmo? Não me diga.
◆
Em seu escritório, Alexis, o atual marquês de Heinlein, fazia sua papelada diária. Apesar de completar cinquenta anos este ano, ele parecia anos mais jovem, seu corpo bem tonificado e desprovido de qualquer gordura excessiva.
Um homem entrou na sala.
— Pai, a delegação deixou a cidade — disse o homem, seu filho mais velho e um aventureiro de rank B chamado Phelps.
— Bom trabalho. Devo dizer, fiquei um pouco surpreso ao ver Dontan liderando os cavaleiros como comandante da companhia. Pensar que o diabinho que eu me lembro já é um homem feito... Realmente me faz sentir a marcha do tempo. De qualquer forma, sobre sua visita à estalagem ontem...
— Claro que você notou. Fui avisá-los. Abel estava meio bêbado, então eu contei para Ryo em vez disso.
— Aquele mago da água? — Alexis exalou.
— Pai, você ainda não consegue confiar nele?
Não era uma exigência ou uma acusação, mas simplesmente uma pergunta de um filho para seu pai preocupado.
— Não, eu confio nele, já que ele ganhou não apenas a confiança de Abel, mas também a sua. Não duvido que ele seja um sujeito impressionante. É apenas o poder absoluto que ele possui que me preocupa...
— Ah, você está pensando naquela vila.
A vila em questão era a sede da Seita dos Assassinos, que Ryo havia congelado usando seu feitiço Geada Eterna. Escusado será dizer que esta informação não era de conhecimento público. Mesmo os nobres do Reino desconheciam em grande parte. A Casa Heinlein, no entanto, era uma exceção. Graças às suas extensas capacidades de coleta de informações, eles tinham uma compreensão bastante precisa do que havia acontecido e de quem estava envolvido.
— Ainda estou surpreso que ele soubesse onde era antes de nós, mas estou ainda mais chocado que ele foi capaz de destruir tudo sozinho. Tudo o que podemos fazer é esperar que ele nunca direcione seu poder contra o Reino.
A expressão de Alexis, cheia de partes iguais de preocupação e apreensão, tornava difícil acreditar que ele costumava ser chamado de demônio no campo de batalha. Mas seu filho, Phelps, sabia melhor. Este era o verdadeiro Alexis Heinlein. Ele atacava seus inimigos com o abandono implacável de um demônio, usando todos os meios possíveis para aniquilá-los, mas no fundo, ele era extremamente sensível e cauteloso. Era exatamente por isso que ele se destacava no trabalho de inteligência.
— A propósito, nossas teorias sobre Twilightland se mostraram verdadeiras. Acabei de receber isto. — Alexis entregou-lhe um pedaço de papel.
Phelps leu e franziu a testa ligeiramente. — A possibilidade de guerra civil... — ele murmurou. — O governo tem o apoio do Conde Contreras, enquanto o Marquês Espier lidera a facção oposta... No entanto, o próprio governo não tem ideia do que os rebeldes estão fazendo? O que isso significa?
— Honestamente, não tenho ideia. Uma questão para a eternidade, hein?
A família Heinlein tinha a rede de inteligência mais poderosa das Províncias Centrais, o que significava que também tinha as melhores capacidades analíticas à sua disposição. Mesmo assim, o Marquês Alexis Heinlein não sabia o que estava se desenrolando em Twilightland.
— Contreras e Espier são ambos aristocratas proeminentes no país. Nobres como eles não ocupam cargos no governo. Eles viajam entre seus territórios e a capital. Dito isso, cada um deles detém um enorme poder econômico e militar — muito mais do que o governo central de Twilight exerce. Ambos são figuras-chave, e não recebemos nenhum relatório de conflitos envolvendo seus domínios. Uma guerra civil sob essas circunstâncias não faz sentido. Sem mencionar a falta de conhecimento do governo sobre esses desenvolvimentos...
— Isso poderia estar relacionado à delegação que o Reino despachou recentemente?
— É possível, mas—
Uma batida soou na porta, e um de seus subordinados entrou trazendo novas informações. Alexis leu, depois entregou imediatamente o documento a Phelps.
— Eu diria que mais do que possível agora.
— O Conde Contreras foi quem apoiou fortemente a decisão de Knightley de enviar uma delegação...
Figuras-chave em outro país levaram o Reino a tomar essa decisão.
— A delegação pode se ver jogada no meio de uma guerra civil — murmurou Alexis com um balanço de cabeça desanimado.
Após um momento, ele falou novamente.
— Considerando o que aconteceu em Inverey e o caos na parte leste de nosso Reino, a situação nas Províncias Centrais é inquietante, para dizer o mínimo.
A parte leste de Knightley estava em estado de agitação desde o colapso da Ponte Lowe, e o afluxo de refugiados do Principado de Inverey havia exacerbado a deterioração da ordem pública. Senhores locais que deveriam estar tentando reprimir o caos estavam, em vez disso, perdendo suas vidas em rebeliões, ataques repentinos de monstros ou incêndios misteriosos em suas propriedades, espalhando ainda mais o caos. A morte do Duque Conrad Shrewsbury — um suposto “acidente” fatal que Abel e o resto da Espada Carmesim tiveram o azar de encontrar enquanto estavam em um trabalho — foi a centelha que acendeu o fogo.
— Ainda não sabemos quem é o mentor por trás da morte de Conrad — murmurou Alexis.
Phelps assentiu. Eles tinham suas teorias, é claro. Infelizmente, nenhuma evidência física havia sido encontrada ainda.
— Pai, temos certeza de que Lorde Aubrey não está por trás de todos esses problemas no leste?
— Ele muito provavelmente não está. O próprio homem disse a McGlass que com Inverey agora sob seu controle, a Federação estaria em apuros se o caos irrompesse na vizinha Knightley. Se acreditamos nele ou não é outra questão, naturalmente. Antes, eles poderiam ter precisado recorrer à sabotagem para impedir o Reino de intervir... Mas agora, faria mais mal do que bem. O tumulto continua mesmo enquanto falamos. Na verdade, está piorando a cada dia que passa, o que me faz suspeitar que outra grande potência está movendo os pauzinhos...
— O Império?
Alexis e Phelps franziram a testa. Era quase certamente o Império, mas era difícil determinar um motivo. A parte leste de Knightley nem sequer compartilhava fronteira com Debuhi porque a enorme região norte ficava entre eles. Então, não importava o quanto eles minassem o leste, seria difícil assumir o controle. Por que mirar naquela região, então?
— Deve haver informações que ainda não temos no norte...
— Ele está no norte, pai.
— Sim, Duque Flitwick... Sua Alteza Raymond.
Os Heinleins também tinham uma compreensão precisa do incidente da Poeira Negra envolvendo Abel e Hilarion. Eles sabiam que envolvia Flitwick, o poderoso duque que governava Carlyle, a segunda maior cidade do norte. O mesmo homem que, por acaso, era o irmão mais novo do rei atual, Stafford IV.
Alexis se concentrou em seu filho.
— Precisamos enviar pessoas talentosas para Carlyle e fazê-las chutar o ninho de vespas lá.
— Para avaliar como eles reagem, hm?
Como parte de suas operações normais, eles já haviam plantado vários agentes de inteligência na cidade por anos. Mas isso não foi suficiente, então eles decidiram enviar uma força discreta, mas poderosa, para sondar a resposta do inimigo... Um método comum para encontrar fraquezas — e extremamente arriscado também. Então, quem quer que eles mobilizassem precisava ser extremamente habilidoso.
— Vou fazer com que os melhores da Brigada Branca cuidem disso, pai.
— Eu sabia que podia contar com você — respondeu Alexis com um aceno de cabeça. Ele não disse mais nada.
◆
Enquanto Phelps e Alexis discutiam vários assuntos, Ryo e Abel desfrutavam de cafés após o jantar na carruagem. Grãos de café Kona torrados estavam entre os suprimentos que Phelps lhes dera de presente em Acray. Claro, Ryo tinha mais do que grãos de sobra, mas não havia tal coisa como muitos demais — especialmente quando eles tinham carruagens para carregar tudo! Graças à generosidade de Phelps, a opinião de Ryo sobre o homem havia disparado.
Enquanto os dois saboreavam seus cafés, eles ouviram um grito do lado de fora.
— Monstros!
