
Volume 5 - Capítulo 3
The Water Magician
Na manhã seguinte, Hugh McGlass liderou a expedição para fora da vila de Kona e chegou à mansão do Barão Momor sem incidentes às três da tarde.
Parado diante do prédio, Ryo deixou um leve sorriso cruzar seu rosto...
Este lugar provavelmente já está infestado de vampiros, e o servo do lorde agora é um de seus lacaios. O grupo, pego em uma armadilha, é forçado a um evento de combate! O vampiro, cercado por mais de cem de seus servos, grita para o grupo: “Tolos, eu os peguei na minha armadilha. Mwahahahaha!”
Naturalmente, seus amigos notaram e sussurraram entre si.
— Essa expressão...
— Sim, sem dúvida...
— Ele definitivamente está pensando em algo ruim de novo.
Amon, Eto e Nils já o conheciam há algum tempo, então sabiam o que se passava em sua mente.
— Ei, Ryo — chamou Hugh.
Ryo imediatamente recompôs sua expressão. — Sim? Como posso ser útil?
— Cê tá pensando alguma esquisitice?
Mesmo que não se conhecessem há muito tempo, Hugh podia sentir a mudança em Ryo. O esperado de um ex-aventureiro de rank A, na verdade.
— Não, de forma alguma — disse Ryo calmamente, como se tudo estivesse às mil maravilhas.
A mansão não era tão grande, o que fazia sentido, considerando que seu dono era um comerciante de pouca riqueza. O caseiro que os cumprimentou era um homem indefinido na casa dos cinquenta anos com um ar de secretário. Não importava como você olhasse para ele, era uma pessoa perfeitamente normal.
No momento em que viu o servo do barão, os ombros de Ryo caíram e sua cabeça pendeu ligeiramente.
A decepção de Ryo não passou despercebida pelo resto do Quarto 10.
— Eu sabia — murmurou Nils. — Ele estava pensando em algo louco.
Mas ninguém o ouviu...
◆
— Lorde Victory, isso é verdade? — disse o homem.
Eles lhe contaram sobre a possibilidade de um vampiro ter se estabelecido nas proximidades. Para confirmar suas suspeitas, Larshata havia pedido sua permissão para ir à vila de pescadores. O nome do homem era Kéenkan, e ele havia trabalhado como chefe de escritório para a empresa do Barão Momor. Ele fora um comerciante rico antes da elevação de seu senhor à nobreza. Depois, o barão o nomeou como seu representante e o enviou para administrar esta mansão e a vila de pescadores nos arredores do Reino.
— Mas essa vila de pescadores... — Kéenkan hesitou.
— Há algum problema? — Larshata perguntou com um sorriso. Ele tentou não ser autoritário porque queria que o homem cooperasse voluntariamente.
— Não exatamente... A verdade é que ela não faz mais parte do território do Barão Momor.
— O que quer dizer?
Kéenkan explicou que uma discussão ocorrera na capital real, após a qual o barão renunciou à propriedade da vila de pescadores para a família real em troca de terras na capital. Como resultado, o vilarejo não estava mais sob o controle de seu representante.
— Isso foi há cerca de um ano — disse ele.
Hugh ouviu atentamente.
A primeira pessoa desapareceu há aproximadamente dez meses... Talvez haja uma conexão.
Se os vampiros tivessem agido na vila de pescadores depois que ela saiu da supervisão de Kéenkan... ele podia entender por que demoraram tanto para encontrar pistas sobre a situação.
A família real não enviaria um administrador para uma vila de pescadores nos confins do Reino, especialmente para uma região que não fazia fronteira com nenhum outro país. Além dos coletores de impostos enviados anualmente para determinar a quantia devida ao estado, não havia muito contato oficial entre essa área remota e o governo.
— Independentemente do tamanho da vila, certamente os mascates ainda a visitam? — Larshata se perguntou.
— Mesmo antes de sua vila se tornar parte do baronato, os aldeões aparentemente costumavam viajar de barco para comprar mercadorias. Portanto, é totalmente possível que ninguém de fora tenha estado lá desde que parei de ir... — disse Kéenkan com uma carranca e um aceno de cabeça.
— Entendido. Com base no que você me disse, não consigo imaginar que você ou o barão possam ser responsabilizados. Falarei bem de você quando me apresentar ao relatório na capital, então fique tranquilo.
— Muito obrigado, meu senhor. — Kéenkan curvou-se profundamente para mostrar sua gratidão.
◆
— Três horas nesta estrada...
O grupo passou a noite na mansão e partiu para a vila de pescadores na manhã seguinte. Eles chegariam ao seu destino pouco antes do meio-dia. Mesmo que já tivesse caído nas mãos dos vampiros, o momento de sua chegada ainda lhes daria uma vantagem na batalha contra os strigoi...
— Está bem nublado, não está? — disse Ryo, olhando para cima.
— Com certeza, eh... Graham, considerando o estado do céu, acho que é seguro assumir que os strigoi...
— ...não serão afetados de forma alguma. Eles provavelmente estarão com força total — respondeu Graham com um amargo torcer de lábios.
— Bem, isso vai ser um problema, não vai? — Hugh franziu a testa para o céu nublado, depois voltou seu olhar para Ryo. — Ryo, como você lutaria contra os strigoi?
— Eu congelaria a vila inteira. Tenho a magia de água perfeita para isso. Eu a chamo de ‘Permafrost’.
— Rapaz, nem ouse — disse Hugh. Ele apenas estava puxando conversa, mas se arrependeu de ter perguntado depois de ouvir a resposta de Ryo. — É melhor não esquecer que está sob o controle direto da família real. Cê tem uns parafusos a menos por sequer pensar que essa é uma opção viável.
◆
— Por alguma razão, Hugh rejeitou meu plano perfeito, mesmo que ele tenha me perguntado em primeiro lugar — Ryo reclamou para seus três companheiros do Quarto 10 enquanto caminhavam.
— Qual era exatamente o seu plano? — Eto, sendo a pessoa gentil que era, perguntou-lhe.
— Curioso, não é? E por que não estaria? Ele me perguntou como eu lutaria contra os strigoi, então eu disse que congelaria a vila inteira usando o feitiço perfeito. Mas então ele me disse para não fazer isso, o que achei desconcertante... É um feitiço incrivelmente eficaz. — Ryo balançou a cabeça, lamentando a natureza impermanente do mundo.
— Se eu fosse ele, teria te dado a mesma resposta. Congelar a vila inteira? Cara, isso é loucura...
— Mas evitaria qualquer contra-ataque!
— E quanto a qualquer pessoa normal que ainda esteja lá? Pessoas que não foram transformadas?
— Não é um problema. Congelá-los não os mata, e assim que eu os descongelar, eles estarão novinhos em folha! — Ryo transbordava de confiança.
— Ah... Bem... Nesse caso... — Nils pressionou a palma da mão na testa e acenou um pouco para si mesmo. Sua expressão sugeria que ele estava se culpando por esquecer exatamente o tipo de cara que Ryo era.
— Deixando de lado a questão de congelar a vila — disse Eto —, precisamos de uma maneira de parar os strigoi se não pudermos evitar lutar contra eles. A mobilidade deles está muito além da de qualquer pessoa normal.
— Ryo, quando aceitamos a missão para a minha vila, você amarrou os braços e pernas do monstro com cordas que pareciam feitas de gelo — disse Nils. — Isso não funcionaria?
— Não é uma garantia se meu oponente for muito rápido — respondeu Ryo com um aceno de cabeça. — É por isso que acho que congelar a vila inteira é a nossa melhor opção...
— E já te dissemos que isso não vai acontecer — disse Nils.
— Como identificar um oponente veloz como um raio? Sempre a questão no cerne do combate — opinou Amon. Era típico que o mais jovem entre eles estivesse expressando as visões mais razoáveis.
