The Water Magician

Volume 5 - Capítulo 9

The Water Magician

Naquele momento, Lorde Aubrey e os outros comandantes da Federação estavam dirigindo as operações da tropa principal na planície ao norte do ponto de estrangulamento. Ele sentiu algo estranho mais ao norte, na retaguarda do exército, mas não ouviu gritos nem qualquer outra comoção. Mas como um veterano de muitas batalhas, ele sabia que devia confiar em seus instintos. Ele deveria estar ouvindo ruídos e vozes, mas onde estavam?

Ninguém mais notou nada de errado, mas decisões de frações de segundo poderiam fazer a diferença entre a vitória e a derrota na guerra.

Algo não está certo, mas não consigo identificar exatamente o quê. Este é um campo de batalha, então se algo está errado, deve ser por causa de um ataque inimigo.

Tendo chegado a sua conclusão, ele se levantou da cadeira e gritou.

— Ataque inimigo! Assumir formação defensiva!

Ao comando de Lorde Aubrey, seus subordinados entraram em ação imediatamente. Esses capitães em particular lutavam sob seu comando antes que ele se tornasse o chanceler da Federação, uma década atrás. Eles saíram de suas tendas que cercavam o acampamento principal e deram ordens às suas tropas.

Eles não entendiam exatamente o que estava acontecendo ou o que aconteceria, mas as palavras de Lorde Aubrey foram o suficiente. Se ele acreditava que o inimigo estava em movimento, então eles atacariam de algum lugar, e a tropa principal seria envolvida. Como não sabiam de onde viria o ataque, tinham que estar prontos para interceptar em todas as direções.

Com Hugh McGlass e a guia Chloe na liderança, a Divisão Sul da força expedicionária do Reino cavalgava para o sul. As forças da Federação não estavam nem de perto tão concentradas nessa direção, provavelmente porque o Terceiro Batalhão Independente Federado de elite estava posicionado lá. Ainda assim, isso não significava uma ausência completa do inimigo, então eles avançaram sem demora, eliminando o máximo de adversários que podiam, da forma mais silenciosa possível.

Mas havia um limite para o quanto podiam fazer.

— Ataque inimigo!

O grito veio da frente.

No momento em que a Divisão Sul ouviu essas palavras, ela partiu em um galope a toda velocidade. Agora que seu ataque surpresa havia sido descoberto, era uma corrida contra o tempo.

Seu alvo era o acampamento principal do inimigo — mais especificamente, Lorde Aubrey. Todos entendiam que não havia outra maneira de virar o jogo. Talvez a Federação não se retirasse de Inverey mesmo após a derrota de Lorde Aubrey, mas eles poderiam manobrar com mais eficácia se o inimigo não tivesse seu comandante supremo. Não importava que estivessem em desvantagem numérica desesperadora... Era simplesmente o quão absoluta era a presença de Aubrey.

Tão absoluta quanto a de McGlass, o campeão do Reino. E assim, a Divisão Sul começou a entrar em combate em larga escala.

Depois de terminar sua luta contra o Terceiro, dois homens partiram em perseguição à Divisão Sul.

— Abel, a luta começou.

— Bem, sim. É um campo de batalha.

— Você está atrasado.

— E você não está?

— A honra é concedida aos espadachins que lideram o ataque. Aqueles que chegam tarde à festa são inúteis.

— Obrigado por compartilhar. Estou seguro, então, já que liderei o ataque contra o Imperador das Chamas.

— Sempre pronto com uma resposta, não é? Só para você saber, ninguém gosta de aventureiros sabichões.

— E só para você saber, quem tem telhado de vidro não joga pedra no do vizinho!

Enquanto brincavam, a dupla continuou sua corrida rápida para o sul. Então, do nada, eles viram uma figura voando pelo céu.

Hã? — disseram em uníssono, surpresos.

A pessoa não parecia estar voando por vontade própria; na verdade, quase certamente fora arremessada no ar. A pessoa era Rah, um espadachim de vanguarda do grupo de rank-C Switchback, que ostentava um físico intimidador com mais de 1,85 metro de altura. Vê-lo planar pelo ar era uma visão absurda, para dizer o mínimo.

Ryo e Abel correram em direção ao local onde Rah aterrissou. Não havia ninguém ao redor do homem inconsciente. Seus companheiros haviam cercado o inimigo que o mandara voando.

Abel derramou uma poção à força na boca de Rah. Observando de lado, Ryo preocupou-se brevemente que pudesse acabar em sua traqueia... Se fosse uma bebida normal, isso teria sido um grande problema. Felizmente, não tinham com o que se preocupar, já que era uma poção, que o corpo podia absorver independentemente de onde fosse aplicada. O importante era fazer o líquido entrar no corpo.

Ou não.

Dois segundos depois, Rah acordou em um acesso de tosse... Aparentemente, tinha escorrido pela traqueia em vez do esôfago.

— Rah, você pode me ouvir? — Abel perguntou, sem dar indícios de que notara Rah engasgando.

Ryo ficou inicialmente espantado com a audácia de Abel, mas depois percebeu que Abel provavelmente apenas ignorara a tosse de Rah. Afinal, seu amigo era um aventureiro há muito tempo, e essas coisas aconteciam.

— S-Sim, estou bem, Abel... Espere! Os outros!

— Eles estão lutando não muito longe daqui — respondeu Ryo.

Ele olhou para o lado onde, a uma curta distância, o resto do Switchback e outro grupo estavam confrontando algo.

— Por favor, ajude-os. Estarei lá assim que conseguir me mover novamente.

— Deixa com a gente — respondeu Abel, e os dois se dirigiram ao Switchback.

— O que é isso?

Da cintura para cima, parecia humano, com dois braços e uma cabeça. Abaixo, no entanto, tinha quatro pernas. Era obviamente algo artificial.

— Abel... eu nem te reconheço mais... — lamentou Ryo, cobrindo os olhos.

— Estou bem do seu lado, idiota — retrucou Abel.

A ideia de quatro pernas e um torso humanoide poderia evocar a imagem de um centauro. Infelizmente, a coisa artificial na frente deles decididamente não era isso.

Os membros da coisa se assemelhavam às pernas de um aracnídeo, em vez das pernas de qualquer animal quadrúpede. Se tivesse oito, Ryo poderia ter imaginado Aracne da mitologia grega, uma mulher com a parte superior do corpo humanoide e a inferior de aranha. No entanto, esta criatura artificial não era nada realista, sua superfície parecia metálica e incrivelmente dura.

Sue, a batedora do Switchback, notou-os se aproximando. — Abel! Ryo! Vocês foram atrás do Rah, certo? Como ele está?

— Ele está bem. Demos uma poção a ele e ele acordou na hora. Ele voltará em breve. Mais importante, isso é...

— Quase certamente um golem.

O mestre da guilda de Acray, Landenbier, e o grupo de rank-C daquela cidade, Six Flowers, que consistia em seis pessoas — como o nome sugeria — enfrentavam a criatura ao lado do Switchback. Em outras palavras, mesmo com dez deles, eles estavam com dificuldades para combatê-la.

Mas isso não preocupava Ryo, que estava muito mais preocupado com o que Landenbier havia dito: um golem. Ryo já tinha visto um golem selvagem antes. Na verdade, ele lutou contra vários deles com Abel na Floresta de Rondo. Não importava como se olhasse, no entanto, aquelas coisas não passavam de pedras. Contudo, a coisa na frente deles lembrava a Ryo um robô ou algum outro tipo de máquina realista, apesar de suas quatro pernas.

— Abel, é completamente diferente das pedras que vimos. Agora, isto é o que eu chamo de golem!

— Só desta vez, entendo o que você quer dizer e, de fato, concordo. Dizem que existe um exército de golens artificiais no oeste, movidos a alquimia.

Ninguém poderia deixar de notar como o corpo de Ryo tremia visivelmente. A expressão em seu rosto era uma mistura de excitação e, por algum motivo, arrependimento. Ele estava emocionado por ver um golem artificial com seus próprios olhos, mas por que o arrependimento? Bem, ele foi passado para trás. Que passada de perna? Ser o primeiro a criar um golem nas Províncias Centrais! Ele não acreditava realmente que estava prestes a criar um, mas estava perto o suficiente, embora não soubesse disso. Claro, objetivamente falando, com o nível de sua alquimia, esse objetivo ainda estava muito distante... Vamos apenas manter isso em segredo.

Ryo respirou fundo para se acalmar.

— Até Kenneth disse que era impossível criar um golem...

Ryo considerava o Barão Kenneth Hayward, um dos gênios alquimistas do Reino e pesquisador-chefe do Centro Real de Alquimia, como seu mentor.

— Imagino. É diferente da alquimia normal. Dito isso, nunca ouvi falar de alguém nas Províncias Centrais que tenha conseguido fazer um.

