The Water Magician

Volume 5 - Capítulo 7

The Water Magician

Aberdeen, a capital do Principado de Inverey, situava-se quase no centro exato das maiores planícies do país, a Planície de Aban. A leste corria o Rio Doniclus, ostentando uma das maiores bacias hidrográficas das Províncias Centrais. Por sua localização a ter tornado, antes de mais nada, uma cidade comercial, carecia de fortificações robustas capazes de repelir grandes exércitos.

E Aberdeen estava atualmente cercada pelo exército da Federação. A força principal, liderada por Lorde Aubrey, estava ao norte, com as forças restantes a cercando em todas as outras direções. Nem um rato conseguiria escapar do cerco.

— Voltei, meu senhor — anunciou Odoacer, capitão da unidade de reconhecimento.

— Muito bom. E o Terceiro? — respondeu Aubrey, referindo-se ao Terceiro Batalhão Independente da Federação.

— Em posição, conforme suas ordens — respondeu o homem de cabelos prateados, com uma expressão impassível.

— Duvido que tenha encontrado muita resistência do Imperador das Chamas, mas suponho que Faust resmungou bastante? Afinal, não lhe dei muita escolha sobre sua participação nesta guerra. É, sem dúvida, sua primeira exposição ao incômodo de ter que seguir ordens.

Aubrey riu. Ele havia antecipado a reação de Faust, e foi por isso que enviou Odoacer para impor sua ordem em primeiro lugar. O capitão de seus batedores ocupava um alto posto no exército da Federação, o que, juntamente com sua disposição, permitia que ele se ombreasse com os generais.

Odoacer inclinou a cabeça, confirmando silenciosamente sua teoria.

Lorde Aubrey, no entanto, captou um relance de algo em seu rosto. Aquele olhar sempre significava que Odoacer tinha mais a dizer. Às vezes, ele até apontava algo que o próprio Aubrey havia negligenciado. — Há algo que o perturba, Odoacer? — perguntou Lorde Aubrey. — Diga-me.

— Na verdade, ambos estavam engajados em combate individual quando cheguei a Zimarino.

— O Imperador das Chamas e Faust? Eram os únicos a lutar?

— Sim. Os demais não estavam em posição de interferir porque estavam cercados por gelo. — Apesar de seu tom pragmático, Odoacer estava, na verdade, perplexo. Ele ainda não tinha certeza de como descrever aquela situação.

— Hm. Espere um momento... Você disse que ambos estavam no meio do combate. Pensei que fossem o tipo de combatentes que matavam seus oponentes instantaneamente, não? Então, contra quem estavam lutando?

— Aquele que lutava contra o Mestre Flamm Deeproad se identificou como Abel, da Fronteira da Aurora.

— Aquela gente que anda fazendo arruaça no Grão-Ducado de Volturino, eh? Se bem me lembro, eles são liderados por—

— Correto, a filha do grão-duque. Flora Leggiero Vigi.

— Sei que o premiê da Federação não deveria dizer isso, mas ela e sua Fronteira da Aurora não passam de uma praga, não?

Lorde Aubrey não levava a Fronteira da Aurora a sério. Na verdade, as pessoas pareciam usar o grupo como bode expiatório sempre que algo dava errado, então o governo nacional não via necessidade de intervir. Além disso, cada país da Federação tinha a jurisdição para lidar com seus próprios problemas regionais.

— É como diz. No entanto, esse Abel estava em pé de igualdade com o Mestre Deeproad.

— Certamente você está brincando? A Aurora sempre teve um trunfo tão poderoso? Francamente, acho isso difícil de acreditar... Odoacer, você disse que Flamm e Faust estavam lutando. O oponente de Faust também era um membro da Fronteira da Aurora?

— Muito provavelmente, mas o Mestre Faust não conseguiu saber o nome dele... — Odoacer fez uma pausa, pensativo.

Aubrey o conhecia há muito tempo. Ele era subordinado do premiê desde seus primeiros dias como um mero oficial comandante, e era raro ver Odoacer escolher suas palavras com tanto cuidado.

— Os subordinados do Mestre Flamm o chamavam de Lorde Demônio Vermelho.

— O Lorde Demônio Vermelho? Já ouvi os rumores, e são particularmente difundidos perto da fronteira ocidental. São absurdos. — A boca de Lorde Aubrey se torceu em um sorriso sardônico.

Nenhum dos rumores sobre o Lorde Demônio Vermelho fazia sentido. Uma parede de gelo que repelia a Chuva de Balas, a magia aérea mais avançada? Impossível.

Infelizmente, o rosto de Odoacer não havia se alterado de sua expressão sombria. Embora ele fosse geralmente estoico, e mesmo agora seu rosto tivesse mudado tão pouco que poucas pessoas notariam a diferença, Aubrey conseguia lê-lo melhor do que ninguém. Para Aubrey, o rosto de seu subordinado estava praticamente gritando: Não subestime este oponente.

— Você lutou contra esse Lorde Demônio Vermelho?

— Apenas brevemente.

— E isso foi o suficiente para você determinar que ele é perigoso.

— Sim.

Aquela única palavra surpreendeu Lorde Aubrey. Como capitão da unidade de reconhecimento, Odoacer era um batedor profissional. No entanto, ele também podia liderar tropas em batalha, analisar o fluxo de uma batalha em nível tático e até mesmo gerenciar a grande estratégia de suas forças. Sem mencionar sua aterrorizante habilidade em combate corpo a corpo.

Excluindo Aubrey, ele era o mais próximo do comandante perfeito em todo o exército da Federação. Considerando seu domínio das artes marciais, Odoacer poderia até ter superado o próprio Aubrey.

Era exatamente por isso que o premiê normalmente o estacionava na fronteira entre a Federação e o Império. O terreno na fronteira entre as duas nações era intransponível para grandes exércitos, mas não totalmente impossível de navegar. Ao longo da história, o lado capaz de manobrar uma grande força através de terreno aparentemente intransponível sempre saiu vitorioso. O Capitão Odoacer supervisionava essa região de fronteira, que tinha uma força militar vastamente superior à da Federação.

A confiança de Aubrey em Odoacer era absoluta. Se ele acreditava que esse homem misterioso representava uma ameaça, ele não podia e não iria ignorá-la.

— Muito bem. Assim que esta guerra acabar, você tem minha permissão para conduzir uma investigação completa sobre a Fronteira da Aurora. Isso inclui tanto o Lorde Demônio Vermelho quanto Abel.

— Muito obrigado, meu senhor. — Odoacer curvou a cabeça profundamente.

— Vossa Excelência, vinte horas se passaram desde que emitimos a declaração de rendição — relatou o General Lucien, comandante do exército central da Federação. — Apesar do prazo ter expirado, não houve resposta da outra parte.

O General Lucien era um dos poucos escolhidos treinados pelo próprio Lorde Aubrey; ele também acompanhou o premiê em várias batalhas, tornando-o um oficial experiente. Seu relatório era um pedido tácito da permissão de Aubrey para atacar.

