The Water Magician

Volume 6 - Capítulo 1

The Water Magician

Uma carruagem com o brasão da guilda de aventureiros, consistindo de uma espada e um cajado cruzados em frente a um escudo, parou em frente à guilda de aventureiros de Lune. Um homem robusto de aproximadamente 1,80 metro de altura desembarcou. Tanto seu cabelo quanto sua barba eram brancos e compridos, e ele carregava um cajado mais alto que ele — o que significava que provavelmente era um mago.

Mas o mais distinto nele não era sua aparência; era sua presença intimidadora. Quando ele abriu a porta e entrou na guilda, a atmosfera mudou, embora a maioria dos aventureiros e funcionários lá dentro não tivesse ideia de quem ele era. Eles simplesmente não podiam ignorar a ameaça anormal que o homem exalava.

Ignorando os olhares, ele se dirigiu ao balcão principal. Atrás dele estava sentada Nina, uma das recepcionistas da guilda. Ela se levantou assim que ele entrou, porque sabia quem ele era.

Nina curvou-se profundamente. — Bem-vindo, Grão-Mestre.

Apesar de não ser particularmente alta, sua voz alcançou os ouvidos de todos. No entanto, eles permaneceram relativamente quietos, e apenas um suave murmúrio de excitação se espalhou pelo saguão da guilda. Eles queriam exclamar de surpresa, mas se contiveram.

— Leve-me ao Mestre McGlass — disse o Grão-Mestre, sua voz ressoando.

— Certamente — respondeu ela, guiando-o para o espaço além do saguão.

Somente depois que os dois desapareceram nos fundos é que o barulho da conversa voltou à guilda.


— Grão-Mestre...

— Mestre McGlass. Peço desculpas pela visita repentina.

— De forma alguma. Por favor, sente-se. — Hugh gesticulou sem jeito para o assento na cabeceira da mesa na sala de visitas. Como o outro homem o superava em patente, Hugh esperou até que o Grão-Mestre se sentasse antes de ocupar seu próprio lugar.

— Elsie voltou de Twilightland — disse o Grão-Mestre Finley em seguida. — A viagem dela parece ter sido proveitosa, considerando que agora ela está enfurnada em seu laboratório.

Elsie era filha de Finley Forsyth, e a mulher que um dia se dizia que se casaria com Hugh.

— Ela não era membro do Departamento de Magos Reais? Foi transferida temporariamente pra Faculdade de Magia, se bem me lembro. Uma jovem e tanto, senhor — respondeu Hugh, lutando para controlar suas emoções. Suor frio escorria por suas costas.

— Não vou negar isso. No entanto, como pai dela, sei que ela só tem se dedicado ao trabalho para amenizar a dor de seu coração partido.

— Gah.

Fora Hugh quem recusara a proposta dela. Por algum motivo, Elsie, uma bela jovem famosa em toda a capital real, estava perdidamente apaixonada por ele. Até seu pai, Finley, ficara incrivelmente entusiasmado com o casamento.

E então, três anos atrás, Hugh a rejeitou, deixando-a com nada além de um coração partido.

— Não, não, não o culpo por sua decisão — disse Finley. — Se ela encontrar alguém com quem deseje se casar no futuro, poderá pensar nisso então. Os dias em que as mulheres precisavam se casar pelo bem de suas famílias acabaram, há muito tempo. O nome Forsyth não deve ser passado para as gerações futuras a qualquer custo.

O Grão-Mestre Finley Forsyth era um aristocrata de estirpe — um conde, para ser exato. Embora fosse certamente possível para Elsie, sua única filha, herdar o título e se tornar uma condessa, ela não queria isso. Ninguém sabia por quê, e Finley não estava especialmente preocupado com sua lógica. Tendo perdido a esposa cedo, ele basicamente criou Elsie sozinho, o que explicava por que queria deixá-la decidir seu próprio futuro. Naturalmente, isso incluía sua escolha de cônjuge.

— De qualquer forma, estou aqui porque a guilda de Lune é a única em que posso confiar.

— Isso é algo que não pode ser discutido pela linha de comunicação?

Em seu escritório, Hugh mantinha um dispositivo alquímico que lhe permitia comunicar-se com o palácio e a guilda de aventureiros da capital real. Esse canal — que ele chamava de "linha de comunicação" — não era completamente seguro.

— Correto. A verdade é que o grupo de rank A, Cinco Dragões, desapareceu.