— Isso significa que já estamos ficando para trás na guerra de informações? — Ryo balançou a cabeça em desespero. Então, ele examinou o golem à sua frente, prestando muita atenção às suas quatro pernas.

Teria sido difícil fazer um que andasse bipedalmente? Mesmo na Terra moderna, robôs bípedes exigem tecnologia altamente avançada para manter o equilíbrio. Talvez fosse aqui que a criação de um golem artificial diferia da alquimia normal. Fazer os sensores e giroscópios necessários para equilibrar o corpo não era fácil, mesmo com a magia que existia em Phi, então fazê-lo quadrúpede em vez de bípede fazia muito mais sentido.

— Ei, Abel, que tal você vingar o Rah e desafiá-lo para um duelo?

— Por que sempre eu? Além disso, isso não é algo que se possa lutar um contra um.

— E você tem a audácia de se chamar de aventureiro de rank-B?! Você não está nem um pouco chateado que Rah foi mandado pelos ares? Você não tem nenhum orgulho como espadachim?

— Sim, não e não. — Abel ignorou completamente a provocação de Ryo.

Era fácil imaginar a força do espécime, vendo como ele havia arremessado um lutador do calibre de Rah para longe. E, honestamente, qualquer um evitaria lutar contra ele a curta distância.

Ryo examinou seus aliados que cercavam o golem. O Six Flowers de Acray era um grupo muito incomum, composto por um espadachim, um portador de escudo, um sacerdote e três magos que se destacavam em ataques à distância. Além do mais, o ex-aventureiro de rank-B e atual mestre da guilda de Acray, o mago do fogo Landenbier, também estava presente. Além de sua batedora, Sue, o Switchback também incluía o mago do ar, Tan, e o sacerdote, Nuda. Com tantos magos, a luta havia se tornado um mini-cerco, então fazia sentido que eles mantivessem o golem à distância.

No entanto, eles deveriam ter um arsenal de feitiços ofensivos ao seu lado, mas Ryo chegou a uma conclusão que Ash, a maga do fogo do Six Flowers, logo confirmou.

— Nenhuma de nossas magias funciona... — ela murmurou, olhando de volta para o golem. — Bloqueou tudo o que lançamos contra ele: fogo, vento e terra — todos os nossos feitiços ofensivos.

— Especificamente, ele usou uma Barreira Mágica para fazer isso, uma incrivelmente resistente — acrescentou Landenbier. — Até bloqueou meu Dardo de Fogo.

Ryo não sabia o que era uma Barreira Mágica, mas entendeu a essência pelo contexto.

— O que significa que a única coisa que ainda não tentamos é magia da água, hm? — Ryo assentiu para si mesmo. — Então lá vou eu. Lança de Gelo.

Uma lança de gelo voou em direção ao golem.

Krak.

Ela atingiu uma parede invisível na frente do golem, e a lança e a parede desapareceram com o flash usual de aniquilação.

— Ugh... não consigo penetrá-la — disse Ryo, frustrado.

— Não, mas... a Barreira Mágica desapareceu — apontou Nash, maga do ar e irmã do meio do trio em Six Flowers.

Um segundo depois, no entanto, a Barreira Mágica se reconstruiu.

— Bem, isso foi rápido. Eu não deveria me surpreender, no entanto — comentou Ash.

Ryo não podia vê-la, mas alguns magos experientes podiam sentir a presença desse tipo particular de barreira.

— Talvez não devêssemos ignorar isso... — murmurou Nash.

— À primeira vista, não parece que ele pode atacar à distância... Mas no momento em que você vira as costas, ele ataca — disse Landenbier, levantando o problema mais urgente.

— Então precisamos mantê-lo em movimento de alguma forma. E por alguma forma, quero dizer magia da água — disse Abel sugestivamente.

— Não entendo sua insinuação...

— Você imobilizou mil pessoas.

— Eu estava apenas ajudando-os a descansar. Eles precisavam de um respiro. Um pouco de ajuda humanitária compulsória, por assim dizer.

— Agora veja quem está falando um monte de besteira. — Abel balançou a cabeça, nem mesmo se dando ao trabalho de tentar entender a explicação sem sentido de Ryo.

Enquanto lamentava a complexidade da linguagem, Ryo refletia sobre a sugestão de seu amigo. Ele poderia realmente ser bom em retardar as coisas.

— Tudo bem, suponho que vou tentar... Pista de Gelo.

Ryo geralmente parava algo com a Pista de Gelo, um feitiço versátil de congelamento do solo que podia ser usado contra alvos terrestres sem ataques de longo alcance. O chão congelou, e os pés do golem escorregaram. Ele não conseguia se mover mesmo que quisesse. No entanto, suas quatro pernas o impediram de cair de vez. Se fosse gelo normal, ele poderia ter se movido enganchando suas garras afiadas no gelo, mas o gelo especial de Ryo era tão duro quanto sua Parede de Gelo — o que significava que era muito duro.

Rah finalmente voltou para eles. — Oh? — ele cantarolou.

O grupo inteiro trocou olhares que diziam: Nós conseguimos! Então, por algum motivo, todos começaram a se afastar lentamente do golem. Ryo fez o seu melhor para não tirar os olhos dele, e foi por isso que notou algo aparecer de repente em suas palmas abertas.

— Descarga elétrica? — ele murmurou.

No instante seguinte, o golem esticou os braços e brilhou a luz branca entre as mãos sobre o gelo sob seus pés. Então, o gelo começou a derreter.

— De jeito nenhum...

Mesmo acontecendo diante de seus olhos, Ryo não conseguia acreditar. Ele nunca tinha visto a Pista de Gelo ser quebrada ou derretida antes. Aconteceu com suas Paredes de Gelo muitas vezes, mas Ryo não pensou longe o suficiente para fazer essa conexão naquele momento. A única coisa em sua mente era avisar seus aliados, que estavam recuando.

— O golem está se movendo! Corram!

Ouvindo sua voz, o Six Flowers e Landenbier olharam para o golem e começaram a correr. Nenhuma pessoa do Switchback olhou para trás.

— Parede de Gelo.

Ryo criou uma barreira na frente do golem para ganhar tempo enquanto fugia. Abel o seguiu bem ao seu lado. Ryo olhou para trás e, com certeza, o golem estava derretendo a parede de gelo com a luz branca entre as mãos. A luz não tinha poder de ataque à distância, mas mesmo assim derretia cada camada de gelo uma a uma, diminuindo a distância entre ele e os companheiros de Ryo tão lentamente que eles conseguiram se afastar um pouco. Ele iria alcançá-los eventualmente, mas até lá, ele se concentraria em garantir que os outros não ficassem muito lentos.

Tal foi o pensamento rude que passou por sua cabeça.

Eu realmente gostaria de colocar minhas mãos nesse golem...

— Então este é o acampamento principal, eh? — murmurou Hugh McGlass.

Ele estava sozinho. Apenas alguns segundos antes, Coffee Maker, o último grupo em sua unidade a chegar, havia se juntado à luta contra os soldados da Federação, que provavelmente eram a guarda pessoal de Lorde Aubrey. Embora o Coffee Maker tivesse acabado de ser promovido para o rank-C, seus membros tinham muita experiência como guarda-costas e acompanhantes, então eles deixaram Hugh seguir em frente enquanto enfrentavam o inimigo.

Depois de encontrar a tenda, Hugh entrou com a espada na mão.

— Então — disse ele, olhando para o homem sentado lá dentro —, finalmente nos encontramos, Aubrey.

Era Lorde Aubrey, comandante supremo das forças da Federação e líder de Handalieu.

— Você chegou muito mais rápido do que eu esperava, Hugh McGlass. Impressionante.

— Elogio vindo do próprio Tacticista. Acho que devo me sentir honrado.

Mesmo enquanto trocavam farpas verbais, Hugh, sempre vigilante, aproximava-se de Lorde Aubrey.

— Falando francamente, mesmo que você me derrote agora, isso não mudará o curso da guerra. Tenho certeza de que você já está ciente.

— Sim, estou. Mas se queremos salvar o Principado, esta é a nossa única maneira de virar o jogo. Todas as nossas outras escolhas são inúteis. Acabar com você agora pelo menos dá a Inverey uma chance de sobrevivência. Uma em um milhão, claro, mas melhor do que nada, certo? É claro que vamos aproveitá-la.

— Você está mentindo. — A voz de Lorde Aubrey era monótona, um lado de sua boca se contorcendo em um sorriso sardônico. — Isso não é pelo bem de Inverey, é? Se anexarmos com sucesso o Principado, o Reino de Knightley passará a compartilhar uma fronteira muito longa com a recém-expandida Federação. Sua nação já arca com um fardo pesado com a ameaça do Império. Então me diga a verdade, Hugh: Isso é pelo bem de Knightley, não é?

Hugh só conseguiu olhar de volta para Aubrey.