— Eu já esperava. Certo. Faça o que deve ser feito — disse Aubrey. Lucien e os outros comandantes assumiriam a partir daqui, usando seu melhor julgamento no campo.

Às vezes, eu também anseio por retornar…

Uma onda de nostalgia o atingiu ao pensar nas linhas de frente… Originalmente um soldado, ele sentia uma sensação de regresso a casa toda vez que pisava em um campo de batalha. De certa forma, ele podia ser considerado um maníaco louco por batalhas.

Assim começou a ofensiva da Federação.

Para garantir que pudessem manter o controle da capital após sua queda, o exército atacou os portões da cidade — que seriam mais fáceis de reparar — em vez de suas muralhas. As muralhas e baluartes de uma capital eram geralmente protegidas por magia defensiva. Na maioria das vezes, isso vinha na forma de dispositivos alquímicos que magos de qualquer elemento poderiam operar simplesmente derramando mana neles. Também não era incomum usar um conjunto de pedras mágicas para armazenar e permitir que os defensores usassem os dispositivos sem a necessidade de magos para atendê-los constantemente.

Aberdeen, como capital de Inverey, estava naturalmente equipada com uma defesa de magia de ar muito popular.

— Senhor, uma das máquinas na muralha norte não está respondendo!

O Comandante da Guarnição, Nigel, estremeceu com a notícia devastadora. Embora os dispositivos alquímicos e as pedras de alquimia no centro de comando estivessem operando sem problemas, o mesmo não podia ser dito da muralha norte — que por acaso ficava perto de…

— Os portões da cidade?

Como aquela poderia ser a única máquina com defeito?

— Malditos sejam esses desgraçados da Federação.

Eles obviamente haviam sido sabotados sem o conhecimento dos defensores. Provavelmente aconteceu dentro do prazo de vinte e quatro horas que lhes foi dado para se render. Agora, Nigel era forçado a tomar uma decisão. Soldados e magos haviam sido posicionados nas muralhas para proteger a cidade. Com a ajuda deles, a capital poderia resistir — ou não.

Agora, se o primeiro ataque do Estratega rompesse os portões da cidade, que estavam vulneráveis com as defesas mágicas defeituosas, tudo estaria perdido.

— Merda, não temos escolha. Sei que é cedo, mas ativem a Tempestade Verde. E rápido!

— Vossa Excelência, a defesa do portão da cidade caiu como planejado.

— Eles obviamente negligenciaram suas verificações de última hora. Mesmo que tivessem feito, duvido que conseguissem consertar o problema a tempo, considerando que estão com falta de pessoal para começar — disse Aubrey.

— Mas esta é a capital do Principado. Como poderiam não ter gente suficiente? — perguntou Lamber.

— Essa é a questão, hm? — Um lado de sua boca se curvou.

— Agora, então… — murmurou Lorde Aubrey, sua voz tão baixa que nem Lamber conseguiu ouvi-lo. — Se eles têm uma arma secreta, vão colocá-la em jogo mais cedo ou mais tarde.

— Senhor, a Tempestade Verde foi ativada. A cavalaria inimiga estará ao alcance em dez segundos.

— Bom. Espalhe bem a primeira salva. Envolva o máximo de inimigos possível.

— Três, dois, um… Eles estão ao alcance.

— Acabem com eles!

Naquele momento, uma luz verde emanou de uma torre que se erguia sobre o centro de Aberdeen. Com um clarão, ela varreu a unidade de cavalaria da Federação que avançava em direção à muralha norte. Eles foram instantaneamente despedaçados e obliterados.

— Primeiro ataque, bem-sucedido.

— Huzzaaaaaah!

Vivas ecoaram no centro de comando. Até mesmo Nigel, que havia mantido a compostura todo esse tempo, cerrou o punho em triunfo. Eles haviam realizado disparos de teste várias vezes, mas este foi o primeiro bombardeio real. Apesar da falta de ensaio, por assim dizer, a arma desempenhou seu papel brilhantemente. Ele quase ergueu o punho no ar como seus homens.

— Venham a nós, invasores. Vamos reduzi-los ao seu devido lugar quantas vezes quiserem.

Seu monólogo foi mais alto do que ele pretendia, porque sua segunda em comando, Meredith, que estava ao seu lado, ouviu. Assim como os outros.

A hoste principal da Federação viu um clarão de luz verde, e então a cavalaria de vanguarda foi aniquilada em um instante.

— O que acabou de—

Até Lorde Aubrey não conseguiu formular uma frase em seu choque.

— Vossa Excelência— Eu— Aquilo— O quê?

Lamber, seu braço direito e ajudante, também estava confuso. Como o Principado de Inverey escondeu a existência de uma arma tão poderosa?

— Uma arma arcana… — disse Aubrey com os dentes cerrados, referindo-se a armamentos de alta potência que usavam alquimia.

Nesta era, não havia muitas armas grandes o suficiente para merecer tal rótulo. Manifestar um fenômeno mágico em uma escala capaz de afetar um campo de batalha inteiro exigia alquimia altamente avançada, tecnologia metalúrgica e uma profunda compreensão da magia. Era muito difícil atender a todas essas condições, especialmente a primeira e a última, mesmo para uma das três grandes potências. Era quase desnecessário dizer que uma nação precisaria da ajuda de um alquimista do mesmo calibre que Kenneth ou Frank. No que diz respeito à compreensão dos segredos mais íntimos da magia, a maioria das pessoas nas Províncias Centrais acreditava que os feitiços eram ativados ao entoar encantamentos específicos. Nada mais, nada menos. Isso era magia. Em uma sociedade como esta, em um mundo como este, obter uma “profunda compreensão da magia” era terrivelmente difícil, a menos que você fosse um excêntrico obcecado por magia como Hilarion Baraha…

Como esses fatores eram difíceis de superar, não existia nada que se assemelhasse a uma verdadeira arma arcana. Algumas lendas diziam que o continente flutuante do Império Supremo da Babilônia estava equipado com inúmeras armas arcanas, ou que a espada sagrada Astarte, a arma do Herói, era uma arma arcana, mas era só isso.

Até agora. Algo que poderia ser chamado de arma arcana acabara de devastar a cavalaria da Federação. Ninguém, exceto Lorde Aubrey e Lamber, conseguiu dizer uma palavra.

Uma arma arcana... Surpreenda-me. Eu sabia que a alquimia de Inverey era avançada, mas a esse ponto... Hm? Alquimia? Entendo, agora que penso nisso, golens artificiais também são armas arcanas.

Nesse ponto, Aubrey deu suas ordens a Lamber: — Convoque o Dr. Frank de Velde imediatamente.

— I-Imediatamente, meu senhor.

E com isso, ele correu para cumprir sua ordem.

Dr. Frank de Velde, o genial alquimista que havia conseguido criar o golem artificial, gargalhou enquanto observava a carnificina do campo de batalha. — Ha ha ha! Mwa ha ha ha ha ha! Fantástico! Maravilhoso!

