
Volume 4 - Capítulo 3
The Water Magician
No templo central da capital real, um homem vestindo um manto branco de sacerdote desceu um lance de escadas para um enorme cemitério subterrâneo. Lá, os maiores e mais renomados sumos sacerdotes e santos do templo dormiam. O homem continuou até o quinto e mais baixo nível e então abriu uma porta. Embora essa entrada geralmente exigisse uma chave especial para ser aberta, ele descobriu que estava destrancada.
Quando chegou ao local designado, ele tirou de dentro de seu manto o que parecia ser uma bola de cristal do tamanho de um punho. No entanto, em uma inspeção mais detalhada, podia-se ver uma fumaça preta girando lá dentro. Ele a colocou no chão e então imbuiu com magia o colar que pendia de seu pescoço, um talismã descartável para afastar os mortos-vivos. Apesar de ser incrivelmente caro, seu efeito durava duas horas. Um item superior que permitia ao usuário evitar ataques da maioria dos mortos-vivos. Certamente não era algo que qualquer clérigo comum pudesse obter.
No entanto, o homem ativou o colar sem hesitação enquanto continuava a derramar sua energia mágica na bola de cristal. Momentos depois, um klink ecoou no espaço, como o som de vidro se quebrando. Mas a bola de cristal não havia quebrado. Em vez disso, a fumaça preta de dentro explodiu como se nunca tivesse sido presa e se espalhou por toda parte.
Depois de um tempo, criaturas mortas-vivas, principalmente esqueletos, emergiram da fumaça. Eram milhares. Eles se multiplicaram, preenchendo todo o quinto nível subterrâneo.
— Mais cedo do que eu planejei, mas não tenho outra escolha. Heh heh heh. Com isso, a destruição do Templo está garantida. E a capital será lançada no caos — o homem murmurou, seus lábios se torcendo em um sorriso desdenhoso.
Então ele congelou. Algum outro tipo de criatura começou a aparecer.
— Como... Como isso é possível? Deveria haver apenas mortos-vivos...
Essas foram suas últimas palavras antes que a mão da criatura brilhasse, arrancando a cabeça do homem de seus ombros.
Na manhã seguinte ao dia em que Ryo impediu o derramamento de sangue no meio da capital, Abel visitou a embaixada da Monarquia de Joux. Ryo estava pronto e esperando por ele, então eles foram direto para o Centro Real de Alquimia. Como Abel havia agendado um encontro no dia anterior, o alquimista, Barão Kenneth Hayward, já estava lá. Ryo e Kenneth se deram bem imediatamente e não demorou muito para começarem a falar sobre alquimia.
Com seu dever cumprido, Abel retornou ao Instituto de Pesquisa Mágica.
Abel entrou no escritório de Hilarion no andar mais alto do Instituto e encontrou muito mais pessoas lá dentro do que quando saíra naquela manhã. Sete a mais, para ser exato.
— Oh, olá, Abel. Desculpe pela intromissão. — Roman, o Herói, cumprimentou Abel ao vê-lo.
— Uh, oi. — Foi a única coisa que Abel conseguiu dizer. Seus olhos procuraram por Lyn, que estava segurando as pontas aqui no Instituto. Ele perguntou a ela por que havia tantas pessoas ali.
— Ummm... porque eles deixaram a propriedade do Duque Flitwick, aparentemente.
Ela continuou a lhe contar que Nancy, a secretária do Visconde Othniel Fletcher, o homem encarregado da residência do duque na capital, estava por trás dos problemas de ontem. Ela fingiu ter sido ferida por Abel, o que incitou Gordon a atacá-lo. Então ela desapareceu da cena quando tudo acabou. Lyn disse que Roman e seu grupo procuraram por toda parte na área, mas não a encontraram.
Quando retornaram à residência do duque, descobriram que Nancy era uma espiã da Federação enviada para a capital do ducado, Carlyle. Depois de passar a noite lá, o Herói decidiu que não podia confiar no Visconde Fletcher, então todo o grupo acabou deixando a propriedade. A propósito, Gordon permaneceu encolhido lamentavelmente em um canto do escritório de Hilarion.
— Segundo Graham, o clérigo, ‘A poderosa intuição de Roman é digna de quem é o Herói’.
— Entendi. Isso explica por que este lugar está de repente tão cheio.
Embora o escritório de Hilarion fosse bastante espaçoso, ter a população aumentada de três — originalmente Abel, Lyn e Warren — para dez definitivamente deixou Abel se sentindo um pouco claustrofóbico. Rihya ainda estava no templo central, enquanto Hilarion ainda não havia retornado após sua partida há três dias.
— Nossa, onde diabos está aquele velho? — Abel murmurou para si mesmo.
— Ah, isso me lembra — disse Lyn, as palavras de Abel despertando uma lembrança do dia em que Hilarion partiu. — Um cavaleiro veio de Stone Lake com uma mensagem urgente para ele. Lembro-me dele resmungando algo sobre ‘Ryo’ quando a viu.
— Foi só isso que ele disse?
— Sim. Mas Ryo está aqui na capital, então...
— Certo, batendo o maior papo com Kenneth no Centro de Alquimia enquanto falamos...
Enquanto os dois conversavam, um som estranho veio de um canto da sala. Uma espécie de lamento mecânico. Se Ryo tivesse ouvido, ele poderia ter dito algo sobre as sirenes de ataque aéreo de Londres. No entanto, ninguém presente jamais havia ouvido algo do tipo.
— Meu Deus, o que é isso?
— Que diabos?
Tanto Lyn quanto Abel pareciam confusos. Um instante depois, a porta se abriu e Sura, basicamente a secretária de Hilarion, entrou. Ela caminhou rapidamente para um canto do escritório e pressionou um botão em uma caixa ali. A sirene parou.
— Você contatou o Instituto de Pesquisa Mágica. Como posso ajudar? — Sura disse para a caixa, um dispositivo que o lembrou da esfera alquímica que ele teve durante sua missão secreta que transmitia sua voz para dispositivos idênticos em outros locais.
— Aqui é o templo central — respondeu uma voz. — Temos uma emergência. Monstros estão saindo em massa dos níveis subterrâneos do templo. Nesse ritmo, eles invadirão a própria cidade. Solicitamos assistência imediata.
Abel virou-se para Sura e assentiu imediatamente. Então ele olhou para Roman, o Herói, que assentiu de volta para ele.
— Lorde Hilarion está fora a negócios. No entanto, o grupo de rank B, Espada Carmesim, e o grupo do Herói, atualmente em residência, fornecerão reforços.
Antes mesmo que Sura terminasse de falar, todos eles estavam correndo para fora do escritório. Abel deixou uma mensagem para ela enquanto saía apressado.
— Contate o Ryo também. Ele está no Centro Real de Alquimia.
Gordon saltou de sua posição fetal e correu atrás deles.
