
Volume 6 - Capítulo 2
The Water Magician
No dia seguinte, às oito da manhã, a carruagem da guilda que transportava Ryo e Abel partiu de Lune. Ambos haviam trazido pequenas bolsas de viagem. Nenhum dos dois tinha muito o que levar, então não precisaram de muito tempo para se preparar para a viagem.
— Ué — disse Abel, olhando para o amigo. — Você parece bem relaxado.
— O que você quer dizer? — perguntou Ryo, confuso.
— Bem, o Mestre da Guilda sugeriu que eu te acalmasse. Ele disse que você parecia um cavalo inquieto, ansioso para partir.
— Não faço ideia do que você está falando... Mas de onde eu venho, temos alguns ditados: ‘a pressa é inimiga da perfeição’ e ‘devagar e sempre se vai ao longe’. Não estou nem um pouco agitado, muito obrigado. — Ryo assentiu com um ar presunçoso no rosto.
— Parece que sim. Esta é a única vez que fico feliz em descobrir que ele está errado. — Abel sentiu-se aliviado.
◆
Um pensamento ocorreu subitamente a Ryo, que ele decidiu expressar em voz alta: — Abel, acabei de perceber uma coisa...
— É mesmo?
— O resto da Espada Carmesim não estava com você quando saímos mais cedo.
— Siiiim, bem... Nós não somos unha e carne, sabe.
— Ah, não. Não me diga que os outros três estão te maltratando? — disse ele hesitante, com pena nos olhos. Parecia que ele estava pisando em ovos, com medo de tocar num assunto delicado.
— Por que diabos você chegaria a essa conclusão? — retrucou Abel, irritado. Claro que ele estava.
— Quer dizer, o líder do grupo acabou de partir para uma longa viagem sozinho, e ninguém veio se despedir, então...
— Certo, seguindo sua lógica, ninguém do Quarto 10 apareceu por você. Não é mesmo, Ryo?
— Eu não contei a eles. Além disso, não sou um membro oficial do Quarto 10.
— Uhhh, então... Sera! Certo, a Sera também não veio!
— Você e eu sabemos que ela gosta de agir sozinha. Além disso, ela passou na minha casa esta manhã — respondeu Ryo, com uma expressão triunfante.
Enquanto isso, Abel parecia ainda mais irritado — mas não gritou. Aquele Abel era um verdadeiro adulto.
— Bem, a verdade é que—
— Ah, já sei! Você foi finalmente expulso da Espada Carmesim! Mas não se sinta mal. Tenho certeza de que outro grupo te aceitará em breve.
— Por que você é assim?! — gritou Abel, finalmente perdendo a calma.
— Enfim. Como eu dizia antes de você me interromper tão grosseiramente, Hilarion está em Kona agora. Ah, é mesmo, e levou a Lyn junto, e é por isso que o Hugh me incluiu nisto.
— Sim. Warren e Rihya foram com eles.
— Ah, então era isso, hã?
— É, é isso, seu idiota. Foi por isso também que eles não estavam na nossa cerimônia de promoção para o rank A no outro dia.
— Agora que você mencionou...
Abel parecia solitário para Ryo. Não, não apenas solitário... Consumido pelo desespero, talvez. Nenhum de seus companheiros de grupo, que haviam compartilhado suas alegrias e tristezas com ele, estava na cerimônia... Ryo estremeceu só de imaginar.
— ‘O tempo está fora dos eixos’ — ele murmurou.
— Hã?
— Um certo príncipe disse essas palavras quando seu mundo desmoronou, colocando-o em uma situação desesperadora. É uma frase que combina com você, Abel, já que você gosta de fingir que é um príncipe.
— Peraí. Você ainda não acredita em mim?
— Claro! ‘O tempo está fora dos eixos. Ó sorte maldita, ter eu nascido para pô-lo em ordem!’ Essas foram as palavras que ele exclamou! — gritou Ryo, recitando a famosa cena de Hamlet.
— C-Ceeerto...
— Sua vez. Vamos, repita depois de mim: ‘O tempo está fora dos eixos.’
— O que está acontecendo?
— Diga. ‘O tempo está fora dos eixos.’
Dominado, Abel suspirou em derrota. — O-O tempo está fora dos eixos?
— Muito bem. Quando se encontrar em uma situação desesperadora, grite essa frase para os céus. Vou te emprestar os direitos de usá-la.
— Uhhh, obrigado, eu acho?
E foi assim que Shakespeare ganhou outro discípulo, embora em outro mundo...
◆
— Abel... algo está estranho com esta carruagem.
— Certo, o que é desta vez?
— Por que você faz parecer que estou sempre dizendo coisas estranhas? — Ryo suspirou.
— Você precisa de mais autoconsciência, amigo. — Abel também suspirou e balançou a cabeça para dar ênfase.
— Como estou de bom humor, vou ignorar suas palavras impensadas de agora.
— Puxa, obrigado.
— Enfim, algo está definitivamente estranho com esta carruagem.
— Tem certeza? Quero dizer, estamos na estrada certa para a capital real.
— Talvez, mas isso não muda o fato de que parece que os cavalos estão correndo a galope o tempo todo.
As carruagens eram geralmente muito lentas em longas distâncias, mas a que a guilda lhes emprestara movia-se surpreendentemente rápido. A carruagem de seis cavalos que usaram para viajar até a fronteira leste do Reino para resgatar os discípulos de Ryo tinha sido consideravelmente veloz, mas isso só ocorrera por causa da condução de primeira classe de Warren, da habilidade de Rihya de aliviar a fadiga dos cavalos e dos esforços de Lyn para reduzir a resistência do ar. No entanto, de alguma forma, esta carruagem de quatro cavalos viajava na mesma velocidade. Em outras palavras, os cavalos já deveriam ter esgotado sua resistência.
— Bem, não sei se eles realmente estão galopando a toda velocidade, mas sim, suponho que estamos indo bem rápido. E a culpa é toda sua, Ryo.
— Minha? — Ele inclinou a cabeça em confusão.
— Você está com pressa para chegar ao Centro de Alquimia, certo?
— Claro que estou. Não terei muito tempo para me enfurnar lá, já que os figurões já decidiram quando sairemos da capital! Não temos um segundo a perder.
— Aí está. O Mestre da Guilda conseguiu a permissão do Grande Mestre para trocar por cavalos descansados em outras guildas de aventureiros pelo caminho, só para chegarmos ao Palácio de Cristal o mais rápido possível.
— Uau... Tiro o chapéu para o grande Hugh!
— A viagem normalmente levaria quase uma semana, mas parece que chegaremos em dois dias... Caramba. Parece bem louco quando se diz em voz alta, hã? — Abel parecia impressionado.
Mas então um pensamento surgiu de repente na mente de Ryo. Na maioria das histórias de isekai ou fantasia, uma viagem rápida de carruagem deveria ser horrível. Não era surpresa, na verdade, considerando a falta de suspensão e seus pneus de madeira ou metal. No entanto, a viagem em sua carruagem de quatro cavalos era muito mais suave do que as que essas histórias geralmente descreviam. Ele poderia ter dito o mesmo sobre a carruagem de seis cavalos também, que era aparentemente a mais luxuosa de Lune.
— Abel, não é tão ruim viajar nisto, é?
— É. Como os veículos da guilda podem viajar em alta velocidade, eles são equipados com um mecanismo de absorção de choque instalado com magia. Ou foi alquimia? Eu mesmo não tenho muita certeza dos detalhes.
— Alquimia! E magia... Claro, ambas são uma opção.
Ryo percebeu que não havia necessidade neste mundo para uma suspensão, que havia sido implementada em carruagens na Terra no século XVII. Aqui, eles tinham magia! E alquimia! Um cenário de fantasia da vida real!
— Falando nisso, tenho ouvido boatos sobre uma nova carruagem no mercado, uma que não precisa de alquimia.
— Não me diga. Um avanço tão notável na tecnologia.