Depois de mais meia hora de caminhada, eles estavam perto da vila de pescadores quando o Sonar Passivo de Ryo o alertou para alguém à distância observando seu grupo. Ele se apressou para perto de Hugh. Mesmo que o mestre da guilda já estivesse falando com Graham, ele olhou para Ryo.
— Hugh, estamos sendo observados. São dois deles.
— Você está brincando! — Morris, o batedor do grupo do Herói, ofegou.
— Eles estão mantendo uma distância de trezentos metros. Eu os detectei usando magia de água — disse Ryo, exaltando alegremente a superioridade da magia de água.
— Surpreendente... — sussurrou Morris, tão atordoado quanto Ryo esperava.
— O fato de estarmos sendo observados não é um bom presságio para a vila de pescadores, eh? Todos nela podem ter sido transformados em strigoi. — Hugh balançou a cabeça com uma careta. — Graham, você tem certeza absoluta de que strigoi não podem ser transformados de volta em humanos?
— Infelizmente, sim. Embora decididamente desumanos, experimentos sobre este mesmo assunto foram conduzidos nas Províncias Ocidentais no passado. Acredito que aconteceu depois que um príncipe se tornou um strigoi. Eles dissecaram muitas das criaturas e aprenderam que seus cérebros haviam degenerado, tornando impossível retorná-los ao seu estado original. Se o mestre vampiro deles morre, o servo também morre. Basicamente, ocorrem mudanças físicas além das mágicas — disse ele, frustrado, seu rosto se contorcendo em desgosto. — Significa que não há recurso para os condenados...
— Entendo... Que pena. — Hugh parou de andar e se virou para o grupo. — Escutem. Se algum strigoi vier para cima de nós, derrubem-no. Não pensem duas vezes. Hesitem, e vocês podem mandar um de nós para o túmulo.
Embora ele não tenha levantado a voz, as palavras de Hugh atingiram em cheio, acertando cada um deles no estômago.
Trinta minutos depois, o grupo chegou à praça em frente ao portão da vila de pescadores. Um homem em roupas bem cortadas os esperava, arrogantemente empoleirado em uma cadeira. Ele parecia ter cerca de trinta anos e estava flanqueado por homens e mulheres — ou, melhor, pessoas que antes haviam sido homens e mulheres. Agora, eram inconfundivelmente strigoi.
— Ele deveria ter nos emboscado — murmurou Ryo. — Suponho que os vampiros são honestos demais para o próprio bem, hm?
Apenas Nils o ouviu, provavelmente porque estava bem ao seu lado. Ele franziu a testa, depois balançou a cabeça em sutil exasperação. Ninguém notou.
Então o vampiro disparou o primeiro tiro.
— Então vocês finalmente se dignaram a nos agraciar com sua presença — disse ele com desdém. — Devo admitir, não esperava que demorassem tanto.
— Bem, agora, presumo que cê sabe exatamente por que estamos aqui, então?
— Mas é claro. Para nos derrotar prontamente, não? Devo dizer, estou bastante satisfeito em ver que vocês trouxeram um contingente de aventureiros poderosos para fazer o serviço.
— Deixe-me adivinhar — gente talentosa vira servo melhor, eh? É por isso que cê tá tão satisfeito?
— Você não é inteligente? — O vampiro riu, visivelmente encantado. — Como seu futuro mestre, permitam-me que me apresente. Meu nome é Conde Kalinikos Haskill.
— Um conde... — murmurou Graham. Mesmo que ninguém o tenha ouvido, seu choque era óbvio.
O povo das Províncias Ocidentais travava uma guerra contra os vampiros há mais de mil anos, mas o conflito vinha diminuindo no último século. Por quê? Por causa de um declínio inexplicável na população de vampiros.
Era extremamente incomum encontrar um vampiro que fosse um visconde, quanto mais um conde... supondo que as teorias predominantes sobre vampiros estivessem corretas, é claro. Muitas informações sobre eles não estavam disponíveis publicamente. Mesmo assim, Graham sabia que era extremamente raro ficar cara a cara com uma figura da classe de um conde.
Ao lidar com vampiros da classe de conde e visconde, coletar o máximo de informações possível de antemão era vital. Infelizmente, eles não tiveram esse luxo desta vez. Isso explicava por que um toque de apreensão se desenrolou dentro de Graham, mesmo que os mais fortes recursos de combate humano, o Herói e um campeão, estivessem do seu lado...
— Nós não planejamos nos curvar pra gente como você, então terá que desculpar nossa falta de apresentações. Apenas nos considere aventureiros em uma missão para derrotar um vampiro.
Hugh desembainhou sua espada.
O resto da vanguarda, incluindo Roman, tomou isso como deixa para sacar suas próprias armas, enquanto a retaguarda segurava seus cajados e outros itens em prontidão.
— Interessante. Então eu os farei trabalhar como meus servos sem nome até suas mortes, quando quer que seja — entoou Kalinikos.
Então os strigoi entraram em ação.
Assim, a batalha entre aventureiros e vampiros começou não na floresta como planejado originalmente, mas na vila de pescadores.
Metade dos sessenta strigoi atacou ao mesmo tempo.
— Roman, você e eu vamos atrás do vampiro!
Com Roman em seu encalço, Hugh passou pelos strigoi atacantes e correu em direção ao vampiro que esperava entre os servos que haviam ficado para trás. Os dez restantes de seu grupo ficaram para trás para enfrentar os strigoi.
— Dardo de Pedra.
— Corte de Ar.
— Dardo de Fogo.
Os três magos do grupo do Herói dispararam seus ataques, um após o outro.
— Filho da puta! — gritou Berlocke.
— Meu feitiço não acertou... — disse Alicia, desapontada.
— Como diabos eles são tão rápidos?! — disse Gordon.
Eles se orgulhavam da velocidade de seus feitiços, mas os strigoi os haviam evitado. Eles nunca haviam experimentado nada parecido nas Províncias Ocidentais. Os strigoi se aproximavam cada vez mais dos dois espadachins do Quarto 10 e de sua última linha de defesa, Nils e Amon. Embora seus oponentes se esquivassem de suas lâminas, os dois jovens, no entanto, os mantinham habilmente à distância com seus broquéis.
Ao mesmo tempo, o encantador Ashkhan e o batedor Morris acompanhavam os strigoi. Eles sempre confiaram em sua velocidade e estavam ainda mais rápidos agora, graças ao feitiço de Aceleração em Grupo do primeiro. Pouco a pouco, eles estavam infligindo danos aos servos do vampiro.
E quanto a Ryo? Claro, ele não estava ocioso em um momento como este. Ele estava trabalhando duro usando sua Muralha de Gelo para proteger Eto e Graham, os curandeiros e a retaguarda, bem como o folclorista Larshata, que era um não combatente. Sempre que tinha a chance, ele tentava restringir os strigoi velozes com sua Prisão de Gelo...
— Droga. Não consigo gerá-lo rápido o suficiente...
Mesmo que levasse uma fração de segundo para Ryo criar sua Corrente de Gelo, ainda não era rápido o suficiente.
— Será que minha visão é o fator limitante? — ele se perguntou.
O campo de visão de uma pessoa abrangia os setenta graus diretamente à sua frente, trinta e cinco para a esquerda e trinta e cinco para a direita. Ao virar fisicamente a cabeça, eles poderiam estender esse alcance para mais de cem graus de cada lado. No entanto, os strigoi se moviam tão rápido que não se podia mover a cabeça rápido o suficiente para acompanhá-los.
— Se ao menos eu pudesse rastreá-los usando algo além dos meus olhos...
Sonar Passivo e Sonar Ativo não eram de forma alguma rápidos em termos de velocidade de reconhecimento. Se ao menos ele pudesse detectar diretamente uma parte do corpo da criatura, como seu conteúdo de água... A menos que ele tivesse feito um levantamento da composição interna de seu alvo através do contato direto antes de enfrentá-los, era impossível para Ryo, mesmo em seu nível de poder atual, sentir o conteúdo de água de seus corpos.