— Ninguém está te criticando. Na verdade, aplaudo sua decisão. É natural intervir em uma guerra quando seu resultado afetará seu povo.

— Confiante, não? Tem alguma base para isso?

— Se o famoso Hugh McGlass tivesse vindo sozinho, talvez eu pudesse acreditar que foi apenas pelo benefício do Principado. Mas liderando seus subordinados e companheiros aventureiros? Outra questão inteiramente. Afinal, você não pode pedir a seus camaradas que vão para a morte por outro país.

— É? É assim que é?

— Sim, é. Até um belicista como eu abomina a ideia de enviar meu povo para a desgraça.

— Isso não parece o tipo de coisa que o infame Tacticista diria.

— Militares têm mais razões do que ninguém para desprezar a guerra — afirmou Lorde Aubrey inequivocamente. — Apenas os soldados conhecem os verdadeiros horrores do campo de batalha. Ninguém enviaria voluntariamente os homens que nutriu para um lugar como aquele. Aqueles que buscam medalhas e fama têm amplas outras oportunidades para tais coisas fora do campo de batalha.

— Odeio admitir, mas você pode ter razão.

Hugh assentiu em concordância enquanto Lorde Aubrey continuava a divagar poeticamente. Ele só estava entretendo essa troca de palavras demorada para coletar informações. O homem à sua frente era o líder da Federação, uma das três maiores potências das Províncias Centrais. As pessoas raramente se encontravam a sós com alguém de sua laia. A realidade era que muitas coisas haviam dado errado no coração do Reino nos últimos anos. Embora fosse difícil imaginar que o Tacticista estivesse envolvido em todas as tramas nefastas, certamente ele tinha suas mãos em algumas delas.

O homem em questão sorriu, como se tivesse lido os pensamentos de Hugh.

— Heh heh heh. Estou impressionado com sua perspicácia. De fato, coletar inteligência é vital. Diga, por que não se torna um ministro em minha administração em vez de servir como mestre da guilda de alguma cidadezinha do interior? Farei com que você seja bem compensado.

— Não, obrigado. Você sabe a informação que eu quero. Por que não me conta antes de morrer?

— Infelizmente para você, não tenho intenção de morrer. Não sei o que você procura, Mestre McGlass. No entanto, se eu tivesse que arriscar um palpite, diria que deve ser sobre a agitação na capital real, eh? Metade do caos recente do Reino — incluindo aquela turbulência na capital — foi obra minha — admitiu Lorde Aubrey prontamente.

Hugh permaneceu em silêncio, mas continuou a olhar com expectativa. Ele sabia que devia haver mais.

— Não fui responsável pelos problemas no leste, como o colapso da Ponte Lowe, embora eu assuma o crédito por Whitnash. — Os cantos de sua boca se curvaram. — Só descobri mais tarde que eles usaram a mesma organização que eu. Um grupo muito útil. Fariam qualquer coisa, desde que você tenha o dinheiro.

— Considerando que eu mesmo sou um mestre da guilda, não é preciso ser um gênio para descobrir que tipo de organização. Vou me certificar de dar a eles o que merecem mais tarde.

A rede de inteligência de Hugh já havia farejado que a Seita dos Assassinos era a organização que essa misteriosa terceira parte havia contratado. Ele presumiu que tinha sido o Império, mas o que Aubrey disse em seguida o deixou perplexo...

— Sua formulação me diz que você não sabe o que aconteceu com eles. A base daquela organização foi aniquilada. Quando meu pessoal chegou, não encontraram corpos. No entanto, a vila inteira estava congelada. Teorizamos que talvez um indivíduo ou grupo do Reino fosse o responsável. Para meu descontentamento, porém, estávamos errados.

Se Ryo estivesse lá, é claro, ele poderia ter dito a Aubrey: Não, você está certo! Obviamente, ele tinha sido o indivíduo do Reino que os havia aniquilado.

— A vila inteira? Congelada?

Uma suspeita brotou de repente na cabeça de Hugh e cresceu rapidamente. Fez-lhe pensar que tinha de ter sido um de seus aventureiros. Na verdade, o rosto de um certo mago de água de manto perdurou, mas ele o afastou de sua mente.

— B-Bem, isso certamente parece um grande problema...

— Oh? Hugh, você sabe de alguma coisa, não sabe? Sua expressão o trai.

— Não, nem uma maldita coisa. Parece que você tem uma imaginação fértil, eh, Aubrey?

Hugh era um péssimo mentiroso, mas Lorde Aubrey optou por não insistir.

— Bem, aí está. Essa é toda a informação que posso lhe dar.

Então Aubrey se levantou da cadeira e sacou a espada.

Embora Hugh estivesse esperando por sua oportunidade, ele não conseguiu encontrar uma nem mesmo quando Aubrey se levantou. Isso apenas mostrava a destreza que uma vida passada no campo de batalha poderia instilar. Hugh estava genuinamente impressionado, mas não podia perder tempo. Ele tinha que derrotar esse inimigo.

Quando dois mestres se enfrentam, tanto na esgrima oriental quanto na ocidental, é difícil para qualquer um deles dar o primeiro passo. Escolher atacar primeiro deixa você aberto a um contra-ataque, dando uma oportunidade ao seu oponente. Se você optar por partir para a ofensiva, deve derrotá-los com um único golpe. Se você não é um mestre espadachim, pode facilmente ganhar a vantagem com técnicas simples, como fintas, trabalho de pés astuto e uma mudança inteligente no ângulo de sua lâmina.

Desequilibrar a balança com tais movimentos amadores era impossível no nível de Hugh e Aubrey. Seria preciso algo um pouco mais, como o algo que de repente bateu no chão ao lado deles. Infelizmente, eles não tiveram tempo para verificar o que era. Os dois se moveram em uníssono, e uma feroz luta de espadas começou.

Quando suas lâminas se chocaram pela décima vez, eles finalmente perceberam o que havia caído no chão perto deles: uma pessoa envolta em um bloco de gelo.

Embora Hugh não dissesse que estava familiarizado com a visão, ele podia adivinhar quem era o responsável. O mesmo não podia ser dito de Lorde Aubrey. Como comandante militar, seu entendimento básico de magia da água lhe dizia que era impossível congelar completamente uma pessoa — então o que havia caído tão perto dele desafiava o bom senso.

Pelo mais breve momento, ele ficou abalado com o que estava vendo. Mas em um duelo como este, até mesmo uma hesitação de fração de segundo era decisiva.

Hugh não perdeu sua oportunidade. Com as espadas travadas, Hugh deslocou seu centro de gravidade para a esquerda para desviar do próximo ataque de Aubrey. Ao mesmo tempo, ele removeu a mão esquerda da espada—

— Habilidade de Combate: Empalamento Total.

— e socou o abdômen direito de Lorde Aubrey.

Tal movimento era impensável no kendo ou na esgrima japonesa, mas a diferença aqui residia no estilo de luta do espadachim e na natureza da própria luta. Um soco normal não teria efeito na armadura de couro feita sob medida de Lorde Aubrey. Infelizmente para ele, Hugh usou uma Habilidade de Combate, multiplicando a força de seu soco por dez.

Sem surpresa, isso fez até mesmo Lorde Aubrey voar. No momento antes de cair no chão, ele assumiu uma postura defensiva para amortecer o impacto e rolou. Ele aterrissou sobre um joelho, permitindo-lhe contra-atacar imediatamente — como se esperaria de um soldado habilidoso.

Então ele cuspiu uma mistura de sangue e saliva no chão e percebeu que seus órgãos internos estavam danificados.

Droga, Mestre McGlass, que monstruosa é a sua esgrima... Ou devo dizer, que monstruoso é o seu punho? Você nunca deixa de me entreter!

Embora as chances estivessem esmagadoramente contra ele, Lorde Aubrey riu, seus pensamentos desafiadores. Ele sabia que a maré viraria muito em breve a seu favor...

Então, como se fosse um sinal, seis guardas rasgaram a lona da tenda atrás dele.

— Meu lorde!

Viu? A maré havia virado.

Apenas alguns segundos atrás, Hugh estava decidindo como acabaria com Lorde Aubrey... mas agora era extremamente difícil fazer qualquer tipo de movimento. Hugh poderia facilmente ter mantido sua vantagem se os recém-chegados fossem soldados quaisquer, mas estes eram os guardas pessoais de Lorde Aubrey. A sorte não estava do seu lado.

Eles provavelmente são bem treinados, eh?

Hugh suspirou suavemente. Ele sabia que poderia vencer contra eles, mas levaria muito tempo e exigiria muito dele. Provavelmente não sairia ileso.

Vou ter que sacrificar um braço, pelo menos...

Claro, com sacerdotes de alto escalão como Rihya ao seu lado, ele poderia reparar quaisquer partes ausentes. Mesmo assim...

Estar na ponta de uma espada dói pra caramba.

— Desculpas, Hugh, mas parece que a vitória me pertence.