O templo central no Palácio de Cristal, a capital real, era o centro de adoração da Deusa da Luz no Reino de Knightley. Situado quase no centro exato da cidade, era um lugar que plebeus, nobres e a realeza visitavam para orar, dia e noite.
E na parte mais ao norte do templo central ficava o Santuário do Silêncio, uma câmara de formato oval com cinquenta metros de raio e um teto alto em cúpula. No centro da sala, um lance de escadas levava às catacumbas do templo.
No momento, uma batalha estava ocorrendo em frente às escadas que levavam do primeiro nível subterrâneo para o segundo.
— Ngh! Isso não está funcionando.
— Monges, recuem! O resto de vocês, forneçam suporte de fogo!
Armados até os dentes, os monges no Reino sabiam lutar como devotos da Deusa da Luz. Alguns sacerdotes e sacerdotisas, como Rihya da Espada Carmesim e Eto do Quarto 10, entravam no campo de batalha como aventureiros, mas sempre faziam parte da retaguarda. Mas os monges usavam armadura, carregavam cajados sagrados e abençoados, e eram vanguardas que lutavam nas linhas de frente. Embora alguns ocasionalmente se tornassem aventureiros, a maioria passava a vida a serviço do templo. Como tal, ninguém poderia dizer que eles tinham muita experiência em combate. Mesmo assim, eles ainda eram uma força de combate valiosa nas linhas de frente na defesa do templo central.
— Bombardeiem-nos!
— Lança de Luz.
Uma dúzia de lanças de luz arqueou pelo ar, perfurando vários alvos cada uma. Cada lança matou seus alvos eficientemente sem sobreposição, evidência da capacidade dos monges de se comunicarem mesmo durante a retirada do quarto nível para o primeiro. Mas em seu coração, Rihya, no comando das forças, estava em pânico.
Deveríamos ter reduzido seus números consideravelmente. E ainda assim... o poder deles não diminuiu em nada.
Não importava quantos monstros eles destruíssem, eles simplesmente continuavam vindo sem parar. Quase como... uma Grande Maré de Monstros.
O primeiro subnível está logo acima de nós... As coisas se tornarão muito mais difíceis se não conseguirmos contê-los e eles chegarem ao Santuário do Silêncio, porque aquele espaço é grande demais.
Eles conseguiram conter as criaturas aproveitando tanto a estreiteza das catacumbas quanto as escadas para reduzir a área de contato. Mas se os monstros se espalhassem para o Santuário do Silêncio, também conhecido como a Sala Oval, ela e os outros sucumbiriam ao volume puro dos números do inimigo. Mas as chances de eles derrotarem a inundação de mortos-vivos antes que chegassem à câmara eram...
Impossível.
Apesar de tais pensamentos passarem por sua mente, Rihya não os demonstrou em seu rosto.
Se um comandante perdesse a coragem, suas tropas seriam derrotadas em um instante. Se um comandante duvidasse de sua capacidade de vencer, eles quase certamente perderiam a batalha. Se um comandante parecesse indeciso, então eles logo seriam subjugados. Era assim que o papel de um comandante era importante.
Rihya estava liderando esta batalha porque fora nomeada pelo Sumo Sacerdote Gabriel, a pessoa encarregada do templo central da capital real. Como detentor do mais alto posto entre os clérigos do Reino, o sumo sacerdote normalmente lideraria o ataque e todos os afiliados ao templo central obedeceriam.
No entanto, Gabriel sabia que não tinha nem a habilidade nem a experiência para assumir o comando na batalha. Ele nunca fora muito bom em lutar e não tinha muita experiência em arriscar a vida. Portanto, simplesmente não havia como tal pessoa liderar com calma... especialmente porque estavam lutando contra uma grande horda de monstros.
No momento em que o Sumo Sacerdote Gabriel chegou a essa conclusão, ele olhou abruptamente para o lado. E lá estava Rihya, observando os monstros avançarem, sua expressão digna e resoluta. Ele sabia que, uma vez, ela fora chamada de santa. Afinal, foi o próprio Gabriel quem a nomeou assim. Ele só podia pensar que era a vontade da Deusa que tal mulher estivesse aqui neste momento.
E assim ele a nomeou como comandante da batalha. E ele mesmo liderou a unidade de ataque mágico sob o comando de Rihya, seguindo totalmente suas ordens. Essa visão fez com que até mesmo aqueles surpresos com sua decisão concordassem em lutar sob o comando dela. Com sua reputação de santa combinada com o apoio do Sumo Sacerdote Gabriel e o total suporte do capitão dos monges, Gawain, eles conseguiram travar uma batalha defensiva sem desmoronar sob o ataque dos monstros.
— Preparem-se para atirar. Monges, estejam prontos para começar o assalto mais uma vez.
— Sim!
Ela não esperava menos dos guerreiros. O moral deles permanecia alto.
— Bombardeiem-nos!
— Lança de Luz.
Eles derrubaram um número decente de monstros, principalmente do tipo esqueleto. Mas por alguma razão, havia goblins também...
Por que... Por que há goblins entre eles? Eu consigo entender a presença de esqueletos do tipo osso e espectros do tipo espírito, considerando que estas são as catacumbas, mas goblins? Nunca ouvi falar de algo assim acontecendo antes, mas simplesmente não faz sentido... De onde no mundo eles vieram? Ou poderia ser...
— É um ogro! — O grito veio dos monges enquanto eles avançavam para a luta.
Eles estão certos! Um ogro. O que diabos essa coisa enorme está fazendo aqui? A passagem mal tem dois metros de altura?!
Um ogro de cerca de dois metros e meio de altura andava com as costas curvadas, o que significava que não podia utilizar seu tamanho ou força. No entanto, ogros possuíam uma quantidade inacreditavelmente alta de resistência, então apenas um era suficiente para afetar seriamente a velocidade com que os humanos destruíam seus inimigos. Focar no ogro significava permitir que o resto atrás dele se aproximasse.
Não podemos avançar, tornando a retirada inevitável... Os monges e a unidade de ataque têm moral alto, mas sua resistência e magia não são infinitas... Seria melhor trocá-los por sangue novo. E por que a Ordem Real dos Cavaleiros não está aqui? Deveríamos tê-los contatado primeiro, certo? Pelo amor de Deus, o quartel deles é logo ali...
Rihya olhou para o Sumo Sacerdote Gabriel então. Ele entendeu o que ela queria, mas só pôde balançar a cabeça. Em outras palavras, os cavaleiros ainda não haviam chegado.
Ela rangeu os molares, fechou os olhos e respirou fundo, uma maneira eficaz de se acalmar. Em seguida, abriu os olhos e deu ordens.
— Assim que derrotarmos o ogro, quero que os monges recuem. Unidade de ataque, abram fogo assim que o inimigo for atraído.
Mesmo que isso fosse uma retirada, eles ganhariam o máximo de tempo possível entre o primeiro e o segundo subsolo até a chegada de reforços. O plano de Rihya era sólido.