— É feita por um ferreiro bem famoso que originalmente se especializou em armas... Qual era o nome dele mesmo... Ah, sim, Kalashnikov.
— Kalashnikov...
Ryo estava, é claro, pensando em Mikhail Kalashnikov, o projetista da AK-47, o fuzil militar mais utilizado na Terra moderna. A AK-47 é um fuzil automático fabricado na antiga União Soviética, vendido e copiado em todo o mundo. É o mesmo fuzil visto disparando descontroladamente em zonas de conflito no Oriente Médio e por guerrilheiros em muitos filmes e programas de TV.
No entanto, no Reino de Knightley, este ferreiro de mesmo nome aparentemente se tornara famoso por suas carruagens relativamente baratas, mas incrivelmente confortáveis. Como resultado, quando um nobre de baixa patente ou um comerciante perguntava a outro em que tipo de carruagem eles andavam, não era incomum ouvir “Uma Kalashnikov” em resposta.
◆
Como Abel havia previsto, eles chegaram à capital real dois dias depois.
— Ryo, o Margrave Lune está nos hospedando em sua mansão. Se você realmente vai se enfurnar no Centro, eu te busco na noite anterior à nossa partida!
Ao entrar na cidade, a carruagem foi direto para o Centro Real de Alquimia, onde Ryo saltou. Abel gritou para ele enquanto ele se afastava correndo, mas duvidava que Ryo o tivesse sequer ouvido.
— Caramba. Alguém está todo animado. — Com um suspiro, ele orientou o cocheiro a levá-lo para a residência do margrave na capital.
◆
— Kenneth! Ohhh, Kenneth, onde está você? — gritou um mago de manto na entrada.
— Sim, sim — respondeu uma voz alguns momentos depois, de mais para dentro. — Me dê um minuto.
E a pessoa que finalmente apareceu não era Kenneth. Ryo ficou desapontado, mas conhecia o homem. Era Raden, o subordinado do Barão Kenneth Hayward.
— Ah, olá, Ryo. Há quanto tempo.
Durante a agitação na capital real, Ryo estivera de fato aqui no Centro, liderando Kenneth e seu pessoal para fora, evacuando-os para a mansão do Margrave Lune. Ele se lembrava de Raden fazer parte do grupo.
— Primeiramente, como você veio parar aqui? Não havia guardas no portão quando você entrou no complexo? — Raden estava perplexo, pois os mencionados guardas não o haviam informado de visitantes...
— Não se preocupe. Por algum motivo, eles não notaram! — respondeu um Ryo inquieto com um aceno ansioso.
— Hm... — Raden estreitou os olhos, incerto.
— Raden, estou aqui para ver o Kenneth. Ele deve estar investigando um gole... quer dizer, algo.
— Espere um segundo... — começou Raden, assustado. Como Ryo poderia saber de informações secretas?
Pela cautela de Raden, Ryo podia praticamente ler seus pensamentos. Claro, ele os salvara durante o caos na capital, e Raden não havia esquecido essa dívida de gratidão, mas isso era um assunto totalmente diferente.
O Centro de Alquimia era extremamente rigoroso quanto a vazamentos de informação. No passado, a família real controlava diretamente a organização, que era responsável pela fabricação de muitos dispositivos alquímicos a pedido da família. Como chefe do Centro, Kenneth em particular havia advertido repetidamente sua equipe contra vazamentos de informação. Para seu desalento e de todos os outros, informações sobre o Vedra vazaram do Ministério de Assuntos Internos, que atualmente estava no comando do Centro.
— Por favor, não precisa ser tão cauteloso. Recebi permissão do Grande Mestre aqui na capital para inspecioná-lo. Você mesmo pode confirmar, se quiser.
— Muito bem. Enquanto isso, por que você não espera na sala de visitas e—
— Se não se importa, prefiro ver o Kenneth. Na verdade, ele provavelmente pode me garantir pessoalmente.
Naturalmente, isso estava longe do protocolo oficial, mas Raden era vulnerável à personalidade forte de Ryo.
— Nesse caso, siga-me. Ah, e por favor, não se afaste.
— Entendido. Pode ir na frente.
O sorriso de Ryo não diminuiu em nada. Raden aprendeu uma lição naquele dia que não esqueceria tão cedo: não havia nada mais assustador do que um sorriso...
Ryo o seguiu. Ele tinha que seguir, claro, já que era a coisa certa a fazer... Enquanto caminhava, ele decidiu que manteria para si o fato de que Raden estava quase chorando.
◆
Embora os terrenos e o prédio do Centro Real de Alquimia fossem enormes, poucas pessoas realmente trabalhavam lá. Empregava apenas dez alquimistas, mas um posto aqui era a prova de que o funcionário estava entre os alquimistas de primeira linha do Reino.
Atualmente, o chefe do Centro era o Barão Kenneth Hayward, um jovem de apenas vinte e dois anos que já havia conquistado a reputação de ser um gênio. Ele estava na sala de análise, uma câmara cheia de vários equipamentos. Uma das maiores do prédio, era espaçosa e arejada, com um teto que se elevava a mais de vinte metros de altura.
No centro da sala estava o golem em questão. Várias linhas se estendiam a partir dele. Assim que Kenneth, que estivera trabalhando intensamente, removeu a luva da mão esquerda para respirar, houve uma batida na porta.
Ele colocou a luva em uma bancada próxima e olhou para a entrada. — Entre.
Seu subordinado, Raden, entrou, acompanhado por um mago da água que ele não via há algum tempo.
— Ryo, há quanto tempo.
— Olá, Kenneth. Tenho certeza de que você já ouviu, mas...
Embora o sorriso de Ryo não vacilasse, seus olhos foram imediatamente para o golem praticamente consagrado no centro da sala.
Kenneth riu. — Sim, você recebeu permissão do Ministério de Assuntos Internos. Admito, fiquei surpreso que você tivesse as conexões para conseguir isso.
— Bem, foi mais como um acordo. Em troca da chance de estudar um golem, tenho que ir para Twilightland em uma semana. Vamos esquecer isso por agora, no entanto.
Enquanto falava, Ryo encarava o golem, aproximando-se cada vez mais até que finalmente o tocou. Claro, nada aconteceu. Ele não esperava que acontecesse. Mas isso não importava, porque finalmente, ele tinha em mãos a coisa que tanto desejava desde que a viu pela primeira vez no campo de batalha no Principado de Inverey. Uma onda de emoção o dominou.
Enquanto ele acariciava e afagava o golem, Raden saiu da sala para buscar café.
— Ryo, quer uma xícara? O golem não vai a lugar nenhum.
— Verdade. No entanto, meu tempo é limitado...
— Uma semana, não foi? Momento excelente, já que acabei de terminar a análise inicial. Preciso cruzar alguns dados, o que significa que você pode inspecioná-lo à vontade nos próximos dias, Ryo. Claro, você não pode destruí-lo — disse Kenneth com um sorriso.
No momento em que Ryo ouviu essas palavras, ele virou a cabeça em sua direção.
— Sério?
Um toque de ironia tingiu o sorriso de Kenneth. — Sim, sério.
Depois disso, Ryo caminhou até ele para aceitar seu café, cerrando o punho como um tenista que acabara de marcar um break point.
◆
Com uma xícara de café em uma mão, Ryo olhava fixamente para o golem.
— Ryo, o que você gostaria de fazer? Olhar por si mesmo e depois ouvir minhas ideias, ou ouvir primeiro e mexer depois?
— Hmmm... — Ryo ponderou por um momento. — Embora eu prefira a primeira opção, estou com pouco tempo, então me diga o que você pensa primeiro, Kenneth.
— Essa é certamente a melhor opção, dadas as circunstâncias. — Kenneth assentiu. — Primeiramente, este golem tem seis pedras mágicas dentro de seu corpo.
— Seis... Até mesmo conectar duas— — Ryo deixou escapar.
— Correto, mesmo conectar duas é extremamente difícil.