Ao aviso, as carruagens da delegação foram reunidas, e alguns cavaleiros as cercaram para proteção, escudos em prontidão. Enquanto isso, o resto de seus camaradas e o contingente de aventureiros se preparavam para a batalha.
Finalmente, um evento de monstro! Nada parecido com isso aconteceu desde que me mudei para Lune, apesar de todas as viagens que fiz... Mas finalmente, chegou a hora! Ryo pensou alegremente, sem notar o olhar de soslaio de Abel.
Eles permaneceram em sua carruagem, observando as coisas se desenrolarem da janela.
— Eu realmente acho que deveríamos ir ajudar, Abel, mas considerando a sua situação...
— Não ouse me usar como desculpa, seu idiota! Especialmente quando foi você quem disse que só atrapalharíamos se interferíssemos.
Eles não haviam recebido instruções oficiais sobre o que fazer em situações como essa. No entanto, como os funcionários públicos da delegação estavam quietos em suas carruagens, eles também deveriam ficar. Mas se o pior cenário acontecesse e os cavaleiros e aventureiros entrassem em apuros sérios, eles decidiram que ajudariam.
Os escudeiros ficaram alertas atrás dos cavaleiros que circulavam as carruagens, com seus arcos em prontidão. No passado, os cavaleiros não conseguiam vestir suas armaduras sozinhos. Portanto, eles sempre precisaram de escudeiros para ajudá-los a equipar seus equipamentos e cuidar de outras tarefas servis. No entanto, com o tempo, os cavaleiros aprenderam a vestir suas armaduras sem ajuda; a tradição, no entanto, ditava que os escudeiros continuassem acompanhando os cavaleiros, já que a posição era semelhante a um aprendizado. Os escudeiros na Terra geralmente não participavam do combate, mas esse não era o caso em Phi. Uma de suas responsabilidades aqui era atuar como arqueiros e desferir ataques de longa distância.
— Eles estão vindo!
Monstros se aproximaram pela direita.
— Lobos!
— Uma matilha de lobos de guerra!
Lobos de guerra eram um pouco maiores que os lobos normais. Apesar de sua velocidade, Ryo e Abel esperavam que cavaleiros e aventureiros desse calibre lidassem com um único lobo sem problemas. No entanto, eles frequentemente se moviam em matilhas, como a que agora atacava a delegação, o que poderia complicar as coisas...
Os escudeiros dispararam suas flechas, e os magos lançaram seus feitiços. Embora os arcos raramente matassem alvos como esses lobos, eles ainda infligiam feridas. Além disso, a magia ofensiva de um aventureiro de rank C tinha quase certeza de encontrar seu alvo — e quando o fazia, derrubava seu alvo.
Uma vez que os magos e escudeiros reduziram uma parte da matilha com seus ataques à distância, foi a vez das classes corpo a corpo partirem para a ofensiva. Os cavaleiros ou bloqueavam os lobos de guerra que avançavam com seus escudos ou os atingiam com golpes ascendentes. Em seguida, os aventureiros fincavam suas lanças nos monstros momentaneamente atordoados. Em suma, os cavaleiros e aventureiros trabalharam juntos brilhantemente.
Eu imaginei um tropo típico em histórias de isekai, com cavaleiros e aventureiros em total desacordo... Mas isso não poderia estar mais longe da realidade. Por que toda light novel é tão desnecessariamente dramática?! Ryo se perguntou.
Porque são ficção, não documentários, é claro!
Os cavaleiros e aventureiros derrotaram toda a matilha de lobos de guerra. Assim que controlaram a situação, um mago do vento usou o feitiço de Sondagem para investigar os arredores. Depois de confirmar que nenhum outro monstro espreitava por perto, eles deram o sinal de tudo limpo. Os líderes de cada grupo de aventureiros e os cavaleiros apertaram as mãos. O encarregado dos aventureiros e o comandante da companhia dos cavaleiros trocaram um aperto de mão particularmente firme. Eles devem ter se sentido especialmente satisfeitos, já que as táticas que haviam discutido escrupulosamente de antemão garantiram sua vitória. A cena estava positivamente transbordando de camaradagem.
— Que maravilha vê-los se darem tão bem assim. Não concorda? — Ryo assentiu feliz.
— Conhecendo você, pensei que diria algo como “Eu esperava que os cavaleiros e aventureiros começassem a lutar. Sabe, para apimentar realmente as coisas. Que pena.”
— Do que você está falando? Eu nunca pensei isso por um segundo! — A confiança transbordava na voz de Ryo.
O olhar de Abel permaneceu cético.
A visão comovente de aventureiros e cavaleiros apertando as mãos se repetiu na manhã e na tarde de todos os dias seguintes — porque, como você deve ter adivinhado, os ataques de monstros se tornaram uma ocorrência regular em sua jornada.
◆
O aventureiro de rank C, Shoken, líder dos aventureiros que escoltavam a delegação, estava preocupado. Ele era o mais velho entre eles, com trinta e três anos, e fora pessoalmente nomeado para essa função pelo Grão-Mestre devido à sua rica experiência. Os aventureiros, compostos por quatro grupos totalizando vinte pessoas, não estavam causando problemas. Não havia hostilidade ou má vontade em cooperar. Na verdade, eles estavam trabalhando bem com os Cavaleiros Reais, um grupo com o qual normalmente tinham pouco contato, para cumprir seus deveres de escolta. Então, o que estava incomodando Shoken? Os aventureiros dentro da carruagem...
Um desses aventureiros era um rank A chamado Abel. Claro, não havia problemas com sua personalidade, habilidades ou estilo de comunicação. Como esperado de um aventureiro de rank A, ele possuía uma visão profunda, um carisma que atraía a todos e uma esgrima inigualável. Observando-o praticar sozinho ou treinar com cavaleiros nos pátios das estalagens em que se hospedavam, Shoken ficava maravilhado.
O outro era um rank C chamado Ryo. Apesar de seu rank, ele fora escolhido como parceiro de Abel. Também não havia problemas com ele como pessoa. Ele parecia ter dezesseis ou dezessete anos, provavelmente devido às suas feições orientais. No banquete na estalagem em Acray, as mulheres de sua comitiva o chamavam de “fofo” e o paparicavam. Shoken sentiu um pouco de ciúmes.
Ele não estava preocupado com a experiência e as habilidades deles como aventureiros ou com eles como pessoas. Ele estava preocupado com o papel deles. Ele sabia que eles não estavam envolvidos nos deveres de escolta nesta missão. Afinal, eles estavam indo para Twilightland como convidados, por isso estavam viajando em sua própria carruagem. Shoken sabia de tudo isso.
Mas se ele quisesse o conselho deles sobre algo, especialmente de Abel, ele poderia simplesmente ir até ele e perguntar? Monstros estavam atacando quase diariamente depois que passaram por Bardon Blaine, a cidade depois de Acray. Ele queria ouvir a opinião deles sobre isso.
Shoken obviamente tinha sua própria teoria sobre o assunto, mas poderia haver algo que ele e os outros não haviam notado ou considerado. Ele não teria se incomodado com isso se não houvesse mais ninguém a quem perguntar, mas eles estavam bem ali, sentados na carruagem. Eles não eram mais estranhos depois de sua noite de bebedeira e folia na estalagem em Acray, então ele queria desesperadamente perguntar...
Depois de repelir o ataque de monstros na sexta manhã após a partida de Bardon Blaine, a delegação fez sua pausa habitual para o almoço. Eles haviam passado as últimas noites em vilarejos e pequenas cidades, mas algumas pessoas ocasionalmente precisaram acampar ao ar livre quando não havia alojamentos suficientes para hospedar todos eles.
Pelo menos não tiveram problemas para obter comida. Os escudeiros, alguns funcionários públicos e aventureiros cozinharam ao longo do caminho, e todos comeram bem na jornada.
Depois de outro almoço satisfatório, Shoken se aproximou de Abel e Ryo.
— Com licença, Abel, você tem um momento? — ele perguntou.
Abel e Ryo tinham acabado de comer e estavam admirando a paisagem junto com todos os outros.
— Em boa hora, Shoken — disse Abel. — Sente-se. — Ele deu um tapinha no chão ao lado dele.
Do outro lado, Ryo começou a moer grãos em um moedor de gelo para seu café.
— Na verdade, eu queria pedir seu conselho sobre os ataques diários de monstros.
— Claro, fico feliz em ajudar.