Aqueles ao seu redor não o repreenderam por sua explosão. Em vez disso, olhavam boquiabertos para os restos da vanguarda, sem palavras.

— Verdadeiramente espantoso! — disse Frank para si mesmo. — Aquilo era Vedra? Era Vedra, não era? Vedra... Se essa é a forma final, ainda está para ser visto, mas deve ser Vedra. Então, o que isso significa? Kenneth está aqui? Ele também abandonou o Reino? Ele desertou para o Principado? Não, ele não. Ele amava seus pais. Ele nunca os abandonaria para ir para o exterior... Então por que Vedra está na capital de Inverey? A única coisa que consigo pensar é que os resultados da pesquisa foram roubados... Hmm. Possível. O próprio Kenneth nunca faria algo tão idiota, mas outra pessoa? Muito possível. Roubar os frutos do trabalho de outra pessoa... apenas escória faria isso. De qualquer forma…

Ele sorriu.

— Isso significa apenas que posso testar minhas belezuras contra Vedra.

Lamber chegou sob as ordens de Lorde Aubrey e encontrou Frank de Velde gargalhando maniacamente.

— Vossa Excelência, eu o trouxe como solicitado — disse Lamber.

— Estou mobilizando os golens — disse Frank de Velde.

— Estamos de acordo, Dr. de Velde — respondeu Aubrey. — No entanto, desejo saber o que é aquela luz verde.

— Claro. Aquilo é Vedra. Bem, suspeito que seja uma imitação dela, para ser mais preciso. De qualquer forma, não tenho dúvidas de que é Vedra.

— E o que é isso?

— A arma secreta do Reino — disse Frank com um sorriso de escárnio.

Suas palavras surpreenderam Aubrey. Por que a arma secreta de Knightley estava nas mãos de Inverey?

Não, agora não é a hora. O fato de que o bom doutor parece tão conhecedor sobre esta Vedra é a prova de que a sorte ainda está conosco. Como é a arma arcana do Reino, ou ele ou o Barão Kenneth Hayward, o outro gênio, devem tê-la desenvolvido durante seu tempo lá. De uma forma ou de outra, os golens artificiais podem ser capazes de contra-atacar.

— Vedra usa magia de ar para produzir ondas de choque tão minúsculas que vaporizam qualquer coisa em seu caminho — explicou Frank. — Eu gostaria de testar uma teoria minha usando os golens. Podemos perder um, mas seu sacrifício está dentro dos limites aceitáveis do campo de batalha, certo?

— Sim. Você é o especialista. Deixo o assunto a seu critério. Eu teria hesitado se você dissesse que meus soldados teriam que ser sacrificados em seu teste, mas faça o que quiser com seus golens — respondeu Lorde Aubrey sem hesitação.

— Excelente. — Frank ergueu uma pequena pedra de alquimia até a boca. — Enviem o primeiro golem! — disse ele na pedra, usando-a para contatar seus subordinados na equipe de golens. Ele havia feito o mecanismo de comunicação no Reino, mas desde então havia criado uma pedra mágica separada para armazenar mana, permitindo que pessoas que não podiam usar magia operassem o dispositivo.

Frank de Velde era um alquimista, então podia usar magia. Dois elementos, na verdade: fogo e ar. Ele não teve a ideia de usar uma pedra mágica dentro de outra por sua causa — ou de ninguém, na verdade. Ele apenas o fez porque era possível e, quando tentou, funcionou. Era só isso.

Ele não era bem um cientista louco. Se uma invenção ameaçasse causar problemas para os outros, ele hesitaria em prosseguir — mesmo que geralmente seguisse em frente com a tentativa de qualquer maneira. Ainda assim, ele não queria perseguir seus interesses se isso significasse mudar radicalmente a vida de outra pessoa. Mas se a situação não fosse tão terrível e o impulso de inovar o atingisse, ele cederia.

Esse era o tipo de homem que o Dr. Frank de Velde era.

Pouco depois da ativação da Tempestade Verde, Meredith, vice-comandante da guarnição da cidade, correu para encontrar Nigel.

— Senhor, o inimigo está em movimento.

Ela e Nigel subiram imediatamente na muralha mais próxima.

— O que é aquilo? — sussurrou Meredith, maravilhada.

Nigel suspeitava que já sabia a resposta.

— Um golem artificial recém-desenvolvido.

Devido à natureza de sua posição como comandante da guarnição de Aberdeen, ele tinha acesso a uma grande quantidade de informações altamente confidenciais. O Chefe Salieri, chefe da divisão de inteligência de Inverey, havia transmitido uma dessas informações pertencentes a golens artificiais, pois sua disseminação era vista como vital para a defesa do Principado.

A coisa que se aproximava lentamente da cidade devia ser um espécime desses.

— Precisamos voltar correndo para o centro de comando.

Nigel desceu correndo a muralha, com Meredith em seus calcanhares. A Tempestade Verde era a única esperança deles contra o perigo que se aproximava, mas desta vez, eles não podiam dispersar o fogo da arma como haviam feito antes.

Mas uma coisa o incomodava. Por que apenas um único golem artificial vinha em direção a eles?

— Eles estão tentando avaliar a situação?

Mesmo que fosse esse o caso, destruí-lo completamente resultaria em um impasse contra o inimigo.

Nigel resolveu encontrar uma solução clara.

— Concentre o fogo desta vez — disse Nigel após subir ao centro de comando.

O artilheiro assentiu em resposta.

Seu ponto de observação elevado permitia que eles vissem além das muralhas, onde o solitário golem artificial se aproximava da muralha norte da capital do Principado.

A forma como a luz reflete em seu exterior faz parecer metálico… Aço, talvez? O modo de disparo de área de efeito da Tempestade Verde não funcionará, pois é melhor contra grupos de pessoas. Concentrar o poder da Tempestade Verde em um único disparo deve nos permitir perfurar aço facilmente. O golem artificial está em desvantagem!

Os pensamentos de Nigel corriam soltos enquanto ele tentava se tranquilizar. Independentemente de quantas vezes lhe dissessem “não se preocupe” ou “vai funcionar”, ver para crer quando se tratava de tecnologia de ponta.

— Golem inimigo estará ao alcance em dez metros — um subordinado gritou.

Nigel piscou, puxado de volta ao presente.

— Três metros, dois, um. Alvo ao alcance.

— Fogo!

Uma luz verde explodiu da torre novamente. Em vez de varrer a área, a luz se aglutinou em um único fragmento não maior que um braço humano e disparou direto no tronco do golem artificial. Atravessou o aço, e então a luz se espalhou e desapareceu.

O golem tombou lentamente para trás.

— Inimigo abatido.

— Uuu-huuuuul!

Vivas ecoaram por todo o centro de comando, mais altos do que na primeira tentativa bem-sucedida. A arma deles havia funcionado na arma secreta do inimigo. O raio havia acertado um golpe perfeito.