Uma pedra mágica por dispositivo alquímico era a prática comum. Duas ou mais frequentemente se repeliam ou se comportavam de maneira inesperada, causando superaquecimento que tornava o dispositivo inútil. Embora os alquimistas mais avançados pudessem conectar duas pedras mágicas, não era de forma alguma fácil.
— No entanto, isso não significa que todas as seis estão ativas simultaneamente.
Ryo ficou um pouco aliviado. Ele não achava que conseguiria analisar um golem com seis técnicas de excitação paralela em apenas uma semana. Na alquimia, uma pedra mágica ativa era chamada de “excitada”, enquanto uma inativa era chamada de “aterrada”. Ninguém sabia quem havia cunhado os termos ou quando, mas ambos existiam há muito tempo. Duas ou três pedras inativas, ou aterradas, colocadas próximas umas das outras não representariam um problema, mas duas ou mais pedras mágicas excitadas poderiam se repelir ou superaquecer...
De acordo com Kenneth, as seis pedras mágicas enterradas dentro do golem frequentemente alternavam entre os estados excitado e aterrado.
Ele apontou para o torso do golem. — A pedra mágica do ar maior no peito pode ser considerada a principal fonte de energia. Ela está sempre excitada. Há também uma em cada braço, duas nas pernas e uma na cabeça. Estas são excitadas conforme necessário.
— Se a do peito está sempre em estado excitado, então deve haver duas...
— Correto novamente. Pelo que decifrei da fórmula mágica, até três podem ser excitadas em paralelo.
— Três...
Mesmo coordenar duas era difícil, então três... Francamente, essa alquimia era tão avançada que Ryo simplesmente não conseguia compreendê-la.
— Quem quer que tenha feito isto é incrível... — disse Ryo, seu elogio completamente sincero.
— Concordo. — Kenneth assentiu vigorosamente. — Mesmo nas Províncias Centrais, há muito poucos indivíduos capazes deste nível de alquimia. Então, quando vi a fórmula mágica dentro, soube quem era: Frank de Velde.
— Frank de Velde...
— Sim. Um alquimista genial que era o orgulho do Colégio de Magia de Knightley. O homem que eu admirava como meu mentor — explicou Kenneth, franzindo a testa.
— Seu mentor... Então ele deve ser realmente alguém. — Em sua luta para compreender as implicações de tudo aquilo, Ryo procurou as palavras...
— Ele é. Muito além do meu alcance. Trabalhamos juntos para criar muitos dispositivos alquímicos. Então, dois anos atrás, Frank desapareceu de repente. Seu paradeiro era desconhecido até agora... A julgar por isso, eu diria que ele desertou para a Federação.
A expressão de Kenneth era uma mistura de tristeza, solidão e um pingo de alívio.
Então Ryo se lembrou de algo que havia acontecido durante a invasão de Handalieu ao Principado de Inverey, quando a expedição do sul liderada por Hugh McGlass lançou um ataque surpresa ao comandante-em-chefe do inimigo, Lorde Aubrey. Quando Hugh, Abel e Ryo o confrontaram com seus homens, alguém que parecia muito professoral interveio com cinco golens. Aubrey o havia chamado de Doutor de Velde...
— Acho que conhecemos esse Frank.
— O quê? — Kenneth perguntou, chocado.
Ryo recontou o encontro deles.
— Ah... isso é bem a cara do Frank. — Kenneth assentiu com um sorriso.
— Quando eu disse a ele que você era meu mestre, ele ficou encantado, dizendo que eu tinha encontrado um excelente professor.
— Ha ha... — Kenneth corou sem jeito. — De qualquer forma, seu tempo aqui deve ajudá-lo com seu objetivo de criar um golem, Ryo.
— Sim! Mais um passo em direção a esse nobre objetivo!
Ryo voltou sua atenção mais uma vez para a criatura, mas então outra pergunta surgiu: por que ela só tinha duas pedras mágicas quando tinha quatro pernas?
Como se sentisse sua pergunta, Kenneth disse: — Ryo, você viu este golem em ação?
— Sim. Não era tão rápido quanto um humano, mas seus poderes defensivos e de penetração eram incríveis.
— Ele desviou, sim?
— Hã?
— Desviou do Vedra, certo?
— Uh, s-sim?
— Ah, certo, você não sabe sobre o Vedra, Ryo. O formulário de permissão inclui revelar sua existência a você.
— Espere, acho que talvez eu saiba. Era aquela coisa que disparava a luz verde?
Ryo tinha visto a palavra “Vedra” no relatório do Margrave Lune, e ele havia testemunhado o fenômeno em primeira mão no campo de batalha, mas não havia conectado os dois até agora.
— É isso mesmo. É classificado como uma arma arcana, mas eu nunca imaginei que seria colocada em uso prático em Inverey...
A frustração nublou o rosto de Kenneth. Não era para menos. Ele descobrira que algo que ele havia projetado e poderia ter fabricado com o consentimento do governo já estava sendo usado por outro país.
— Kenneth, você sabe quem vazou essa informação?
— Sim. O Ministério de Assuntos Internos.
Kenneth balançou a cabeça levemente, parecendo mais surpreso do que indignado. O Centro Real de Alquimia era bastante rigoroso na prevenção de vazamentos de informação, mas não podia impedir que o ministério que o supervisionava vazasse informações. Claro, os agentes responsáveis por obter informações haviam entendido quais áreas eram mais vulneráveis ou propensas a deslizes, então eles miraram nessas áreas intensivamente, reduzindo assim o esforço que despendiam no processo.
Os métodos permanecem mais ou menos os mesmos em qualquer mundo, do passado ao presente: tentação ou chantagem. Em outras palavras, eles ofereciam dinheiro ou sexo a um membro do sexo oposto ou ameaçavam atacar a família do alvo. O recente vazamento do Ministério de Assuntos Internos tinha sido do primeiro tipo. Como os infratores eram plebeus, foram sumariamente executados. Era verdadeiramente assustador como as classes sociais eram tratadas de forma diferente...
— Ainda acho difícil acreditar que um golem possa desviar um ataque concentrado de um Vedra... mas não importa o quanto eu investigue, não consigo descobrir como. Ele só deveria ser capaz de emitir magia de fogo ou terra de seus braços, ou ar de seu peito... De qualquer forma, não pode usar barreiras mágicas não elementares. Poderia ter usado uma parede de terra para desviar o ataque do Vedra, mas não houve relatos dos golens gerando nada do tipo...
— Ah... Então aquele plasma é provavelmente magia de fogo ou ar — murmurou Ryo, imaginando a cena em sua cabeça. Com base em seu conhecimento de light novels, ele presumiu que relâmpago significava ar, mas isso não era necessariamente verdade. Relâmpago era plasma, o que significava que era possível gerar com magia de fogo. Ele na verdade achava que magia de água também poderia fazer isso. Durante seu tempo na Terra, ele vira um vídeo de plasma de água cortando latas de alumínio...
Kenneth agarrou-se ao resmungo de Ryo como um cão a um osso. — Ryo, o que é?! — disse ele. — Diga-me que você descobriu algo!
— Bem, hum... não tenho certeza de como explicar em detalhes, mas... acredito que seja magia de fogo ou ar que gera — hm, como dizer? — pequenas cargas de relâmpagos de altíssima temperatura. Elas causam uma mudança na densidade do ar, o que torna mais difícil para um ataque acertar.
— Perdoe-me, mas eu... — Kenneth murmurou, incapaz de entender.
Se não fazia sentido para ele, era natural que Abel também não tivesse conseguido acompanhar. Em outras palavras, a culpa era toda de Ryo.
— Certo, vejamos... O Vedra usa magia do ar para transmitir vibrações de ar, certo?
— Sim! Você entende seu mecanismo. É sua maior vantagem, pois garante que não haja absolutamente nenhum recuo.
— Bem, o mecanismo de defesa do golem pode perturbar essas vibrações de ar.