— Estou chocado. O grande Tacticista, declarando o fim de uma luta antes que ela realmente termine...

Hugh escondeu seu desconforto com bravata. Ele tinha um mau pressentimento sobre isso. Seu ataque surpresa só funcionou no infame Tacticista porque desafiou todas as suas expectativas. Mas algo assim só acontecia uma vez a cada dez anos, se tanto. Ele nunca teria outra oportunidade novamente nesta guerra.

Ainda assim, não havia razão para Lorde Aubrey estar tão seguro de sua vitória. Hugh havia perdido alguma coisa? Ele sintonizou seus olhos e ouvidos ao seu redor, garantindo que sua guarda permanecesse em alerta máximo.

Aubrey, no entanto, interpretou o foco de Hugh em seus arredores como um convite.

Antes que Hugh percebesse, Aubrey havia produzido uma garrafa em sua mão direita e rapidamente bebeu seu conteúdo.

— De jeito nenhum... — Hugh não conseguia pensar em mais nada para dizer.

Depois de terminar sua bebida, Aubrey sorriu amplamente para ele.

— Isso mesmo. Uma poção. Curou meus ferimentos.

Naquele momento, Hugh percebeu que seus planos estavam desmoronando ao seu redor. Lutar contra seis guardas pessoais teria sido difícil, mas possível com o sacrifício necessário. Um Aubrey recuperado, no entanto, significava que não havia mais um caminho para a vitória.

Seu oponente se gabou de seu triunfo para enganar Hugh e fazê-lo se concentrar nos arredores, desviando assim sua atenção de Aubrey por um momento. Usar uma poção para se curar enquanto o inimigo estava distraído criaria uma situação em que a vitória era garantida. E Lorde Aubrey havia conseguido.

— Agora, Hugh McGlass. Posso sugerir que você se renda?

Hugh não precisou pensar em sua resposta.

— Nem a pau — respondeu ele.

Nenhuma ideia de como sair desse impasse lhe ocorreu, mas ele não cederia. O impacto da rendição do Campeão McGlass seria grande demais, devastador demais.

— Então o que você vai fazer? Como pode ver, tenho seis excelentes subordinados. Quem você tem, Hugh?

Ninguém. Ele não tinha ninguém. Era uma situação sem esperança.

Mas então... O jogo virou pela terceira vez.

— Oh, era aqui que você estava, Hugh! — uma voz familiar chamou por trás de Hugh. — Tenho uma grande notícia. O inimigo tem golens!

Um mago de água de manto e um espadachim de rank-B de repente entraram na tenda.

— Claro que vocês escolheriam agora para fazer suas grandes estreias! — ele murmurou.

Então, como um vilão incapaz de suprimir sua risada maligna, ele riu.

— Bwa ha ha!

— Desculpe, Aubrey, mas parece que eu ganho — disse Hugh, irradiando confiança.

Duvidoso, Lorde Aubrey olhou primeiro para ele, depois para o mago e o espadachim recém-chegados.

— Nós ainda estamos em maior número... E mesmo assim você realmente acredita que pode vencer?

— Com certeza. Renda-se agora e eu juro escoltá-lo de volta à sua terra natal ileso. O que me diz?

— Como ousa zombar de nós?! — gritou um dos guardas.

Aubrey permaneceu em silêncio, a suspeita ainda em seus olhos. Talvez ele estivesse se perguntando se Hugh estava blefando.

— O que aconteceu com aqueles mil homens? — Hugh perguntou, referindo-se ao Terceiro Batalhão Independente Federado.

— Nós os derrubamos e os detivemos em seu caminho — relatou Abel, desembainhando a espada.

— Por que não estou surpreso? — disse Hugh com um encolher de ombros, mais resignado do que impressionado. Mesmo à primeira vista, o Terceiro parecia a nata da colheita da Federação. — Eles deviam ser fortes, certo?

— Sim, eles eram. Mas escuta só: o oficial comandante deles é o Imperador das Chamas.

— Espere, você quer dizer o Imperador das Chamas que matou mil homens na Grande Guerra?

— Sim, esse cara.

Durante a Grande Guerra, Hugh McGlass havia sido um herói do Reino, e Lorde Aubrey um herói da Federação. No entanto, Handalieu tinha um herói oculto: Flamm Deeproad, também conhecido como o Imperador das Chamas. Hugh, de fato, cruzou espadas com ele durante o conflito mencionado, então ele deveria conhecer seu rosto...

— O Imperador das Chamas era basicamente um garoto dez anos atrás... — murmurou Hugh.

— Dezesseis, certo? — respondeu Abel. — Ele tem a mesma idade que eu.

Apesar de conversarem como se não tivessem uma preocupação no mundo, ambos estavam alertas, com as espadas prontas.

— Desafia a crença que o Terceiro possa ser derrotado tão rapidamente — interveio Aubrey —, e por uma emboscada, nada menos. Eles deveriam ter sido capazes de tomar medidas evasivas.

— Você pode agradecer a esses dois pela perda deles, Aubrey.

— Você está— Você está dizendo que foram apenas esses dois?

— Na mosca. É por isso que eu te disse para se render.

Agitar a bandeira branca era a opção mais eficiente e eficaz agora — muito mais eficaz do que matar Lorde Aubrey. Francamente, Hugh não sabia se executá-lo lhes daria a vitória nesta guerra. Aubrey já havia delineado como tudo isso se desenrolaria. Mas se ele se rendesse, a luta terminaria imediatamente, e ambos os lados se moveriam para um cessar-fogo. Dependendo das negociações, poderia ser possível redigir um tratado favorável ao Principado e ao Reino. Era por isso que Hugh estava tão empenhado na rendição de Lorde Aubrey.

— Não apenas o Imperador das Chamas estava lá — perguntou Aubrey —, mas Faust também deveria estar, sim?

— Sim, e eu o esmaguei — respondeu Ryo.

— Acredito que você seja um mago?

— Sou. Eu o destruí de forma justa e honesta em combate mágico. — A voz de Ryo não vacilou.

— Você tem algum tipo de ressentimento contra esse tal de Faust? — perguntou Hugh, percebendo a atitude de Ryo.

— Ele machucou meus alunos. Então eu o enfrentei de frente, o levei ao ponto de exaustão de mana e o esmaguei como o inseto que ele é! — Ryo assentiu com satisfação vigorosa.

— Uhhh... — Hugh, por sua vez, foi subjugado pela força misteriosa que ele exalava. — Bom para você. Você entende agora, Aubrey? Esses garotos são muito poderosos.

— Entendo. Parece que você não estava blefando, afinal, Hugh.

— Hora de se render.

— Para que apenas a dupla deles derrotasse o Terceiro, sua força deve ser inegável. Certamente reconhecerei isso. — Então Aubrey sorriu.

Aquele sorriso fez sinos de alarme soarem na cabeça de Hugh. Algo não estava certo.

— Você está tagarelando há um bom tempo. Por quê?

Em vez de responder, Aubrey permitiu que seu sorriso se alargasse.

— Filho da mãe. Você estava ganhando tempo.

— Muito bem, Hugh. Ouça com atenção agora — aconselhou Aubrey.

Hugh, Abel e Ryo fizeram exatamente isso. Embora estivessem no campo de batalha, na proverbial cova dos leões, podiam ouvir algo à distância se se esforçassem.

— O que quer que seja, soa pesado — disse Ryo.

— É impressão minha ou está se aproximando? — arriscou Abel.

— Isso não vai acabar bem — disse Hugh, sombrio.

Ryo, Abel e Hugh eram guerreiros que haviam sobrevivido a muitas situações de vida ou morte. Todos eles possuíam uma habilidade bem-aprimorada de sentir o perigo que os alertava para situações que haviam dado errado.

Mas agora, antes que tivessem tempo de agir, o desastre aconteceu quando a parede mais próxima da tenda desabou.

— Golens artificiais... — murmurou Ryo com uma careta.

— Droga. Cinco desta vez? — gemeu Abel, carrancudo.

— Eu tinha ouvido os relatórios, mas... — Hugh viu a coisa real pela primeira vez.

— Vocês mencionaram algo sobre ver essas coisas em outro lugar?

— Isso mesmo. Um deles mandou Rah pelos ares — disse Ryo.

— Tínhamos mais de dez pessoas lutando contra um, e ainda assim não conseguimos derrubá-lo — respondeu Abel.

— Ba ha ha ha! — alguém gargalhou. — Lorde Aubrey, espero não ter chegado tarde para as festividades.

Essa pessoa, é claro, foi a responsável por trazer os ditos espécimes para a cena.

— Sincronismo excelente, Dr. de Velde.

— Parece que seu ajudante, Lamber, me convocou na hora certa. Você ficará feliz em saber que os reparos estão completos e esses cinco estão prontos para a ação novamente. Devo dizer, estou me sentindo muito satisfeito comigo mesmo por vir ao seu resgate. Muito satisfeito, de fato. — Frank assentiu com satisfação, depois olhou para as três pessoas que o enfrentavam e Aubrey.