Comparado à batalha que travaram abaixo do terceiro subnível, eles contiveram o inimigo por um tempo considerável em frente às escadas entre o primeiro e o segundo. No entanto, eles estavam finalmente chegando ao seu limite.
— Abandonem o segundo andar. Monges, atrasem o inimigo nas escadas. Unidade de ataque, recuem para o centro do primeiro subsolo e preparem-se para atirar. Assim que isso for concluído, quero que os monges recuem para lá também.
— Entendido!
Até este ponto, houve alguns feridos, principalmente entre os monges, mas milagrosamente ninguém havia morrido. Como todos eram clérigos, seus ferimentos se curavam rapidamente, então podiam lutar com praticamente nenhum dano. Tal batalha normalmente seria impossível, mas a localização vantajosa e o grande número de clérigos tornaram-na possível. Sem mencionar que a estratégia de Rihya de ganhar tempo e minimizar as baixas contribuiu muito para o sucesso deles.
No entanto, ela sabia que tanto a resistência dos monges quanto o poder mágico da unidade de ataque estavam perto de seus limites. Infelizmente, não havia nada que ela pudesse fazer. Eles não tinham outra opção a não ser continuar ganhando tempo e esperando por reforços da Ordem Real dos Cavaleiros.
— Unidade de ataque, retirada completa. Monge, recue para o centro do primeiro andar.
A esse comando, os monges que estavam segurando o inimigo nas escadas recuaram com o Capitão Gawain na liderança e o Vice-Capitão Chase na retaguarda. Ambos deram tudo de si nas linhas de frente, o que significa que perderam a maior parte da força física e mental.
O Capitão Gawain praticamente tropeçou em seu caminho até seu destino. No entanto, na retaguarda, uma pessoa desapareceu de vista de repente. O Vice-Capitão Chase havia caído.
Quando Rihya percebeu, um hobgoblin estava quase em cima dele. Assim que ela estava prestes a lançar a Lança de Luz, alguém agarrou seu braço por trás para impedi-la. E então ela ouviu.
— Vento, por sua vontade, seja a lâmina que corta meus inimigos. Corte de Ar.
Um espadachim passou correndo no momento em que o feitiço de Lyn cortou o pescoço do hobgoblin com precisão. Quase ao mesmo tempo em que a cabeça do monstro voou, Abel alcançou Chase, ergueu-o nos ombros e voltou para Rihya.
— Abel...
Seus olhos se encheram de lágrimas.
— Desculpe o atraso, Rihya.
Os reforços que os clérigos esperavam desesperadamente finalmente haviam chegado.
Abel e Roman, o Herói, lutaram na linha de frente. Enquanto isso, Lyn, Alicia, Berlocke, Graham e Gordon, o mago do fogo que entrara em choque graças ao súbito desaparecimento de Nancy, bombardearam o inimigo com magia. Os clérigos usaram esse tempo para descansar e se recuperar, já que vinham lutando sem pausa.
Embora esta unidade de ataque mágico em particular consistisse em apenas cinco pessoas, todos eram indivíduos excepcionais — Lyn, uma aventureira de rank B e maga do ar, e os magos do grupo do Herói. Comparado aos sacerdotes e sacerdotisas que não eram talhados para a batalha em primeiro lugar, seu poder de fogo era mais do que suficiente para apoiar os dois espadachins geniais na linha de frente, Abel e Roman, o Herói. Eles formavam uma imagem heroica lutando da maneira que faziam.
— Incrível...
Ninguém sabia quem disse isso, mas aquela única palavra representava os sentimentos de todos os clérigos em descanso. Nenhum deles, incluindo o Sumo Sacerdote Gabriel, conseguia entender o fato de que o próprio Herói estava aqui com eles agora. Então, no final, eles desistiram de tentar entender e consideraram ser a vontade divina, assim como a presença de Rihya no início. Em momentos como este, aqueles que servem a Deus podem ter uma vantagem. Porque Deus pode arcar com toda a responsabilidade.
— Puxa, isso parece demais com uma Grande Maré de Monstros — observou Lyn para Rihya.
— Não poderia concordar mais — respondeu a outra mulher.
Eles mantiveram o bombardeio mágico o tempo todo. Graças à resistência incomparável dos dois homens lutando na linha de frente, os outros não estavam tão pressionados pelo ataque. Não foi surpresa, então, que Rihya finalmente exalou em alívio, liberando parte da tensão que sentia ao comandar os clérigos na retirada do quarto subnível.
— Esse é o fenômeno em que um fluxo interminável de monstros sai de uma masmorra, certo? — Alicia interveio, ouvindo a conversa delas.
— Exato. Cerca de seis meses atrás, ocorreu um na masmorra de Lune. Essa é a cidade que usamos como base. O anterior havia acontecido uma década antes do de Lune. Mas isso não é uma masmorra, é? — Lyn respondeu a ela.
— Certamente não é. Apenas uma catacumba de cinco níveis onde repousam os restos de renomados sumos sacerdotes e santos — explicou Rihya.
Havia múmias, mas elas eram substancialmente diferentes de qualquer coisa que saísse de uma masmorra.
— Então poderia ser que esses monstros estejam conectados a outro lugar...? — disse Alicia com um aceno pensativo.
— Mas isso é mesmo possível? — Lyn parecia surpresa.
— Não deveria ser, para humanos pelo menos, e nunca ouvi falar de um item capaz de algo assim, mas... Algo assim aconteceu conosco — disse Alicia, uma imagem de Leonore, a akuma, surgindo em sua mente. — Estávamos criando um altar para invocar um rei demônio quando alguém apareceu do nada. Eles conseguiam se comunicar conosco, embora não fossem humanos. Estou apenas pensando que se isso é possível, talvez este lugar também possa estar conectado a outro lugar.
Embora Lyn e Rihya achassem difícil imaginar o que Alicia disse, elas podiam de alguma forma sentir a presença de um ser incrível no mundo. Então, sem nenhuma razão lógica, Rihya se lembrou de algo e se virou para questionar o Sumo Sacerdote Gabriel que descansava atrás dela.
— Sua Reverência, por que a Ordem Real dos Cavaleiros não veio?
No momento em que este surto começou, essa organização foi a primeira que o templo central contatou. No entanto, nem um único de seus membros havia chegado ainda. A ausência deles não fazia sentido, dado que seu quartel ficava a apenas três quarteirões de distância. Mesmo com armadura, não teria levado mais de trinta minutos para chegar a este lugar após o contato.
— Também achei estranho, então tentei averiguar a causa do atraso. Acontece que eles se recusaram oficialmente a mobilizar qualquer um de seus homens para nos ajudar — disse o sumo sacerdote, fazendo uma careta.
— O quê?! — disse Rihya, seu tom tanto histérico quanto exasperado. — O que diabos eles estão pensando?!