As tropas comuns consideravam a vitória impossível, mas a Tempestade Verde lhes dera naturalmente uma chance. Eles estavam começando a ter esperança.

Infelizmente, essa esperança não durou muito.

— O inimigo enviou golens adicionais — anunciou o vigia, colocando um freio imediato no clima do centro de comando.

— Quantos? — perguntou o Comandante da Guarnição Nigel, o primeiro a recuperar a compostura.

— Aproximadamente vinte.

— Então, quase todos eles, hein?

De acordo com o briefing do Chefe Salieri, vinte golens artificiais haviam sido confirmados. O inimigo acabara de implantar todos eles, o que confundiu Nigel.

Acabamos de mostrar a eles que somos capazes de derrubar sua arma, então por que enviar mais? Como armas secretas, os golens devem ser importantes, certo? Como usamos apenas um único raio concentrado, eles acham que podem avançar usando números absolutos? Estão apostando que a Tempestade Verde não consegue disparar em rápida sucessão? Estamos enfrentando Lorde Aubrey, o Estratega. Não consigo imaginar que seu processo de pensamento seja tão simples… Isso não faz sentido.

Apesar de suas preocupações, Nigel não teve escolha a não ser disparar a Tempestade Verde.

— Preparem-se para contra-atacar com rajadas concentradas. Artilheiros, esperem até que eles estejam ao alcance. Então, fogo à vontade.

— Sim, senhor.

Permitir que os artilheiros disparassem à vontade seria mais eficaz do que ter Nigel dando a ordem a cada vez. Na realidade, vinte golens representavam uma ameaça séria. Mesmo que fossem lentos, eles certamente poderiam alcançar e derrubar os portões da cidade.

Os golens se aproximaram em quatro colunas.

Hm… A Tempestade Verde já eliminou a primeira fileira de suas colunas. Se sua potência se mantiver, talvez consigamos derrubar a segunda fileira também.

Se conseguissem, a batalha terminaria em pouco tempo.

— Dez metros até os golens estarem ao alcance — anunciou o vigia, seguindo o mesmo protocolo.

— Atualização da situação nas áreas além do norte — disse Nigel, sentindo-se inquieto com a situação.

— Nenhum movimento no lado leste.

— O mesmo no lado sul.

— Nenhum movimento no lado oeste.

Os outros vigias não tinham nada a relatar? Nigel se sentia cada vez pior.

Isso não pressagia nada de bom…

Premonição, desconforto e preocupação não eram apenas instintos — eram conclusões a que um cérebro chegava com base na experiência e no conhecimento da pessoa. Como homem do campo de batalha, Nigel não podia ignorar seus instintos. Afinal, eles o haviam avisado em ocasiões anteriores, salvando sua vida. No entanto, no presente, ele não tinha escolha a não ser disparar a Tempestade Verde.

— Três metros. Dois. Um. Alvos ao alcance. Disparando.

No instante em que a Tempestade Verde foi ativada, Nigel viu uma luz branca brilhar na frente do peito do golem inimigo. Quando o raio da Tempestade Verde atingiu seu alvo, aquela luz branca piscou, desviando seu ataque para o lado.

— Que diabos acabou de acontecer?! — gritou Nigel.

— O ataque falhou — relatou o vigia.

Um silêncio pesado caiu sobre o centro de comando.

— Os golens estão ganhando velocidade. Eles estão correndo!

— Droga! Artilheiros, atirem assim que a arma estiver carregada! Usem bandeiras para sinalizar às unidades nas muralhas para tomar ações defensivas. Rápido!

O caos explodiu de repente. Após dar suas ordens, Nigel convocou Meredith, sua segunda em comando na guarnição, para um canto vazio da sala.

— Meredith, é isso: o pior cenário possível. Você cuida das pedras mágicas, como planejamos.

— Mas, senhor— — gritou Meredith.

— Meredith, isto é uma ordem! Pare de perder tempo e obedeça. E se você os vir tomando as muralhas, cumpra seu dever. Entendido? A sobrevivência de nosso país repousa em seus ombros — disse Nigel calmamente.

— Comandante…

— Meu destino está ligado ao da capital. Conto com você.

Com isso, ele mandou Meredith para fora do centro de comando.

Depois que o primeiro tiro da Tempestade Verde foi desviado, os artilheiros dispararam mais três sem sucesso. A cada vez, aquela luz branca brilhava na frente dos golens, e algum fenômeno invisível fazia o raio de luz verde desviar para o lado.

Quando os golens alcançaram os portões norte da cidade, eles os arrebentaram facilmente, encontrando quase nenhuma resistência. Assim que a força principal da Federação confirmou isso, eles enviaram a cavalaria restante para invadir Aberdeen pelos outros portões e capturar o centro de comando e a torre.

Não demorou muito para que a capital fosse perdida para as forças da Federação.

Quando Aberdeen caiu, Meredith já estava a cavalo, cavalgando para o sul.

— Comandante... Eu entregarei isto. Confie em mim — ela murmurou, segurando cuidadosamente uma bolsa contendo um pacote misterioso.

Um após o outro, os subordinados de Lorde Aubrey faziam seus relatórios:

— O castelo está completamente deserto.

— A arma arcana da torre foi destruída.

— Apenas cerca de quinhentos civis permanecem.

Ele achou cada um deles insatisfatório.

Mesmo que eu tenha previsto, tanto a fuga de Inverey e sua família quanto a destruição da arma me irritam sem fim. É o que é, eu suponho.

Com um suspiro silencioso, ele caminhou em direção à praça em frente ao centro de comando. Seus guarda-costas correram atrás dele. Embora tivessem ocupado a capital do Principado, não havia garantia de que arqueiros, magos e outros não estivessem ainda escondidos pela cidade. Se algo acontecesse ao líder deles, seria a cabeça deles…

Ao lado de Aubrey, Lamber entendia as preocupações dos guarda-costas como se fossem suas. Afinal, ele também era vítima dos caprichos de seu senhor. No entanto, o comportamento de Lorde Aubrey não mudava, não importava quantas vezes Lamber o advertisse. — Sim, sim—eu entendo — ele dizia toda vez, mas a verdade era que ele não entendia nada. Se Aubrey fosse um estadista nato, talvez tivesse sido mais cuidadoso com sua própria segurança. No entanto, ele era um soldado de coração. Ele pode nunca ter sido um aventureiro, mas não era estranho aos campos de batalha.

Talvez isso explicasse por que ele passou a ter tão pouca consideração por sua vida. Não importa o quão cuidadoso você fosse, a morte vinha para todos. Direto, sim, mas Aubrey havia chegado a essa conclusão há muito tempo.

Após se renderem, a guarnição da capital foi forçada a sentar-se no chão da praça. Nigel, o comandante, estava na frente.

Aubrey parou diante deles. — Eu sou Aubrey Hubble Coleman — disse ele — um dos escolhidos para servir como líder da Federação. Posso saber seus nomes?