— E se eles estivessem molhados?
Eto e Graham o ouviam o tempo todo. Ambos haviam olhado ocasionalmente para ele enquanto davam as instruções necessárias aos outros... especialmente Graham, que vinha guiando todos, exceto os membros de seu próprio grupo.
— Vou fazer chover por um momento — ele informou a Graham.
Ele não se preocupava mais em avisar Eto ou o resto do Quarto 10; a essa altura, eles já sabiam que qualquer coisa relacionada a água ou gelo era obra dele. A essa altura, eles nem se surpreendiam mais... Bem, principalmente. Era uma história diferente para o grupo do Herói, que não estava acostumado com as travessuras de Ryo. Foi por isso que ele avisou Graham.
— Rajada — cantou Ryo antes que o clérigo pudesse reagir.
Fiel à sua palavra, ele cobriu a área com chuva por apenas um momento. Ele mal conseguiu evitar atingir as linhas de frente, onde Roman e Hugh estavam lutando, mas a retaguarda e os strigoi ao redor ficaram encharcados. Falando nisso, o número de strigoi havia de alguma forma aumentado de trinta para cinquenta em um piscar de olhos.
Ryo agora podia rastrear qualquer oponente encharcado de água através da magia, em vez de depender de sua visão. Mais precisamente, ele estava rastreando a água que cobria os strigoi em vez das próprias criaturas. Uma vez que ele ajustou seus sentidos, ele visualizou o líquido congelando.
— Congelar.
A água na superfície de seus corpos começou a congelar, atraindo a umidade do ar e fazendo com que o gelo se expandisse. Em um instante, cinquenta strigoi se viram envoltos em gelo, o que retardou seus movimentos. Naturalmente, nem os membros do grupo do Herói nem os dois espadachins do Quarto 10 eram o tipo de amadores que deixariam essa oportunidade passar. À medida que os strigoi gradualmente se tornavam incapazes de se mover, suas cabeças eram cortadas uma por uma.
— Conseguimos? — Nils ofegou depois de decapitar o último strigoi coberto de gelo.
Embora a retaguarda tivesse se defendido, a verdadeira batalha estava apenas começando.
Na linha de frente, Roman, o Herói, e Hugh enfrentaram o vampiro, Kalinikos, e dois strigoi que pareciam ser seus assessores mais próximos. Os dois homens haviam atravessado oito de seus servos para alcançar o vampiro, mas esses strigoi eram de outro nível. Em primeiro lugar, suas roupas...
— Eles eram aventureiros, eh? — murmurou Hugh.
— Correto — disse Kalinikos com um sorriso desdenhoso.
O Herói e o campeão superavam em muito os humanos que esses strigoi haviam sido em suas vidas anteriores, mas suas transformações haviam esticado suas habilidades físicas além dos limites normais. Agora, eles compensavam o que lhes faltava em habilidade com pura velocidade e poder.
— Acho que vou entrar na briga eu mesmo. Deve aliviar um pouco do meu tédio.
Kalinikos produziu uma espada vermelha de sua palma.
— Uma espada de sangue... — murmurou Roman.
— Também correto. Surpreenda-me saber o quanto você sabe sobre vampiros. Que incomum para aventureiros das Províncias Centrais.
O vampiro ainda não havia percebido a verdadeira identidade do Herói e de seu grupo. A única coisa que ele parecia entender era que Roman e Hugh eram muito mais poderosos do que os aventureiros transformados em strigoi sob seu comando, o que explicava por que ele estava tão rápido para entrar na luta. Certamente não era um meio de se entreter como ele disse.
Kalinikos se enfrentou com Roman enquanto Hugh lidava com os dois ex-aventureiros. A esgrima do vampiro era tão excelente que Roman não conseguia derrubá-lo facilmente. Diziam que os vampiros tinham uma resistência muito maior que a dos humanos, o que significava que Kalinikos ganharia uma vantagem maior a cada segundo que passasse.
Até este ponto, o vampiro estava transbordando de confiança.
Confiança que se estilhaçou enquanto observava os strigoi atacando a retaguarda diminuírem a velocidade até pararem e perderem suas cabeças uma após a outra.
— Mas que diabos...
A noção de que cinquenta strigoi pudessem ser dizimados sem infligir uma única baixa nem sequer ocorrera a Kalinikos.
Embora Roman e Hugh não pudessem determinar o que havia acontecido atrás deles com apenas um olhar, eles facilmente perceberam a agitação do vampiro. Nesse caso, as regras não escritas da batalha ditavam que eles explorassem essa abertura.
A frustração do mestre vampiro se estendeu também a seus servos, embotando sua mobilidade apenas o suficiente para Hugh cortar seus braços de espada. Nem um segundo depois, ele cortou suas cabeças. Foi verdadeiramente um feito sobre-humano. Sua esgrima era tão avançada que surpreendeu até mesmo Roman, que viu tudo pelo canto do olho.
Eu não esperaria menos de um campeão e renomado ex-aventureiro de rank A...
— Malditos... Que surpresa desagradável — disse Kalinikos com os dentes cerrados. Ele recuou tão rapidamente que até mesmo Roman quase o perdeu de vista. O vampiro deve ter aprimorado seus poderes físicos para ganhar esse tipo de velocidade.
— Escravo — ele cantou.
Naquele momento, um miasma turvou as mentes de Roman e Hugh, despedaçando sua consciência. Roman cerrou os dentes, suportando o ataque, mas Hugh caiu de joelhos.
— O que está acontecendo? — Nils deixou escapar, observando tudo se desenrolar com o resto do grupo.
Mas ninguém podia responder. Ryo poderia ter entendido se tivesse ouvido o cântico de Kalinikos, mas Graham percebeu imediatamente, mesmo sem ouvir.
— Nunca diga que ele está usando magia negra... — ele murmurou. Então ele estendeu seu cajado para a frente e cantou: — Proteção contra o Mal.
O ar ondulou, e então um hemisfério com um raio de cinco metros se formou ao seu redor.
— Rápido, entrem! — ele gritou para Nils e Amon, que estavam por perto. Eles quase caíram em sua pressa de obedecer, depois olharam para a linha de frente.
— Mas que diabos está acontecendo? — Nils repetiu.
— Suspeito que ele lançou a magia negra conhecida como Escravo — respondeu Graham. — Um feitiço perigoso que permite ao usuário controlar seu alvo como bem entender.
— Então eles estão... — Eto parou.
— Tenho quase certeza de que Roman está fazendo o seu melhor para resistir. A resistência mágica do Herói é a mais alta entre a humanidade. No entanto, ninguém mais pode desafiar a magia negra de um vampiro da classe de conde. Nem mesmo santas ou mulheres sagradas. — Graham fez uma careta. — Nem o Mestre McGlass...
— Em outras palavras, ele planeja fazer com que Roman e Hugh se matem — observou Ryo.
Ryo pensou em seu próprio encontro com um seguidor do Deus das Trevas, que havia lançado Escravo nele durante sua jornada com Abel de volta a Lune da capital real. Sua tentativa falhou graças ao item de Abel, que fornecia resistência contra magia de controle mental.
— Talvez Hugh tenha algo capaz de afastar o feitiço? — Ryo perguntou a Graham, esperançoso.
— Infelizmente, duvido que nossas preces sejam atendidas. Itens desse nível são considerados tesouros nacionais nas Províncias Centrais e Ocidentais. Mesmo uma figura tão celebrada como o Mestre McGlass não estaria em posse de algo de sua espécie...
Ryo franziu a testa. Então o que isso diz sobre Abel...?
Não era hora nem lugar para esse tipo de pergunta.
— Existe uma maneira de cancelar o feitiço? — Alicia, a maga do ar, perguntou.
— Além de derrotar o conjurador? Não — respondeu Graham. Sua expressão nunca pareceu tão amarga.
Então a retaguarda viu Hugh se levantar.