— Alguma bobagem sobre como proteger o país é o dever de um cavaleiro. A Ordem Real caiu a níveis deploráveis desde que aquele homem se tornou comandante dos cavaleiros. — Gabriel parecia tão farto quanto ela.
Enquanto isso, coisas estranhas começavam a acontecer do lado de fora da cripta subterrânea do templo central. Relatos de esqueletos e goblins avistados por toda a cidade haviam chegado à sala de comando da Guarda da Capital.
Depois de despachar seus homens, Lex, o vice-capitão da Guarda da Capital, ficou revisando um mapa da capital real. — O que é isso? — ele murmurou, estudando os alfinetes presos ao mapa. Cada um representava um avistamento de monstro. — São todos do lado norte da cidade...
Os avistamentos estavam confinados ao norte, marcados pelo bairro dos nobres na parte norte do distrito e pelo templo central ao sul. Estava claro que alguém havia orquestrado intencionalmente este fenômeno. No entanto, mesmo com esse conhecimento, Lex tinha poucas opções.
Primeiramente, a Guarda da Capital não era tão bem armada quanto a Ordem Real. Normalmente, isso não seria um problema, já que eles lidavam apenas com bêbados e aventureiros arruaceiros... Aventureiros de rank D e superior raramente lhes causavam problemas, então, falando francamente, eles lidavam apenas com os de rank E e inferior, que não eram particularmente fortes.
Comparados a bêbados e aventureiros de rank E, esses inimigos eram bestas de um tipo totalmente diferente. Afinal, os relatos incluíam até um avistamento de ogro. E foi precisamente por isso que Lex pediu ajuda à Ordem Real. No entanto... eles recusaram.
— Qual o significado de tudo isso? — ele gemeu. Quantas vezes ele havia murmurado essas palavras?
Para piorar as coisas, o cargo de capitão da Guarda da Capital permanecia vago, mesmo nesta emergência. O capitão anterior foi considerado culpado de suborno e demitido, então nos últimos meses, o Ministro de Assuntos Internos vinha servindo no cargo. Mas é claro, o Conde Harold Lawrence era um homem ocupado, considerando que estava encarregado de um ministério tão grande do Reino... Em outras palavras, o Vice-Capitão Lex essencialmente comandava a Guarda da Capital. Talvez isso explicasse por que a Ordem Real havia recusado seu pedido.
Naquele momento, seu subordinado entrou correndo.
— Senhor, acabamos de receber uma mensagem do palácio.
O homem lhe entregou um pedaço de papel.
Lex gemeu depois de terminar de ler.
— Senhor?
— Aparentemente, o Conselho Real se reunirá em breve. Lorde Lawrence se reportará a Sua Majestade, e eu devo assisti-lo.
— Mesmo com uma crise acontecendo agora?
— Infelizmente, sim, já que estamos falando do Conselho Real. Talvez eles possam alocar algumas das forças militares sobressalentes do Reino para ajudar na segurança da cidade... Terei que pensar positivamente sobre isso. Estou a caminho do palácio.
A sala de comando e o quartel da Guarda da Capital ficavam bem ao lado do castelo real. Apenas uma corrida rápida de distância. Mas à luz da situação urgente em suas mãos, ele preferiria ficar aqui, provavelmente porque este era o lugar na capital real onde as informações mais precisas se concentravam.
No entanto, também era necessário fornecer relatórios precisos a seus superiores. Se eles dessem ordens erradas com base em dados incorretos ou suposições, seus subordinados seriam os que sofreriam. Lex ponderou as coisas e decidiu um curso de ação, depois partiu em direção ao palácio.
— Sinceramente, nada se compara a conversar com um alquimista de verdade! Estou aprendendo tanto!
— Estou sempre por perto, então sinta-se à vontade para me procurar a qualquer momento.
Ryo estava nas nuvens, e Kenneth parecia muito feliz também. Afinal, almas gêmeas gostam de discutir interesses em comum.
De repente, um visitante chegou e destruiu a paz do Centro Real de Alquimia.
— Com licença, Ryo, mas um mensageiro do Instituto de Pesquisa Mágica está aqui para você — disse Raden, subordinado de Kenneth e chefe assistente do Centro, acompanhado por outro homem.
— Hã? — Ryo inclinou a cabeça, curioso. Apenas Abel sabia que ele estava aqui, e Ryo sabia que Abel estava no Instituto. — Para mim? O que o Instituto quer comigo?
— Pouco tempo antes, a Espada Carmesim e o grupo do Herói responderam a relatos de um surto repentino e maciço de monstros nas catacumbas sob o templo central. Pouco antes de partirem, Mestre Abel solicitou que você fosse contatado como reforço e mencionou que poderíamos encontrá-lo aqui para transmitir a mensagem.
— Monstros? — Embora entendesse as palavras, ele não tinha ideia do que a mensagem realmente significava, então Ryo inclinou a cabeça novamente em confusão. Dito isso, recusar-se a ajudá-los não era realmente uma opção.
Ryo se levantou. — Kenneth, eu volto antes de você—
O porteiro do Centro entrou correndo pelas portas. — Barão Hayward, temos uma emergência! — ele gritou. — Um ogro foi avistado na cidade! Outros monstros também!
A notícia surpreendeu as três pessoas na sala.
— I-Isso não pode ser... — ofegou Raden.
— Parece que essa estranheza não está restrita ao templo central, então. A capital inteira está sob ataque — disse Kenneth calmamente, analisando a situação.
— Ogro na capital... — ponderou Ryo, em seu próprio mundo. — Isso poderia ser o começo de uma cena incrível... Como alguém gritando, ‘Troll na masmorra!’... — Então ele recobrou os sentidos. — Se um ogro está solto na cidade, não seria melhor evacuar para algum lugar mais fortificado?
— Você tem razão — disse Kenneth, agindo imediatamente. — Raden, emita uma ordem de evacuação. Diga a todos para protegerem apenas as informações mais confidenciais e depois escaparem.
— Sim, meu lorde! — Raden correu para fazer exatamente isso e pressionou um botão verde na parede.
Um alarme de aviso soou, então uma luz verde envolveu a sala e o corredor.
— Esta é uma ordem de evacuação. Repito: esta é uma ordem de evacuação. Todos os alquimistas devem evacuar após protegerem todas as informações classificadas de nível um.
Através de algum dispositivo ou técnica, as palavras reverberaram por todo o edifício.
— Uau... Isso é... incrível.
A cena surpreendeu Ryo. Parecia algo saído de um cenário de fantasia.
— Durante seu reinado, o Rei Richard implementou protocolos bastante detalhados para o Centro em caso de emergência — explicou Kenneth com um sorriso irônico, notando a reação de Ryo.
— O mesmo que restaurou a glória do Reino? — perguntou Ryo, com o tom maravilhado.
— Exatamente. Isso aconteceu séculos atrás, mas ele foi, de fato, o primeiro chefe do Centro Real de Alquimia — respondeu Kenneth enquanto reunia o que precisava. Então ele perguntou a Ryo se ele tinha alguma ideia sobre um lugar adequado para se refugiar. Mesmo que tivessem conversado por apenas uma hora, ambos sabiam do que o outro era capaz.