O quê?


Abel havia sido recentemente promovido a rank A. Como o rank de um grupo era determinado pelo nível de seu membro mais experiente, a Espada Carmesim ascendeu ao rank A, embora Warren, Rihya e Lyn permanecessem no rank B.

No entanto, todos os cinco membros do outro grupo de rank A do Reino, os Cinco Dragões, eram de rank A. Este fato demonstrava as habilidades extraordinárias de cada indivíduo e atestava a extensão de seu histórico. Quatro dos cinco estavam na casa dos trinta e poucos anos, e apenas o sacerdote estava perto dos quarenta. O grupo estava no auge em todos os sentidos da palavra — e, no entanto, havia desaparecido.

— Temos certeza que eles sumiram? Desculpe o que vou dizer, mas o líder deles tem fama de ser... descuidado.

Finley franziu a testa, assentindo. — É verdade. San pode certamente ser bastante relaxado, para dizer o mínimo, quando se trata de pontualidade e coisas do tipo. Mas a responsabilidade de Henning mantinha o grupo, como um todo, longe de problemas. No entanto, não houve notícias deles, e isso nunca aconteceu antes.

San era o espadachim e líder do grupo, enquanto Henning era seu sacerdote.

Finley suspirou profundamente. — O desaparecimento deles se conecta a algo que Elsie me contou — continuou ele. — Durante sua viagem de pesquisa a Twilightland, ela estabeleceu conexões com figuras influentes que negociaram com funcionários do governo. Eles intermediaram um acordo onde a Faculdade de Magia do Reino poderia enviar estudantes de intercâmbio, o que levou a conversas sobre o envio de uma delegação oficial e o eventual estabelecimento de uma embaixada.

— Twilightland... — Hugh recordou o formato de Knightley e seus países vizinhos. — Não é aquele país relativamente novo a sudoeste?

— Exato. Embora compartilhe uma fronteira conosco, tem sido extremamente fechado. Ao longo dos anos, inúmeras tentativas de estabelecer uma embaixada foram feitas, sem sucesso. Ainda assim, mercadores viajam de um lado para o outro em grande número, e aventureiros de Twilightland visitam o Reino com frequência. O problema tem sido a falta quase total de interação entre os governos.

— Deixa eu ver se entendi... Os Cinco Dragões deveriam fazer parte da delegação oficial?

— Sim. Henning teria garantido que o grupo chegasse a tempo, e é exatamente por isso que o fato de não terem aparecido é tão estranho. — Fazendo uma careta, Finley finalmente tomou um gole de seu chá intocado, que a essa altura já estava frio. — O problema está no destino do grupo: o território do Conde Goater.

— Isso fica no norte do Reino, na fronteira com o Império. — A carranca de Hugh igualou a de Finley. — O que significa que existe a possibilidade de Debuhi estar envolvido no desaparecimento dos Cinco Dragões.

— Não podemos descartar essa possibilidade.

Um aventureiro de rank A possuía proezas de combate verdadeiramente extraordinárias, o que significava que superavam monstros e pessoas comuns. Aventureiros de rank A eram os melhores dos melhores, então como poderiam ter simplesmente desaparecido?

— Se alguém como Oscar Luska, o Mago do Inferno, estivesse envolvido...

— Então seria uma baita dor de cabeça, eh?

Boatos diziam que ele havia queimado mil soldados de Knightley vivos, despedaçado uma serpe com um único golpe e apagado uma cidade inteira sob controle rebelde com um ataque. Mesmo para um grupo de rank A como os Cinco Dragões, a vitória sobre alguém com tal reputação não era garantida.

— Então você está aqui hoje porque—

— Correto. Agora que atingiu o status de rank A, quero que a Espada Carmesim procure pelos desaparecidos Cinco Dragões.



Quando o Grão-Mestre Finley Forsyth fez seu pedido, o rosto de Hugh se contorceu em aflição.

— Sua expressão me diz que você acha isso difícil de aceitar — comentou Finley.

— Sim, pra dizer a verdade... — Em vez de elaborar, Hugh ponderou por um tempo. — Acho que está na hora de eu lhe contar a verdadeira identidade de Abel.

— O que você quer dizer?

Essa frase não era normalmente usada sobre aventureiros ou suas circunstâncias.

— Bem, o nome verdadeiro dele é Albert Besford Knightley. Ele é o segundo filho do rei.