— Hugh! — Roma chamou. Ele sabia que algo estava errado com ele. Hugh vinha escondendo sua força sob o véu de sua afabilidade, mas no segundo em que se levantou, ele projetou uma aura de agressão desencadeada e força bruta.
Quando Hugh encontrou os olhos de Roman, ele imediatamente atacou com sua espada. Tendo sentido a mudança na atmosfera, o Herói não baixou a guarda. Se o tivesse feito, o brilho da espada de Hugh teria acabado com sua vida ali mesmo.
Eu não esperava menos de um espadachim intitulado “Mestre da Espada”.
Roman era provavelmente mais forte e mais rápido que Hugh, mas o mestre da guilda era esmagadoramente mais proficiente com uma espada. Durante sua luta com Abel na capital, ele sabia que o outro homem era o melhor espadachim, mas Roman provavelmente teria vencido se o confronto tivesse continuado. O mesmo não podia ser dito agora.
Hugh aparou perfeitamente os golpes de alta velocidade do Herói. O tempo de seu golpe, os ângulos, os contra-ataques — Roman estava totalmente superado.
Um erro e eu estou acabado.
Roman balançou sua espada, sufocado por uma pressão pesada que nunca havia sentido antes.
O duelo entre Roman, o Herói, e o Campeão McGlass teria sido um entretenimento de outro mundo para qualquer público, incluindo aquelas pessoas que nem os conheciam. Cada espadachim representava sua região, as Províncias Ocidentais e as Províncias Centrais, respectivamente. Aqueles que os conheciam estavam ainda mais cativados.
— Incrível...
Até mesmo Gordon, um mago do fogo sem absolutamente nenhum interesse em esgrima, estava hipnotizado. Nils, por algum motivo, estava chorando. Algo verdadeiramente surpreendente poderia comover o coração de alguém mesmo quando suas vidas estavam em risco. Uma batalha única na vida entre dois dos melhores espadachins era uma dessas coisas. O espetáculo era tão significativo que simplesmente assistir elevaria as habilidades de espada de Nils em um nível.
Outro espadachim também estava observando: Amon.
Seus olhos atentos não perdiam um único movimento. Seus braços e pernas se contraíam levemente enquanto ele simulava seus movimentos em sua mente... Ryo foi o único que notou.
A princípio, Ryo estava fascinado pelo duelo. Após dez golpes, ficou claro para ele que Roman perderia, e ele não suportou continuar observando. Se o herói morresse aqui... Foi exatamente por isso que ele parou Roman и Abel quando lutaram.
“O Herói precisa derrotar o Rei Demônio.”
Essas palavras passaram pela cabeça de Ryo. A morte de Roman representaria um problema sério a esse respeito. Sua transformação em um strigoi também.
Para todos, exceto Ryo, Hugh e Roman provavelmente pareciam equilibrados — mas Ryo sabia que a velocidade e o poder do mestre da guilda eclipsavam os de Roman. Ele não conseguia superar essa diferença, o que significava que alguém na retaguarda não tinha escolha a não ser agir.
O feitiço Escravo que foi lançado naquele santuário escondido... Abel o superou com um item, mas eu resisti por conta própria. Talvez porque eu tenha o poder de exorcizar o mal, como Sera disse. Deve se estender aos que estão ao meu redor também... É provavelmente por isso que ela fica... Nunca teve nada a ver com o meu charme.
Ryo ficou deprimido por apenas um momento, mas rapidamente recuperou o ânimo.
Não, meu charme faz parte de mim também. Na verdade, pode-se dizer que é o meu ponto forte! A besta guardiã da vila de Nils disse que apenas estar perto de mim prolongou sua vida... Ok, vamos fazer isso.
Ryo agarrou Murasame, mas não gerou sua lâmina. — Roman! — ele gritou. — Troque comigo.
— Hã?
A chamada repentina da retaguarda deixou o Herói confuso.
— Troque de lugar comigo ao meu sinal. Três, dois, um... Agora!
Naquele momento, Roman saltou para trás. Hugh o perseguiu, mas Ryo de repente correu para a frente de Roman e apontou a lâmina de gelo de Murasame para Hugh. Ryo se defendeu do ataque de Hugh com três estocadas de sua espada, permitindo que Roman recuasse para a segurança.
Agora, era um duelo entre Ryo e Hugh.
O vampiro pareceu surpreso com a reviravolta dos acontecimentos, então um sorriso fino e sardônico curvou seus lábios.
— O feitiço Escravo está muito ativo — disse ele. — Por alguma razão, não teve efeito no jovem espadachim, mas tenho certeza de que o mesmo não será verdade para você.
— Respeitosamente, não tenho tanta certeza.
Ryo continuou lutando com Hugh sem um pingo de hesitação. Durante o incidente do santuário escondido, ele havia caído de joelhos quando o feitiço foi lançado sobre ele, já que era sua primeira experiência com isso. Desta vez, mesmo quando entrou nos limites da magia negra, ele continuou a lutar sem parar. Enquanto suas lâminas se cruzavam cinco, seis e depois dez vezes, Kalinikos começou a perceber que algo estava errado.
— Você... Por que não está sob meu feitiço?
— Você me diz. Talvez minha constituição simplesmente não seja adequada para isso? — Ryo respondeu zombeteiramente.
— Que inferno! Poucos podem resistir ao poder do lançamento de Escravo de um conde!
— Bem, também não funcionou no jovem espadachim, não é?
Ryo manteve Hugh à distância enquanto conversava com Kalinikos. Ele nunca teve a intenção de ferir Hugh com uma espada. Ele apenas tentou se proteger, e ele era bom em defesa. Mesmo contra Sera, fortalecida pela velocidade, poder e habilidade soberba de sua técnica Manto de Vento, ele podia se defender por quase duas horas.
Nem mesmo o Campeão McGlass poderia penetrar a defesa de ferro de Ryo tão facilmente.
Depois de cruzarem espadas mais duzentas vezes, o momento que Ryo esperava chegou. Hugh balançou e errou drasticamente, depois caiu de joelhos, a cabeça pendendo.
— O-O que está acontecendo?! — disse Kalinikos, confuso.
Para todos os espectadores, Ryo simplesmente havia se esquivado do golpe horizontal de Hugh. Fisicamente, foi só isso que aconteceu...
No entanto, havia outra razão pela qual Hugh havia caído de joelhos...
— Seu desgraçado...
Enquanto Hugh levantava a cabeça, algo brilhou em sua mão esquerda. Uma adaga.
Ela voou direto para o espaço entre as sobrancelhas do vampiro, mas Kalinikos a desviou com sua espada de sangue.
Mas era uma armadilha, e Hugh agora estava ao alcance do braço. Durante o voo da adaga, ele havia diminuído a distância entre eles em um único salto. No momento em que o vampiro afastou a faca, Hugh já estava ao alcance. Sua espada golpeou quatro vezes, cada golpe acompanhado por um brilhante flash de luz. Cada golpe coincidiu com outro dos membros do vampiro caindo de seu corpo.
— Ngh!
Aparentemente, até vampiros sentiam dor quando cortados.
— Maldito seja... Mas é inútil. Vou me recuperar antes que você possa piscar... Hm? Por que você não está se movendo?
Kalinikos olhou para os cotos de seus membros decepados. Normalmente, eles retornariam ao seu corpo e se reconectariam imediatamente, mas não havia sinal de que isso estivesse acontecendo.
— Nas suas próprias palavras, ‘é inútil’, vampiro. Eu empunho a espada sagrada Galahad. Ela impede habilidades regenerativas como as suas — Hugh praticamente cuspiu enquanto olhava para seu inimigo, agora muito mais baixo depois de perder as pernas.
— Uma espada sagrada? Mas apenas um punhado de aventureiros nas Províncias Centrais carrega tal arma...