Nigel ficou genuinamente chocado com a apresentação. Ele não apenas fora agradável, mas também usara seu nome completo. Enquanto a Federação ocupava esta cidade, era raro um inimigo se apresentar diante de soldados capturados e perguntar os nomes de seus oponentes. Sua impressão de Aubrey baseava-se em rumores de um general excepcional, mas um homem arrogante — uma impressão que se tornara certeza antes mesmo que ele soubesse. Mas este homem à sua frente… Estaria ele apenas encenando? Seja qual for o caso, ele não podia ignorar o líder de um país que acabara de se apresentar.

— Eu— Meu nome é Nigel Madden. Fui nomeado comandante da guarnição da cidade. E estes—estas são as pessoas sob meu comando. Não me importo com o que aconteça comigo, desde que você poupe a eles e aos residentes da capital. — Ele curvou a cabeça.

— Senhor…

Choros e murmúrios surgiram dos membros da guarnição ao seu redor.

— Hm. Lamber, há algum civil ferido?

— Não. Conforme suas ordens, Vossa Excelência, estamos proibidos de ferir os cidadãos e saquear a cidade. Até o momento, não há relatos de nenhuma dessas atividades. Se descobrirmos que algum de nossos soldados cometeu tais atos, eles serão decapitados no local, independentemente do posto.

— Aí está. Juro pelo meu nome que a segurança do povo está garantida.

— C-Como posso confiar em você? — perguntou Nigel.

— Chega de sua insolência! — Lamber retrucou.

— Lamber — disse Lorde Aubrey friamente — eu cuido disso. — Ele olhou para Nigel. — Sua inquietação é natural. No entanto, peço que considere o seguinte: pretendemos governar esta cidade. De que nos serviria ganhar a inimizade do povo? E na improvável eventualidade de massacrarmos todos aqui, você não acha que a notícia se espalharia para outras vilas e cidades, reunindo assim a resistência? Não é apenas por misericórdia que nos abstemos de ferir a população, mas também de um ponto de vista político. Fique tranquilo.

Até Nigel ficou aliviado depois de ouvir Aubrey explicar seu raciocínio detalhadamente.

— Tenho apenas uma pergunta — continuou Aubrey — que espero que você possa me responder.

— Depende do que você perguntar. Posso não ser capaz. Tenho que pensar na minha posição também — respondeu Nigel com uma careta. Embora estivesse grato por seus concidadãos estarem seguros, havia algumas—não, muitas—perguntas que ele simplesmente não podia responder.

— Por que quinhentos civis ainda estão aqui?

Nigel piscou, surpreso. — Perdão?

Ele pensara que o homem perguntaria sobre o paradeiro do príncipe ou informações sobre a Tempestade Verde, não sobre os civis que permaneceram na capital. O fato de ser a única coisa que ele queria saber era—bem, desconcertante, para dizer o mínimo.

— Entendo por que a guarnição permanece. Neste momento, ganhar tempo é a tática mais importante do Principado. Nesse caso, não há necessidade de nenhum civil ficar para trás. Sei que a maioria da cidadania já evacuou, mas por algum motivo, mais de quinhentos ainda permanecem. Embora alguns certamente estejam fracos demais para se mover, você não diria que quinhentos é um número muito grande?

Aubrey estava genuinamente curioso. Ele não precisava perguntar sobre assuntos puramente militares porque a maior parte da situação atual estava bem dentro de suas previsões, o que significa que nada particularmente fora do comum havia ocorrido. Além disso, um mero comandante de guarnição não saberia muito sobre manobras políticas de qualquer maneira, incluindo o paradeiro do príncipe e sua família. Em suma, não havia necessidade de perguntar sobre tais coisas, e foi por isso que ele fez a pergunta que mais o intrigava.

— Bem — disse Nigel — eles preferem morrer aqui na cidade a partir. Alguns estão enfermos, como você disse, mas a maioria simplesmente se recusou a abandonar seu lar.

— Entendo.

Lorde Aubrey também entendia o sentimento. Antes mesmo de fazer a pergunta, ele sabia que haveria tais indivíduos. Ele esperava não mais do que algumas dezenas, no entanto, então ficou surpreso ao saber que centenas haviam permanecido.

— Uma cidade grande e amada, eh? — murmurou para si mesmo. — Fique tranquilo que a vida de seu povo, incluindo aqueles sob seu comando, está segura. Aposto que vocês queimaram todos os suprimentos de comida. Se sim, meu exército alimentará a todos vocês. Espero que todos sejam cativos dóceis, pelo menos por enquanto.

Então Aubrey virou nos calcanhares e deixou a praça.

Os membros da guarnição da cidade ficaram boquiabertos. O comandante Nigel Madden era o único com a cabeça baixa. De certo modo, ele havia sofrido um golpe devastador pela mente aberta de Lorde Aubrey.

— Aquele homem pode devorar todo o Inverey... — disse ele em uma voz tão baixa que, felizmente, nenhum de seus homens o ouviu.

O destino de Aubrey era a torre no centro de Aberdeen, que havia disparado a luz verde mais cedo. Lá, ele provavelmente encontraria os restos da arma arcana que o Dr. de Velde havia chamado de “uma imitação de Vedra”. Apesar do relatório de sua destruição, ele queria vê-la, apenas uma vez, com seus próprios olhos.

Ele passou por vários postos de sentinela antes de chegar ao andar mais alto da torre, onde descobriu que já havia pessoas lá dentro. Ele deveria ter esperado por isso.

— Eu suspeitava que você não conseguiria resistir, Doutor.

— Ah, é você, Lorde Aubrey. Suponho que seu interesse também foi aguçado? — disse o Dr. Frank de Velde. — Corrija-me se eu estiver errado, mas você não disse que não entende absolutamente nada de alquimia?

O Dr. Frank de Velde e seus subordinados estavam atualmente investigando algo.

— Você tem uma excelente memória. Ainda assim, pode me culpar por estar interessado naquela luz verde? Eu desejava vê-la, independentemente de seu estado atual.

— Ba ha ha! O Estratega é definitivamente feito de outra massa. — Um lado da boca de Frank se curvou. — Gostaria de ouvir minhas ideias sobre o assunto?

Ele, de fato, queria que alguém pedisse sua opinião sobre a arma, mas discutir o tópico com um imbecil teria sido inútil. Um indivíduo de mesma mentalidade com um profundo entendimento de alquimia teria sido ideal. Infelizmente, nenhuma pessoa assim estava aqui… e seus subordinados não contavam, já que ele era muito superior a eles.

Nesse caso, por que não um homem com um intelecto incrivelmente aguçado, apesar de sua falta de conhecimento em alquimia? Frank esperava que a conversa fosse divertida por si só, pelo menos.

— Eu gostaria muito! Embora, se você pudesse começar explicando exatamente o que é Vedra, eu ficaria muito grato.

— Hm, você tem razão. Para resumir, Vedra é a arma secreta e arcana do Reino que utiliza magia de ar. Kenneth a projetou. Ela encapsula perfeitamente o trabalho de alguém conhecido como um prodígio. No entanto, ainda não estava completa quando eu ainda estava lá. O problema não era a habilidade dele. Não, era principalmente uma questão de orçamento. E pedras mágicas.