Em resposta, Finley só conseguiu soltar um grunhido surpreso. A total falta de notícias sobre o segundo príncipe apenas alimentou os rumores de que ele estava treinando com os cavaleiros de algum lorde poderoso. Ninguém poderia imaginar que ele não apenas se tornara um aventureiro, mas havia alcançado o rank A...

O potencial de um aventureiro para subir nos ranks não estava relacionado ao seu status social ou origem. Embora sua personalidade e julgamento fossem às vezes avaliados, seu rank era quase inteiramente determinado por sua contribuição para a guilda a que pertenciam, os detalhes e o número total de trabalhos que haviam aceitado e sua taxa de sucesso geral.

Isso significava que até mesmo o Grão-Mestre desconhecia as origens de Abel, embora o espadachim tivesse se tornado um aventureiro de rank A. De certa forma, isso provava que o processo de seleção da guilda de aventureiros era provavelmente justo.

A carranca de Finley se aprofundou. — Eu gostaria que você tivesse me contado antes, dada a minha posição.

— Desculpe, meu senhor. — Hugh coçou a cabeça. Claro, não era culpa dele; ele apenas seguira o protocolo. Infelizmente, esses protocolos não foram projetados para levar em conta um príncipe sendo promovido a aventureiro de rank A... No entanto, Hugh podia entender a reação de Finley.

O Grão-Mestre suspirou suavemente. — Isso muda tudo. Obviamente, não podemos enviar Abel para as fronteiras do Império para procurar os Cinco Dragões.

O príncipe herdeiro do Reino de Knightley era imensamente popular tanto no palácio quanto entre o povo — possivelmente por causa das políticas que ele implementara, ou talvez por sua personalidade luminosa e intuição aguçada. Muitos pensavam que ele estaria entre os melhores reis da nação — supondo que ele realmente ascendesse ao trono.

— Ouvi dizer que Sua Alteza não tem se sentido bem ultimamente — murmurou Finley, tristemente.

O príncipe herdeiro sempre fora doentio. Como ele e seu irmão mais novo se davam tão bem, as pessoas previam que ele assumiria as responsabilidades políticas enquanto o segundo príncipe lideraria o exército. Essa era outra razão pela qual as pessoas suspeitavam que Albert provavelmente estava ganhando experiência com as várias ordens de cavalaria.

Ultimamente, no entanto, a saúde do príncipe herdeiro começara a se deteriorar significativamente. Se algo acontecesse, isso deixaria o Príncipe Albert como herdeiro do trono.

Naturalmente, Hugh e Finley chegaram à mesma conclusão: dada a situação, teria sido uma péssima ideia enviar o segundo príncipe, agora conhecido como o aventureiro Abel, para o perigo.

— Teremos que encarregar outros da busca pelos Cinco Dragões, então. Priorize o recrutamento de ranks C, mas misture um bom número de ranks B também. Já que a Espada Carmesim não é mais uma opção, que tal a Brigada Branca?

— Ótima ideia. Assim como seu pai, Phelps tem uma extensa rede de inteligência, então ele pode ser o homem perfeito para esse tipo de investigação.

Phelps A. Heinlein, líder da Brigada Branca, era um aventureiro de rank B baseado em Lune. Seu pai, o Marquês Alexis Heinlein, era um grande nobre com fama de ter a mais poderosa e difundida rede de inteligência não apenas no Reino, mas em todas as Províncias Centrais. Phelps herdara claramente a facilidade de seu pai para a espionagem organizada.

— Agora devemos considerar a questão da delegação oficial — disse o Grão-Mestre. — O Ministério das Relações Exteriores nos aconselhou fortemente a apresentar uma lista de aventureiros de rank A.

— Ah, acho que entendi onde quer chegar. — Hugh deu de ombros. — Não há muito que possamos fazer sobre isso com os Cinco Dragões desaparecidos em ação.

— Exatamente. Então, em seu lugar, por que não enviamos a Espada Carmesim para Twilightland?

— Hm, seria mais seguro que a fronteira que compartilhamos com o Império.

— De fato. O governo pode não ter nenhum contato oficial com eles, mas mercadores e civis têm — então por que não enviar a Espada Carmesim?

— Tem razão. Não acho que haveria problemas com isso. — Hugh assentiu.

Era uma missão muito menos perigosa para o segundo príncipe do que procurar por um grupo de rank A desaparecido perto da fronteira imperial.