— Cê tá certo. Eu sou um deles. Melhor me apresentar agora, eh? Meu nome é Hugh McGlass. Sou o mestre da guilda dos aventureiros de Lune. — Hugh curvou-se, muito educadamente.
— Um campeão da Grande Guerra... Nunca imaginei que uma figura tão elogiada se juntaria a nós desde o início... Talvez eu tenha sido muito ingênuo.
Kalinikos parecia totalmente desanimado.
Pacote de Muralha de Gelo.
Ainda assim, Ryo permaneceu em guarda. Com base no que ele sabia de light novels, todos os tipos de vampiros podiam existir. Havia alguns que explodiam em uma nuvem de morcegos e escapavam, outros que amaldiçoavam suas vítimas enquanto morriam, e outros que não hesitavam em levar seus oponentes com eles em um ato final de autodestruição.
Como de costume, é claro, ele estava apenas entretendo suas fantasias.
“Espere o pior, espere o melhor.” Um ditado muito sábio aplicável em qualquer situação. Estas são as palavras de Disraeli, o político britânico. E os políticos são inerentemente indivíduos brilhantes. Sim, de fato eles são...
Kalinikos, com seus membros decepados e sua cabeça pendendo, estava cercado pela Muralha de Gelo de Ryo.
— Então, você se chamava Conde Haskill — disse Hugh.
A retaguarda observava de dentro do feitiço de Proteção contra o Mal de Graham. Morris, o batedor do grupo do Herói, olhava para Ryo e Hugh, fora do alcance do feitiço, com curiosidade.
Ele não conseguiu manter a cabeça baixa para sempre. Finalmente, ele olhou para cima. — Sim, eu sou o Conde Kalinikos Haskill. A vitória pertence a vocês. Vocês sabem como matar um vampiro, não sabem? Vá em frente — disse ele corajosamente.
— Tem algo que queremos saber primeiro — disse Hugh, deixando claro que havia uma razão para ainda não o terem matado.
Os cantos da boca de Kalinikos se torceram com desdém.
— E você acredita que eu lhe direi a verdade?
Esperando essa resposta, Hugh continuou sem hesitação em sua atitude ou mudança em sua expressão.
— Haskill, se você realmente é um conde, deve carregar o orgulho de um nobre. Nós te derrotamos de forma justa e honesta. Nenhuma baixa nossa, devo acrescentar, e resistimos à sua magia negra para completar. Reter informações de nós mesmo depois de termos te superado... Você não tem nenhuma vergonha como um homem da elite?
Um apelo ao seu orgulho aristocrático. Em negociações, trazer à tona o que a outra parte mais valoriza é uma tática fundamental. Normalmente, é difícil determinar o que a outra pessoa pode valorizar mais, mas a presunção de Kalinikos era aparente desde o início, então foi fácil de entender.
— Orgulho de um nobre, hmm... — murmurou Kalinikos. — A ironia de um humano me dizendo o que significa ser um nobre... Muito bem, não vou te contar tudo, mas suponho que posso poupar algumas respostas. — Ele estufou o peito, a arrogância fortalecendo sua voz.
O plano de Hugh havia funcionado.
— Primeira coisa que quero saber é por que você tomou o controle desta vila de pescadores.
— Embora eu tenha dito que lhe daria respostas — disse ele com um suspiro —, sugiro que considere cuidadosamente sua formulação. Como devo responder a uma pergunta tão vaga?
— Não me diga. Nada te impede de cuspir tudo que tá na sua mente, no entanto, eh?
— E facilitar as coisas para você? Nem pensar. Além disso, há algumas respostas que nem eu tenho a liberdade de lhe dar. Dito isso, meu comando desta vila chegou por acaso. — A expressão de Kalinikos não mudou.
— Acaso, eh? Próxima pergunta. Há mais vampiros vindo?
— Não. Eu fui... exilado pelo meu povo. Não pergunte por quê. Eu meramente perdi na luta de poder usual. Você sabe como essas coisas são. Eu estava planejando viajar para mais longe pelo mar, mas, por sorte, fui pego por uma tempestade e acabei nesta vila de pescadores — Kalinikos respondeu com um encolher de ombros.
— Então por que você transformou os aldeões em strigoi?
— Isso se resume a uma antiga diferença de opinião entre nós e os humanos. Vocês criam porcos e galinhas para comer sua carne e ovos, não é? Vocês não se condenam por isso, não? O que nós, vampiros, fazemos com sua espécie não é diferente. Você pode achar repreensível, mas sou da opinião de que seus porcos e galinhas encontrariam pouco defensável em seu comportamento.
Isso mesmo... pensou Ryo. Enquanto os humanos na Terra eram muito poderosos, o mesmo não é verdade em Phi. Há muitas criaturas mais poderosas na mistura, como dragões e grifos. Os humanos não são fortes aos olhos dos vampiros também.
Enquanto isso, Hugh balançou a cabeça.
Ele é o único vampiro aqui. Mais não estão vindo. Só resta uma outra coisa para descobrir.
— Diga-me o que você sabe sobre o cacodemônio adormecido por essas bandas.
A sobrancelha de Kalinikos se contraiu um pouco. Ele suavizou sua expressão instantaneamente, mas o silêncio que se seguiu durou vários segundos. Finalmente, ele suspirou profundamente.
— A oeste desta praça, a cerca de quinze minutos na floresta, há uma caverna. Um caixão de pedra jaz no fundo desta caverna. Talvez você se refira ao que está dentro?
— Talvez? — Hugh perguntou com uma inclinação de cabeça curiosa.
— Eu não olhei. No momento em que coloquei minha mão no caixão ontem, fui roubado de metade do meu mana. Foi quando soube que algo aterrorizante descansava lá dentro. Eu também não desejava saber o que era, então simplesmente fui embora. — Kalinikos fez uma careta, respirando lentamente. — Embora... eu ache que provavelmente emergirá em breve.
— O que você disse?
— Ao pegar minha magia, ele acelerou sua própria recuperação. Permita-me arriscar um palpite quanto à sua presença: ele cometeu alguma atrocidade contra vocês, humanos? — Ele gargalhou, seus lábios curvados em um sorriso desdenhoso.
— Inacreditável... — Larshata, o folclorista, murmurou.
— Até você deveria saber que eu só tenho uma certa quantidade de sangue para poupar. Já está na hora de você acabar comigo — disse Kalinikos, sua voz mais baixa agora. Seu rosto já estava pálido, mas era claro que ele estava perto da morte.
— Era tudo que eu queria perguntar. Alguém mais tem alguma pergunta final para ele?
Hugh olhou incisivamente para Graham, que balançou a cabeça.
Ryo levantou a mão direita. — Posso fazer uma?
— Claro, vá em frente. — Com um aceno de cabeça, ele abriu caminho para Ryo se aproximar do vampiro.
— Conde Haskill, você mencionou anteriormente que havia sido exilado. Por favor, diga-me onde a nação dos vampiros está localizada.
Uma vez que suas palavras foram filtradas adequadamente pelos tímpanos de todos e seu significado se assentou em seus cérebros, os olhos de todos se arregalaram. Seu inimigo tinha mencionado tal coisa. Isso significava que uma nação inteira de vampiros realmente existia?
— Hmph. Minha culpa por falar demais. Fiquei aliviado quando ninguém apontou isso, mas vejo que baixei a guarda cedo demais... Diz muito sobre um pirralho como você fazer uma pergunta tão irritante no final.
Ele parecia positivamente subjugado naquele momento.
O banimento carregava grande peso e significado para os humanos. Embora o povo das Províncias Centrais não soubesse de nenhuma nação de vampiros, o fato de um vampiro ter sido exilado de sua casa e ter chegado aqui indicava uma alta probabilidade de que essa nação não estivesse nos confins do mundo — mas sim por perto. Isso, por si só, era um problema sério.
— Como mencionei, há perguntas que não posso responder. A sua está entre elas, pirralho. Fazer isso colocaria meus ex-irmãos em perigo. Embora eu guarde rancor daqueles que me baniram, não posso trair os outros.