— Tenho, na verdade. Eu vi a propriedade da capital do Marquês de Lune ontem, e acho que seria perfeita. É quase uma fortaleza. Acredito que possa resistir a tudo e a todos.
— Uma escolha lógica, considerando que também fica aqui no distrito leste. Mas o Centro tem quarenta funcionários. Não tenho certeza se eles conseguirão nos acolher todos tão facilmente...
— Deixe comigo. Eu cuidarei da negociação. Ao contrário da minha aparência, eu sou um aventureiro de Lune — respondeu Ryo com um sorriso.
— Fico feliz em ouvir isso. Ah, devo levar estes por precaução. — Kenneth olhou para dois dispositivos lado a lado no canto da sala. Cada um tinha o tamanho de uma garrafa térmica de quatro litros e o formato de um canhão. — Se acabarmos nos barricando, eles serão úteis.
Estranhamente, a pólvora não deveria ser comum aqui em Phi...
— Deixá-los para trás só os destruirá, então é melhor levar, especialmente porque ambos ainda são protótipos — continuou Kenneth com uma risada.
— Protótipos... Essa palavra tem um som incrível. Evoca todo tipo de ideias.
Ninguém ouviu o murmúrio de Ryo. E mesmo que alguém tivesse ouvido, provavelmente não entenderia...
Cinco minutos depois que o alarme soou, todos os quarenta funcionários do Centro Real de Alquimia estavam reunidos em frente à entrada do prédio. Alquimistas, assistentes, guardas e outros ajudantes.
— Ryo, contamos com você para levar todos para a segurança.
— E não vou decepcionar. Muralha de Gelo de 5 Camadas.
Ele os cercou com uma parede de gelo, adicionando um pingo de azul para torná-la opaca. Se fosse completamente transparente, eles poderiam se machucar batendo nela...
— Uma parede de gelo...? Eu sei que você é um mago da água, mas nunca vi nada assim antes. Incrível!
— Ah, não é nada, de verdade.
O elogio de Kenneth deixou Ryo envergonhado. Os outros, mesmo os que não eram alquimistas, batiam na parede de gelo experimentalmente. Ele não se surpreendeu ao ver que aqueles que trabalhavam no Centro estavam interessados não apenas em alquimia, mas também na própria magia.
— Tudo bem, pessoal, estamos saindo. A residência do marquês fica a menos de um quilômetro daqui. Não acho que levará mais de dez minutos para chegarmos lá. A parede de gelo tem três metros de largura, então, por favor, certifiquem-se de me seguir.
E com isso, Ryo começou a andar. Ao seu lado, Kenneth segurava uma bolsa contendo um dos “protótipos”. Atrás dele, Raden carregava outra bolsa contendo o outro “protótipo”. Os outros ficaram perto deles.
Com Ryo e Kenneth na liderança, o grupo deve ter parecido de longe como se estivessem se movendo dentro de um túnel de gelo azul pálido. Apesar do relato de um avistamento de ogro, eles não foram atacados. Claro, mesmo que fossem, a parede de gelo os protegeria.
Quando chegaram à propriedade do Marquês de Lune dez minutos depois, encontraram o local já sob forte segurança. O portão estava fechado, e os dois porteiros de ontem não estavam em lugar nenhum. Em vez disso, arqueiros estavam no topo das muralhas altas.
— Bem... você não estava brincando sobre isso ser uma fortaleza. Tenho que admitir, acho as defesas ainda mais imponentes do que imaginava. — O olhar de Kenneth foi do portão para as ameias e depois para os arqueiros posicionados no topo destas. Atrás dele, Raden assentiu em concordância vigorosa.
Ryo parou em frente ao portão e gritou: — Com licença!
Uma voz gritou de volta do outro lado. — Quem são vocês?! Digam o que querem!
— Meu nome é Ryo, um aventureiro de rank D de Lune. Todos os outros aqui trabalham no Centro Real de Alquimia. Devido às ocorrências estranhas na cidade, viemos buscar abrigo aqui. Então, por favor, transmitam esta mensagem ao Capitão Eden!
— Um momento.
Ryo sentiu um certo alívio ao perceber que não seriam mandados embora. Ele não achava que Eden ou qualquer um dos outros cavaleiros de Lune que ele conhecia faria tal coisa, mas esta era a capital real e ele não conhecia as pessoas do marquês aqui, então...
Após um minuto de espera, ele ouviu alguém chamar do topo da muralha.
— Mestre Ryo?
Ele reconheceu aquela voz. Quando Ryo olhou para cima, viu Eden, comandante de pelotão e líder dos cavaleiros que haviam transportado as pedras mágicas de Lune.
— Sou eu, Eden. Olá.
— Certo, sim, olá... Ahem. Então o resto de vocês devem ser as pessoas do Centro. Ainda não há muitos esqueletos e goblins aqui, mas... Ah, perdoe minha falta de modos. Por favor, entrem. Abram o portão! — Eden latiu essa última parte como uma ordem.
Felizmente para eles, descobriu-se que o Capitão Eden era um cavaleiro de alta patente, mesmo entre a equipe da capital do marquês. Foi assim que o grupo de pessoas do Centro Real de Alquimia conseguiu entrar na propriedade do Marquês de Lune. Considerando o que estava para acontecer na capital real, essa evacuação provou ser uma excelente jogada por parte de Ryo.
Uma hora se passou desde a chegada de Abel e dos outros ao templo central. Eles se revezavam com os clérigos um tanto recuperados e continuavam a conter a horda de monstros no meio do primeiro subnível. Agora que tinham o poder de combate necessário, podiam parar de recuar por enquanto.
Infelizmente, os monstros continuavam a vir. Abel e Roman, o Herói, haviam derrotado uma quantidade razoável na linha de frente, mas os outros monstros haviam arrastado os cadáveres sem que eles sequer percebessem. A esperança de Abel de matar muitos inimigos e, assim, formar uma muralha de cadáveres foi ingênua.
— Realmente não há fim à vista, hein? Roman, você está bem? Acha que consegue aguentar um pouco mais?
— Sim, ainda estou bem. Mas estou preocupado com os magos e seu suprimento de magia — ele respondeu.
Abel olhou para a expressão de Lyn. Ela não ficaria sem magia imediatamente, mas ele podia sentir que ela se aproximava de seu limite. Ele sabia porque haviam lutado juntos por muito tempo. Ele e Roman trocaram de lugar com os monges, recuando temporariamente. Ele aproveitou a oportunidade para falar com Lyn.
— Lyn, eu gostaria de te dizer para economizar sua magia, mas acho que já é tarde demais para isso.
— É, sem brincadeira. Lutar por tanto tempo é pedir o impossível de um mago. Você sabe disso. O pior é que os magos do grupo do Herói estão em situação ainda mais difícil que eu — ela respondeu em tom baixo.