Embora Shoken fosse mais velho que ele, Abel era, afinal, um aventureiro de rank A. Era natural ser educado.
Shoken deu-lhes um resumo do que ele e os outros aventureiros já haviam discutido. Como os ataques estavam ocorrendo em intervalos regulares, eles se perguntaram se alguém estava controlando os monstros para mirar na delegação. Ainda assim, eles não sabiam qual poderia ser o objetivo final.
— Sim, eu tive o mesmo pensamento. Nunca ouvi falar de dispositivos que controlam monstros, mas... talvez seja possível com ferramentas alquímicas? O que você acha, Ryo? — Abel perguntou, virando-se em sua direção.
Ryo criou uma pequena mesa de gelo, colocou a prensa francesa carregada sobre ela para preparar e colocou uma ampulheta de gelo ao lado.
— Eu fiz uma pergunta semelhante a Kenneth antes — disse Ryo, observando a areia escorrer para o bulbo inferior. — Ele disse que não era possível com a alquimia do Reino porque a magia usada para controlar monstros é muito única.
— Então existe uma maneira de usar magia para controlar monstros — Shoken deixou escapar.
— Sim. Um tipo de magia negra — acrescentou Abel. — Ela interfere na mente do alvo. Os estudiosos pensam que só deveria funcionar em pessoas, mas aparentemente, alguns magos das trevas podem usá-la em monstros também. Eu li sobre isso em um livro há muito tempo. Provavelmente é disso que Kenneth estava falando.
— Entendo... — comentou Shoken, pensativo.
— No momento, supostamente não existem magos que possam usar magia negra — continuou Abel. — Para uma ferramenta alquímica como essa existir, alguém com profundo conhecimento da magia em questão teria que ter ajudado a criá-la. Isso explica por que é impossível de fazer.
Você está certo sobre o “supostamente”, porque sabemos que eles existem, de fato, pensou Ryo, lembrando-se do sacerdote das trevas que conheceram no templo escondido, o homem que acabou sendo levado pela akuma, Leonore.
— Dito isso, podemos estar apenas enfrentando um mago que sabe como usar esse tipo de magia negra. Alguém capaz de atiçar monstros contra os outros.
— Verdade... — Shoken assentiu vigorosamente com as palavras de Abel.
— O café está pronto — disse Ryo. — Aqui, Shoken, tome um pouco.
Ele despejou café em uma xícara feita de gelo em temperatura ambiente e a entregou a Shoken.
— Obrigado. Que xícara linda. E este café tem um cheiro delicioso... Nunca pensei que conseguiria beber um café assim no trabalho. — Ele tomou um gole e seus olhos se arregalaram de prazer. — É incrível! Este deve ser um produto de alta qualidade!
— Fico feliz que tenha gostado. Foi um presente do marquês em Acray.
Ryo tomou um gole de sua própria xícara.
Abel fez o mesmo, assentindo contente enquanto ouvia a conversa deles.
Uma boa bebida poderia levantar o ânimo de qualquer um.
— Ahhh. Estava delicioso. Muito obrigado. — Shoken devolveu a xícara para Ryo.
— Ok, vamos falar sobre o que provavelmente vai acontecer a seguir — começou Abel.
— Eu estava prestes a levantar essa questão. O que você acha, Abel? Os outros aventureiros e eu acreditamos que o inimigo esperará até estarmos exaustos antes de atacar para valer.
— Eu concordo. No momento, eles estão nos emboscando em um ritmo constante, nos acostumando a isso. Então, quando baixarmos a guarda, pensando, “Droga, lá vamos nós de novo”, eles vão atacar com tudo. Ou talvez seja isso que eles querem que pensemos. Talvez eles estejam nos mantendo em alerta, para que possam manter o controle do tempo. De qualquer forma, só vamos ficar mais cansados, o que é um pé no saco.
— Um problema sério, de fato...
Então Abel e Shoken ficaram em silêncio, ambos ruminando sobre a situação.
Ryo tentou não se intrometer porque o problema estava fora de sua jurisdição, mas ver suas expressões profundamente preocupadas o fez se sentir mal. Ele decidiu falar.
— Hum... eu posso ter o feitiço de magia da água perfeito para ajudar.
Shoken e Abel ergueram a cabeça e olharam para ele.
— Perdão?
— Espere, sério?
— Garoa... provavelmente é um exagero, então Sonar Passivo deve funcionar bem. Com ele, posso detectar quaisquer monstros ou grupos de pessoas em um raio de quatrocentos metros. Se eu detectar alguma anomalia, avisarei a todos. Isso ajudaria?
— Ideia brilhante! Se você não mencionar nada, vamos tratar como um dos ataques de monstros usuais. Mas se você sentir algo diferente, nos avise com antecedência. Estou em dívida com você, Ryo!
Sonar Passivo era rotina para Ryo. Teria sido uma história totalmente diferente se ele tivesse optado por ir com Garoa, mas... teria sido muito complicado de usar nesta situação particular, então ele decidiu contra.
Depois que Shoken voltou para seu grupo, Abel perguntou a Ryo: — Ei, como funciona o Garoa?
Sua intuição aparentemente lhe disse que havia algo sinistro sobre esse feitiço.
— Beeem... Ele congela automaticamente qualquer um ou qualquer coisa que entre em um raio de até quatrocentos metros. Fiquei com medo de que nossos aliados fossem pegos nele também, então optei pelo Sonar Passivo. Garoa é um bom feitiço, mas não é duradouro. Infelizmente, na verdade. Seria muito mais útil se durasse mais... Ser capaz de montá-lo com antecedência, como uma mina, seria ótimo também! Acho que tenho muito trabalho pela frente, hein?!
— Ok, então eu estava certo em pensar que essa bobagem de Garoa seria perigosa. Não use, sob nenhuma circunstância, esse feitiço. Repito: Não use. Entendeu?
— Não usar? Sob nenhuma circunstância? Espere, eu sei! Isso é código para “Use!”?
— O inferno que é!
Como sempre, a leveza de Ryo deixou Abel inquieto.
◆
Na manhã do oitavo dia após deixar Acray, a delegação alcançou a fronteira. Depois que seus documentos foram revisados no posto de patrulha da fronteira de Knightley, eles completaram os procedimentos necessários do lado de Twilightland, a cem metros de distância. Os guardas haviam sido informados de que a delegação chegaria hoje, e eles os deixaram passar após uma simples verificação de documentos.
E assim, dezoito dias depois de deixar a capital real, a delegação finalmente entrou em Twilightland.
— Finalmente estamos em Twilightland! Mas o sol está brilhando como normalmente.
Ryo havia presumido que o nome do país significava que era sempre crepúsculo aqui. No entanto, em Phi, crepúsculo não significava realmente crepúsculo. Mais uma vez, Ryo ficou curioso sobre a origem do nome do país.
— Claro que o sol está brilhando. Não é como se esta fosse a lendária terra da noite perpétua — respondeu Abel.
— Uma terra da noite perpétua? Isso realmente existe?!
Que perfeito para um cenário de fantasia! Ainda havia tanto que Ryo não sabia.
Incomodado com a intensidade de Ryo, Abel, no entanto, respondeu-lhe. — Uh, sim... É uma lenda das Províncias Ocidentais. Arthur Berasus me contou sobre isso. Ele costumava trabalhar como aventureiro lá.
Arthur Berasus era um conselheiro da Agência de Magos Reais que lutou ao lado de Abel contra hordas de demônios na masmorra de Lune. Ryo também havia pedido sua ajuda em um nível pessoal, então ele não era um estranho.
— Ele contou... Então terei que perguntar a ele sobre isso da próxima vez que o vir! — Ryo assentiu repetidamente, fazendo uma anotação mental.
Naquela tarde, o Sonar Passivo de Ryo detectou uma anomalia.
— Abel, algo grande está vindo, diferente de qualquer monstro que vimos até agora.
— Eu sabia! Imaginei que já estava na hora. Ok, vamos falar com Shoken e os outros.
— Não, espere — disse Ryo, parando-o.
— O quê?
— Eu conheço essa assinatura. Provavelmente é um wyvern!
— Você deve estar brincando... — Abel ficou sem palavras.
Wyverns eram tão perigosos que eram necessários mais de vinte aventureiros de rank C para matar um, e mesmo assim, haveria baixas. Isso significava que problemas sérios estavam reservados para a delegação...