— Bem, isso é lamentável. — Ryo recuou. Ele sabia que não obteria mais informações do vampiro, mesmo que o pressionasse.
A única coisa que ele queria confirmar era a existência e a localização da nação dos vampiros. Se fosse em algum lugar remoto, ou nas Províncias Ocidentais ou Orientais, o conde teria dito. O fato de ele ter se recusado a responder era prova de sua proximidade. Claro, Ryo não estava interessado em destruir a nação. Ele estava apenas curioso.
Então Kalinikos murmurou algo, sua voz quase inaudível. Suas palavras poderiam ter sido dirigidas a alguém em sua antiga terra natal.
— Passamos quase cem anos dizendo a eles para sempre usarem encantamentos, enfraquecendo assim suas magias, mas nenhuma dessas pessoas fez isso.
Tendo dito o que queria, Ryo estava prestes a ceder a palavra a qualquer outra pessoa interessada em questionar o vampiro quando aquela observação murmurada o fez congelar.
— Espere, o que você acabou de...
— Certo, então — interrompeu Graham. — Se ninguém se opuser, eu matarei esta criatura. Ryo, por favor, remova a muralha de gelo.
Ryo perdeu a chance de pressionar Kalinikos graças à ordem do clérigo, à qual ele obedeceu. Kalinikos bufou quando viu o traje de Graham... Muito provavelmente, a visão do emblema da Igreja Ocidental pendurado em seu pescoço provocou sua zombaria.
— Ora, ora, pensar que um padre da Igreja Ocidental esteve aqui o tempo todo... Ahhh, então foi você quem lançou a Proteção contra o Mal.
— Lamento informar que você está enganado, vampiro.
Enquanto Graham falava, ele tirou algo de seu cajado.
É um cajado de truque!
Essa revelação fez todos os pensamentos sobre o murmúrio de Kalinikos saírem da mente de Ryo. Aquele cajado era igual ao de Zatoichi! Ele escondia uma espada reta dentro!
— Eu não sou um padre, mas um arcebispo. Arcebispo Graham.
Então ele assumiu uma postura ofensiva, pronto para atacar.
— Arcebispo Graham...? Não, não me diga... O chefe da Inquisição... — Os olhos de Kalinikos se arregalaram em choque. — Caçador de Vampiros e... Mestre Graham...
— Você está enganado novamente, vampiro. Não sou meramente um ‘mestre’, mas um doutor. Dr. Graham, especialista em estudos de vampiros, ao seu dispor.
O choque nos olhos de Kalinikos se transformou em raiva.
— Você... Quantos de nós você matou?
Graham balançou, cortando seu pescoço com sua espada reta, e então rapidamente perfurou seu coração.
— Você faz 256.
O método oficial da Igreja Ocidental para matar um vampiro era cortar sua cabeça e perfurar seu coração com uma arma consagrada. As ações de Graham estavam perfeitamente alinhadas.
— Gordon, queime o pescoço, o torso e todos os quatro membros — instruiu Graham o mago do fogo, garantindo assim a aniquilação total do vampiro chamado Kalinikos.
◆
— Nem sei o que dizer — disse Nils, maravilhado. — Exceto que Graham foi incrível, hein?
— Concordo. A esgrima dele está léguas além da sua, Nils. — Ryo estava feliz em entrar na brincadeira à sua maneira excêntrica.
— Não foi isso que eu quis dizer! — retrucou Nils.
— Tudo bem, Nils. Brincadeiras à parte, só porque parece que acabou não significa que você pode perder de vista nosso verdadeiro objetivo aqui — o cacodemônio — disse Ryo tão casualmente como sempre.
Alguns momentos depois, os olhos de Nils se arregalaram, como se seu cérebro finalmente registrasse as palavras de Ryo.
— Ah, é... Você tem razão.
Ele foi lembrado do porquê Hugh McGlass e o grupo do Herói haviam vindo da cidade de Lune — para lidar com o cacodemônio, cuja existência estava praticamente confirmada a essa altura. O incidente com o vampiro ocorreu depois do fato.
— Faremos uma pequena pausa depois de queimar os cadáveres dos strigoi — chamou Hugh —, depois iremos para a caverna onde o cacodemônio está.
Eles a encontraram imediatamente.
— Alguém ou algo quebrou o selo na entrada. Por quê? — Berlocke perguntou enquanto inspecionava a caverna. — Sei lá. Um terremoto ou algo assim deslocou as rochas que bloqueavam a entrada e expôs a caverna.
O mago da terra anão do grupo do Herói podia ser considerado o especialista em pedras residente.
— O incrível é que o selo funcionou por 950 anos. É preciso magia para mantê-lo funcionando, então faz a gente se perguntar de onde exatamente essa magia vem, eh? — Hugh murmurou, com os olhos na entrada.
A resposta é muito provavelmente alquimia, concluiu Ryo. De acordo com o caderno preto que “Hasan” mantinha, existe um tipo de selo que usa o suprimento prodigioso de mana de quem quer que esteja trancado dentro.
Ryo, é claro, não tinha intenção de mostrar o caderno a ninguém ou mesmo revelar sua existência. Ele também não planejava dizer a eles que tal técnica alquímica existia.
Além disso, “Hasan” havia escrito que o método era um uso anormal da alquimia. Usar à força o próprio mana de alguém para selá-lo era, para dizer o mínimo, desumano. Se Ryo mencionasse que a alquimia tinha uma utilidade tão perigosa, ele poderia ser perseguido! Embora em sua proficiência atual, ele não pudesse usar tais técnicas de qualquer maneira.
Ele vinha usando o Sonar Passivo desde que entraram na floresta. Inicialmente, ele havia detectado tanto animais normais quanto monstros, mas esses alertas diminuíram à medida que se aproximavam da caverna. A cerca de trezentos metros de distância, os bipes cessaram completamente.
Isso significa que a vida selvagem local sabe que algo é perigoso.
Com esse pensamento, Ryo olhou para Hugh. À frente do grupo, o mestre da guilda já havia desembainhado sua espada e a segurava em prontidão, indicando que ele já poderia ter detectado a atmosfera incomum. Ryo não esperava menos de um ex-aventureiro de rank A.
O grupo entrou na caverna lentamente. As paredes se abriam ao redor deles. Um caixão de pedra estava no fundo.
— Pelo que posso dizer, não há armadilhas físicas... — anunciou Morris, o batedor.
— Provavelmente tem algo a ver com a visita do vampiro — disse Graham. Ele olhou para Hugh. — Ele disse que metade de seu mana foi tomada quando ele tocou o caixão. Agora, que tal inspecionarmos por nós mesmos?
— Vou ser bem honesto: não tenho um plano para o que vem a seguir. Podemos muito bem jogar os dados — respondeu Hugh com um encolher de ombros.
Por pura coincidência, o caixão de pedra de repente começou a brilhar.
— Mas que diabos?
Até uma criança teria percebido que algo estava errado. O caixão começou a vibrar, depois a caverna fez o mesmo. Pedras começaram a cair do teto.
— Merda! Todo mundo, tirem suas bundas daqui! — Hugh gritou, e todos obedeceram, correndo para fora. Ele foi o último a sair. Assim que o fez, a caverna desabou. Enquanto o grupo estava lá, atordoado, o brilho de um momento antes se intensificou.
— Tenho um péssimo pressentimento sobre isso — murmurou Alicia.
— Engraçado. Eu estava prestes a dizer a mesma coisa — concordou Gordon em voz baixa.
Os magos eram sensíveis ao fluxo de magia. Gostassem ou não, os magos aqui podiam sentir que o que quer que estivesse no centro da luz possuía um suprimento enorme de mana.
De repente, os escombros explodiram.
— Muralha de Gelo.