Abel olhou para as pessoas em questão. Mesmo ele podia dizer que estavam chegando aos seus limites.
— Isso é ruim. Deus, eu realmente espero que alguém tenha conseguido entrar em contato com Ryo.
— O que você quer dizer?
— Bem, eu pedi a um dos homens de Hilarion para avisá-lo assim que saímos. Essa bagunça seria um pouco mais fácil de administrar com ele por perto, não acha? — Abel disse com um suspiro.
Naquele momento, ele ouviu uma voz vindo de trás.
— Jato de Água 256.
De repente, as cabeças deles começaram a voar, uma após a outra.
— Geada Eterna.
Em seguida, a área até as escadas que levavam ao segundo subnível se transformou em um mundo de gelo. O desenvolvimento inesperado parou todos, incluindo os monges, em seus lugares.
— Abel, Abel, Abel. Você não sabe que nunca vai melhorar como espadachim se estiver sempre vadiando?
Quem mais apareceria senão Ryo, o mais forte mago da água que Abel conhecia.
— Você está atrasado, cara.
— Saiba que não é minha culpa. Tive que ajudar Kenneth e sua equipe a evacuar para a propriedade do Marquês de Lune primeiro. Um filósofo famoso disse uma vez: ‘Os bons lutadores da antiguidade primeiro se colocavam além da possibilidade de derrota e depois esperavam uma oportunidade para derrotar o inimigo’. Isso significa que você deve primeiro impedir que o inimigo vença, mesmo que ele te ataque — Ryo tagarelou, discutindo suas táticas perplexas como se fossem fatos frios.
— Ceeerto... — Abel não entendeu a maior parte do que ele disse, mas entendeu que Kenneth e seu pessoal estavam seguros. No entanto, uma pergunta surgiu em sua cabeça naquele momento. — Espera, isso significa que essas coisas apareceram em outros lugares também?
— Parece que sim. Embora não haja muitos deles no distrito leste...
As pessoas próximas ouviram a conversa de Ryo e Abel.
— Sua Reverência... — começou Rihya, ouvindo a conversa deles.
— Eu sei, Rihya — respondeu Gabriel. — A Ordem Real dos Cavaleiros e a Guarda da Capital devem estar cuidando desses surtos, o que explica por que não enviaram reforços para cá.
Sua expressão era especialmente grave porque agora ele sabia com certeza que teriam que continuar esta batalha sem ajuda e sem saber quando terminaria. Foi por isso que a súbita nonchalance de Abel o surpreendeu.
— Nah, vamos ficar bem. Ryo está aqui agora — disse Abel, encarando Gabriel.
Ryo balançou a cabeça um pouco quando ouviu isso. Então ele olhou ao redor e falou. — Pelo que posso ver, os magos estão prestes a ficar sem magia, hm? Como devemos proceder? Devo usar uma parede de gelo para afunilá-los um por um e fazer Abel derrotá-los todos sozinho?
— Por que sempre tenho que ser eu a fazer todo o trabalho? Além disso, Roman ainda tem bastante resistência sobrando.
Ryo olhou para Roman também e assentiu. — Você está certo. Cheio de vida.
— U-Um, foi você quem interveio ontem, certo? Ofereço meus mais profundos agradecimentos. — Com isso, Roman inclinou a cabeça.
Talvez fosse o lugar e a hora errados para agradecer, mas um pouco de gratidão sempre ajuda.
— Oh, não, não se preocupe com isso — disse Ryo humildemente.
— Pessoal, vocês não acham que essa conversa pode esperar para depois? — Abel brincou.
— De qualquer forma, por enquanto, acho que deveríamos deixar os... Como se chamam aquelas pessoas na linha de frente? Os guerreiros do templo? Vamos deixá-los descansar. A força deles está claramente diminuindo.
Os monges fizeram como Ryo sugeriu.
— Ei, Ryo, o que devemos fazer com os que você congelou?
— O que você quer dizer? — ele respondeu, sem entender a pergunta de Abel.
— Bem, eles estão mortos, certo?
— Ah, entendi. Sim, os goblins e orcs estão mortos. Quanto aos tipos de mortos-vivos como esqueletos... não tenho certeza se ‘morto’ é a palavra correta para usar com eles.
— Dá no mesmo. Não precisa ser tão minucioso a essa altura. Além disso, tenho certeza de que mais deles vão subir do segundo subnível e abaixo...
Abel acabou tendo razão. Naquele momento, mais esqueletos surgiram das escadas que levavam àquele andar subterrâneo.
— Esqueletos marchando por um mundo de gelo... Que cena surreal — Ryo murmurou, quase para si mesmo.
— Você não se incomoda com nada disso, hein? Deve ser bom ser você. — Abel suspirou pesadamente.
— De qualquer forma, provavelmente não deveríamos perder muito tempo aqui, considerando as outras aparições pela cidade. Vou usar a Muralha de Gelo para separá-los. Abel, você e Roman os eliminam na frente. Eu cuido de qualquer um que vocês perderem. Enquanto isso, os outros magos devem se concentrar em recuperar seus poderes mágicos. O que acham deste plano? — Ryo perguntou, olhando inquisitivamente para Rihya e o Sumo Sacerdote Gabriel. Claro, ele não conhecia o homem, mas Ryo presumiu que ele era a pessoa de mais alto escalão aqui com base em suas roupas, as mais chiques do lote.
— Se você acha que vai funcionar, Ryo, então prossiga, por favor — disse Rihya com um aceno de cabeça.
Abel e Roman tomaram isso como sua deixa para entrar em ação e retomar seu extermínio.
— Ooooh, que espetáculo esplêndido. Ambos são incríveis. — Ryo os observava por trás, impressionado com seus movimentos.
Eles derrubaram a maioria dos monstros atacantes. Ryo decapitou os poucos que conseguiram escapar antes que pudessem ir muito longe. Os jatos de água eram quase imperceptivelmente finos, o que significa que a maioria das pessoas só via cabeças caindo de repente dos corpos dos monstros. Um por um, Abel, Roman e Ryo erradicaram o inimigo, trazendo uma profunda sensação de alívio para aqueles que assistiam. Tendo lutado por tanto tempo, eles finalmente se permitiram sentir um vislumbre de esperança.
Depois de algum tempo, Ryo de repente se virou para Rihya e o Sumo Sacerdote Gabriel. — Existe alguma passagem ou algo aqui que se conecta a outro lugar?
— Não deveria haver...
— É como Rihya diz. Por que pergunta?
— Parece que menos deles estão saindo... Talvez porque tenhamos feito uma mossa em seus números? — Ryo murmurou.
— Nesse caso, espero que isso acabe logo — disse Lyn alegremente em resposta.
— Ah! — Gabriel gritou.
Ryo, Rihya e Lyn olharam para ele.