— Tudo bem, eu o derrubo no chão, e você o finaliza.
— Huh... Oh. Ohhh, certo, certo.
Embora os wyverns fossem de fato irritantes de derrotar, Ryo e Abel haviam derrubado dezenas em seu caminho de volta da Floresta de Rondo. Por alguma razão, a lança de gelo de Ryo podia perfurar a Membrana de Defesa de Vento — dita imune à magia — ao redor dos monstros e derrubá-los.
— Shoken! Há um wyvern vindo da nossa esquerda! — Abel gritou para o homem do lado de fora da carruagem.
— Desculpe, o quê? Você acabou de dizer “wyvern”?
Embora tivesse ouvido a palavra, seu cérebro não a havia registrado completamente. Então ele olhou para a esquerda, e a realidade o atingiu como uma tonelada de tijolos.
Lá estava ele — vindo direto para eles.
— P-Por que... C-Como... Aqui, de todos os lugares? — ele ofegou. Assim como os outros monstros que haviam encontrado até agora, devia ter sido intencionalmente atraído para cá.
Ryo o avistou de dentro da carruagem. — Lá vou eu! Lança de Gelo 4.
Quatro lanças de gelo grossas e transparentes se materializaram acima da criatura e caíram, perfurando suas asas e arrancando-a do ar. Depois que caiu no chão, as lanças a prenderam na terra.
— Shoken, espete-o com suas lanças!
— Sim. Sim, claro. Façam isso!
Ao comando de Abel, Shoken e alguns aventureiros com lanças se aproximaram do wyvern. Eles tentaram esfaquear sua cabeça, mas tiveram dificuldade em acertar um golpe. Então, finalmente, uma das lanças penetrou o olho do wyvern, alcançando seu cérebro e desferindo o golpe mortal. O monstro ficou imóvel.
Apesar de seus problemas iniciais, essa derrubada foi um grande sucesso, considerando a falta de baixas em comparação com uma caça a wyvern usual.
Os Cavaleiros Reais observavam de suas posições defensivas ao redor das carruagens, estupefatos.
◆
Perto dali, um grupo de trinta combatentes vestidos de preto esperava.
— Não há reação... Eles acabaram de matar aquela coisa?
— Hmph. Eles certamente têm mais coragem do que eu esperava. Não importa, no entanto. Eles não poderiam ter estado na mira de um ataque de wyvern e saído ilesos. Vamos aproveitar esta oportunidade para atacar.
A voz de comando de uma mulher ecoou por seus combatentes. Pertencia a Natalia, um membro sênior da Seita dos Assassinos. Em condições ideais, sua unidade poderia derrotar cem cavaleiros, e essas condições significavam que sua estratégia era infalível. Ela não tinha intenção de falhar, é claro.
— Eu dedico esta vitória ao Lorde Black — murmurou Natalia.
Ela lutaria pelo homem que adorava!
◆
A delegação parou. Os aventureiros extraíram pedras mágicas do wyvern derrotado enquanto os funcionários públicos faziam uma pausa. A maioria dos cavaleiros e Ignus, o negociador do grupo, observavam à distância.
— Esta foi a primeira vez que vi um wyvern, e devo dizer que seu tamanho é chocante. A natureza é verdadeiramente maravilhosa. Não consigo acreditar que algo tão grande possa voar — disse Ignus enquanto se maravilhava com a criatura.
— Certo? — respondeu Ryo, de pé ao lado do homem. Por alguma razão, o mago da água assentiu em concordância presunçosa.
A alguns metros de distância, os cavaleiros Zach e Scotty bombardeavam Abel com perguntas.
— Que diabos aconteceu, cara? Vimos o wyvern vindo para cá, depois ele de repente caiu do céu. Sorte de todos, os aventureiros acabaram com ele rapidamente, mas ainda estamos confusos. Você se importa de explicar de uma maneira que possamos entender? — perguntou Zach.
— E-Eu nem saberia por onde começar, honestamente... — respondeu Abel. Embora atrapalhado, ele fez o seu melhor para evitar dar-lhe uma resposta direta. Ocasionalmente, ele olhava furtivamente para Ryo, que fora rápido em escapar e se refugiar ao lado de Ignus, o burocrata de mais alto escalão aqui. Claro, Abel não conseguia esconder o ressentimento em seu olhar, dado que seu amigo o havia essencialmente abandonado.
Mas isso não significava que ele pudesse lhes contar a verdade: que Ryo havia acontecido. Essa informação teria sido impossível de encobrir. Eventualmente, chegaria aos nobres na capital real e causaria problemas incalculáveis. E então? Ele não conseguia imaginar Ryo simplesmente concordando com os caprichos da aristocracia. Ele podia parecer gentil, mas Abel sabia melhor do que ninguém o quão aterrorizante Ryo poderia ser quando irritado. Goste ele ou não, a imagem dele em Whitnash, enfrentando Oscar, o Mago do Inferno, estava gravada em sua mente...
Então, Abel — um cara íntegro, como sempre — pensou que não tinha escolha a não ser se transformar em um quebra-mar contra um oceano potencial de problemas.
Abel inventou apressadamente algumas desculpas razoáveis, e o tempo passou — mas a delegação estava prestes a enfrentar sua próxima crise.
— Cerca de trinta pessoas estão se aproximando do norte! — gritou Ryo de ao lado de Ignus. — A quinhentos metros de distância.
Os aventureiros e cavaleiros entraram em ação imediatamente.
— Rápido! Para as carruagens!
Eles guiaram os funcionários públicos, lentos para reagir, de volta para seus veículos. Ao mesmo tempo, os cavaleiros formaram uma parede de escudos no lado norte de seu acampamento, e seus escudeiros prepararam arcos atrás deles. Os magos e sacerdotes entre os aventureiros se prepararam para atirar por trás da segurança dos cavaleiros, enquanto espadachins, lanceiros e outras classes corpo a corpo tomaram posições tanto dentro quanto nos flancos da parede de escudos. Os cavaleiros haviam concebido essa formação para interceptar qualquer ataque humano potencial. O fato de trabalharem juntos tão suavemente, apesar de quase nenhum treinamento prévio, era um testemunho das habilidades tanto dos cavaleiros quanto dos aventureiros, bem como da comunicação de seus líderes.
Observando-os com o canto do olho, Abel correu até Ryo.
— Você tem certeza de que são pessoas e não mais monstros?
— Tenho. Não posso dizer com certeza que eles planejam atacar, mas dado o momento, é muito provável. Por alguma razão, pela maneira como estão correndo, tenho a sensação de que são assassinos da Seita.
— Uau. Você consegue dizer tanto assim?
— Estou melhorando dia a dia, sabe?
O Sonar Passivo não dera a Ryo informações muito claras no passado, mas depois de se tornar muito mais proficiente com sua magia da água, ele podia extrair detalhes muito mais claros do feitiço. Era exatamente como ele sempre dizia: o trabalho duro sempre compensa!
Ryo prontamente voltou para sua carruagem e espiou pela janela.
— Uhhh, por que você está dentro da carruagem? — perguntou Abel.
— O que você quer dizer com “por quê”? Somos convidados, não somos?
Ryo só dera o aviso anterior porque prometera a Shoken dizer-lhes se algo além dos monstros usuais aparecesse. Ele não tinha intenção de ultrapassar seus limites. Considerando que ele e Abel haviam sido mantidos no escuro no que diz respeito à estratégia, e vendo o quão bem os aventureiros e cavaleiros estavam trabalhando juntos, Abel e Ryo poderiam realmente atrapalhar o plano dos cavaleiros se interferissem.
— Eu posso dar apoio de dentro da carruagem — disse Ryo. — Mas é melhor você ficar do lado de fora, Abel!
— Ah, sim, porque isso é muito justo.
Apesar de sua resmungação, Abel fez exatamente isso. Em uma crise, teria sido mais fácil para um espadachim como ele agir se estivesse do lado de fora. Os magos, por outro lado, podiam lançar feitiços mesmo de dentro da carruagem. Cada trabalho era diferente, e o mundo, infelizmente, nunca parecia jogar limpo...
Quando estavam a cerca de duzentos metros de distância, os atacantes dispararam uma saraivada de flechas. Várias perfuraram o exterior das carruagens, mas ninguém ficou ferido. Os outros estavam perfeitamente seguros atrás dos escudos dos cavaleiros.