— Ohhh... estou começando a ver... — Kenneth balançou a cabeça, sorrindo com ironia. — Não é de se admirar que os dois sejam tão terrivelmente incompatíveis.
— Embora o propósito original dos braços de um golem pudesse ser derreter muralhas e portões de castelos com relâmpagos, eles foram claramente adaptados para fins defensivos. Quando vi isso, me perguntei se o criador dos golens tinha feito isso com o bloqueio do Vedra em mente — disse Ryo, lembrando-se do momento em que os golens desviaram a luz verde do Vedra.
— Entendo. Se Frank projetou o golem, então faz sentido. Afinal, estávamos trabalhando juntos aqui mesmo no Centro até ele desaparecer — disse Kenneth, parecendo um pouco triste.
◆
Em última análise, o propósito de um alquimista era criar ferramentas que causassem a ocorrência de fenômenos mágicos sem um mago. Portanto, mesmo pessoas que não eram magos podiam usá-las. Por exemplo, os alquimistas faziam poções desenhando um círculo mágico no papel. Neste caso, o papel marcado se tornava uma ferramenta alquímica. A fabricação de poções era geralmente considerada uma das formas mais básicas de alquimia, mas alguns a viam como um subcampo ou até mesmo um domínio diferente. Uma vez que você se familiarizasse com os círculos mágicos e a manipulação de mana, você entenderia o porquê.
Ferramentas alquímicas precisavam ter um círculo mágico ou uma fórmula mágica desenhada nelas. Os criadores às vezes anexavam pedras mágicas para alimentar os círculos ou fórmulas. Sem elas, os magos precisavam usar seu próprio mana como fonte de energia externa, como faziam com o papel usado para criar poções.
Tanto os círculos mágicos quanto as fórmulas só podiam ser ativados se imbuídos de energia mágica pertencente à classe de fenômeno que o conjurador desejava manifestar. Para manipular o vento, você precisava de um mago do ar ou de pedras mágicas do ar para fornecer mana ao círculo mágico ou à fórmula.
Embora os círculos fossem muito mais fáceis de usar, eles exigiam várias vezes mais poder. As fórmulas mágicas usavam a energia canalizada diretamente, enquanto os círculos precisavam convertê-la em uma forma padrão de energia mágica. Como os círculos mágicos e as fórmulas mágicas tinham suas próprias características únicas e cada um tinha seus próprios traços e funções, ambos eram necessários.
Ryo havia sido introduzido à alquimia criando poções e coisas do tipo, mas ele só havia usado círculos mágicos. Ao criar ferramentas alquímicas, no entanto, apenas os círculos mágicos não eram suficientes. Ele havia comprado textos de alquimia em lojas e os alugado em bibliotecas, e embora fossem úteis, esses recursos não foram suficientes para Ryo, que no final sonhava em controlar um golem. Tomando as rédeas da situação, ele começou a estudar as fórmulas mágicas escritas no caderno preto de Hasan, as que Kenneth lhe ensinara aqui no Centro de Alquimia antes e depois dos problemas na capital, e as fórmulas mágicas escritas em ferramentas que ele vira na companhia comercial de Gekko.
Algo, no entanto, vinha intrigando Ryo. Embora as fórmulas frequentemente compartilhassem a mesma sintaxe e vocabulário, por assim dizer, muitos outros elementos pareciam descontroladamente diferentes de uma fórmula para outra.
Depois de terminar seu café, Ryo finalmente teve a chance de perguntar por quê.
— Há algo que venho me perguntando — disse ele.
— É mesmo? — respondeu Kenneth, ainda tomando seu café. — Vá em frente, não seja tímido.
— É sobre as fórmulas mágicas. Como posso dizer... Bem, elas parecem muito aleatórias.
— Ah, sim, sei o que você quer dizer. Isso provavelmente ocorre porque cada fórmula é única para quem a inscreve.
— Hã?
— Em outras palavras, se você tiver cem alquimistas, eles criarão cem fórmulas diferentes.
— O que você quer dizer? — Embora Ryo tivesse dificuldade em acompanhar, ele entendeu o quão inacreditável era a resposta de seu amigo.
— Um alquimista disse uma vez que escrever uma fórmula mágica é como criar uma nova linguagem.
Como a Terra Moderna, Phi tinha uma infinidade de idiomas diferentes — embora os países das Províncias Centrais falassem um idioma quase idêntico, e os das Províncias Ocidentais compartilhassem um sistema linguístico semelhante. Por exemplo, Ryo podia conversar com Roman, o Herói, e seus companheiros sem problemas. Aparentemente, as Províncias Orientais tinham um sistema linguístico completamente diferente do Central.
Se as línguas faladas podiam ser completamente diferentes umas das outras, talvez fosse razoável que as fórmulas mágicas pudessem variar de pessoa para pessoa.
— Não gosto disso. — A expressão de Ryo era mortalmente séria.
— Desculpe? — disse Kenneth com um sorriso irônico. — As guildas de mercadores e afins vendem ferramentas que empregam fórmulas bem conhecidas que foram extensivamente estudadas e publicadas em livros, então você não encontrará muitas diferenças nesses casos. Mas... algo me diz que não é bem isso que você quer, não é, Ryo?
— Você estaria correto. Eu quero fazer meus próprios golens!
— Sabe, eu me lembro de você ter dito isso...
Ryo havia mencionado seu grande objetivo durante o caos na capital. Em vez de zombar dele, Kenneth o havia encorajado.
— Ryo, já que você foi autorizado a ver todas as informações do país relacionadas a golens, você está convidado a examinar os dados que temos aqui no Centro também.
Seus olhos se iluminaram. — V-Você tem certeza?
— Frank deixou para trás documentos que descrevem a tecnologia base usada para esses golens. Vou te mostrar mais tarde.
— Muito, muito obrigado, Kenneth! — Ryo se levantou, segurando ambas as mãos dele, com os olhos úmidos de lágrimas de alegria não derramadas.
Após aquele breve momento de emoção, Ryo se recompôs e sentou-se.
— Certo, então... — continuou Kenneth. — Voltando ao tópico das fórmulas mágicas. Embora elas variem de pessoa para pessoa, isso não significa que você pode simplesmente escrever uma sequência aleatória de caracteres e esperar que fenômenos mágicos ocorram.
— Você comparou isso a criar uma linguagem. — Ryo tentou — e falhou — imaginar a criação de uma linguagem na Terra moderna. — Você poderia elaborar sobre isso?
— Primeiro, vamos considerar a diferença entre magia e alquimia. Ambas criam fenômenos mágicos, como manifestar paredes de terra ou produzir água. Me acompanhando até agora?
— Estou — disse Ryo com o foco de um aluno exemplar em uma aula de sua matéria favorita.
— Tradicionalmente, os magos criam fenômenos mágicos através de cânticos; enquanto isso, os alquimistas produzem os mesmos fenômenos através da escrita. Logo, um alquimista deve arranjar os símbolos corretos na sequência correta.
— Não me diga... — Ryo ficou sem palavras.
Encontrar a sequência correta de símbolos para causar um fenômeno mágico específico exigiria uma quantidade enorme de tentativa e erro. Era uma tarefa incrivelmente assustadora se você realmente pensasse sobre isso.
Ryo nasceu e foi criado no Japão, onde uma crença no poder místico das palavras — chamada kotodama — ainda prevalecia; portanto, ele intuitivamente entendia que as palavras causavam fenômenos mágicos. Norito, orações rituais que devem ser lidas em voz alta com precisão absoluta, era um excelente exemplo. Ofuda, ou talismãs inscritos com caracteres que imbuíam os objetos de poderes, era outro.
Mas tanta tentativa e erro era outra história.
Então, algo ocorreu a Ryo.
— Posso usar sequências de caracteres que já foram descobertas? — perguntou Ryo. — Posso modificá-las?
— Sim, claro — respondeu Kenneth com um sorriso. Era exatamente a essa conclusão que ele queria que seu aluno chegasse.