— Excelente. Então precisaremos de um espadachim e um mago para se juntarem à delegação. Se me lembro bem, seriam Abel e... Lyn, certo? A delegação partirá em dez dias, então despache esses dois para a capital real até lá.

Hugh franziu a testa.

— O que foi agora? — perguntou Finley, surpreso por ter encontrado resistência também nesse ponto. — Diga-me sem rodeios.

A Espada Carmesim tinha acabado de se tornar um grupo de rank A, mas já estava criando tantos problemas.

— Bem... A culpa não é deles... Veja bem, Lorde Hilarion está aqui investigando cacodemônios e vampiros. Lyn está trabalhando como sua assistente, e eles deveriam ir juntos para a vila de Kona...

— Ah... — Finley cobriu o rosto com a mão esquerda. — Lorde Hilarion...

Hilarion Baraha era o mago real chefe e, portanto, o homem no topo da hierarquia mágica do Reino. Quando se tratava de assuntos de magia, ninguém conseguia fazê-lo mudar de ideia — nem mesmo o rei. Como Grão-Mestre das guildas de aventureiros de Knightley e um mago, Finley entendeu o problema antes mesmo de Hugh terminar de falar.

— Lyn não pode se juntar à delegação — disse ele com um suspiro alto. — Talvez você conheça alguém de nível semelhante? Não, claro que não. O que estou dizendo? Se conhecesse, não estaríamos lutando para preencher a lista.

— Não é a mais pura verdade...

Seus suspiros ecoaram pelo escritório. Era raro ver homens de seu calibre tão desanimados, mas isso apenas mostrava o tamanho do problema em que se encontravam...



Após vinte segundos de silêncio, Hugh se decidiu.

Existe um mago que acabou de se tornar rank C — disse ele —, mas ele não é menos impressionante que Abel.

— Oh? Ele deve servir, então — cantarolou Finley, agarrando-se imediatamente à ideia. Durante a calmaria, o Grão-Mestre se perguntava como explicaria isso ao Ministério das Relações Exteriores. Incapaz de encontrar uma solução plausível, ele estava se preparando para um futuro sombrio...

— A questão é — continuou Finley —, o quão bem ele e Abel se dão? Não quero nenhum problema.

— Não é um problema. Abel considera o rapaz um amigo, além de ele ter salvado a vida de Abel. Ele também é um ótimo lutador. Nada de errado com sua personalidade também.

— Soberbo! Então por que a cara amarrada, Hugh?

Em total contraste com o sorriso radiante de Finley, a expressão de Hugh permaneceu sombria, o que intrigou o Grão-Mestre.

— Bem, ele é... seletivo com os trabalhos que aceita.

— Ah... — Finley assentiu gravemente três vezes, conhecendo o tipo. — Vemos aventureiros assim às vezes.

— Ele tem dinheiro de sobra e absolutamente nenhum interesse em subir de rank como aventureiro.

— Complicado, de fato. Temos algo que possamos usar para atraí-lo?

— Tenho pensado nisso, mas não vai ser fácil, meu senhor — respondeu Hugh com um vigoroso balançar de cabeça. A maioria dos aventureiros aceitaria prontamente um trabalho que relutavam em fazer se a recompensa aumentasse.

Mas não esse.

— A propósito — disse Finley —, qual o nome desse mago?

— Ryo.

— Então, como podemos tentar este Ryo?

— Essa é a pergunta de um milhão de dólares, eh? — Hugh balançou a cabeça novamente. Ele era a pessoa que contara as pedras mágicas que Ryo e Abel haviam reunido, então sabia em primeira mão que Ryo tinha uma quantidade estonteante de dinheiro. Como Ryo já podia comprar praticamente qualquer coisa que precisasse, ele tinha que pensar em algo que o dinheiro não pudesse comprar — mas será que algo assim existia?

— Não consegue pensar em nada? Quando foi a última vez que o viu?

— Hmmm... Durante a expedição ao Principado de Inverey. Espere... havia algo que ele estava desesperado para conseguir.

— O que era?! — disse Finley, inclinando-se. — Não me deixe esperando, homem!

A expressão de Hugh permaneceu nublada — porque ele sabia que era impossível de obter.

— Um golem da Federação — disse ele finalmente. — Ryo disse que nem se importava se estivesse quebrado, ele só queria levar um para casa...

— Argh... Agora entendo seu pessimismo...