Um momento depois, fumaça branca começou a sibilar dos anexos na ponta das flechas dos atacantes. Causar dano, aparentemente, não era o objetivo deles. Usando a cortina de fumaça como cobertura, os atacantes começaram a se aproximar — uma tática favorita da Seita dos Assassinos.
— Isso de novo? — Ryo murmurou, e então começou a cantar em sua mente.
Rajada. Congelar.
Sem aviso, uma chuva torrencial atingiu a área, e a chuva densa e ofuscante varreu a fumaça branca e espessa. Ao mesmo tempo, os aglomerados presos às pontas das flechas congelaram, impedindo-os de expelir mais fumaça. Ryo estava familiarizado com essa tática por causa de Sherfi e sua invasão à sede da Seita. Mais do que isso, ele estava irritado por essa parecer ser a única estratégia deles. Para um assassino, no entanto, era notavelmente eficaz. Melhor ainda, era incrivelmente versátil, utilizável em praticamente qualquer situação. Carregar vários conjuntos de ferramentas era muitas vezes impossível, mas com este, você poderia se virar em quase qualquer lugar — especialmente porque era raro encontrar magos de primeira linha como Ryo, que podiam lavar a fumaça com chuva, ou Lyn, que podia soprá-la toda para longe com o ar.
A Rajada de Ryo varreu a fumaça branca, expondo os atacantes a menos de cem metros da delegação. Eles estavam obviamente desorientados, mas não demorou muito para perceberem que estavam muito envolvidos para recuar agora. Eles não tinham escolha a não ser derrotar o inimigo à sua frente e voltar triunfantes! Cada um deles chegou a essa conclusão, incluindo sua líder, Natalia.
A única assassina perdendo a coragem era a mulher que seguia Natalia. Sentindo sua falta de resolução, ela se virou para a outra assassina.
— Rosalia, é tarde demais para recuar agora — disse Natalia. — Nós atacamos.
— Sim, minha senhora — disse Rosalia, embora estivesse cheia de ansiedade. Ela era uma assassina altamente treinada e de primeira classe, que podia derrotar dois cavaleiros de mãos nuas. No entanto, seu maior trunfo não era sua proeza corpo a corpo, como se poderia esperar, mas seu talento para a magia negra. Na verdade, ela era o único membro da Seita que podia empunhá-la.
Em Phi, a afinidade elemental de um mago era determinada no nascimento. Magos das trevas eram raros, no entanto, e nenhum encantamento poderia conceder a alguém a habilidade de empunhar magia negra se não nascesse com a afinidade. Como resultado, não havia magos das trevas nas Províncias Centrais... Sem feitiços ou mentores para guiá-los, um jovem mago das trevas só poderia aprender através de repetidas tentativas e erros...
Nesse sentido, não era exagero chamar Rosalia — uma maga capaz de comandar wyverns — de um prodígio da magia negra. No entanto, mesmo ela estava com medo. O wyvern que ela controlara fora derrotado, e ela não sabia por que, como ou por quem. Embora as caçadas a wyverns ocorressem várias vezes por ano, ainda não havia um método estabelecido para derrotá-los consistentemente, e cada caçada bem-sucedida vinha com um custo terrível. O wyvern de Rosalia, por outro lado, fora morto com uma facilidade surpreendente.
E isso aterrorizava Rosalia.
Não podendo mais se esconder atrás da cortina de fumaça, Rosalia ficou paralisada com o pensamento de atacar de frente... Mas não havia como voltar atrás agora. A única escolha que restava era derrotá-los!
Enquanto Abel, um aventureiro de rank A, era uma ameaça particularmente perigosa, os outros aventureiros eram apenas de rank C. Além disso, os vinte Cavaleiros Reais que escoltavam a delegação se revelariam presas fáceis, considerando que a reputação de sua organização vinha diminuindo nos últimos anos. Trinta assassinos eram mais do que suficientes para derrotá-los, pensou Rosalia, tentando se convencer — tentando evitar pensar no wyvern morto. O único caminho para a vitória residia em um ataque frontal. Eles não tinham outra escolha... Ela repetiu isso em sua mente repetidamente.
Quando a fumaça branca se dissipou e revelou os atacantes, os combatentes da delegação iniciaram sua ofensiva, atirando neles com as flechas dos escudeiros e os feitiços dos aventureiros magos.
Os assassinos simplesmente desviaram as flechas no ar. A saraivada poderia ter infligido dano ou até mesmo matado os assassinos se viesse de arqueiros profissionais ou elfos habilidosos com o arco, mas os escudeiros não eram poderosos o suficiente.
Os magos, por outro lado, atacaram a uma taxa várias ordens de magnitude mais rápida que os escudeiros. Muitos assassinos não conseguiram evitar os ataques mágicos de alta velocidade, especialmente porque já tinham as flechas mais lentas para desviar. No final, os feitiços tiraram cinco assassinos de combate e infligiram ferimentos tão graves nas pernas de outros cinco que eles ficaram essencialmente imobilizados.
A delegação havia reduzido o número de inimigos em um terço com seus ataques de longo alcance. Um sucesso maior do que esperavam.
— Isso é incrível... — disse Abel enquanto observava a batalha se desenrolar de perto. Ele estava bem ciente de sua falta de experiência no uso eficaz de arcos e magia no campo de batalha, então aproveitou a oportunidade para aprimorar seu conhecimento.
— Quer dizer, a fumaça se dissipou em um instante graças a um certo mago da água, então isso é uma grande parte... Pensando bem, Lyn fez algo semelhante na estalagem. Caramba, os magos são espertos demais. — Ele ficou honestamente impressionado com a habilidade com que seus dois amigos haviam limpado a fumaça, apesar de usarem métodos diferentes.
Em contraste com a avaliação relaxada de Ryo, a batalha diante dele estava começando a se intensificar. Os assassinos podem ter perdido um terço de sua força enquanto se aproximavam, mas isso não mudou o fato de que eram assassinos de primeira linha e treinados. Alguns tentaram flanquear a parede de escudos e mirar na retaguarda. Alguns tentaram passar pelos cavaleiros para atacar os magos e sacerdotes escondidos entre eles. Outros tentaram saltar sobre a vanguarda e mirar diretamente nas carruagens.
Então, todos de uma vez, os quatro magos do ar lançaram um curto encantamento: — Vento, enfureça-se com toda a sua força. Pressão do Vento.
Embora o único efeito do feitiço fosse criar uma rajada, os magos do ar de rank C podiam gerar uma força considerável — especialmente quando quatro deles combinavam seus esforços para criar uma única e poderosa frente de vento. Agora cambaleando contra rajadas de força de furacão, os assassinos lutavam apenas para se manterem de pé.
Após um minuto ou mais, a luta se transformou em um combate corpo a corpo total. Shoken liderou sua infantaria de aventureiros enquanto o Comandante da Companhia Dontan reunia seus cavaleiros, e ambas as unidades exploraram o feitiço dos magos para fincar suas espadas e lanças nos assassinos desequilibrados. A ofensiva da delegação foi terrivelmente eficaz, mas não sem custo. No entanto, após recuarem brevemente para que os sacerdotes curassem seus ferimentos, os aventureiros e cavaleiros retornaram rapidamente às linhas de frente. Enquanto isso, os assassinos não tiveram escolha a não ser contar com poções para se curarem. Eventualmente, os esforços combinados da Pressão do Vento e da infantaria derrubaram todos os assassinos.
Uma assassina não se juntou ao ataque, optando por observar a delegação de longe. Era Natalia, é claro, a comandante inimiga. Ela só precisava encontrar seu alvo — uma maga de cabelo castanho, pequena e — ah, ali! No momento em que Natalia a avistou, a expressão da assassina se contorceu com alegria macabra.
Ela criou uma lança de pedra tão fina que teria sido impossível de ver se estivesse se movendo em alta velocidade. Confiante no sucesso, Natalia a disparou, assim como uma vez a disparara contra o líder da Seita. Sua mira era certeira, mas pouco antes de perfurar o coração da maga —
Klang!
A pedra ricocheteou como se tivesse atingido uma parede invisível.
— Impossível!
— Ufa, essa foi por pouco — disse uma voz de homem ao lado dela.
Quando Natalia tentou se virar para olhar a origem da voz, percebeu que não conseguia. Antes que percebesse, seu corpo inteiro estava envolto em gelo.