Ryo gerou uma parede de gelo na frente deles, protegendo todos das rochas voadoras. Uma pressão mágica avassaladora os assaltou, mais pesada do que qualquer coisa que tivessem sentido até agora. Nesse ponto, até os não-magos entenderam que estavam na presença de uma monstruosidade.
Quando a nuvem de poeira e rochas voadoras se assentou, o objeto brilhante tornou-se vagamente discernível.
— Aquilo é uma pessoa? — alguém disse, expressando o mesmo pensamento que todos os outros estavam pensando.
O que quer que fosse, era do mesmo tamanho de uma pessoa.
Então a “pessoa” começou a flutuar. Uma vez que subiu cinco metros no ar, o grupo teve uma visão clara do que estavam enfrentando: uma bela mulher irradiando luz. Sua pele era branca como a neve, e seu cabelo roxo claro passava da cintura. Eles não conseguiam dizer a cor de seus olhos, que estavam fechados...
— Ela é adorável... — disse Alicia.
— Ela está flutuando... — disse Gordon.
— Isso é magia do ar? — Berlocke perguntou.
Ryo balançou a cabeça.
Não, isso não é magia do ar.
Ele sabia disso graças às suas sessões de sparring praticamente diárias com Sera, uma especialista em magia do ar. Ele não sabia exatamente o que a “pessoa” na frente deles estava usando, mas não era magia do ar. Não era magia de fogo, terra ou água, e provavelmente também não era magia de luz ou escuridão.
Em suma, qualquer que fosse a magia sendo usada para fazê-la flutuar, não era elemental.
Ryo tremeu.
Ela está manipulando a gravidade?
A magia gravitacional frequentemente surgia como um tropo em histórias de isekai, então não seria estranho encontrá-la aqui em Phi. Era natural que Ryo ficasse animado com a visão de uma magia capaz de criar fenômenos ainda não explicados pela ciência moderna da Terra.
Leonore, a akuma, havia exposto Ryo a saltos espaciais usando “armazenamento dimensional” e “claustros”, mas ele não estava nem um pouco animado na época. Só agora, com algo se manifestando de uma forma que ele só conseguia entender rotulando como “antigravidade”, ele começou a tremer de excitação.
Sim, era gravidade, afinal. A chave para tudo estava na gravidade...
O pensamento meio formado sussurrou em sua mente.
Mas ainda não era o suficiente. A gravidade por si só não conseguia explicar o que ele estava vendo. Ele ainda estava perdendo uma peça importante do quebra-cabeça...
Pensamentos, conscientes e subconscientes, se embaralhavam em sua cabeça em resposta à cena fascinante diante dele. Ryo olhava atentamente, junto com o resto do grupo.
Ninguém sabia quanto tempo havia passado, mas finalmente o ser flutuante abriu os olhos.
Eles brilhavam em ouro.
Isso tirou o grupo de seu choque. Graham preparou seu cajado.
Sentindo a magia do clérigo aumentar, como se ele estivesse prestes a entrar na ofensiva, Ryo gritou sem pensar: — Não a ataquem!
Seu grito os surpreendeu. A “pessoa” flutuante olhou para Ryo, um leve sorriso brincando em seus lábios. Então ela subiu ainda mais no ar, voando para o oeste.
Tudo o que puderam fazer foi assistir acontecer.
Por dois minutos, ninguém se moveu ou falou.
— Ryo, por que você me impediu? — Graham finalmente disse, quebrando o silêncio. Seu tom não era de reprovação. Se alguma coisa, ele parecia curioso.
— Porque eu pensei que se o fizéssemos, ela retaliaria e nos mataria a todos.
Não era mentira. Ele havia sentido a diferença de poder e acreditava que havia tomado a decisão certa ao escolher não intervir. Mas essa não era a história completa.
Talvez ele também quisesse ver mais de seu controle sobre a gravidade. Se ela estava ou não realmente manipulando a gravidade não importava; apenas a visão dela flutuando e brilhando era bela.
Mas havia mais uma coisa — um sentimento que ele quase havia esquecido. Ryo havia deixado seu Sonar Passivo ligado quando entrou na caverna, e foi assim que ele sentiu o cacodemônio. Isso lhe deu uma sensação que ele já havia sentido antes — mas onde?
Ele chegou à sua resposta quando se lembrou de sua caminhada pela Floresta de Rondo com Abel. Eles haviam sido encurralados por um falcão assassino na frente e uma jiboia maior atrás. Abel havia derrotado a última enquanto Ryo havia derrotado o primeiro, e eles haviam escapado ilesos. Antes mesmo da batalha começar, no entanto, o sonar de Ryo havia detectado outro monstro que ele nunca havia sentido antes, muito mais atrás do falcão assassino.
No final, eles nunca realmente viram aquele monstro... No entanto, sua aura parecia exatamente como a do cacodemônio. Ryo agora se perguntava se eles eram a mesma criatura. Em outras palavras, havia um cacodemônio na Floresta de Rondo? Ele mentalmente adicionou outro mistério não resolvido à sua lista contínua.
— Bem — disse Hugh —, no mínimo, não tínhamos a menor chance contra ela.
— Então aquilo era um cacodemônio? — Eto perguntou.
— As lendas não mencionam que eles brilham ou algo do tipo — respondeu Larshata —, mas se ela não for um cacodemônio... Bem, essa é uma perspectiva ainda mais assustadora, eh?
— Ela voou tão para o oeste que a perdemos de vista... — disse Nils, atordoado.
— Eu só espero que ela tenha levado os insetos com ela também — observou Ryo.
O objetivo deles não era derrotar o cacodemônio, mas eliminar os insetos cacodemônicos que infestavam os cafeeiros.
— Não saberemos com certeza até voltarmos para Kona. Vamos nos mover, pessoal.
Ao comando de Hugh, o grupo partiu em sua jornada de volta à vila.
◆
Uma semana depois de retornar a Lune com uma grande quantidade de café Kona e prensas francesas como lembranças, Hugh e os membros do Quarto 10, incluindo Ryo, se encontraram na guilda dos aventureiros para se despedir do grupo do Herói.
— Obrigado por tudo — disse Hugh enquanto apertava as mãos de Roman.
— Não, obrigado você. Aprendi muito — respondeu o Herói enquanto inclinava a cabeça. — Se você algum dia se encontrar nas Províncias Ocidentais, por favor, nos visite.
— Fácil de dizer, mas difícil de fazer, considerando o quão massivo é. — Hugh sorriu ironicamente.
— Bem, os membros do nosso grupo podem seguir caminhos separados depois que derrotarmos o rei demônio, mas eu permanecerei como membro da Igreja Ocidental. Por que não vem me ver, pelo menos? — sugeriu Graham, o negociador e o mais velho do grupo.
— Claro. Afinal, quem sou eu para dizer não a um maldito arcebispo, eh? — Hugh assentiu, lembrando-se do que havia aprendido sobre o outro homem durante o confronto contra o vampiro, Kalinikos.
— Até derrotarmos o rei demônio, sou apenas um humilde clérigo — disse Graham, sorrindo um pouco.
◆
O posto de arcebispo não existia no sistema de templos das Províncias Centrais.
Na Igreja Católica, um arcebispo é um membro do clero de posição razoavelmente alta. No topo está o papa, abaixo dele estão os cardeais, que são seguidos pelos arcebispos e, finalmente, pelos bispos e padres. Historicamente, a posição de arcebispo detém grande poder.
Claro, Ryo não sabia exatamente o que significava ser um arcebispo nas Províncias Ocidentais, mas a julgar pela forma como Hugh disse, Ryo tinha certeza de que era relativamente alto na hierarquia da Igreja.
◆
Depois de se despedir do grupo do Herói, Hugh pediu ao Quarto 10 para acompanhá-lo a seu escritório, onde se esparramaram nos sofás. Naturalmente, xícaras de café Kona fumegavam na mesa em frente a eles.