— Um empunha uma espada sagrada, outro carrega uma mágica, e um mago? Uma combinação interessante para uma equipe de ataque... Oh? Não me diga que essa espada sagrada é Galahad? — perguntou Frank, fixando sua atenção na arma de Hugh. — A mesma empunhada pelo mestre espadachim, Julian. Herdada por Hugh McGlass, um herói da Grande Guerra. Bem, bem, que surpresa encontrá-lo aqui.

— Acho que estou começando a entender também. Apenas uma pessoa nas Províncias Centrais pode criar um golem artificial. Ouvi dizer que o Conde Frank de Velde desapareceu, mas pensar que ele na verdade desertou para a Federação...

— A política do Reino está em completa desordem. Pesquisadores como eu não têm escolha a não ser emigrar quando a economia piora e nossos orçamentos são cortados. Isso levará a um declínio no poder do país e sua eventual queda. É por isso que não há lugar para o caos na política. As pessoas no poder determinam o curso de um país. Causa e efeito, entende.

— Você está certo, mas que diabos você acha que eu posso fazer sobre isso? — respondeu Hugh com uma carranca.

— Você é o mestre de uma guilda de aventureiros, não é? Então por que não lidera uma rebelião com seus melhores aventureiros e mata os vermes traiçoeiros que cercam o rei?

— Você perdeu o juízo, homem?

— Revoluções, rebeliões e guerras civis surgem para erradicar a corrupção no coração da política e da governança. E apenas uma força militar pode alcançar isso. Mas você pode perguntar: ‘E a Ordem Real dos Cavaleiros? O Bureau de Magos?’ Eu digo: ‘Bah.’ Ambas as organizações juram lealdade à família real e ao país, então são quase inúteis para erradicar o mal. Isso deixa os aventureiros em Knightley, eh?

— Alguém pode me explicar como diabos chegamos a este tópico? Alguém? — Hugh parecia perplexo.

— Pesquisadores não se importam com a metodologia; nós apenas queremos resultados. Então, de certa forma, nós somos loucos. — Frank gargalhou alegremente.

— A Federação alocou um orçamento generoso para a pesquisa do bom doutor — interveio Lorde Aubrey com um sorriso. Ele ficou mais do que feliz em ver o Reino permitir que a fuga de cérebros o privasse de sua mente mais valiosa. Como diz o ditado, o inimigo do meu inimigo é meu amigo.

Frank desviou o olhar de Hugh para Abel. Ele estreitou os olhos ligeiramente.

— O que é essa espada mágica? — ele perguntou.

— Apenas algo que eu peguei — disse Abel, desinteressado. De sua perspectiva, era verdade.

— Você apenas ‘pegou’ uma espada mágica, eh? Tudo bem, mas devo dizer — aquela é estranha. Certamente não é normal.

— Nenhuma espada mágica é normal — retrucou Abel.

— Não, não foi isso que eu quis dizer. Você sabe que sou um alquimista, sim? Espadas sagradas e espadas mágicas representam o auge dos dispositivos alquímicos e, em certo sentido, são uma das minhas áreas de especialização — disse Frank com um sorriso irônico. Deve ter sido interessante para ele perceber que existiam coisas que ele não conseguia entender apenas olhando para elas, mesmo que fossem parte de sua especialidade.

— Entããão, uma espada mágica é um dispositivo alquímico, hm? Da próxima vez, por favor, deixe-me estudar a sua minuciosamente, Abel.

— A ideia de você ‘estudando’ a minha me assusta um pouco — disse Abel, preocupado.

— Por quê?! — Ryo gritou em protesto.

— Você — interrompeu Frank de Velde. — O mago ali.

Ryo olhou ao redor, mas ele era o único mago nas proximidades.

— Sim, ele está falando com você, Ryo.

— Nunca se sabe. Você nunca pensou que alguém estava te chamando, então você responde, apenas para descobrir que eles queriam dizer alguém próximo?

— Quero dizer... sim.

— Claro que já. E é embaraçoso, não é? — insistiu Ryo.

— Você, o mago de manto do Reino.

— E-Esse sou definitivamente eu, eu suponho. O que posso fazer por você?

— Você é um alquimista?

— Vejo a alquimia mais como um hobby — respondeu Ryo, com um tom atrevido.

— Um hobby? — Frank inclinou a cabeça, surpreso. — Um hobby caro, certamente.

— Sim, muito caro. — Ryo assentiu vigorosamente, imaginando minérios de cobre mágicos, manuais e outros apetrechos de alquimia valendo punhados de moedas de ouro. Realmente era um hobby caro.

— A pesquisa alquímica é cara. A maioria se junta a instituições governamentais ou laboratórios operados por nobres de alto escalão. Poucos trabalham de forma independente, o que mostra que você deve levar a sério.

— Bem, eu amo alquimia — disse Ryo com um sorriso.

Intrigado, Frank deixou um sorriso piscar em seu rosto, então suas feições retornaram à expressão de um alquimista de primeira linha, que tudo vê e tudo sabe.

— Então, você tem um professor? — ele perguntou.

— Kenneth. Barão Kenneth Hayward.

— Bem, bem, bem. — Frank olhou para Ryo com o calor de um avô encontrando o amigo de seu neto. Depois de um momento, ele assentiu. — Você tem um excelente professor.

— Eu sei. Ele é o melhor. — A voz de Ryo soou com pura convicção — mesmo que ele fosse o único que considerasse Kenneth seu mentor.

— Eu sonho em criar um golem. Kenneth não riu quando eu lhe disse.

— Esse é o tipo de homem que ele é: um gênio que nutre aqueles ao seu redor. Um talento raro, de fato. No entanto... — Frank fez uma pausa, olhando para o golem artificial ao seu lado. — Criar um golem é um empreendimento difícil. O objetivo é elevado e o caminho é longo.

— Eu entendo — respondeu Ryo, olhando Frank nos olhos. — Pretendo derrotar um e levá-lo para casa para fins de pesquisa.

— Hmm — Frank cantarolou, sorrindo com tristeza. — Isso representa um grande problema para mim, eh?

— Ryo, mesmo que consigamos derrubar um golem — interveio Hugh —, não podemos trazê-lo de volta para o Reino.

Os olhos de Ryo se arregalaram em choque e desespero. — M-Mas por quê...

— Qualquer coisa que derrotemos ou reivindiquemos se torna propriedade de Inverey. É assim que o trabalho mercenário funciona. Apenas desista.

— Eu... — Ryo fez uma pausa. — Bem, eu tecnicamente não aceitei uma comissão mercenária.

— É verdade, mas como você está trabalhando conosco, isso o torna um mercenário por padrão — respondeu Hugh, seu tom não admitindo discussão.

— M-Mas é tão fascinante! Olha, tem esse mecanismo incrível que emite plasma — er, pequenos raios — da sua mão. Você sabe quantas aplicações isso poderia ter? — Ryo tentou persuadir Hugh, mas o campeão não cedeu.

— Ele disse ‘raio’? — perguntou Lorde Aubrey, olhando para o alquimista.

Frank assentiu em confirmação.

— Mago — disse Lorde Aubrey —, vejo que você possui um conhecimento bastante interessante.

Ryo deu um pequeno sobressalto. — Eu disse algo que despertou o interesse dele? — sussurrou para Hugh, que estava ao seu lado.

— Nem ideia — respondeu Hugh, sem se dar ao trabalho de baixar a voz —, mas parece que o grande Tacticista está de olho em você agora.

— Com certeza estou — disse Aubrey. — Mago, deserte para a Federação, e eu lhe darei um desses golens. O que me diz? — Sua expressão era enigmática, tornando difícil decifrar se sua oferta era uma piada ou séria.

— Hum... — Ryo se viu vacilando, considerando seriamente.

— Ryo, seu merdinha. Não se atreva a deixá-lo tentá-lo com coisas assim.

— Abel, até você deve admitir que construção cativante esses golens são. Aquela quantidade de plasma — quero dizer, raio... Eu adoraria aprender a fonte de energia e a fórmula mágica que impulsiona sua geração. Seria impossível fazer com pedras mágicas comuns... — Ryo inclinou a cabeça, pensativo.

— Dr. de Velde, acredito que está na hora — disse Lorde Aubrey significativamente.

— Certo, você está, certo, você está — respondeu Frank com um aceno de cabeça.

— Estamos levando vocês três como prisioneiros — declarou Aubrey.

— Nem a pau — resmungou Hugh, com a voz rude. — Nós vamos dar o fora daqui, é isso que vamos fazer.

— Você realmente acha que vou permitir que vocês escapem? — perguntou Aubrey sem hesitação. — Capturar um herói de guerra infligiria um dano imensurável ao Reino, criando ondulações que afetarão o futuro do Principado.