Até mesmo um grão-mestre não conseguia obter a arma mais recente de outro país.

— Ryo é obcecado por alquimia. Há um alquimista famoso na capital real, sabe. Qual era o nome dele mesmo? Certo, Kenneth Hayward. Ele é um barão, e eles são amigos.

— Espere aí! — Finley levantou a mão para interromper. — Você disse alquimia? E Barão Hayward?

— Sim?

Finley bateu no queixo e começou a pensar. Um minuto depois, ele falou novamente.

— Talvez possamos dar a ele o que ele quer.


Ryo estava lutando com o Jato de Água desde a manhã — não o feitiço de ataque, mas a versão em que ele se impulsionava esguichando água. Por conveniência, ele o nomeou Propulsor de Jato de Água. Por que ele se deu ao trabalho de nomeá-lo assim? Porque soava mais legal, é claro...

Ele praticava no jardim de sua casa, que media quatrocentos metros de comprimento por quatrocentos metros de largura — grande o suficiente para caber três campos de futebol. No momento, tudo estava cheio de água, transformando-o em uma piscina improvisada acima do solo. Era um espetáculo e tanto visto de fora: uma parede de água de cinco metros de altura. Claro, Ryo a construíra dessa forma para que estivesse seguro se o teste de voo do Propulsor de Jato de Água falhasse.

Um mago da água verdadeiramente em seu elemento!



A essa altura, Ryo estava naturalmente encharcado. No entanto, ele poderia se secar em um instante se quisesse, dado seu controle sobre a água. Ele começara fazendo exatamente isso, mas se cansara e agora simplesmente se deixava ficar molhado.

Em algum momento, ele começou a dizer “Uuush!” e “Splash!” cada vez que iniciava um novo teste. Ele até começou a fazer poses. Eventualmente, aprendeu a sincronizar sua Lança de Gelo com suas poses e frases de efeito — “Lá vamos nós!” e “Toma essa!” — enquanto lançava projéteis nos alvos de gelo que flutuavam na água. Atirando lanças de gelo como shurikens, ele provavelmente até se via como um ninja. Você nunca saberia disso apenas observando-o, obviamente, mas outra coisa era abundantemente clara: Ryo estava se divertindo muito. Ele estava todo sorrisos, a alegria em seu rosto era óbvia.

E isso era ótimo. Perfeito, na verdade. Afinal, a alegria é a coisa mais importante! Você aprende melhor quando está se divertindo! Você nunca chegará a lugar nenhum com uma carranca no rosto.



Uma carruagem com o brasão da guilda de aventureiros parou, e um homem carrancudo e sinistro desceu. Quando viu a imponente parede de água à sua frente, sua expressão mudou para choque.

Ryo usou seu enésimo uso do Propulsor de Jato de Água para se lançar para fora da piscina. Assim que o avistou, Ryo reconheceu o homem imediatamente.

— Olá, Hugh! — ele gritou.

Instantaneamente, ele fez a piscina gigante desaparecer e pousou na frente do mestre da guilda de Lune.

— É raro vê-lo na minha casa — disse Ryo. Hugh geralmente o convocava para a guilda sempre que tinha negócios com ele.

— Entre. Vou lhe servir um café.

Sem esperar por sua resposta, Ryo se virou e se impulsionou em direção à sua casa com o Propulsor de Jato de Água.

— C-Claro, obrigado.

Ryo não tinha tanto controle quanto Sera com sua magia de ar, mas estava começando a pegar o jeito. De longe, podia-se ver Ryo saltitando a caminho de casa.

Hugh recobrou os sentidos, voltou para a carruagem e disse ao cocheiro para levá-lo à casa de Ryo, que ficava a cerca de quatrocentos metros de distância — ou, em outras palavras, a uma caminhada de cinco minutos. Considerando que a propriedade pertencera a um fazendeiro, o tamanho enorme do jardim não era surpresa.



Deixando a carruagem esperando em frente à casa, Hugh entrou pelas portas duplas da frente, como a maioria das pessoas teria feito. Outros já familiarizados com o prédio, como os membros do Quarto 10, Abel e Sera, usavam a porta dos fundos.

O delicioso aroma de café pairava pela casa.

— Hugh, por aqui — chamou Ryo de mais adentro.