Ryo podia usar qualquer sequência de caracteres que tivesse visto em um livro, em outra ferramenta alquímica, ou aquelas que Kenneth e Frank usavam. No mínimo, não havia direitos autorais sobre a alquimia! Ele se lembrava, no entanto, de Sera o repreendendo por uma de suas primeiras tentativas com um livro...
Reutilizar um programa existente e alterar as partes necessárias é uma técnica que programadores iniciantes costumam usar na Terra. Ryo já havia aprendido esse método antes... Você realmente nunca sabe o que será útil e onde, hã?
Mas nem sempre é fácil combinar as ideias e criações de pessoas diferentes... porque sempre há a chance de que elas entrem em conflito e causem defeitos. Provavelmente não seria fácil, mas, no mínimo, Ryo podia ver um pequeno raio de esperança em sua visão do futuro.
◆
No dia em que Ryo e Abel chegaram à capital real de Palácio de Cristal, Ryo foi direto para o Centro Real de Alquimia, enquanto Abel foi cumprir várias tarefas na residência do Margrave Lune na capital. Mesmo um aventureiro de rank A não estava acima desse tipo de trabalho.
Depois de completar tudo, Abel deixou a mansão e caminhou por um tempo antes de entrar no Instituto de Pesquisa Mágica do Reino, também conhecido como a Propriedade de Hilarion.
Em vez de ir direto para o escritório de Hilarion no último andar como de costume, ele se dirigiu ao subsolo, onde encontrou vários laboratórios proibidos a qualquer um, exceto Hilarion.
Ignorando as placas, Abel entrou de qualquer maneira. Enquanto estava em frente a uma sala específica, ele segurou a mão direita em frente à porta. Uma luz azul pálida apareceu e, um momento depois, a porta se abriu silenciosamente. Ele fez a mesma coisa uma vez lá dentro e, depois de passar por três portas no total, desceu uma escada e começou sua jornada por um longo corredor.
Depois de caminhar por vinte minutos, Abel chegou a uma escada em espiral. Ele subiu as escadas sem hesitar e finalmente chegou a uma porta de pedra. Ele colocou a mão sobre ela, entoou algo, e a porta se abriu.
Depois de mais cinquenta metros, ele encontrou outra porta de pedra. Abel deslizou sua espada para fora da bainha pela metade e bateu nela três vezes com o punho. Alguns momentos depois, ele ouviu três batidas do outro lado. Ele bateu mais sete vezes.
Finalmente, ele ouviu os sons da fechadura e do ferrolho se movendo do outro lado, e a porta se abriu.
Lá dentro estava o príncipe herdeiro.
— Bem-vindo, Albert — disse ele com um sorriso.
— Irmão... — Abel hesitou, sem saber o que dizer. Seu irmão mais velho parecia ainda mais abatido do que da última vez que se encontraram.
— Eu sei o que você está pensando: não vou ganhar nenhum concurso de beleza tão cedo, eh? — O sorriso do príncipe herdeiro apenas se alargou.
— Eu... não diria isso.
Mesmo sendo seu irmão, Abel não conseguia ser honesto — mas também não era do tipo que contava uma mentira inteligente.
— Ah, para com isso. Conheço meu corpo melhor do que ninguém. Francamente, duvido que dure mais um ano.
— Por que você diria isso?!
— Calma, calma, não fique tão zangado. É o que é — disse o príncipe herdeiro com um sorriso pesaroso. — Quando eu morrer, você será o primeiro na linha de sucessão ao trono. Não estou preocupado com suas habilidades marciais. Por que estaria, quando você se tornou um aventureiro de rank A por mérito próprio?
Apesar de seu rosto magro, o príncipe herdeiro parecia genuinamente feliz.
— No entanto, estou preocupado que toda essa vida de aventureiro o tenha privado de qualquer experiência com a política real.
— Justo... — Abel assentiu humildemente em concordância. Ele havia, é claro, aprendido tudo o que se esperava de um membro da família real antes de deixar o palácio aos dezoito anos. No entanto, aquele nível rudimentar de conhecimento não era suficiente no mundo real.
— Então, na próxima semana, gostaria de passar para você tudo o que enfrentei como príncipe herdeiro.
— Hã... M-Mas isso é— Uhhh...
Crescendo como o segundo príncipe, Abel havia dominado tanto as artes literárias quanto as marciais. Mas isso não significava que ele amava ambas igualmente... Desnecessário dizer, ele sempre quis se dedicar inteiramente às artes marciais, mais especificamente, à espada.
— Albert, você não deve fugir de suas responsabilidades. Este é meu último pedido como seu irmão.
Sorrindo para ele, o príncipe herdeiro se aproximou. Ele sabia por experiência que suas palavras fariam seu irmãozinho ficar.
— Tudo bem... — disse Abel, incapaz de oferecer muita resistência. — Eu entendo.
— Excelente. Eu sabia que você veria as coisas do meu jeito, e é por isso que preparei os materiais necessários. Começamos esta noite.
Assim começou a semana de estudo imersivo de Abel.
◆
No dia seguinte, Ryo continuou a lidar com o golem capturado и os materiais deixados por Frank de Velde. Apesar de suas supostas dificuldades, ele usava um sorriso o tempo todo. Na verdade, ele parecia tão feliz que poderia ter começado a cantar e dançar a qualquer momento.
Ocasionalmente, ele se aproximava de Kenneth, que estava mexendo com dados ou seus experimentos em outra parte da sala, para fazer perguntas. Seu sorriso nunca vacilava, o que sempre levava Kenneth a sorrir de volta.
Assim, outro dia pacífico passou no Centro Real de Alquimia.
— Diretor, chegaram visitantes do Colégio de Magia.
— Ah, certo, era hoje. Obrigado, Raden.
— O Colégio de Magia? — perguntou Ryo, familiarizado com a instituição. Ele também se lembrou de ter ouvido que Frank de Velde, que criara o golem artificial, havia sido transferido de lá para cá.
— Como você já sabe, magia e alquimia estão intimamente ligadas. Há um departamento de alquimia dentro do Colégio, e os visitantes de hoje são a turma do próximo ano. Devo dar a eles uma breve palestra sobre magia de fusão, então volto em breve, Ryo.
Kenneth começou a reunir os documentos de que precisaria para sua palestra, mas algo que ele disse chamou a atenção de Ryo.
— Magia de fusão... Misturar magia e alquimia... Eu gostaria de ouvir isso também... — murmurou Ryo, olhando para o golem, depois para Kenneth, e de volta para o golem. Ele estava dividido entre o interesse na palestra de seu amigo e o golem.
— Estaremos na Sala de Conferências Um, a duas salas de distância, se sentir vontade de dar uma espiada ou precisar de uma mudança de ritmo em sua pesquisa — disse Kenneth com uma risada. Então ele saiu.
Ryo ouviu vozes e passos no corredor do lado de fora. Quando ele olhou pela janela de vidro, viu um homem de meia-idade, bem constituído, com mais de 180 centímetros de altura, liderando o grupo de estudantes do Colégio de Magia. Ele provavelmente era um mago, mas Ryo achou que sua constituição o teria tornado um lanceiro melhor. O cajado fino que ele carregava, aproximadamente da mesma altura que ele, apenas aumentava essa impressão.
Ryo sentiu que já tinha visto o homem antes, mas não conseguia se lembrar exatamente onde. No entanto, outra pessoa chamou sua atenção.
— Espere aí. Por que ele está no Colégio de Magia?
A maioria dos quarenta estudantes que seguiam o acompanhante parecia ter cerca de vinte anos — exceto o último, que parecia jovem. Muito jovem. Cerca de quinze anos, na verdade. E se a memória de Ryo não o enganava, ele tinha quinze ou dezesseis anos se seu aniversário já tivesse passado. Ryo sabia com certeza que este estudante deveria estar no Instituto Real de Ensino Superior, não no Colégio de Magia — porque ele era, afinal, o pupilo de Ryo: o Príncipe Willie.