Hugh, Abel e Ryo estavam do lado do Reino, enquanto Lorde Aubrey, seus seis guardas pessoais, Frank e cinco golens artificiais estavam do lado de Handalieu.

— Você entende a disparidade de força? Você deve perceber que não pode vencer.

Seus guardas se dividiram para a esquerda e para a direita, claramente com a intenção de cortar a rota de fuga do trio.

— Ei, Aubrey, você sabia que o bicho-papão é real?

— A Grande Guerra me ensinou isso muito bem. Um deles até atende pelo nome de Hugh McGlass.

— Não estou falando de mim! — gritou Hugh, sua mão esquerda piscando.

Duas adagas de repente se alojaram nos pescoços dos guardas mais próximos a ele. Simultaneamente, Abel atirou duas moedas nos olhos dos guardas perto dele. Em um segundo, os dois espadachins diminuíram a distância entre eles e os dois pares de guardas e derrubaram os quatro com um único golpe de espada cada.

— Pista de Gelo. Lança de Gelo 256.

O chão em que os cinco golens artificiais, Lorde Aubrey e Frank estavam congelou, e então 256 lanças de gelo os atingiram de cima.

— Proteja-nos! — gritou Frank.

Os golens ergueram os braços no ar. Uma luz branca emanou entre suas palmas, espalhando-se e derretendo todas as lanças de gelo.

— Lança de Gelo 256.

Outra salva de lanças de gelo os atacou pela frente, esta voltada apenas para Lorde Aubrey. Com as palmas das mãos levantadas, os golens não conseguiam derreter o gelo sob seus pés. Quando tentaram se mover para proteger Lorde Aubrey, começaram a escorregar, revelando o quão calculado fora o ataque de Ryo. Mas então...

— Tempestade, enfureça-se com toda a sua força — cantou Frank, criando um enxame de lâminas de vento que interceptou a nova barragem de lanças de gelo de Ryo. As faíscas de aniquilação brilharam em rápida sucessão, iluminando a área.

— Recuar! — disse Hugh, com a voz soando alta.

— Parede de Gelo de 10 Camadas.

Ryo comprou tempo suficiente para eles recuarem com seu feitiço.

— Devemos persegui-los, Lorde Aubrey?

— Não, está tudo bem, Dr. de Velde. Entendo perfeitamente a necessidade de conter minha ganância. Destruir o Principado tem precedência. Deixaremos o Reino por conta própria. Por enquanto.

E assim, o trio de Knightley escapou com sucesso.

Lorde Aubrey e companhia ouviram um assobio agudo vindo da direção em que Hugh McGlass havia desaparecido. Era o sinal para os aventureiros se reagruparem e recuarem.

— Haaa... Aqueles poucos segundos de terror devem ter tirado anos da minha vida — murmurou Lorde Aubrey.

— Aquela magia da água me surpreendeu — respondeu Frank, tendo ouvido Aubrey. — Tê-la dominado em uma idade tão jovem... Incrível.

— Você não é menos talentoso, Dr. de Velde. Meus agradecimentos. — Lorde Aubrey elogiou Frank, impressionado com seu feitiço poderoso que não exigiu uma longa encantação.

— Eu sou um alquimista, afinal, e alquimistas também são magos poderosos. Criar nossos dispositivos requer um conhecimento profundo de magia também. — Frank riu.

— Acabei de me lembrar. O Capitão Odoacer relatou um encontro com um poderoso mago da água na cidade de Zimarino. Deve ter sido ele o envolvido.

— Foi mesmo? E o estimado Odoacer o chamou de ‘poderoso’? Aos olhos dele, até o mago da terra Faust é fraco. Tivemos sorte de ter sobrevivido ao nosso encontro com aquele mago da água.

— É como você diz. — O canto da boca de Aubrey se curvou. Ele estava feliz que seu companheiro habitual, Lamber, estivesse trabalhando nos golens artificiais restantes e não aqui com eles. — Ele é totalmente inútil quando se trata de espadas e magia.

Então, um soldado correu em sua direção, praticamente tropeçando até parar.

— Vossa Excelência, o Principado começou a liberar aquelas armas.

— O que você disse...

Você nunca sabia o que aconteceria no campo de batalha. Mesmo seus piores cenários permaneciam velados. Lorde Aubrey entendia esse fato dolorosamente bem pela experiência. E desta vez, a pior coisa que ele poderia ter imaginado emergiu da névoa da guerra.

Foi Meredith, capitão da guarda da cidade, quem notou que os soldados da Federação estavam correndo ao lado das forças em retirada de Inverey. Ele relatou isso ao Príncipe Loris de Inverey, o oficial de mais alto escalão presente, e ficou claro que o inimigo pretendia invadir a cidade em perseguição paralela.

No entanto, por cinco minutos inteiros, o centro de comando não emitiu ordens — porque Loris se viu incapaz de fazê-lo. A essa altura, era apenas uma questão de tempo até que o inimigo se infiltrasse na cidade.

Não apenas eles não podiam disparar a Tempestade Verde, mas os portões da cidade também haviam sido abertos para receber seus camaradas em retirada. Todos, inclusive Loris, sabiam que isso era ruim. Muito ruim. Mas o que eles poderiam fazer? Seu povo estava do lado de fora, e não eram apenas soldados comuns que poderiam descartar — aquele exército era a última unidade de elite do Principado, que incluía o Comandante dos Cavaleiros Stanley.

Mesmo que eles fechassem os portões, liberassem a Tempestade Verde e aniquilassem ambas as forças, Inverey ainda não tinha chance de virar o jogo. Além disso, quem seguiria um governante que tomou tal decisão?

Loris se preparou para a decisão que logo precisaria tomar: Ele deixaria o inimigo, junto com seus subordinados, entrar na cidade e tentaria uma resistência final através da guerra urbana.

Assim que estava prestes a dar a ordem, Loris se virou e seus olhos caíram sobre sua esposa e duas filhas... Seus filhos. A mais velha não tinha nem dez anos. Elas estavam rezando a Deus com todo o coração. O que aconteceria com suas meninas se ele permitisse que o inimigo entrasse na cidade?

Loris mudou de ideia no último momento.

Os portões do castelo foram fechados, e a Tempestade Verde liberou um ataque de área, massacrando o inimigo — e seus camaradas.

— Quão pesadas são nossas perdas? — perguntou Lorde Aubrey.

— Cerca de dois mil...

— Tsk!

Ele não pôde deixar de estalar a língua com a notícia. A expedição da Federação havia sofrido mais baixas no cerco de Aberdeen, quando a imitação de Vedra eliminou algumas dezenas de seus soldados. Mas agora, parecia que o número de mortos estava disparando.

— Primeiro aquilo, agora isso... Subestimei a probabilidade de que eles disparassem o dispositivo novamente, dominados pelo medo como estavam. Então talvez seja minha culpa...

Na esteira do ataque, a morte do Comandante dos Cavaleiros Stanley e dos soldados de elite do Principado foi confirmada — mas também as perdas massivas da Federação.

Lorde Aubrey soltou um suspiro profundo e depois ficou em silêncio, criando um silêncio desconfortável na sala. Seus subordinados esperavam ansiosamente nesta atmosfera carregada, como se esperassem para ver quem quebraria o silêncio primeiro. A tarefa coube involuntariamente a...

— Eu retornei — anunciou Lamber, o indiscutível braço direito e ajudante de Aubrey.

— Bem feito — disse seu líder com um aceno de cabeça.

— Os treze golens restantes chegaram todos.

— Finalmente, algumas boas notícias. Esplêndido, simplesmente esplêndido. Farei os ajustes finais imediatamente. — Frank se dirigiu aos golens.

— Isso é terrível — murmurou Lamber.

— Fui otimista demais — disse Lorde Aubrey com um pequeno balançar de cabeça. Seu tom já havia voltado ao normal. Embora as forças de elite de Inverey tivessem sido aniquiladas, seu quartel-general tivesse sido emboscado e sua força de ataque tivesse sofrido enormes baixas, ele havia se conformado com tudo isso.

— Jogamos pesado demais. Avançaremos com um exército maior e armamento mais poderoso. Doravante, nosso avanço será constante.

A batalha para capturar Fion estava se aproximando de sua fase final.

Recuando do ataque ao acampamento principal da Federação, a Divisão Sul da força expedicionária do Reino se escondeu na floresta ao lado das planícies ao norte da passagem estreita. Embora composta por aventureiros de elite de rank-C e superior, ela havia perdido seis de seus soldados. Vários ficaram gravemente feridos, mas foram salvos pelos clérigos.

No entanto, os sacerdotes e sacerdotisas estavam todos se aproximando de seus limites físicos. Embora pudessem recuperar sua energia graças às poções de mana especiais de Ryo e às compradas em lojas, eles não conseguiam repor toda a resistência que sua magia de luz havia esgotado. Era extremamente cansativo, como se pode imaginar. O melhor método de recuperação era um longo descanso.