— Vamos direto ao ponto. Tanto a família real quanto o Templo emitiram uma ordem de silêncio sobre este incidente. Nenhuma palavra a ninguém. Se descobrirem que algum de nós disse alguma coisa, é direto para a cadeia, então tomem cuidado.
Eles assentiram. O envolvimento de vampiros e cacodemônios tornava fácil ver por que uma ordem de silêncio havia sido imposta.
— Em troca, fico feliz em dizer que a recompensa por este trabalho aumentou um bocado. Considerem como dinheiro para calar a boca. Já deve estar em suas contas.
— Boa!
Esta foi uma notícia fantástica. Até mesmo Ryo, que não era exatamente um pobretão, ficou encantado ao ouvir isso.
— Cacodemônios... Vampiros... — disse Hugh, agora sozinho em seu escritório. — Conseguimos. De alguma forma... A masmorra voltou ao normal após a Grande Maré, então as coisas devem ficar quietas por um tempo.
Então ele começou sua montanha habitual de papelada.
◆
— É verdade que o Conde Kalinikos Haskill desapareceu?
— Sim, é verdade. Confirmamos isso usando o cristal.
Eles ocupavam uma sala conhecida como o Estudo. A sala era do tamanho de um ginásio de escola, suas paredes forradas de estantes que se estendiam do chão ao teto. Na Terra, poderia ter sido confundida com uma das mais belas bibliotecas da Europa. No entanto, por ser um estudo e não uma biblioteca, não era aberta ao público. A sala e seus livros eram apenas para o dono deste prédio.
Esse dono, atualmente ouvindo o relatório de seu subordinado, parecia ter pouco mais de vinte anos. Era um homem aparentemente jovem, com a pele anormalmente pálida e uma calma que se esperaria de alguém que viveu épocas inteiras...
— Onde ele desapareceu? Em que país das Províncias Ocidentais?
— Na verdade, ele estava nas Províncias Centrais, na parte sul do Reino de Knightley, para ser preciso.
O homem finalmente levantou os olhos do livro que estava lendo.
— Oh? Notícias preocupantes, de fato.
Ele apoiou o queixo na mão e pensou por um momento. — Quero saber os detalhes. Devemos determinar se alguém nas Províncias Centrais sabe como nos aniquilar. Por outro lado, talvez alguém das Províncias Ocidentais tenha realizado o feito...
— Entendido.
— Certifique-se de que os ‘cabeças’ cuidem disso. Se deixarmos isso para as ‘caudas’ e algo der errado, será um desastre absoluto para nós.
Depois que seu subordinado se curvou e saiu, o mestre suspirou. — Um conde que podia usar magia negra, destruído... Parece que nosso inimigo não é do tipo cavalheiro.
Com um aceno de cabeça, ele retomou a leitura de seu livro.
◆
Um certo mago da água passou pelas portas da Onda Dourada, uma estalagem em Lune.
— Bem-vindo! — chamou a proprietária para o hóspede familiar.
O mago encontrou a pessoa que procurava na sala de jantar ao lado do saguão. Lá, Abel estava sentado lendo um livro. O mago da água pegou uma cadeira em frente a ele.
— Ei, Ryo. E aí? — disse Abel sem levantar os olhos.
— Abel... Você sabe como a confiança é formada?
— Essa veio do nada, caramba. — Ele finalmente levantou os olhos, provavelmente porque não tinha ideia de onde Ryo estava querendo chegar com essa conversa.
— Experiências positivas. Primeiro, você precisa estabelecer um histórico de sucesso. Uma vez que você faz isso, você pensará coisas como ‘Vai ficar tudo bem se eu deixar com ele’ ou ‘Tenho certeza de que vai dar certo se eu trabalhar com ele’ ou ‘Se ele não pode fazer, ninguém mais pode.’ Então você faz você mesmo ou pede para outra pessoa fazer, e você repete a experiência de novo e de novo. E voilà: confiança.
— Ceeerto...
Abel assentiu, ainda sem ideia de onde Ryo queria chegar com isso.
— Mas e quando você perde a confiança? Uma experiência negativa não destrói a confiança imediatamente. No entanto, o engano é uma maneira infalível de quebrá-la em um instante.
— Verdade...
Embora Abel ainda não entendesse o ponto de Ryo, ele assentiu novamente em concordância.
— É por isso que quero confirmar uma coisa com você, Abel. — Ryo fez uma pausa.
— O-O que é? — Uma ponta de inquietação se desenrolou dentro de Abel.
— Abel, você está usando um item que repele magia de controle mental, sim?
— Sim.
Chamava-se colar da tranquilidade, e Abel nunca o tirava. Além de sua resistência à magia de controle mental, o acessório também negava os efeitos nocivos do veneno.
— Ouvi dizer que está no nível de um tesouro nacional. Acho estranho que você, um mero aventureiro de rank B, possua tal objeto!
— Você diz isso, mas sabe muito bem que os ranks B são algumas das pessoas mais poderosas do país — disse Abel, suor frio escorrendo por sua espinha.
— No entanto, Hugh, um ex-rank A, não possui um. — Ryo presunçosamente empurrou seus óculos inexistentes pela ponte do nariz, perfurando Abel com toda a crueldade de um detetive que encurralou um criminoso.
— Uhhh...
Claro, Abel não tinha ideia do que aquele gesto significava.
— Eu estive quebrando a cabeça sobre por que um aventureiro de rank B teria um item de nível de tesouro nacional. Pensei e pensei e só consegui chegar a uma conclusão. Que é...
Ryo respirou fundo.
Abel se preparou.
— Você o roubou do cofre real!
— Eu já te disse que você não poderia estar mais errado!
Ryo havia feito a mesma acusação a ele uma vez antes.
— Mas não consigo pensar em mais nada! Pelo amor de Deus, você é um espadachim com talento de batedor para descobrir armadilhas. Isso é estranho por si só, mas não se assumirmos que você era originalmente um ladrão que roubava de casas de tesouro. Tudo faz sentido! — A expressão triunfante de Ryo dizia: “O que você acha disso?!”
Abel ficou sem palavras. Ele não tinha resposta para as perguntas de Ryo — nem a que ele expressou nem a que sua expressão parecia perguntar. Mas... ele estava tentado a lhe dizer a verdade de uma vez por todas. Ryo não sairia por aí contando a todos sobre a identidade real de Abel, e sua atitude não mudaria quando soubesse.
— Arrrgh... Certo. Vou te contar a verdade, Ryo.
Com uma careta, Abel respirou fundo. Então ele lentamente levantou a cabeça e olhou para Ryo.
— Meu nome é Albert. Albert Besford Knightly. Sou o segundo filho do rei atual, Stafford IV. Atualmente sou um aventureiro por razões que não vou detalhar, mas um motivo é ganhar experiência. Você não está errado sobre este colar ser um tesouro nacional também. É um especial que apenas membros da família real podem usar. Entããão — Sim, aí está.
Abel parecia aliviado.
No entanto, Ryo parecia não convencido.
— Abel... Se você vai mentir, pelo menos seja bom nisso. Eu não estava falando de confiança momentos atrás? Uma vez que você mente, você a perde... Você realmente precisa ouvir quando os outros estão falando, sabe.
— Mas eu não estou mentindo... — disse Abel, confuso. — As únicas pessoas que sabem sobre minha identidade são o Mestre da Guilda e meus companheiros de grupo... Ah, Sera e Phelps também. São os únicos, então me faça um favor e não espalhe por aí.
— Como se eu fosse. Não tenho desejo de ser chamado de mentiroso, muito obrigado.
— Ei, só porque você não acredita não significa que não seja verdade. Pergunte a qualquer uma das pessoas que acabei de mencionar. Eles vão me defender.
— Ah, então você já os comprou, hm? Não é uma tática incomum entre indivíduos sem escrúpulos.
— Vá para o inferno!
Abel finalmente resolveu contar a verdade a Ryo — e Ryo não acreditou nele.
Relacionamentos interpessoais podiam ser terrivelmente complicados.