— Eu reconheço essa lança de pedra. Foi você quem matou Hassan, certo? Sim, sim... Natalia, acredito que seu nome seja esse?
O homem se moveu para a frente dela.
— Você... — disse Natalia. — Daquela vez... Por que você está aqui...
Ela o conhecia. Ele era um mago da água que uma vez esteve ao lado do comerciante Gekko. Ele até atacara a vila deles sozinho e estivera lá quando o líder deles morreu — mas por que ele estava aqui agora? Natalia havia memorizado os nomes de todos os aventureiros, cavaleiros e funcionários públicos da delegação, seus trabalhos, históricos, tudo. Ela sabia que havia outros dois aventureiros além dos acompanhantes — um espadachim de rank A com habilidade de combate extremamente alta e um mero rank C. Ela até sabia o nome do rank C, mas o homem parado na frente dela não poderia ser Ryo, poderia?
— Você é... Ryo? — ela disse, mas o gelo que a envolvia abafou suas palavras.
— Quando você estiver em um trabalho, tente se lembrar de associar rostos a nomes — repreendeu Ryo enquanto batia levemente na parede de sua prisão gelada. — Pelo menos eu vinguei Hassan agora.
— Então eles falharam, afinal.
— Mesmo que sejam assassinos, ainda são humanos. A vida é assim.
— Sim, mas eliminar a delegação de Knightley que o Conde Contreras convocou teria sido a solução mais simples.
— Bem, agora todos saberão que foram atacados em Twilightland, então pelo menos conseguimos isso.
Quatro homens e uma mulher estavam em uma colina a quase um quilômetro da delegação, observando os eventos se desenrolarem. Eles estavam tão longe que nem o Sonar Passivo de Ryo conseguiu detectá-los. Os homens pararam, tendo estado falando entre si, e então o sujeito de meia-idade que falara por último se virou para a mulher.
— Minha senhora Duquesa — disse ele —, pedimos que viesse até aqui para avaliar aquele mago da água. Como Árbitra, nossa facção pode fazer um pedido a você, e nosso desejo é que aquele mago da água seja eliminado.
— Vocês usariam seu Votum para isso?
— Sim.
— Hmm...
A duquesa bateu um dedo no queixo e pensou por um momento. — Muito bem. Concedido. Eu o tomarei para mim.
O homem de meia-idade parecia perplexo. — Perdão?
— Confio que não há objeções? Ele me intriga.
— Eu... Claro.
Então os quatro homens fizeram uma reverência respeitosa à duquesa.
◆
Dos trinta assassinos, seis foram capturados. Os cativos incluíam cinco homens imobilizados pelos graves ferimentos nas pernas que sofreram no ataque inicial de longo alcance e uma mulher que se rendeu.
E havia Natalia, que fora congelada.
Quando Ryo a trouxe, Shoken, o líder dos aventureiros da delegação, assentiu com admiração.
— Pensar que ela estava nos mirando à distância... — disse ele.
— Achei estranho que ela fosse a única longe do grupo. Ela é um membro sênior da Seita dos Assassinos.
A comoção se espalhou por toda a delegação.
— Sabe, eu tive uma ideia de que era com esses caras que eles andavam...
— Não é de admirar que fossem tão fortes...
— Uma mulher no alto escalão...
As aventureiras fuzilaram o último aventureiro com o olhar. Elas imediatamente perceberam a implicação do homem. Nunca subestime a intuição de uma mulher!
Pacote de Parede de Gelo.
Ryo cercou os seis prisioneiros com sua Parede de Gelo especial. Eles eram assassinos, afinal, e quaisquer explosivos escondidos entre eles poderiam ter causado um grande desastre.
— Abel, eu levantei a barreira por precaução — ele sussurrou. Comunicar, contatar, consultar — os três Cs eram vitais.
— Entendido — disse Abel com um aceno de cabeça, depois olhou para Ignus. — O que devemos fazer com eles?
Mesmo que Ignus, como emissário, fosse a pessoa de mais alto escalão na delegação, ele era um peixe fora d'água em situações de combate. Além disso, ele tinha relativamente pouca informação sobre seus atacantes.
— Abel, sinto muito, mas não sei absolutamente nada sobre eles. Mesmo que fôssemos interrogá-los, duvido que eu soubesse como proceder a partir daí. No entanto, se todos os outros aqui concordarem, gostaria que você cuidasse disso, considerando seu rank.
— Eu concordo — disse Shoken.
— Eu também acho que Abel é a melhor pessoa para o trabalho — disse Dontan, o comandante da companhia dos cavaleiros. Zach e Scotty assentiram atrás dele.
Com a aprovação dos membros principais da delegação, Abel se preparou para interrogá-los. Para surpresa de ninguém, Ryo se juntou a ele.
Pouco antes de começarem, Abel se inclinou para o mago da água. — Ryo, qual é o nome dela? — ele perguntou em voz baixa.
— Natalia. O líder anterior da Seita disse isso. Aparentemente, ela o matou porque um executivo da organização chamado “Black” a convenceu.
— Não pode ser... — Abel balançou a cabeça em choque.
A conversa sussurrada deles continuou por mais alguns minutos, então Abel se virou para os seis cativos.
— Eu sei que estamos chamando isso de interrogatório, mas na verdade não espero que nenhum de vocês responda honestamente. Então, que tal eu falar e vocês ouvirem?
Os outros membros da delegação se entreolharam surpresos, mas não disseram uma palavra. Eles estavam lidando com assassinos, afinal, então Abel poderia estar certo sobre a falta de vontade deles em falar.
— Em primeiro lugar, sabemos que vocês são membros da Seita dos Assassinos.
Os rostos dos cinco homens permaneceram impassíveis. No entanto, a expressão da mulher que se rendeu vacilou muito ligeiramente.
— Ryo, você pode isolá-la também? — Abel murmurou.
— Com certeza posso — respondeu Ryo.
Então, uma Parede de Gelo invisível cercou a assassina. Como ela parecia ser o elo mais fraco, eles se preocuparam que os cinco homens pudessem tentar impedi-la de vazar informações durante o interrogatório, mesmo correndo o risco de suas próprias vidas. Um desenvolvimento provável, considerando o que Ryo e Abel sabiam da Seita.
— Em segundo lugar, sabemos que esta mulher congelada é Natalia, um dos altos escalões da Seita.
Os cinco homens se encolheram. Como um estranho, o inimigo, poderia saber algo assim? Eles estavam cientes de que Abel era um aventureiro de rank A, mas ainda era estranho para ele saber o nome de um membro sênior da Seita.
— Ah, sim, acabei de me lembrar. A sede de vocês era no Reino, certo? A vila que foi congelada e destruída. Não foi lá que seu líder morreu também?
Todos os seis ouviram, suas expressões ficando mais tensas a cada segundo.
— Vocês sabiam que foi Natalia quem o matou?
Os olhos dos prisioneiros se arregalaram. Eles não podiam mais fingir indiferença.
— Mentiroso! — gritou um dos homens.
— Não estou mentindo. Ela o matou por “Black”.
Os prisioneiros empalideceram. Como o homem à sua frente sabia sobre Black?! Deveria ser impossível, mas ele sabia. A mulher estava branca como um fantasma, quase em lágrimas.
— Outra coisa — vocês têm tatuagens em seus peitos, certo? Uma águia de duas cabeças transpassada por uma espada.
Abel quase os tinha onde queria. Só um pouco mais, e eles quebrariam. Eles sabiam que ele sabia de tudo, então estava se tornando cada vez mais inútil esconder agora.
— Essa tatuagem ainda funciona mesmo após a morte do líder?
Os prisioneiros piscaram, confusos. — Hã?
— Por funcionar, quero dizer a lança de pedra que perfura seu coração se você tentar remover a tatuagem. Ainda faz isso?
— Do que diabos você está falando? — um dos homens murmurou sem pensar.
Abel sabia dessa função porque Sherfi, um dos ex-líderes da Seita, lhes contara sobre isso, e uma lança realmente apareceu quando Ryo removeu a tatuagem de seu peito. No entanto, as reações perplexas de seus cativos sugeriam que eles nunca haviam testemunhado a cena antes.
— Vocês não sabiam? É assim que a tatuagem funciona, aparentemente, graças à alquimia. Mas sabe... estive me perguntando o que acontece agora que seu líder está morto.