Finalmente, as outras quatro divisões da força expedicionária atravessaram a floresta e se juntaram à divisão sul. Quando Hugh os atualizou, eles perceberam que chegaram tarde demais para a ação, e sua decepção era clara em seus rostos.

O único cuja expressão permaneceu inalterada foi o Grande Mestre Finley Forsyth.

— Entendido — disse Finley. — Bem feito.

Sua resposta taciturna surpreendeu Hugh. Ele esperava ser acusado de agir por conta própria ou ser culpado pelo fracasso do ataque surpresa, mas Finley não mencionou nenhum dos dois.

O Grande Mestre o desprezava agora? Hugh esperava algum tipo de punição, mas as Divisões Leste e Central foram designadas para a vanguarda, Norte e Oeste no meio, e Sul na retaguarda. No final, nada havia mudado.

Hugh ficou um pouco decepcionado, mas depois de visitar a área de descanso de sua divisão, ele percebeu que poderia ter entendido mal. Os clérigos, especialmente, ainda estavam exaustos da emboscada. Se lhes tivessem confiado a liderança da vanguarda neste estado, poderia ter sido um desastre. Apenas um punhado de aventureiros não parecia tão cansado...

Um certo mago, por exemplo, não mostrava nenhum sinal de fadiga. — ‘Não trabalhe tanto a ponto de se cansar’ — disse ele, explicando algo a um aventureiro de rank-B e espadachim que parecia igualmente incansável. — Meu pai costumava dizer isso para seus subordinados o tempo todo. Quando você está cansado, você comete erros. É por isso que a gestão de negócios envolve motivar sua equipe para que eles não se esgotem.

— Gestão— O quê?

— Basicamente, manter o moral alto entre seus subordinados.

Hugh sorriu com amargura enquanto ouvia a conversa de Ryo e Abel.

Isso me torna um completo fracasso, então, considerando que meu pessoal está morto de cansaço.

Um líder precisa guiar aqueles sob seu comando sem cansá-los. A fadiga gera erros, e os erros custam tempo, esforço e recursos. É aí que entra a gestão.

— Ok, então, por que você está me dando esse sermão? — perguntou Abel a Ryo.

— Porque você insiste nessa pretensão de ser o filho do rei. Quando você ascender ao trono, terá muitos subordinados, certo? Terá que fazer bom uso deles então. Se você conseguir, é claro!

— Você ainda não acredita que eu sou um príncipe, não é? Além disso, sou o segundo filho, então acabaria como um cavaleiro ou algo assim.

— Então não uma empresa exploradora, mas um cavaleiro negro. Um cavaleiro negro soa meio legal. — Ryo parecia satisfeito. — Já que a exaustão é o problema, um golem insensível seria o subordinado perfeito.

Quinze minutos depois, a mensagem do Grande Mestre chegou ao acampamento exausto da Divisão Sul.

— O inimigo está em movimento — anunciou ele. — Permaneçam alertas como a retaguarda.

— Entendido. Em outras palavras, não se movam. — Hugh dispensou o mensageiro com um aceno de mão e sentou-se na grama para ouvir a conversa entre o mago e o espadachim.

— Não conseguimos ver as linhas de frente daqui. Se subirmos até aquela parte estreita do penhasco, acho que teremos uma visão bem ampla das coisas.

— Não, isso não vai funcionar. De jeito nenhum podemos— Bem, hmm... É quase impossível subir, mas talvez descer em uma emergência seja mais viável? — Abel inicialmente descartou a sugestão de Ryo, mas depois pareceu reconsiderar.

Huh. Isso pode não ser uma má ideia, na verdade.

Embora lhe tivessem dito para manter sua posição na retaguarda, Hugh ainda estava preocupado com o desenrolar das coisas. Se as forças da Federação lançassem outro ataque à cidade de Fion e desdobrassem sua hoste principal, eles poderiam emboscar Lorde Aubrey novamente... Apesar de saber que o outro homem não cometeria tal erro duas vezes, ele não podia descartar completamente a possibilidade. Nesse caso, ele precisava de uma melhor compreensão da situação geral, o que não conseguiria daqui.

No entanto, o penhasco acima da passagem estreita daria a Hugh uma visão panorâmica do campo de batalha. Além disso, parecia que poderia ser viável em uma emergência. Eles poderiam descer o penhasco e entrar na passagem estreita, ou sair pelo lado norte ou sul da passagem.

Minhas ordens são para ficar alerta na retaguarda, mas posso fazer isso lá de cima também. Se eu levar uma bronca por isso mais tarde, descubro como me safar então. Além disso, não consigo imaginar Lorde Aubrey deixando um local tão importante desprotegido.

— Avistei cinco vigias — disse Ryo, retransmitindo a informação que obteve de seu Sonar Passivo para Hugh.

— Ok. Neutralize-os como planejamos.

À ordem de Hugh, cinco batedores, incluindo Sue do Switchback, desapareceram na floresta. Um minuto depois, eles ouviram um chamado de pássaro.

Sucesso.

Hugh e Abel assumiram a liderança e, após uma pequena caminhada, encontraram cinco soldados da Federação no chão, amordaçados e amarrados. Ainda vivos.

— Bom trabalho — disse Hugh.

Os batedores balançaram a cabeça felizes. Normalmente, os grupos operavam de forma independente e, em qualquer grupo, havia apenas um batedor. Era raro pessoas com o mesmo trabalho trabalharem juntas assim, então esses cinco se tornaram muito próximos durante a expedição.

Rah, o espadachim do Switchback, estava olhando para Sue enquanto ela conversava alegremente com um batedor masculino há algum tempo, mas não era ciúme. Não, de jeito nenhum! Ele estava apenas preocupado que o grupo do outro cara pudesse tentar roubá-la! Não era pessoal — ele só queria o melhor para o grupo!

— Eu sabia. A vista daqui de cima é excelente.

Do afloramento florestal no penhasco, eles podiam ver todo o campo de batalha abaixo deles. Eles determinaram que qualquer um escondido na floresta provavelmente seria invisível da base do penhasco e do campo de batalha. As forças da Federação haviam marchado pela passagem estreita, preparando-se para avançar em direção à bacia onde Fion estava localizada.

— Droga, quem quer que esteja na frente é construído como um tijolo— Espere, quatro pernas? — disse Hugh. — São aqueles golens de antes?!

— Eles têm uma presença intimidadora mesmo à distância, hm? — Ryo tinha uma expressão presunçosa, como se quisesse dizer: Viu? Você também quer um, não quer?

Hugh olhou para ele. — Não me importa o quanto você queira colocar as mãos em um deles. Não vai acontecer, garoto.

— Grr... — A presunção substituída pela frustração, Ryo fez mímica de enxugar as lágrimas.

Abel olhou para eles de lado e balançou a cabeça em exasperação.

— Os golens estão se aproximando.

— Eles não vão se segurar, huh?

— Ir de frente contra seus oponentes não deixa aberturas para o Principado explorar.

Ryo, Abel e Hugh não haviam testemunhado o ataque de perseguição paralela, então os surpreendeu descobrir que o infame Tacticista estava aparentemente confiando na força bruta. E, claro, eles não sabiam da arma secreta instalada em Fion.

Naquele momento, uma poderosa luz verde brilhou da torre mais alta da cidade. Um único raio de magia cortou o campo de batalha como um golpe da foice do Ceifador. Deveria ter tirado milhares de vidas naquele único golpe, mas os golens ergueram as mãos no ar. Uma luz branca brilhou, formando um escudo égide que bloqueou o raio e causou uma explosão verde que se espalhou em todas as direções a partir das criaturas artificiais.

— O que diabos acabou de acontecer? — Hugh disse o que todos que assistiam do penhasco estavam pensando.

Apenas uma pessoa parecia ter uma resposta.

— Aquilo é uma arma arcana — começou Abel —, mas...

Após o caos na capital real, seu irmão mais velho, o príncipe herdeiro, o havia convocado para revelar uma série de segredos de estado. Como parte de sua palestra, ele dera a Abel documentos sobre a arma arcana chamada Vedra, atualmente em desenvolvimento pelo Centro Real de Alquimia. Abel achou essa informação particularmente impressionante, já que o chefe do projeto era seu velho amigo, o Barão Kenneth Hayward. No entanto, ele também sabia que a arma estava atualmente sob a jurisdição do Ministério de Assuntos Internos, e seu desenvolvimento havia estagnado por falta de fundos. Além disso, as pedras de magia do ar usadas em Vedra eram as mesmas que ele e Ryo haviam vendido. Desnecessário dizer que Abel começou a suar frio enquanto ouvia seu irmão.

Foi por isso que ele entendeu a anormalidade da situação diante dele. Vedra era, por assim dizer, a arma secreta do Reino. Por que o Principado possuía uma arma arcana que parecia operar com o mesmo mecanismo?