— O terceiro subnível está conectado ao porão de um antigo mosteiro. No entanto, há três portas ao longo do caminho, cada uma protegida com um selo sagrado.
— Eu não fazia ideia... — disse Rihya, surpresa.
— Claro que não. E por que saberia? Essa passagem nunca é usada. Sem mencionar que não acho que alguém tenha verificado se ela ainda está lá depois que o mosteiro foi realocado — respondeu Gabriel com um aceno de cabeça.
— O que há dentro daquele antigo mosteiro agora? — perguntou Ryo.
— Deixe-me ver... O segundo campo de treinamento da Ordem Real.
— Então, mesmo que eles consigam atravessar e usar a passagem, os Cavaleiros Reais deveriam ser capazes de lidar com eles, certo?
A resposta de Gabriel tranquilizou Ryo, então ele decidiu se concentrar na tarefa em mãos. No entanto, era uma pena que o padrão de Ryo para uma ordem de cavaleiros fosse o do Marquês de Lune. A antiga Ordem Real era uma coisa, mas quanto à atual...
Quando aconteceu, havia sessenta cavaleiros no segundo campo de treinamento. Trinta estavam do lado de fora, e os trinta restantes estavam no salão interno. O prédio inteiro tremeu, e se fossem pessoas decentes, os trinta no salão teriam se perguntado o que estava acontecendo. Exceto que mais da metade estava bêbada. Cavaleiros bebendo durante o dia... A podridão no topo sempre atinge a base. Isso era inevitável, independentemente do mundo, era ou organização. Os únicos que foram investigar foram os dez cavaleiros sóbrios.
Eles viram uma horda de esqueletos, espectros, goblins, hobgoblins, orcs e ogros saindo do depósito no final do corredor. Os cavaleiros encararam a horda que se aproximava, completamente consumidos pelo desespero. Eles nem mesmo desembainharam suas espadas. Sem falar nos vinte bêbados. Os monstros invadiram a área de descanso e os engoliram em um instante.
A sala de armazenamento no final do corredor... Quando este prédio era um mosteiro, esta sala estava conectada ao templo central através do porão. Claro, os cavaleiros não sabiam disso. Sabendo ou não, provavelmente não teria feito diferença alguma.
Os monstros saíram do prédio e se dirigiram aos trinta cavaleiros que praticavam do lado de fora. O único princípio orientador por trás do movimento da horda era a direção da pessoa viva mais próxima. Os trinta cavaleiros do lado de fora ofereceram alguma resistência em comparação com os de dentro, mas foram engolidos em menos de dois minutos.
Os cavaleiros eram acompanhados por seus escudeiros, que os ajudavam a vestir suas armaduras e montar seus cavalos no passado. Embora os avanços tecnológicos agora permitissem que os cavaleiros se armassem sem ajuda, eles continuaram a ter escudeiros como uma espécie de tradição. Esses servidores se tornaram vítimas da mesma forma.
As centenas, talvez até milhares, de monstros se dirigiram mais para o norte. Para o primeiro campo de treinamento da Ordem Real. Os trinta cavaleiros em treinamento básico ali foram engolidos sem qualquer resistência. Mesmo considerando que foi um ataque surpresa, era difícil acreditar que estes eram a elite do Reino. Então os monstros foram ainda mais para o norte. Para o quartel dos cavaleiros.
O quartel dos cavaleiros era uma das bases de operações mais importantes da Ordem Real, juntamente com sua sede dentro do palácio, e também era o lar de muitos dos altos escalões. Por essa razão, guardas estavam posicionados em várias entradas.
Como esperado, eles não estavam bêbados. Eles não só tinham que lidar com seus companheiros cavaleiros, mas também com pessoas de fora da organização, então não podiam se dar ao luxo de serem estúpidos. Considerando que membros da família real e figuras importantes do país às vezes visitavam, os guardas nas entradas podiam ser os mais sensatos da Ordem Real presentes.
E como esperado, eles reagiram rapidamente. Quando viram os monstros se aproximando, tocaram o sino, sinalizando uma emergência, conforme o protocolo.
Pelo menos agora os cavaleiros no quartel não seriam pegos de surpresa — ou não deveriam ter sido. Infelizmente, eles estavam tão relaxados que não se tensionaram ao ouvir o sino. Além do mais, a horda tinha tanto ímpeto que os guardas na entrada não conseguiram oferecer nenhuma resistência. Eles e o sino foram devorados, extinguindo seu sinal. Aconteceu tão rápido que os cavaleiros relaxados concluíram que havia sido um alarme falso e seguiram com seu dia.
Um ogro facilmente esmagou o portão que os guardas estavam guarnecendo. Esta era a capital real, não a fronteira, então não era exagero dizer que este era o último lugar que alguém esperaria ver tal criatura. O portão seria difícil para um humano atravessar, mas não tinha chance contra um ogro.
Os cavaleiros no quartel só perceberam que algo estava errado quando os monstros invadiram o próprio prédio. Só então a resistência começou. Nos corredores e escadarias, era possível para uma ou duas pessoas resistirem. No entanto, eles foram eliminados um por um pela violência dos números esmagadores da horda.
No momento em que a horda havia purgado os corredores e salas do primeiro andar, as escadas para o segundo andar haviam sido abandonadas no meio do caminho. Foi pura coincidência que o Comandante dos Cavaleiros Baccala, que geralmente ficava na sede dentro do castelo real, estivesse aqui. Ele viera buscar alguns pertences pessoais em seu escritório no quarto andar do quartel. No entanto, seu tempo relaxando e tomando um pouco do uísque de alta classe que ele guardava em seu escritório saiu pela culatra. Quando Baccala percebeu que algo estava errado, o segundo andar já havia se tornado um campo de batalha. Foi só então que o cavaleiro finalmente veio ao seu escritório para relatar.
— Senhor, o quartel está sob ataque de esqueletos e ogros.
Se alguém soubesse de toda a história, não teria conseguido se conter de rir deste relatório. Primeiro, teriam dito: “Você está me dizendo isso agora?” Então, teriam seguido com um: “De todas as coisas no mundo para escolher, por que esqueletos e ogros?” Finalmente, com uma última risada, teriam dito: “Bem, não há nada que possamos fazer sobre isso agora.”
Enquanto ele relatava, a batalha no segundo andar terminou, e os sons de luta podiam ser ouvidos logo abaixo, no terceiro andar. Neste ponto, o Comandante Baccala considerou escapar pela janela. A noção de descer ao terceiro andar para assumir o comando da batalha nem mesmo lhe ocorreu. No entanto, pular do quarto andar certamente resultaria em ferimentos graves, mesmo que a queda não o matasse. Além disso, havia monstros do lado de fora do prédio, olhando para cima...
Enquanto hesitava, os sons de luta se aproximaram, bem ao seu lado, do corredor do quarto andar. Foi quando ele finalmente desembainhou sua espada. A porta veio abaixo ao mesmo tempo e algo voou para dentro. Baccala instintivamente brandiu sua espada, matando o goblin com um único golpe.