Hugh dirigiu-se para a direita, em direção à voz de Ryo. Na sala de visitas, encontrou sofás e uma mesa de centro, em um canto da qual havia uma prensa francesa preparando café — a fonte do cheiro atraente, obviamente — e uma ampulheta. Estranhamente, a prensa francesa parecia ter sido feita de gelo.

— Certo, você é um mago da água — murmurou Hugh, e então percebeu imediatamente o paradoxo. O recipiente era feito de gelo, mas estava cheio de líquido fumegante. — Não há nada de normal nisso.

Ele o tocou instintivamente, apenas para descobrir que o artefato não estava quente. Claro, saía vapor, então a água devia estar quente, mas a prensa francesa não estava.

Estranho. Ainda mais estranho era o fato de que o recipiente não estava frio, apesar de ser feito de gelo...

Nesse momento, Ryo entrou vestindo sua roupa habitual. Naquele momento, Hugh finalmente percebeu que Ryo não estava usando seu manto na piscina. Ele devia tê-lo tirado para facilitar a entrada e saída da água.

— Por favor, sente-se naquele sofá ali — disse Ryo, conjurando duas xícaras de gelo.

Assim que o último grão de areia atingiu o fundo da ampulheta, Ryo pressionou o êmbolo da prensa, filtrando o pó para o fundo e deixando o café límpido por cima. Ele o derramou nas xícaras, intensificando o aroma de café na sala.

— Aqui está, Hugh.

— Ah, obrigado.

Ele aceitou a xícara, cheirou e depois a levou aos lábios. O aroma encheu suas narinas.

— Saboroso pra caramba, isso aqui.

Era café preparado em uma prensa francesa congelada que, de alguma forma, não era fria ao toque — e ainda assim era simplesmente delicioso. Tinha um gosto ainda melhor do que o café servido na guilda.

— Os grãos acabaram de chegar de Goro, o magistrado de Kona. Aparentemente, eles vêm do melhor torrador da vila... — Ryo explicou feliz enquanto bebia. — Dá pra sentir a arte, hm?



— Vim aqui hoje por um motivo — disse Hugh depois de terminar o café. — Tenho um trabalho que gostaria que você aceitasse.

— Ummm, Hugh, estou extremamente ocupado no momento...

— Oh, brincando na água? Esse tipo de ocupado? — perguntou Hugh.

Ryo evitou seu olhar. — E-Eu estava treinando minha magia da água. Sim, isso mesmo. Treinamento de combate!

Hugh o encarou.

— Pode ter parecido brincadeira, mas era, na realidade — no mundo real — treinamento. Para combate. Treinamento de combate — continuou Ryo, agora divagando sob o olhar fixo de Hugh.

Em algum momento durante seu “treinamento”, Ryo havia começado a vadiar, então ele podia ver por que qualquer espectador poderia ter pensado isso.

Claro, ele não achava que havia nada de errado em se divertir. Combinar brincadeira e aprendizado era a melhor coisa para a mente — mas ele também entendia que não era uma desculpa muito forte para recusar um trabalho.

— Tudo bem, vou admitir que cada um tem seus próprios métodos de treinamento — concedeu Hugh, e Ryo ficou aliviado — por um segundo, pelo menos.

— Mas eu ainda quero que você aceite o trabalho — acrescentou Hugh.

— Ahhh...

Ele não poderia ter deixado sua relutância mais óbvia. Era um contraste gritante com sua expressão enquanto bebia café alegremente alguns momentos atrás.

— Desculpe, mas você é o único que pode.

— O que é?

Ryo não conseguia nem conceber um trabalho limitado a apenas ele. Teria feito sentido se fosse reservado para magos de rank A ou B, mas por que ele, um mago que só recentemente se tornara rank C, era o único homem para o trabalho?

— O Reino está enviando uma delegação para Twilightland em dez dias. Os dois aventureiros que deveriam acompanhá-los ainda não voltaram, no entanto.

— Perdendo um prazo? Esses aventureiros deveriam se envergonhar.

Por algum motivo, Ryo soou condescendente, balançando o dedo e estalando a língua em desaprovação. Ou talvez Hugh estivesse apenas interpretando demais sua atitude.

— É, especialmente porque eles são de rank A.

Não. Você não quer dizer—

Ryo não conseguiu conter sua surpresa com as palavras de Hugh. Um rank A no Reino só podia significar uma coisa...

— Aconteceu algo terrível? — continuou Ryo. — Abel não consegue encontrar o caminho de casa?