— Aquele foi um ataque de atributo do ar executado com uma arma refinada através da alquimia, sim? — perguntou Ryo a Nash, uma maga do ar do Six Flowers. Ela deveria ter sido capaz de sentir ataques de magia do ar, mesmo que um dispositivo alquímico tivesse sido usado.

— Correto, embora eu não saiba que tipo de fórmula mágica é. — Nash franziu a testa e balançou a cabeça.

— Entendo... — Ryo franziu a testa também, depois assentiu uma vez.

— Aquela arma é muito pior do que vocês podem imaginar — disse Rah, o espadachim do Switchback. Ele se aproximou sem que percebessem. — Milhares de soldados morreram naquela única varredura enquanto estávamos lançando nosso ataque surpresa. — Ele testemunhou o ataque impiedoso da Tempestade Verde ordenado pelo Príncipe Loris de Inverey.

— Você está... — Ryo parou de falar em choque, juntando-se a todos os outros que ficaram sem palavras.

— Então o que aconteceu com os golens, já que eles podem desviá-lo? — perguntou Ash, a maga do fogo do Six Flowers.

— Boa pergunta — disse Hugh com um aceno de cabeça pensativo, seu olhar retornando ao campo de batalha.

Enquanto conversavam, as forças da Federação continuavam seu avanço perfeitamente coordenado. Então a luz verde mais uma vez surgiu da torre em Fion. Desta vez, em vez de varrer a planície, a luz formou um feixe concentrado direcionado a um único golem no centro. Novamente, uma luz branca apareceu nas mãos do golem, criando uma barreira invisível que impediu a luz verde de alcançar o golem.

— Um arco eletromagnético? — Ryo murmurou para si mesmo.

Hugh, Abel, Landenbier e todo o Six Flowers ouviram e olharam questionadoramente para o mago da água.

— Ryo, você sabe o que está acontecendo? — perguntou Hugh em nome do grupo.

Ele estava pensando nos camarões-pistola gigantes que vivem no oceano e que o nocautearam com sua onda de choque de plasma. De volta à Terra, o camarão-pistola vive nas águas costeiras do Japão. Quando estalam suas garras, criam bolhas de cavitação que geram ondas de choque quando estouram. As bolhas podem até gerar plasma capaz de atingir temperaturas de até 4.400 graus. Os camarões usam essas ondas de choque para caçar e se comunicar; algumas espécies até as usam para cavar buracos em recifes de coral. Os humanos usam uma técnica chamada soldagem por arco de plasma para soldagem subaquática, mas pesquisas na Terra foram conduzidas para ver se o plasma do camarão-pistola poderia ser um substituto viável.

No entanto, o que Ryo estava testemunhando estava acontecendo em terra, não debaixo d'água. Afinal, as bolhas de cavitação só funcionavam em líquido. Então, o que era esse fenômeno? Ainda era plasma. Em particular, se enquadrava na categoria de soldagem por arco de plasma mencionada anteriormente.

Quando a Boeing patenteou um método de criar ondas de choque por meio de arcos eletromagnéticos, tornou-se bem conhecido entre um subconjunto de entusiastas por sua semelhança com as espadas de plasma empunhadas pelos cavaleiros em uma certa franquia de ficção científica. Felizmente, Ryo era um desses entusiastas.

Essa tecnologia deveria proteger pessoas e carros das ondas de choque de explosões, gerando plasma através de descarga de arco e outros métodos, causando mudanças na temperatura e na densidade do ar que dificultam a propagação das ondas de choque. Ryo sentiu que era provavelmente isso que os golens estavam fazendo, mas como ele deveria explicar tudo isso para os outros?

— As pequenas quantidades de raios geradas nas mãos dos golens distorcem o ar e impedem que a magia do ar os atinja — explicou Ryo.

Ele não estava mentindo. Além disso, seria difícil, se não impossível, para qualquer um deles provar que ele estava errado de qualquer maneira, independentemente de quão básica fosse sua explicação.

— Entendo — disseram os homens em uníssono.

Hugh, Abel e Rah assentiram solenemente. Eles não realmente entendiam; eles apenas fingiram por orgulho.

As três irmãs do Six Flowers e Sue perceberam tudo, no entanto. Elas não disseram nada, olhando para os homens com pena nos olhos.

Cerca de quinze golens marchavam na primeira fila. Atrás deles, as forças da Federação seguiam em formação. A Tempestade Verde ignorou os golens e mirou nas pessoas, mas os arcos eletromagnéticos dos golens ainda podiam bloquear os ataques.

— A cidade está ferrada nesse ritmo, não está? — disse Hugh.

Ryo e as três irmãs assentiram.

— Mestre da Guilda, alguma ideia? — perguntou Abel.

Hugh piscou. A pergunta era tão vaga que nem ele esperava. — Como diabos eu vou saber? — respondeu ele.

— Nesse ritmo, Fion vai cair. E quando isso acontecer, Inverey e sua família terão que escapar, certo?

— Claro que sim. Eles devem viver se houver alguma esperança de restaurar o Principado.

O Príncipe Loris não tinha filhos, apenas duas filhas jovens, o que significava que ele precisava sobreviver para garantir que o país mantivesse uma liderança estável. Essa era a avaliação de Abel e Hugh, de qualquer maneira.

— Então, de onde eles escaparão e como sairão daquela bacia? — perguntou Landenbier, mestre da guilda de Acray. Ele se aproximou de Hugh sem que ele percebesse.

— Quanto a onde, tenho certeza de que eles já têm uma rota de fuga. O problema real é como, eh? Mesmo que consigam, a próxima pergunta se torna para onde irão depois.

— Para o Reino. Não é a resposta óbvia? — Abel respondeu a Hugh.

— Bem, essa é a opção mais realista. Mas será que Knightley os aceitará? Isso sem mencionar quanto tempo levará para os burocratas tomarem uma decisão. Nesse caso, precisaríamos de um lugar para esconder Inverey, sua família e o resto de seu povo, huh?

— A essa altura, talvez devêssemos tentar outro ataque surpresa a Lorde Aubrey — sugeriu Rah.

Hugh balançou a cabeça lentamente. — Ele faz parte da força que marcha sobre Fion.

— Sério? De jeito nenhum...

O bom senso ditava que o comandante supremo de um exército não deveria estar na vanguarda de seu exército, mas Lorde Aubrey, um veterano de inúmeras batalhas, sentia-se em casa no meio do combate.

— Sim, e é por isso que a Divisão Leste não pode fazer nenhum movimento.

Do penhasco, eles não podiam confirmar o paradeiro das outras unidades da força expedicionária do Reino. Independentemente disso, eles sabiam que era apenas uma questão de tempo até Fion cair, e não havia absolutamente nada que pudessem fazer a respeito.

— Talvez Lorde Forsyth tenha desistido da cidade — murmurou Hugh, mas ninguém o ouviu.

Vamos retroceder cerca de meia hora e visitar o quartel-general da Federação.

— Vossa Excelência — relatou Lamber —, perdemos as comunicações regulares do topo do penhasco.

Eles empregavam um método simples de comunicação: seus agentes usavam um espelho para refletir a luz do sol em direção ao QG. Eles deveriam se reportar a cada dez minutos, mas até agora, seu pessoal no penhasco havia perdido dois contatos. Algo devia ter acontecido.

— Eles devem ter sido atacados pelos aventureiros do Reino — disse Lorde Aubrey, permanecendo extremamente calmo. Na verdade, ele até parecia ligeiramente aliviado.

— Meu lorde, o que sugere que façamos?

— Deixe-os. Não há necessidade de levantar um único dedo.

— Perdão? — As instruções de Lorde Aubrey foram uma surpresa, até mesmo para Lamber.

— Espero que os ocupantes sejam o Mestre McGlass e seus homens... Mas mendigos não podem ser exigentes, eh?

Sem que ele soubesse, Aubrey já havia conseguido o que desejava.

— Perdoe-me, mas por quê?

— Acalme-se, Lamber. É simplesmente melhor saber onde nosso problemático inimigo está do que não ter conhecimento de sua posição. Você preferiria que eles estivessem em qualquer lugar na floresta ou em um penhasco, onde devemos levar em conta cuidadosamente qualquer possibilidade?

As forças de guerrilha eram uma ameaça tão grande precisamente porque eram elusivas. Uma vez que ocupassem uma aldeia e se tornassem imóveis, o exército invasor estava livre do medo de nunca saber quando ou onde seriam atacados. Era isso que Aubrey queria dizer.

— Falando na floresta, Odoacer está em movimento?

— Sim. Ele está conduzindo sua investigação.

— Bom, bom. A única coisa que resta a fazer é juntar-me ao avanço da hoste e garantir que não sejamos atacados.

Com uma risada, Lorde Aubrey se jogou e sua hoste principal na linha de frente.

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