— Pedras mágicas? — Lorde Aubrey repetiu com uma inclinação curiosa da cabeça. Em sua subida, ele tivera um breve vislumbre da arma. Pelo que pôde ver, não havia pedras mágicas embutidas nela ou na sala ao redor deles. Nem mesmo fragmentos.

— Este aparelho requer não uma, mas duas pedras mágicas de ar razoavelmente grandes para funcionar. Kenneth experimentou com meios alternativos, como pedras mágicas menores e uma rede interligada de pedras mágicas. Ele pode ter tido sucesso agora, mas... não esta. Está usando o design antigo.

— No entanto, não vejo pedras mágicas em lugar nenhum.

— De fato. Alguém deve tê-las removido... — respondeu o Dr. de Velde com um pequeno aceno de cabeça.

— Provavelmente um membro da guarnição cumprindo ordens. A única razão para fazer isso seria… — Aubrey murmurou, pensando em voz alta.

Frank sorriu. — Porque eles têm outra arma em algum outro lugar, eh?

— A arma quase não tem componentes especiais. Adquirir duas grandes pedras mágicas de ar é o aspecto mais difícil... Sua única outra propriedade única é a fórmula mágica. As fórmulas de Kenneth são extraordinárias, para dizer o mínimo, e bastante distintas. A usada nesta não é exceção...

— Então você confirma que a fórmula é do Barão Kenneth Hayward?

— Confirmo. Sua pesquisa deve ter sido roubada. Pobre rapaz. — O Dr. de Velde franziu a testa melancolicamente. Qualquer pesquisador sabia que o roubo de seu trabalho seria indescritivelmente doloroso.

— Dr. de Velde, há mais duas coisas que eu gostaria de saber sobre este assunto.

— Oh? Você está livre para me perguntar o que quiser. Afinal, eu dependo do seu patrocínio. — Frank caiu na gargalhada. Sua atitude era completamente diferente do que um servo normalmente mostraria ao seu mestre. Para sua sorte, Lorde Aubrey não era do tipo que se importava com algo assim.

— Primeiro, qual é o alcance de tiro desta arma?

— Ah... Uma pergunta difícil logo de cara, eh? Falando francamente, depende inteiramente das próprias pedras mágicas. Dito isso, se eu tivesse que arriscar um palpite, um quilômetro... mais ou menos.

— Entendido.

Aubrey precisava saber dessa informação caso outra arma existisse. Com toda a probabilidade, ela devia estar localizada onde quer que Inverey tivesse se retirado…

— Minha segunda pergunta diz respeito a como os golens artificiais interceptaram o ataque desta imitação de Vedra.

Frank estreitou os olhos, os lábios tremendo em um sorriso de escárnio. — Diga-me.

— Meus magos acham que foi algum tipo de magia de ar. No entanto…

— Você acredita no contrário, Lorde Aubrey?

— Não, acho que eles estão corretos. No entanto, é... diferente da magia de ar normal. Uma magia de ar que é quase semelhante à magia de fogo... Embora eu não saiba se algo assim é possível, devo admitir que me pareceu estranho.

Numa reviravolta incrivelmente rara, os olhos de Frank se arregalaram de surpresa. — Pelo que me lembro, você não pode usar magia, meu senhor.

— Correto. Parece que me falta aptidão para isso.

— E mesmo assim você detectou tal distinção... Você é um homem de muitas surpresas, de fato. — Com isso, Frank executou uma reverência muito educada. Ao contrário da maioria de seus maneirismos até agora, este era um verdadeiro sinal de seu respeito.

— É realmente tão digno de louvor? — perguntou Aubrey, perplexo com a reação do outro.

— Sim. O que você fez é extremamente raro. Você chegou à sua conclusão usando apenas seu intelecto e conhecimento, sem qualquer percepção mágica.

Até o modo como Frank falava com ele havia mudado. Tão forte fora o choque para ele.

— Você está apenas meio certo sobre ser magia de ar. Você também está apenas meio certo sobre estar relacionado à magia de fogo. Para os golens, eu teria que começar explicando sua defesa de magia de ar, mas levará algum tempo. Tudo bem para você?

— Continue. Não me importo. — Aubrey disse com um aceno de cabeça.

— Deixe-me ver... Por favor, lembre-se da ferramenta alquímica que gera uma barreira protetora usando magia de ar, chamada 'membrana de carruagem' por conveniência. As mesmas que você fez as equipes de suprimentos carregarem.

— Certo, sim. Embora... devo perguntar, você não poderia ter inventado um nome melhor?

— O que está feito, está feito. Além disso, não fui eu quem o nomeou.

— Oh, diabos, não me diga que foi—

— Se o seu palpite é o Mestre Lamber, você estaria correto.

Lamber era um braço direito extremamente capaz, mas sua habilidade de cunhar uma frase era—

— Entendo... Você está certo, é o que é. Ele não tem má intenção. É assim que ele é…

— Hmm…

Com uma careta, ambos os homens olharam para baixo. Eles estavam bem cientes de que as tropas que realmente usavam os dispositivos no campo os haviam renomeado rapidamente para “bloqueadores de vento” porque seu nome original era terrível... Esse era, de fato, um nome muito melhor…

— Certo — continuou Frank, recuperando-se. — O dispositivo, colocado no centro de uma carruagem, gera uma membrana. A analogia mais próxima seria uma fonte.

Fontes projetavam um jato de água de seus centros, que se espalhava como um guarda-chuva fino ao redor delas.

— Fácil de entender. A água é magia de ar, então não tem efeito sobre quem está dentro da membrana.

— Correto. O item em Whitnash tem o mesmo mecanismo básico. A membrana de carruagem é uma versão rebaixada da Membrana de Defesa de Vento, que é completamente diferente da membrana defensiva do wyvern em que é modelada.

— Fascinante, totalmente fascinante.

Aubrey nunca fora um aventureiro, mas ele havia liderado cavaleiros e magos em caçadas de wyverns quando superiores o ordenaram que os exterminasse. Mesmo agora, ele se lembrava de quão aterrorizantes e difíceis as batalhas haviam sido.

— A membrana de um wyvern funciona expelindo ar por todo o corpo, o que é um mecanismo completamente diferente, embora possa não parecer. Uma vez que você rompe uma membrana de carruagem, todo o escudo desaparece, não oferecendo mais resistência. Não é o caso com os wyverns. Qualquer ataque, seja uma flecha ou um projétil mágico, continuará a enfrentar um fluxo frontal e contínuo de magia de ar, mesmo que o couro do wyvern já tenha sido atingido. É como atirar contra um vento contrário. Eventualmente, seus ataques sempre perdem o ímpeto.

— Sim… muito verdade. — Lorde Aubrey relembrou sua própria experiência. — Ergo, o único caminho para vencer um wyvern é desgastá-lo até que ele não consiga mais sustentar sua membrana defensiva.