Essa foi a gota d'água. Este homem sabia mais sobre a Seita — sobre seus próprios corpos — do que eles, e eles eram membros. Como? Por quê? Eles não sabiam. Mas, gostassem ou não, estavam convencidos de que haviam encontrado um oponente que não podiam derrotar.
— Agora, vamos discutir o objetivo de vocês—
— Abel — interrompeu Ryo. Então ele se inclinou e murmurou no ouvido do espadachim. — Eu sei a resposta para isso, então, por favor, não toque nesse assunto aqui.
— Hmm...
O ataque de Natalia dera uma pista a Ryo. Sob a cobertura do ataque de seus camaradas, ela lançara uma lança de pedra que voou direto para o coração de um aventureiro. Isso significava que ela não estava atacando ao acaso — ela estava tentando matar alguém específico... Mesmo que Ryo soubesse pelo menos uma razão pela qual os assassinos haviam mirado na delegação, ele escolheu guardar isso para si por enquanto. Afinal, a vítima pretendida de Natalia ainda não havia se manifestado, o que só deixava Ryo mais curioso. Ele decidiu que perguntaria a ela sobre isso em particular.
— Ei, me corrijam se eu estiver errado, mas vocês têm um mago das trevas, não têm? — Abel perguntou aos cativos.
A assassina se encolheu, obviamente agitada.
— Ah — disse Abel com um sorriso que transbordava confiança. — Aí está você.
Ela lhe deu um aceno de cabeça fraco.
No instante seguinte, o aço brilhou nas mãos de dois dos homens. Duas formas se moveram pelo ar, correndo em direção à cativa, e então —
Klink, klink.
— A Parede de Gelo de Ryo desviou as duas facas de arremesso.
Abel sorriu. Uma cisão entre os assassinos era exatamente o que ele esperava.
— Caaaramba, que bando de desgraçados assustadores — disse ele. — Moça, seus companheiros nem hesitaram em tentar te matar. Você vai deixar eles se safarem com isso?
A assassina encarou os homens que deveriam ser seus camaradas. Seus olhos se arregalaram, sua mandíbula se apertou. Raiva, medo e frustração lutavam em seu rosto, suas emoções muito emaranhadas para descrever.
Naquele momento, Abel soube que ela havia desertado.
— Então, maga das trevas — disse ele. — Qual é o seu nome?
— Rosalia — ela respondeu, sua resposta sinalizando o momento em que deixou a Seita dos Assassinos.
Com o interrogatório inicial terminado, os líderes da delegação discutiram os próximos passos.
Enquanto isso, Ryo se aproximou de uma maga baixa de cabelo castanho entre os aventureiros que escoltavam a comitiva real. Ela era a mulher que Natalia abandonara seus subordinados para atacar. Quando Ryo se aproximou, a mulher curvou a cabeça.
— Ryo, muito obrigada pelo que você fez mais cedo.
— Não foi nada, honestamente. Qualquer um protegeria seus aliados naquela situação. Seu nome é Myu, não é?
No banquete em Acray, Ryo havia memorizado os nomes de todos os aventureiros. Valquíria, o grupo ao qual Myu pertencia, era uma equipe de rank C da capital real.
— Contanto que você se sinta confortável em falar comigo sobre isso — disse Ryo —, eu estava me perguntando por que você foi alvo...
— Bem... — ela começou. Antes que terminasse, o resto de seu grupo se aproximou. Myu olhou para o chão, depois de volta para seus colegas.
— Talvez você queira falar em particular? — Ryo ofereceu, imaginando se a informação era sensível.
— Está tudo bem. Eles sabem. — Myu assentiu firmemente. — Não tenho certeza, mas acho que fui alvo por causa do meu passado. Mais especificamente, minha família.
Ryo ouviu em silêncio enquanto os companheiros de Myu, de pé atrás dela, colocavam gentilmente as mãos em seus ombros. Aquele simples gesto deixou claro que todos eram próximos. A cena aqueceu seu coração.
— O nome do meu avô é Cyrus Theo Santayana. Ele é o atual Arquiduque de Twilightland.
Nesse ponto, parecia que este mundo estava praticamente infestado de realeza — príncipes de um lado, arquiduques e seus descendentes do outro...
◆
— Minha mãe é filha dele, mas em Twilightland, apenas descendentes homens diretos podem herdar o trono. Portanto, estou excluída da linha de sucessão.
— Mas o pai de Myu é um marquês no Reino, então ela pode herdar o título dele — acrescentou Imogen, uma espadachim.
Ah, agora entendi, pensou Ryo. Ela é filha de um marquês que por acaso é neta do Arquiduque de Twilight. Posso imaginar que isso causaria algumas ondas...
— Eu informei o Grão-Mestre e Lorde Ignus sobre meu passado quando fui escolhida como escolta para esta delegação. O Grão-Mestre disse que isso poderia ser uma vantagem em vez de uma desvantagem, e que eu deveria fazer o meu melhor...
Apesar de apontar os riscos potenciais, os superiores ainda haviam dado permissão para Myu se juntar.
— Eu entendo — respondeu Ryo. — Obrigado por me contar.
Então o mago da água se dirigiu para a reunião dos líderes.
Quando ele chegou, a reunião havia terminado, e todos estavam perambulando enquanto cuidavam de suas várias tarefas.
— Ryo! — Abel chamou.
— Vejo que todos terminaram. Acabei de descobrir por que a Seita nos alvejou — disse Ryo. Ele passou a explicar o passado de Myu, e então Abel descreveu o próximo passo deles.
— Como estamos em território de Twilight, não temos escolha a não ser entregar os assassinos ao governo.
— Entendo... Mesmo Rosalia, a maga das trevas? — Ryo perguntou, pensativo. — Ela é um ativo valioso, mas suponho que não há o que fazer.
— C-Ceeerto — disse Abel, fazendo uma careta.
— Qual é o problema, Abel?
— Bem, fiquei surpreso ao ouvir as palavras “ativo valioso” saírem da sua boca, Ryo...
— Você realmente acha que sou algum gênio do mal?! Quer dizer, honestamente... Eu só estava pensando no futuro do Reino, assim como você e todo mundo! Com ela do nosso lado, poderíamos fazer algumas ferramentas alquímicas incrivelmente raras, sabe? Pode estar além da minha capacidade no momento, mas se conseguirmos a ajuda de Kenneth...
— Entendi. Isso faz muito sentido.
Quando se tratava de fazer qualquer coisa, Ryo tinha apenas três critérios: tinha que ser legal, tinha que ser interessante ou tinha que envolver alquimia.
— De qualquer forma, assim que chegarmos a Karnak esta noite, entraremos em contato com as autoridades certas e transferiremos os assassinos para sua custódia. Não sei quanto tempo vai demorar até que essas autoridades apareçam, no entanto.
— Entendido. Este é um país estrangeiro, então não devemos ficar muito surpresos que seus procedimentos e sistemas sejam diferentes dos de Knightley. Na remota chance de eles chegarem antes do que esperamos, no entanto, eu gostaria de fazer algumas perguntas àquela mulher congelada.
Depois de obter permissão do Negociador Ignis, Abel e Ryo se aproximaram de Natalia.
— Não importa quantas vezes eu veja, ainda não consigo acreditar que as pessoas que você congela realmente sobrevivem — disse Abel, encarando o corpo congelado da assassina.
— Não seria o caso sem bastante prática. Você não tem ideia de quantos monstros foram sacrificados na Floresta de Rondo enquanto eu aperfeiçoava isso... — disse Ryo.
O mago da água pensou que parecera sincero, mas Abel o viu por completo.
— Não me diga — disse ele, sem se impressionar.
Ryo fez uma careta. Sem outra palavra, ele derreteu o gelo que envolvia o rosto de Natalia.
— Olá, Natalia. Gostaríamos de ter uma pequena conversa.
— Vá para o inferno! Vá apodrecer em um—
Em um instante, ele cobriu a cabeça dela com gelo novamente. Então Ryo levantou a mão direita e a acenou para frente e para trás, como se estivesse acenando para algo. O gelo pareceu se mover em resposta, seguindo os movimentos de sua mão...
Após cerca de dois minutos, Ryo descobriu o rosto de Natalia novamente.