Perplexo, Ryo inclinou a cabeça enquanto o grupo passava.
— Talvez ele tenha pulado uma série ou algo assim? — ele se perguntou.
Era possível. Willie, o oitavo príncipe da Monarquia de Joux, era um trabalhador extremamente dedicado. Apesar das tentativas de Ryo de impedi-lo de exagerar, o garoto praticava magia todos os dias até o ponto de exaustão total. Então, se ele estava indo bem em seus estudos em geral, era totalmente possível que ele tivesse se formado cedo no Instituto Real, o equivalente do ensino médio do Reino, e entrado na universidade.
Ryo olhou para o golem. Depois de um momento, ele disse: — Já que você não vai a lugar nenhum e estou um pouco curioso, vou dar uma olhada.
Com isso, ele saiu da sala.
◆
— Barão Hayward, obrigado por dedicar seu tempo precioso para se encontrar conosco.
— Não há de quê, Professor Blatt. É natural que o Centro Real de Alquimia contribua para o desenvolvimento da magia e da alquimia.
Christopher Blatt era o professor titular do Colégio de Magia e quase certamente se tornaria seu próximo reitor. Ele já havia ido a Lune como parte da equipe que investigava a masmorra, então Ryo provavelmente se lembrava de tê-lo visto então.
Uma porta no fundo da sala se abriu silenciosamente, e um homem de manto entrou furtivamente. Ele se sentou em um assento no fundo.
Kenneth e o Professor Blatt o notaram. O primeiro apenas sorriu. Enquanto isso, o último inclinou a cabeça, mas não disse nada. Ele percebeu imediatamente que este jovem não era um de seus alunos... Talvez ele tenha assumido que era um alquimista que acabara de se juntar ao Centro ou um funcionário em treinamento.
Duas horas depois, Kenneth concluiu sua palestra. Vários estudantes se aproximaram com perguntas, e ele as respondeu com cuidado e clareza. Até mesmo Ryo, sentado bem no fundo, assentia, sua atitude estranhamente presunçosa por algum motivo.
Percebendo Ryo, outra pessoa se aproximou do mago da água.
Ryo se perguntou se seus olhos o haviam enganado, mas descobriu que não.
— Mestre Ryo! — exclamou o Príncipe Willie em surpresa.
— Há quanto tempo, Alteza — respondeu Ryo, feliz.
Willie viera para a capital do Reino como refém, embora oficialmente fosse um estudante. Ryo aceitara uma missão para escoltar o príncipe em segurança até Knightley, mas eles encontraram vários problemas pelo caminho.
O Príncipe Willie fora alvo da Seita dos Assassinos. Após uma série de eventos, Ryo congelou a aldeia da organização e a destruiu, embora não antes de seu líder, “Hassan”, ter tentado recrutá-lo. No final, seu subordinado traiu Hassan, que passou seu caderno de alquimia para Ryo antes de morrer.
De certa forma, Ryo e o Príncipe Willie eram companheiros de armas que haviam sobrevivido a inúmeros perigos juntos. O garoto tinha aptidão para a magia da água e, durante a viagem, Ryo fez o seu melhor para ensiná-lo a usá-la. Talvez por ser um indivíduo sincero que não se importava em se esforçar, Willie se jogou em seu treinamento de magia da água, e seu progresso surpreendeu até mesmo Ryo.
— Você não deveria estar em Lune, Mestre Ryo?
— Estou aqui na capital a trabalho. E você não deveria estar no Instituto Real de Ensino Superior, Alteza?
— É verdade. Você tem uma ótima memória.
— Heh heh heh. Bem, o arco escolar é um clássico por um motivo.
— Como disse? — O Príncipe Willie inclinou a cabeça em confusão, obviamente sem saber do tropo de arco escolar de light novel em que Ryo pensara enquanto se perdia em suas fantasias.
— A verdade é que não acabei frequentando o Instituto Real.
— Hã?
— Bem, os filhos da aristocracia não saíram ilesos da recente agitação na capital.
— Certo, claro. Como eu poderia esquecer...
— Mesmo entre os que sobreviveram, muitos voltaram para seus territórios. Ninguém sabe quando o Instituto Real reabrirá também.
— Agora entendo.
Pelo que Ryo entendeu, o Instituto Real de Ensino Superior era uma escola para os filhos de nobres. O incidente com monstros no Palácio de Cristal era comumente referido como “O Caos na Capital”. Seu epicentro fora na parte norte da cidade, onde grande parte da nobreza vivia, causando danos consideráveis à elite de Knightley. Naturalmente, isso colocou uma escola para os filhos dessas pessoas em uma situação difícil...
Os aristocratas podiam contratar tutores particulares em vez de enviar seus filhos para a escola se estivessem preocupados apenas com o aspecto acadêmico. Simplificando, eles frequentavam a escola e viviam juntos principalmente para construir conexões. Quanto mais alta a classe, mais pronunciado esse fenômeno se tornava; ele transcende eras e mundos.
— No entanto, como estou aqui para estudar como estudante de intercâmbio, devo ir à escola. Então comecei a frequentar o Instituto Real de Ensino Normal, onde o status social não importa.
— Esse é certamente um nome impressionante...
Ryo sentiu uma mistura de surpresa e espanto. Por outro lado, havia escolas com trilhas “regulares” e de “educação geral” em sua vida no Japão na Terra, então talvez não fosse tão estranho. Ele não se deu ao trabalho de pensar mais sobre isso.
— Infelizmente, eu já tinha aprendido tudo no currículo da escola lá em Joux... — O Príncipe Willie parecia um pouco triste.
— Acho que a escola fez jus ao nome, então... — disse Ryo com um aceno de cabeça.
— Então o Professor Blatt me convidou para o Colégio de Magia, enquanto permaneço matriculado no Instituto de Ensino Normal.
Willie olhou para o homem de meia-idade na frente da sala de aula.
— Aha! Aquele Professor Blatt!
Nesse ponto, Ryo finalmente se lembrou de que havia visto o homem em Lune quando foi resgatar Abel e os outros.
— Você o conhece, Mestre Ryo?
— Ah, apenas de vista — disse Ryo. Ele achou que deveria dar uma resposta evasiva, já que só tinha visto o homem brevemente naquela época e presumiu que ele era um membro importante da equipe de pesquisa.
O professor caminhou até os dois.
— Você é o aventureiro de Lune — disse ele. — Ryo, não é? Eu não sabia que você e o Príncipe Willie se conheciam.
— Espere, o quê? Você sabe quem eu sou? — respondeu Ryo, chocado. Ele tinha certeza de que nunca haviam sido formalmente apresentados.
— Sim, claro. Depois daquele incidente na masmorra, Arthur e eu tivemos uma longa conversa.
— Ah, certo, Arthur.
Arthur, conselheiro do Bureau de Magos Reais, era uma das pessoas que Ryo havia resgatado. O homem idoso fora muito grato por sua ajuda.
— E agora te encontro aqui no Centro Real de Alquimia. Você certamente tem uma vasta gama de interesses, hm?
— Bem, hum, Kenneth e eu somos bons amigos...
Por uma fração de segundo, Ryo sentiu a aura do Professor Blatt ficar tensa. Foi tão sutil que qualquer outra pessoa teria descartado como um truque da imaginação. Se Abel tivesse lhe dito isso, Ryo teria acreditado nele sem pensar duas vezes... Tão sutil foi.
Naquele momento, um estudante se aproximou e puxou Christopher. — Professor, sobre os planos para esta tarde...
— Ele parece meio aterrorizante — disse Ryo.
O Príncipe Willie assentiu. — Ele pode ser, ocasionalmente. Ele com certeza será o próximo reitor do Colégio de Magia, dada sua influência incomparável dentro da escola. Imagino que haja outros fatores em jogo também. Afinal, não se pode chegar ao topo de uma organização tão grande simplesmente sendo bom no que faz.