— Inferno, não! Não estou falando dele! Eu me referia aos Cinco Dragões, um grupo de rank A baseado na capital. — Exasperado, Hugh levou a xícara à boca, apenas para lembrar que já a havia esvaziado.

— Puxa, onde estão minhas maneiras? Quer mais?

Ryo serviu mais café da prensa francesa em sua xícara, depois derramou o resto na sua.

— Obrigado. Certo, então, os aventureiros originais na delegação eram um espadachim e um mago. Abel vai ocupar o primeiro lugar, mas não temos um mago para preencher o segundo.

Ryo inclinou a cabeça e fez a pergunta óbvia. — Por que não a Lyn?

— A questão é que ela está em Kona ajudando Lorde Hilarion. Caso contrário, ela teria sido nossa primeira escolha.

— Ohhh, entendo...

Ryo não conhecera Hilarion pessoalmente, mas ouvira o suficiente de Lyn e Abel sobre ele e sua obsessão por magia para saber que Hilarion não cederia nem um centímetro quando se tratava de assuntos de magia. O fato de Hilarion ter ido para a vila de Kona significava que isso tinha algo a ver com o cacodemônio e os vampiros. Nesse caso, Lyn não voltaria por um tempo...

— De repente, sinto pena da Lyn... — disse Ryo.

— Eu também — concordou Hugh antes de continuar. — De qualquer forma, foi assim que seu nome surgiu, Ryo. Você é o único em que conseguimos pensar que seja bom o suficiente para o nosso Abel.

— Entendo...

Bom o suficiente para Abel... Ryo não ficou totalmente descontente em ouvir isso.

Hugh assentiu interiormente. Só mais um empurrãozinho e ele vai dizer sim, pensou.

— Claro, o pagamento será de rank A. Considerando a duração da viagem, vai ser uma bela quantia. Além disso, como esta é uma missão nacional, o Ministério das Relações Exteriores providenciou escoltas, o que significa que não haverá trabalho real para você. Vocês dois serão convidados viajando de carruagem.

— Impressionante.

Quando os aventureiros aceitavam trabalhos, eles geralmente viajavam a pé. Isso também era verdade para Ryo, com seu trabalho envolvendo o Príncipe Willie da Monarquia de Joux tendo sido uma exceção.

Hora de fisgá-lo, pensou Hugh.

— O Grão-Mestre está oferecendo uma recompensa especial só para você, Ryo.

— O Grão-Mestre? Ah, certo, o pai da sua ex-noiva.

— Sim, isso é— Espere, não... Na verdade, esqueça. Enfim, a recompensa é o direito de observar um golem apreendido da Federação.

Ryo saltou da cadeira tão rapidamente que nem mesmo Hugh, um ex-espadachim de rank A, percebeu. Antes que Hugh soubesse, Ryo havia pressionado o rosto bem na frente do dele.

— O que isso significa?! — disse Ryo.

— C-Calma, rapaz, afaste-se, por favor? Bem, após a recente expedição a Inverey, uma das unidades de inteligência de Knightley capturou um golem quebrado no campo de batalha. O pessoal do Centro Real de Alquimia está estudando-o neste exato momento, e conseguimos permissão para você vê-lo. Lembrei que você era muito curioso sobre esses golens.

— Isso é fantástico! Vamos para a capital agora mesmo. Vamos! — disse Ryo, pronto para sair de casa.

— Calma aí! A guilda está providenciando uma carruagem para levar você e Abel até lá. Encontre-nos em frente à guilda às oito da manhã de amanhã.

Amanhã? Poderia muito bem ter dito para sempre...

Cheio de desespero, Ryo caiu de quatro.

— Bem, você vai ficar fora por um bom tempo, então deve haver pessoas de quem você quer se despedir, certo?

A cabeça de Ryo se ergueu. — Você tem razão. Tenho que avisar a Sera e contratar uma empresa de limpeza para cuidar da casa enquanto estiver fora.

— Só isso, huh? Suponho que, de certa forma, você é o aventureiro modelo.

Ryo basicamente se enfurnava em casa, raramente aceitando trabalhos — e era exatamente por isso que seu círculo social era tão pequeno. Quanto menos pessoas ele conhecia, menos pessoas ele tinha que incomodar. Mas, naquele momento, ele considerou entrar em contato com seus amigos do Quarto 10...

A guilda provavelmente vai contar a eles.

Como de costume, ele marchava no seu próprio ritmo.

Comentários