— Agora vamos discutir os golens artificiais. Como acabei de mencionar, existem dois tipos principais de defesa de magia de ar. Não, havia dois tipos.

Aubrey inclinou a cabeça ligeiramente.

— Veja, o golem artificial não usa nenhum desses. Sua defesa é uma mistura de ar e fogo. Como devo dizer... Como pequenas explosões de relâmpagos. Sim, sim, é isso.

— Relâmpagos?

— Correto. Aquela coisa que ilumina o céu. Dá choque quando você toca. Quando atinge árvores, cria fogo, sim? Aquele relâmpago. — O Dr. de Velde franziu a testa, com dificuldade em explicar o conceito.

— Defender com relâmpagos... Difícil de imaginar. No entanto, uma tecnologia intrigante. Devo assumir que também tem outras aplicações?

— Você é um pensador rápido, Lorde Aubrey. Minha vez de lhe fazer uma pergunta agora. Mesmo com as defesas deles baixas, você não achou estranho como destruímos os portões da cidade sem problemas?

— Achei, na verdade. Imagino que você usou esse seu relâmpago para derrubá-los, eh? — respondeu Aubrey.

— Correto. Agora, confio que minha explicação o satisfez. Precisaremos de algumas pedras mágicas, mas... nada particularmente grande, então duvido que represente algum problema. Qualquer coisa a mais seria muito complicada. Ah, precisaremos de tempo para substituir quaisquer peças e reajustar as vinte unidades, considerando por quanto tempo as operamos. Felizmente, podemos devolver a primeira unidade derrubada pelo golpe inicial ao serviço com relativa facilidade, com apenas uma simples substituição de peça.

E com isso, o Dr. Frank de Velde concluiu sua explicação.

A última vez que Ryo esteve em Redpost, uma cidade na fronteira leste do Reino de Knightley, ele estava escoltando Gekko para o Principado de Inverey. Redpost também foi onde ele ajudou o ex-assassino Sherfi a remover a tatuagem de seu peito. A certa altura, a cidade estava transbordando de refugiados de Inverey. No entanto, muitos a usaram apenas como um ponto de passagem para o Reino. Sob o controle direto da família real, Redpost começou a mover os refugiados para o interior do país, então a onda inicial de refugiados se acalmou para um gotejamento muito mais gerenciável.

— O problema dos refugiados é difícil... — Ryo murmurou enquanto observava a cena.

Ele se lembrou das imagens de refugiados que vira na TV na Terra, dos países anfitriões lidando com eles e de várias populações se chocando sobre o assunto... O problema dos refugiados não era algo que pudesse ser resolvido com pena. A solução ideal era apoiar as terras natais dos refugiados para que eles não precisassem abandoná-las em primeiro lugar... Infelizmente, era difícil encontrar uma solução depois que o país de alguém já havia se tornado uma zona de guerra.

Ryo balançou a cabeça e entrou na sala de jantar da estalagem para encontrar um rosto familiar já lá.

— Um espadachim aventureiro de rank B com uma fisionomia feroz, lendo um livro que eu nem sei como ele conseguiu...

— Ei, eu posso te ouvir — retrucou Abel, erguendo os olhos do dito livro.

— O que você está fazendo aqui, afinal?

— Uhhh, tenho quase certeza de que eu estava lendo até que um mago da água me interrompeu.

— Você claramente tem um longo caminho a percorrer se uma interrupção tão pequena é tudo o que é preciso para estragar seu fluxo, Abel. — Suspirando e balançando a cabeça, Ryo abriu os braços dramaticamente.

— Ah, sim — disse Abel, com uma carranca. — Isso faz todo o sentido. Nem um pouco ilógico. De jeito nenhum.

— Eu me pergunto quanto tempo essa reunião vai durar…

— Boa pergunta. Até anteontem, eles estavam tentando descobrir como chegar à capital, mas agora não conseguem nem decidir se devem cruzar a fronteira.

A reunião tomou um rumo diferente assim que a notícia da queda de Aberdeen chegou. Claro, como eles não haviam visto a situação naquela cidade, algumas pessoas acreditavam que era apenas propaganda destinada a atrasar a expedição do Reino. Incluindo essas pessoas, todos se dividiram em três facções: aqueles que ainda defendiam invadir Inverey, aqueles que achavam que não deveriam mais intervir agora que Aberdeen havia caído, e os indecisos.

Cinco dias se passaram desde que Ryo e Abel enviaram as crianças para a segurança. Recentemente, eles pararam de se aproximar da sala onde os mestres de guilda de cada cidade — incluindo Hugh McGlass de Lune — discutiam a missão em questão.

— Honestamente, por que está demorando tanto em primeiro lugar? — perguntou Ryo.

— Provavelmente porque a cadeia de comando ainda não foi decidida. Também não há um líder claro — respondeu Abel. — Cada guilda tem uma hierarquia não escrita. No topo está, é claro, a sede na capital. O problema é que o vice-mestre da sede, não seu mestre de guilda, veio para Redpost.

— Ahhh, então se o mestre da guilda tivesse vindo, ele estaria no comando? — Ryo deixou escapar.

— Sim. Quem quer que ocupe essa posição é chamado de grão-mestre no Reino, já que está no topo de todas as guildas daqui. As guildas mais poderosas depois da sede estão nas maiores cidades do leste, oeste, norte e sul, mais Lune, a maior na fronteira. Mas como o grão-mestre não está aqui, as coisas estão uma bagunça agora.

— Uau! Então a guilda de Lune está bem no alto dessa hierarquia, hein!

Ryo ficou feliz que a organização à qual pertencia era bem conceituada. A maioria das pessoas era assim.

— Bem, nós acumulamos um monte de conquistas. Ao contrário das outras quatro grandes guildas, a de Lune é uma meritocracia porque fica no interior. — Abel parecia estar se gabando. Ele devia estar orgulhoso de que a Espada Carmesim estava incluída no histórico estelar da guilda.

— Os mestres de guilda das outras quatro cidades estão aqui.

— Ah, certo. Landenbier é o mestre da guilda de Acray agora — disse Ryo, referindo-se à maior cidade do sul. — Eu o conheci uma vez quando ele ainda estava na guilda de Kailadi.

Goro, magistrado de Kona, e outros haviam elogiado o homem como a consciência de Kailadi. Ele fora promovido de vice-mestre daquela cidade para mestre da guilda de Acray.

— Sim, ele é brilhante e um cara legal pra caramba. Mas como os outros três estão também no mesmo nível que ele e Hugh…

— Eles não conseguem decidir sobre um líder. — Ryo suspirou suavemente.

Não admira que não estivessem fazendo nenhum progresso. Uma reunião sem um líder estava fadada ao fracasso.

— O mestre do leste e o vice-mestre da sede querem atacar, mas os do norte e oeste querem ser cautelosos.

— Dois contra dois. Espere, e onde está o sul nisso tudo?