Ryo inclinou a cabeça. — Devo dizer, essa é uma linha de pensamento muito madura para um garoto de quinze anos, Alteza.
O Príncipe Willie pareceu envergonhado. — Suponho que ser da realeza me expôs a uma boa parte do mundo.
A vida era complicada para todos.
Em pouco tempo, o Príncipe Willie se despediu e saiu com amigos que o haviam convidado para jantar a caminho do Colégio de Magia. Embora o garoto estivesse muito arrependido, Ryo o despediu com um sorriso.
— Ouvi dizer que pular séries dificulta a construção de amizades, mas ele parece estar se saindo muito bem — Ryo murmurou, assentindo vigorosamente.
Isso deixou Ryo sozinho, mas não havia necessidade de se preocupar. Kenneth o convidara para jantar com ele!
— Ryo, você está livre para comer no refeitório enquanto estiver aqui.
— Vocês têm um aqui?
Kenneth o levou a um impressionante salão de jantar. O cardápio era extenso, tanto que Ryo poderia comer lá todos os dias por um mês e nunca se cansar.
— Kenneth — disse Ryo, semicerrando os olhos para o cardápio — não vejo nenhum preço.
O cardápio exibia cada item, mas não especificava o custo. Talvez tudo custasse mil florins?
— Ah, é tudo de graça — respondeu Kenneth.
— O quê?
— Este refeitório está disponível apenas para quem trabalha no Centro, e é totalmente coberto pelo nosso orçamento. Você é uma exceção especial, Ryo. — Kenneth riu.
— Não pode ser... Estou sonhando?
Lágrimas brotaram nos olhos de Ryo enquanto ele era dominado por uma enorme onda de gratidão por quem quer que administrasse o orçamento do refeitório do Centro...
Os dois fizeram sua refeição. Ryo escolheu o conjunto de hambúrguer. De sua perspectiva, deveria ser um conjunto de bife de Hamburgo.
— O prato só recentemente se tornou popular na capital, mas aparentemente existe há bastante tempo na parte leste do Reino. Ah, isso me lembra. As pessoas no leste o chamam de ‘bife de Hamburgo’ como você, Ryo. Aqui no Palácio de Cristal, nós o chamamos de ‘hambúrguer’.
Ryo ouvia enquanto saboreava sua refeição. Ele não poderia estar mais encantado que este refeitório servisse pratos da moda!
— O Rei Richard, o primeiro chefe do Centro, costumava dizer que uma boa refeição aguça a mente. Ele é a razão pela qual este refeitório é gratuito.
— Todos saúdem o rei! Claramente, ele entendeu a verdadeira essência da inspiração!
Richard foi um governante sábio e corajoso, dito ter revivido o Reino. Ryo fez uma careta, suspeitando que o homem muito bem poderia ter sido um reencarnado como ele. Independentemente disso, ele achou maravilhoso que o rei entendesse a importância da comida.
Ryo era um grande crente na filosofia de Ouyang Xiu da Supremacia dos Três quando se tratava de inspiração, que afirmava que boas ideias vinham a cavalo, na cama ou no banheiro. Como alguém que cresceu japonês, Ryo também sabia que a inspiração podia surgir ao tomar um banho. Em outras palavras, havia instâncias além da Supremacia dos Três que eram terrenos férteis para a inovação, e Ryo considerava a hora da refeição uma delas.
— De qualquer forma, comida deliciosa é justiça — insistiu Ryo, e Kenneth concordou com um sorriso.
Certamente ninguém negaria isso!
Então Kenneth franziu um pouco a testa. — O orçamento do Centro tem sido incrivelmente generoso desde a época do Rei Richard. Isso não mudou mesmo agora que está sob a jurisdição do Ministério de Assuntos Internos. No entanto...
— No entanto?
— O orçamento para projetos especiais, como aqueles relacionados ao Vedra e aos golens de Frank, permaneceu congelado.
— Talvez seja por isso que ele desertou para a Federação...
— Sim, acredito que isso seja um fator enorme. Frank dedicou sua vida inteira à criação de golens artificiais. Embora fosse um conde por nascimento, ele estava insatisfeito com a vida no Reino. Bem... mais especificamente, com seu governo. — Kenneth balançou a cabeça com uma careta. Deve ter sido muito desagradável saber que alguém que ele admirava como mentor e amigo, alguém com quem trabalhara em pesquisas, sentira que não tinha outra escolha a não ser desertar.
— Sei que este é um assunto complicado, mas... não acho que inimigos devam ser inimigos para sempre — observou Ryo. — Até mesmo nações hostis fazem as pazes, então talvez o Reino e a Federação se reconciliem, e você possa ver Frank novamente.
— É um bom ponto... Nada me faria mais feliz. — Kenneth sorriu com as palavras de Ryo.
A Federação, juntamente com o Império, era inimiga do Reino, e as circunstâncias geopolíticas atuais significavam que esse status dificilmente mudaria em breve. Então, falando francamente, ninguém sabia se eles seriam capazes de pesquisar alquimia juntos, mas algum tipo de intercâmbio era certamente possível.
— A vida é tão complicada, hm? Se ao menos pudéssemos nos concentrar apenas na pesquisa. — lamentou Ryo, embora ele mesmo не fosse um estudioso.
Kenneth sorriu ironicamente para ele. — Falando em se concentrar apenas na pesquisa... Ryo, você sabia que eu moro aqui?
— O quê?
◆
Após o jantar, Kenneth levou Ryo para seus aposentos particulares. Não era um quarto de soneca, mas um espaço adequado para seu uso exclusivo com uma sala de estar e um quarto.
— Então você dorme aqui e conduz pesquisas no prédio ao lado?
— Sim, claro. Todos os alquimistas aqui têm seus próprios quartos, o que nos permite voltar ao nosso trabalho sempre que quisermos.
A explicação de Kenneth surpreendeu Ryo, mas então ele se concentrou em sua escolha de palavras. Ele não disse “ir para o trabalho”, ele disse “voltar ao nosso trabalho”, o que implicava que a pesquisa era seu padrão, sua linha de base — seu modo normal de ser. Todo o resto, como dormir, descansar e provavelmente até comer, era suplementar. Assim eram os estudiosos.
— O Centro Real de Alquimia foi construído inteiramente com os pesquisadores em mente, não foi? — perguntou Ryo, com admiração na voz.
— Palavras mais verdadeiras nunca foram ditas — disse Kenneth com um aceno feliz. — A propósito, seu quarto de hóspedes está pronto, Ryo. Enquanto estiver em residência estudando os golens, você pode dormir lá em vez do quarto de soneca de ontem.
— Isso é real, certo? Alguém me belisque.
E foi assim que a semana de alquimia de Ryo passou — como um sonho.
◆
E depois havia Abel...
— Tudo bem, acredito que é hora de um breve descanso — disse o príncipe herdeiro.
Abel imediatamente desabou com o rosto sobre a mesa.
O príncipe herdeiro sorriu de sua cama. — Albert, apesar de sua alardeada reserva de estamina, você parece bem cansado.
— Eu estou bem cansado, irmão... — respondeu Albert, também conhecido como Abel, ainda com o rosto na mesa, meio morto.
— A propósito, não pude colocar isso no papel, mas há algumas coisas que quero que você tenha em mente.
— Que coisas?
Informação tão poderosa que nem mesmo o príncipe herdeiro poderia escrevê-la... Devia ser altamente confidencial.
— O Império e o Reino em breve entrarão em guerra.
Abel ficou tão surpreso que só conseguiu emitir um pequeno e tolo “Hã?”.
— Embora haja pequenas escaramuças a cada poucos anos, temo que desta vez não termine aí. E mais, o Reino pode muito bem perder, e feio.
— Não... O quê... — Abel murmurou, quase sem palavras.
— Os Cavaleiros Reais sofreram perdas tremendas na agitação da capital. Eles têm se reconstruído com bastante rapidez, graças em grande parte aos jovens que sobreviveram, mas Knightley como um todo carece de mão de obra para enfrentar o Império.