— Que pena uma mulher bonita ter uma boca tão suja — disse Ryo. — Agora, tenho certeza que você sentiu o gelo se contraindo em volta do seu corpo agora, não sentiu? Eu estava comprimindo-o. Você ficou com medo? Aposto que sim. Contanto que você esteja aí dentro, lembre-se que posso te esmagar a qualquer momento que eu quiser. Não se esqueça disso.
— Seu desgraçado...
Medo e ódio lutavam em seu rosto. Ela agonizava com o fato de ele ter sua vida em suas mãos, mas desprezava a ideia de se submeter a ele.
— Não se preocupe, não vou te perguntar nada complicado. Eu sei por que você mirou em Myu, mas só quero ouvir da sua boca. Ah, e eu gostaria de saber quem é seu cliente. Mas primeiro — você a mirou por causa do passado dela, certo?
— Você realmente acredita que vou te responder? Você deve estar brincando — disse ela, tentando ostentar sua bravata com um sorriso zombeteiro.
— Ajudaria se eu te dissesse que não guardo rancor da Seita? A única razão pela qual congelei sua vila em primeiro lugar foi porque vocês sequestraram o Príncipe Willie. Mas continue sendo teimosa, e talvez eu vá atrás de Black em seguida, hm? — Ryo sorriu para ela.
Natalia ficou sem palavras. Após um longo minuto de silêncio, ela finalmente levantou a cabeça. — Como se... Como se você pudesse...
— Gostaria de testar isso? Você sabe do que sou capaz, não sabe?
Ela sabia que este homem era um monstro. Ele havia aniquilado sozinho a sede deles, congelado tudo em gelo e enfrentado o líder. Ela respeitava o Lorde Black, mas não podia negar que ele era inferior ao líder em termos de habilidade de luta... Na verdade, ninguém nos altos escalões da organização — em toda a Seita, aliás — poderia derrotar o monstro diante dela.
— Não tenho interesse no que acontece com Black ou com a Seita — continuou Ryo enquanto Natalia hesitava. — Eu prometo que não vou atacá-los a menos que seja provocado — mas isso é só se você responder às minhas perguntas. O destino deles está em suas mãos, Natalia. Você nunca terá uma chance como essa novamente.
Uma ameaça respaldada por seu poder puro e avassalador. Era uma tática comum entre nações, mas igualmente eficaz em negociações entre pessoas — especialmente em um mundo como Phi, onde não havia instituições como a polícia para impor a ordem.
— Tudo bem... Eu vou te dizer a maior parte do que posso, mas não tudo. No entanto, você deve jurar novamente que não vai colocar as mãos em Black e na Seita se eu responder às suas perguntas.
— Eu juro que não farei nada a Black e à Seita, a menos que eles me ataquem primeiro — prometeu Ryo a ela.
Algumas pessoas acreditavam que negociar com assassinos ou terroristas era inaceitável, mas Ryo não se enquadrava nessa categoria. Se ele pudesse obter informações através de interrogatório, ele negociaria feliz com um assassino.
E foi exatamente assim que Ryo obteve algumas informações vitais.
Ele descobriu que nobres rebeldes estavam por trás do ataque à delegação. Deveria ser realizado dentro das fronteiras do país. Os assassinos podiam poupar o emissário e os outros funcionários públicos, mas os cavaleiros e aventureiros — e, mais importante, Myu — deveriam ser mortos. O ataque deveria ocorrer dentro de três dias após a comitiva entrar em Twilightland. Essa era toda a informação que Natalia sabia.
— Excelente. Isso é mais do que suficiente — disse Ryo.
— E sua promessa?
— Claro que vou mantê-la. Black e a Seita estão a salvo de mim.
Alívio inundou o rosto de Natalia.
Ryo genuinamente não tinha interesse na nova Seita. Ele estava bem com eles cuidando de seus negócios — contanto que esses negócios estivessem longe, muito longe dele... Ele não tinha intenção de quebrar sua promessa a Natalia.
Quanto a Abel, que estivera ouvindo em silêncio atrás dele, Ryo imaginou que ele provavelmente também tinha muito em que pensar e decidiu não se preocupar.
Ryo se virou para Natalia e a congelou novamente.
— Aí está, Abel.
— Sim... Bem, podemos deixar a Seita de lado por enquanto, mas estou preocupado com esses rebeldes.
Os dois começaram a andar enquanto continuavam a conversa.
— Também estou preocupado, mas não há informações suficientes para formar uma opinião de um jeito ou de outro.
— Verdade... Ignis sabe sobre o passado de Myu, certo? Digo para levarmos tudo isso a ele e vermos a partir daí.
◆
A delegação logo chegou a Karnak, a maior cidade de Twilightland. Como ficava perto da fronteira, também servia como centro comercial da nação com Knightley.
Eles não poderiam estar mais gratos por encontrar uma estalagem que acomodasse todos eles.
Rosalia, que efetivamente desertara, pôde ficar em um quarto, embora sob guarda. O resto, incluindo Natalia, permaneceu congelado no pátio da estalagem.
Naquela noite, um dos sonhos mais antigos de Ryo se tornou realidade. Enquanto ele estava deitado em sua cama macia na luxuosa estalagem, o mago da água ouviu um rangido. Ele se sentou e gritou: — Quem vai lá?!
Era algo saído de um drama de época — o momento em que um oficial de alto escalão confronta um ninja que se esgueirou para seu quarto no meio da noite. Ryo estava nas nuvens, mas manteve o rosto solene. Essas eram sempre cenas sérias, afinal.
Mas o “intruso”, infelizmente, acabou sendo nada mais do que um mensageiro.
— Vim entregar uma mensagem de Phelps A. Heinlein.
— Obrigado — disse Ryo.
A figura encapuzada se aproximou, entregou-lhe a carta e saiu do quarto sem outra palavra. A carta continha informações trocadas entre Phelps e seu pai, Alexis.
◆
Na manhã seguinte, Ryo entregou a carta a Abel.
— Ontem à noite, recebi esta missiva — disse Ryo arrogantemente.
Abel suspirou. — Cara, você pode simplesmente chamar de carta.
Ryo o ignorou.
Abel leu a carta.
— Altas chances de uma guerra civil estourar? O Conde Contreras está do lado do governo, e o Marquês Espier está com os rebeldes — mas o governo não percebeu os sinais? Por que apenas os nobres estão se movendo? E Contreras foi quem pediu a delegação do Reino? O que é tudo isso? — Abel murmurou enquanto lia a carta, incapaz de entender tudo.
— Algum tipo de golpe de estado, ou talvez nada além de crianças crescidas brincando de guerra — Ryo arrastou as palavras dramaticamente, um sorriso perverso em sua boca, enquanto continuava a interpretar o papel do vilão indiferente.
— Golpe de quê? Esqueça. De qualquer forma, tudo o que podemos fazer é ter cuidado. Mais alguém sabe?
— Não, só você.
— Entendi. Então vamos contar aos outros.
Eles realizaram uma reunião pouco depois, onde compartilharam essa informação com toda a delegação.
Naquela noite, na sala de jantar da estalagem, o mago da água ergueu os olhos de seu prato de peixe grelhado. — Abel, se você estivesse do lado dos rebeldes, qual seria o seu plano de ataque?
— Hã? — Abel pensou por um momento, depois percebeu que Ryo estava falando sobre a potencial guerra civil que se formava em Twilightland. Ele finalmente encolheu os ombros. — Não há o que pensar, certo?
— Mmm, mas... mas nossa delegação foi convidada como parte de um complô do Conde Cont-qualquer-coisa, que está do lado do governo. Nesse ritmo, com certeza seremos arrastados para uma guerra civil.
— Um complô, hein? Bem... isso é possível. Suponho que somos apenas peões.
— Exatamente! — declarou Ryo com uma carranca. — Se estivermos presentes quando o Marquês E-alguma-coisa e seus rebeldes lançarem seu ataque, o governo pode nos usar como escudo!
— Sim... Consigo ver isso, na verdade.
Os rebeldes muito provavelmente hesitariam em atacar uma delegação oficial. Se eles os machucassem acidentalmente, arriscariam antagonizar o Reino. Com isso em mente, o governo defensor poderia tentar usar a presença da delegação a seu favor...
— Sair da frigideira e cair no fogo — disse Abel com um balanço de cabeça.
— Isso resume tudo — disse Ryo com um aceno de cabeça.