— Landenbier e Hugh estão neutros — respondeu Abel com uma carranca.

— Ouvi dizer que Hugh tem boas relações com o Principado, então estou um pouco surpreso com a posição dele. Pensei que ele largaria tudo e invadiria imediatamente.

— Porque isso não é só sobre mim, rapaz — disse Hugh, aparecendo de repente atrás de Ryo.

Qualquer outra pessoa teria se assustado com sua aparição repentina, mas Ryo e Abel haviam notado a aproximação de Hugh, então não ficaram surpresos.

— Droga, pelo menos finjam que eu assustei vocês — disse Hugh, melancólico.

— As vidas de trezentos aventureiros estão em jogo. E não são quaisquer uns. Todos de rank C ou superior. A nata da maldita nata. Perdê-los ameaçaria a própria sobrevivência do Reino.

Havia muitas florestas e montanhas dentro de Knightley. Em Phi, florestas e montanhas não pertenciam às pessoas — pertenciam aos monstros. Os aventureiros tinham que exterminar os monstros que saíam ou entrar para desbastá-los proativamente para evitar surtos.

Se aventureiros de elite deixassem de existir, os monstros nas florestas e montanhas poderiam surgir e engolir vilas e cidades por toda parte. Na verdade, esse fenômeno exato aconteceu com muitas cidades há três séculos. Registros indicavam que até mesmo um país inteiro nas Províncias Centrais havia sido destruído.

— Então isso não é algo que eu possa decidir apenas com base nos meus sentimentos. Além disso, o comando supremo da Federação é Aubrey. Não é um oponente fácil de lidar.

— Você o conhece pessoalmente, Hugh? — perguntou Ryo.

— Sim. Lutamos algumas vezes durante a última guerra. — Ele olhou para o nada, como se estivesse se lembrando de algo do passado, antes de continuar. — Vocês dois são lutadores incríveis, mas Aubrey é um verdadeiro monstro. Claro, sua habilidade com a espada é impressionante. Mais do que isso, porém, as pessoas o chamam de um gênio da guerra. Vou ser direto com vocês — eu não esperava que ele fosse para o campo de batalha pessoalmente depois de se tornar líder da Federação... Então talvez não seja uma má ideia recuar agora.

Abel e Ryo sentiram o quão dividido ele estava com a situação. Isso explicava por que ele estava permanecendo neutro.

No dia seguinte, a situação mudou quando uma carruagem chegou à estalagem. Na porta do veículo havia um brasão com uma espada e um cajado cruzados sobre um escudo, o emblema da guilda dos aventureiros do Reino. Um mago em seus meados dos cinquenta anos desceu. Com 1,85 metro de altura, ele carregava um cajado que era ainda mais alto que ele. Ele examinou a área com um olhar aguçado e depois entrou na estalagem e dirigiu-se à sala de reuniões.

O primeiro a notar foi Josiah Onsager, vice-mestre da sede da guilda na capital. — G-Grão-Mestre! — ele chamou.

Finley Forsyth era o grão-mestre da sede da guilda e o homem mais importante no topo das guildas de aventureiros do Reino. Enquanto ele caminhava pela sala de reuniões, os outros mestres de guilda se levantaram para recebê-lo. Depois que ele se sentou na cabeceira da mesa, que antes era ocupada por seu vice-mestre, os outros também se sentaram.

— Grão-Mestre, eu, uh… — começou Josiah.

Finley ergueu a mão direita, silenciando-o. — Venho a vocês agora trazendo uma mensagem do governo — disse ele, dirigindo-se solenemente ao grupo. — Crucem a fronteira e libertem o Principado.

Um silêncio momentâneo caiu sobre o espaço.

— Ebaaa!

O vice-mestre da sede e o mestre da guilda da maior cidade do leste do Reino de repente comemoraram.

Enquanto isso, os mestres de guilda das partes oeste e norte do Reino olhavam com amarga frustração.

Quanto a Hugh e Landenbier, representando o sul, eles apenas ficaram sentados em silêncio.

— Vossa Excelência — disse Lamber — recebemos um relatório da fronteira oeste de Inverey. Um grupo que se acredita ser de aventureiros do Reino rompeu às seis desta manhã. Nossas tropas abandonaram a ponte lá.

Lorde Aubrey inclinou a cabeça. — Já era tempo... Eles demoraram mais para tomar uma decisão do que eu esperava.

Ele tomou um gole de seu chá.

— De acordo com o relatório de nosso espião, uma carruagem com o brasão oficial da guilda chegou da capital real há alguns dias. Pouco depois, a decisão de atacar foi tomada.

— Deve ter sido alguém poderoso. O Grão-Mestre Finley Forsyth, eu acho. — Os cantos de sua boca se curvaram enquanto ele ria.

— Nós deslocamos o Terceiro Batalhão depois que eles capturaram Rednall para facilitar a travessia rápida da fronteira... Todos os nossos esforços desperdiçados, considerando que eles demoraram uma eternidade. Diga-me, Lamber, o que nossas forças devem fazer agora? — perguntou Lorde Aubrey, como se o estivesse testando.

— Esperamos para ver.

— Por quê?

— Nossa carta na manga são os golens artificiais, mas com exceção da Unidade 01, eles ainda não estão prontos para serem enviados para a linha de frente. Além disso, ainda não identificamos onde o príncipe de Inverey está escondido. No entanto, seu acampamento certamente passará informações para os aventureiros do Reino. Em suma, se monitorarmos seus movimentos, descobriremos onde Inverey está. Podemos então esperar que eles unam forças e os aniquilem. É por isso — disse Lamber, transbordando de confiança.

Então ele olhou para Aubrey e viu a malícia brilhando em seus olhos.

— E-estou enganado, meu senhor? — perguntou Lamber.

— Você está meio correto. Não há necessidade de esperar que eles se encontrem. Podemos atacar pouco antes de eles o fazerem, ou logo depois, no caos. Ou podemos supor onde Inverey e seus homens estão pela direção que os aventureiros estão seguindo. Eu já tenho uma ideia.

— Você tem mesmo?!

Até Lamber ficou surpreso com as palavras de Aubrey. Eles ainda não haviam recebido nenhum relatório sobre o paradeiro de Inverey e seu exército.

— Muito provavelmente Fion, no sul. No entanto, isso é apenas uma conjectura de minha parte. Enviei batedores, mas ainda não ouvi nada. Assim que eles confirmarem, atacaremos imediatamente.

— Sei que sou um neófito em comparação com você, Vossa Excelência, então peço perdão... Mas os aventureiros do Reino não representarão uma ameaça se chegarem ao campo de batalha?

— Precisamente, Lamber. É exatamente por isso que queremos que eles passem pela fronteira rapidamente e se dirijam à localização de Inverey sem realmente alcançá-lo. Você extraiu a verdade completa e honesta de mim agora.

— Entendo. É tudo tão... complicado, não é?

— De fato. A guerra é, sem dúvida, complicada.

Então Lorde Aubrey bebeu o resto de seu chá.

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