— Bem, se formos forçados a lutar, os nobres do norte do Reino não se levantarão?
— Talvez... No entanto, a verdade é que não se pode confiar neles.
— Você não pode estar falando sério...
— De qualquer forma, duvido que aconteça imediatamente. Pode acontecer em vários meses ou até mesmo um ano, talvez mais. Mas quero que você se lembre que esta é uma possibilidade real. Se você ascender ao trono, deve reunir informações, analisá-las, traçar todas as trajetórias futuras possíveis e tomar o curso de ação mais apropriado. Mantenha isso em mente. Não resolva apenas os problemas que está enfrentando agora.
— Eu irei... — murmurou Abel.
Seu silêncio chocado era de se esperar. Afinal, as palavras do príncipe herdeiro estavam repletas de uma mensagem surpreendentemente pesada. Abel só ascenderia ao trono se o rei e o príncipe herdeiro, seu pai e irmão mais velho, ambos morressem, o que significava que seu irmão devia ter considerado a morte deles uma conclusão inevitável.
— Já tomei medidas e continuarei a fazê-lo, mas, francamente... é difícil reverter a situação.
— Irmão...
— Ah, certo, isso me lembra. Não tenho nenhuma evidência concreta, apenas circunstancial, mas gostaria que você ficasse de olho no Ministério de Assuntos Internos.
— Aquele chefiado por Harold Lawrence? Você suspeita dele?
— Dele ou de alguém próximo a ele... ainda não sei.
Abel ouvira dizer que o conde era um homem astuto. Quando investigara anteriormente o círculo de conselheiros do Rei, não descobrira nenhum boato ruim sobre ele. Mas se o príncipe herdeiro parecia inequívoco, ele devia ter alguma prova sólida.
Então Abel se lembrou de algo de repente.
— Quando você reprimiu a Gongorad & Cia. e mobilizou Emmanuel e o resto da Segunda Guarda Real, foi porque não confiava na Guarda da Capital, já que eles estão sob a jurisdição de Lawrence?
— Ahhh, isso de fato aconteceu. Hm... Emmanuel me disse que você e um mago estavam lá. Você está certo. Gongorad tem conexões tanto com a Federação quanto com o Império. Todos os sinais apontavam para o Império fazendo propostas ao Ministério de Assuntos Internos, então eu despachei a Segunda.
— O Império...
Naquele momento, um pensamento desagradável passou pela mente de Abel. — Odeio até dizer isso, mas... o que quer que esteja consumindo o corpo do Pai — de Sua Majestade — você acha que foi obra do Império, através de Lawrence ou de um de seus homens?
— É uma possibilidade bem real — confirmou o príncipe herdeiro, mas então ele balançou a cabeça gentilmente. — Infelizmente, eu simplesmente não tenho tempo para reunir provas.
— Irmão...
— O estado de direito existe em nosso reino, e tanto plebeus quanto a realeza devem segui-lo. É precisamente por isso que o momento em que adiamos a ação também pode se tornar o momento em que asseguramos nossa própria derrota.
Abel permaneceu em silêncio.
— Quando você se tornar rei, quero que melhore nossas leis inadequadas para se adequarem melhor aos problemas do mundo real. Adapte-as aos tempos. — O príncipe herdeiro sorriu para ele.
Franzindo a testa, Abel curvou a cabeça em aquiescência. — Vou tentar o meu melhor.
— Certo, então. O intervalo acabou. Vamos continuar.
— Ok.
E foi assim que a semana de estudos de Abel passou.
◆
Na véspera da partida da delegação, um espadachim estava em frente ao Centro Real de Alquimia, com as pernas trêmulas.
— Olá, tem alguém aí? — perguntou ele com uma voz tão fraca que ninguém poderia tê-lo ouvido.
No entanto, naquela noite, um mago da água esperando perto da porta conseguiu captar o chamado fraco.
— Abel, como você pôde se atrasar quando foi você quem me disse que me buscaria? Eu estava pensando em ir para a mansão do margrave por conta própria.
— Uh, sim... desculpe. Minhas aulas demoraram mais do que o esperado...
Abel carregava uma bolsa bem grande. Ryo também havia trocado por uma mais nova e maior do que a que chegara à capital.
— Abel, essa é uma bolsa bem grande.
— Digo o mesmo para você, amigo.
Ambos olharam para as bolsas um do outro e riram, Abel com uma risada seca e Ryo com uma gargalhada deliciada. A diferença provavelmente tinha algo a ver com o conteúdo de suas bolsas.
Depois de deixar o palácio, Abel foi para o Centro pelo Instituto de Pesquisa Mágica. Ele se encontrou com Ryo, e os dois caminharam para a mansão do Margrave Lune. Exausto, ele foi direto para a cama. Ryo tomou um banho demorado e deu uma olhada rápida nos documentos em sua bolsa antes de adormecer. Todos são iguais na terra dos sonhos. Os dois desfrutaram de seus mundos pacíficos...
Após uma semana de palestras intensivas do príncipe herdeiro, Abel acordou na manhã seguinte sentindo-se ele mesmo novamente, rejuvenescido por uma boa noite de sono. Ele não era um aventureiro de rank A à toa. Sua velocidade de recuperação estava quase nos limites da capacidade humana.
Ryo também acordou revigorado e comeu um farto café da manhã preparado pelo chef da residência do margrave na capital. Eles estavam prestes a embarcar em uma longa jornada — para um país estrangeiro, nada menos. Como um aventureiro nunca sabia o que poderia acontecer, eles tinham que comer sempre que tivessem a chance. Apesar de sua tendência de se isolar em casa, em situações como esta, Ryo era de verdade.
Uma carruagem os esperava do lado de fora. Havia sido arranjada porque eles eram tecnicamente convidados nesta viagem, não funcionários ou subordinados.
Quando chegaram à carruagem, encontraram alguns rostos familiares.
— Zach? Scotty, você também? Vocês fazem parte da delegação?
Zach Kuhler e Scotty Cobouc eram companheiros de Abel na organização de bebedeira, a Aliança dos Segundos Filhos. Eles eram baseados na capital real e faziam parte da Ordem Real dos Cavaleiros.
— Sim, estamos servindo como líderes de esquadrão — respondeu Zach.
— Muita gente queria participar, então vencemos uma competição bem acirrada — respondeu Scotty.
Ambos os homens riram, mas então Zach congelou, os olhos fixos em Ryo.
— V-Você é aquele mago... de antes...
Ele estava, é claro, se referindo ao encontro deles no Enclave dos elfos durante o Caos da Capital. Ryo aparecera depois que Sera derrotou o arquidemônio e usou seu Jato d'Água para decapitar os outros demônios enquanto segurava Sera, a mulher que Zach admirava, em seus braços.
Sinais de medo e hostilidade espreitavam nos olhos de Zach.
Embora não se lembrasse de ter conhecido Zach, Ryo não pôde deixar de notar o rancor no olhar do outro homem. Sentindo a tensão, ele se inclinou para Abel. — Eu fiz algo a ele? — sussurrou.
Naturalmente, Abel sabia de toda a história, mas, com suor frio escorrendo pelas costas, Abel decidiu desviar.
— Uhhh... Quem sabe? — Abel deu de ombros. — Não faço ideia do que está acontecendo, mas não acho que você precise se preocupar.
Scotty, ao lado de Zach, balançou a cabeça com um olhar de resignação. Sua atitude deixara claro desde o início que ele não tinha intenção de interferir.
No final, Ryo entrou na carruagem, a cabeça inclinada em confusão.
Naquele dia, uma delegação de oitenta e duas pessoas partiu da capital real. Incluía vinte funcionários públicos do Ministério das Relações Exteriores, incluindo um emissário de alto escalão, dois aventureiros de rank A, vinte cavaleiros, vinte escudeiros e vinte aventureiros de rank C como escolta.