Embora ele não fosse de forma alguma um cavaleiro incompetente, ele havia baixado a guarda desde que se tornou o comandante da Ordem Real. O fato de sua espada ter parado depois de derrubar o goblin era a prova.
Um machado imediatamente veio voando e atingiu seu peito. Sangue jorrou de sua boca. Por reflexo, ele caiu de joelhos. Ele levantou a cabeça rapidamente, mas era tarde demais. A última coisa que viu foi um hobgoblin brandindo sua espada. Baccala Tow, Conde de Ware, morreu aos trinta e oito anos.
Os monstros que dominaram o quartel da Ordem Real foram soltos na capital, juntando-se aos outros já atacando a cidade, aparecendo não apenas nos níveis subterrâneos do templo central, mas por toda parte...
O Enclave era a embaixada na capital real para os elfos que viviam na Floresta Ocidental. Cinco anos atrás, foi transferido para um canto do bairro dos nobres no noroeste da cidade e atualmente tinha cerca de trinta elfos estacionados lá. Entre eles, quinze eram considerados a elite do pessoal permanente e haviam sido treinados por uma mulher que estava lá desde ontem. Embora tivesse sido apenas um dia, os olhos do pessoal estavam cheios de medo e admiração... Sem falar que ambas as palavras têm significados semelhantes.
O treinamento daquela manhã fora ainda mais duro que o de ontem, mas o grupo de alguma forma conseguiu almoçar. Eles sabiam que se não o fizessem, não conseguiriam aguentar o treinamento da tarde. Após o intervalo para o almoço, eles saíram para o pátio e avistaram a mulher, Sera, parada na estrada em frente ao prédio principal do Enclave.
Locksleigh, a quem ela havia derrotado capitalizando seus erros, aproximou-se dela. Claro, ele não era exceção, e o mesmo medo e admiração que afligiam os outros também enchiam seus olhos. No entanto, ao mesmo tempo, ele estava começando a admirar a força dela. Se essa foi a razão de sua abordagem, não ficou claro.
Sera percebeu que ele se aproximava e chamou: — Locksleigh, esses eventos são populares na capital hoje em dia? — Ela estava olhando para uma criatura de cerca de três metros de altura caminhando em direção a eles, com um porrete na mão. Após uma inspeção mais detalhada, parecia ser um ogro.
— De forma alguma, na verdade. No entanto... acredito que seja um ogro. Mas por que está aqui...?
Um monstro nas ruas da capital real era uma visão... improvável, para dizer o mínimo. É por isso que Sera perguntou em primeiro lugar, mas até mesmo Locksleigh estava perplexo com o que viu.
— Derrubá-lo não deve ser um grande problema se ele atacar. Mesmo assim... — Ela parecia quase revigorada, embora não houvesse nada de revigorante no que disse.
Locksleigh ouviu suas palavras em alto e bom som. No entanto, ele fingiu não ouvir. Porque sentiu perigo.
Então ela de repente se virou para encarar a estrada atrás dela. Lá, ela viu pessoas correndo desesperadamente, como se estivessem sendo perseguidas. Quando olhou mais de perto...
— Orcs?
Eles eram tão altos quanto humanos. Ostentando cabeças de porco, os monstros eram apenas um pouco mais fortes que goblins.
— Ah, entendo agora. Algo está errado na cidade — Sera murmurou. Ela então desembainhou sua espada. — Locksleigh, salve as pessoas que estão fugindo e leve-as para a segurança dentro do Enclave. Eu cuido do ogro. — Em seguida, ela se virou para o pátio e ergueu a voz. — Temos uma emergência! Equipes 1 e 2, defendam a estrada e ajudem os civis. Equipe 3, tragam todas as armas do depósito para o pátio. Convoquem a Matriarca imediatamente.
Ela nem esperou para se certificar de que os elfos fizessem o que foi instruído antes de atacar o ogro. Considerando que ele tinha quase três metros de altura, sua altura por si só tornava difícil cortar sua cabeça.
Quando percebeu que ela corria em sua direção, o ogro ergueu seu porrete no ar e o desceu. Sera passou correndo pelo seu lado direito, cortando seus joelhos. Quando o monstro caiu no chão e sua cabeça pendeu para a frente, ela o decapitou por trás.
A imagem dela derrubando o ogro com tanta facilidade ficou gravada nas memórias de todos os elfos da primeira e segunda equipes que montavam uma linha de defesa na estrada. Nenhuma pessoa disse uma palavra. Quando Sera voltou para eles, a Matriarca saiu correndo do pátio.
— O que é isso que ouço sobre uma emergência, criança? — ela perguntou, examinando os arredores.
Cadáveres de ogros e orcs cobriam a rua, juntamente com os ossos desmembrados de criaturas esqueléticas.
— Não posso acreditar que isso está acontecendo na capital...
A presença inquietante que a adivinhação havia alertado devia estar se referindo a isso, então.
— Minha senhora, todas essas pessoas fugindo por suas vidas devem ter saído para passear quando o surto começou, então sugiro que as abriguemos aqui no Enclave. Não vejo um fim para isso tão cedo.
— Concordo. Como este é o bairro dos nobres, a maioria dos aristocratas se isolará em suas propriedades... No entanto, seria terrível se eles encontrassem isso enquanto estivessem fora, então nós os protegeremos. Como não sabemos quanto tempo essa situação levará para se resolver, devemos nos abster de usar magia o máximo possível. — A Matriarca inclinou a cabeça em concordância.
— Usaremos ataques à distância para mantê-los afastados e nos concentraremos em matá-los com arcos e flechas. Esqueletos e ogros não podem ser mortos com esse método, então teremos que lutar contra eles a curta distância ou com magia.
— De fato. Vamos prosseguir com esse plano.
E assim, uma longa batalha defensiva começou no Enclave. Mas isso foi apenas parte do caos que eclodiu por toda a capital real.
Em outro lugar, na residência do Visconde Westwood no bairro dos nobres da cidade, Zach Kuhler e Scotty Cobouc da Aliança dos Segundos Filhos estavam visitando para entregar alguns documentos de sua ordem. Normalmente, esse tipo de trabalho não exigia um cavaleiro da Ordem Real, muito menos dois. Mas ambos frequentemente aproveitavam a oportunidade para assumir tarefas como essa. E definitivamente não era porque gostavam de comer algo depois de fazer as entregas, ir a um café que lhes chamasse a atenção ou simplesmente passear pela cidade...
— Não seja tolo — Zach poderia dizer se alguém apontasse isso. Seus desvios apenas os atrasavam um pouco, além de permitirem que patrulhassem a cidade, então estava tudo bem! Sem falar que a Guarda da Capital, uma organização separada da Ordem Real dos Cavaleiros, era responsável pela segurança do Palácio de Cristal.
No entanto, havia outra razão pela qual os dois se atrasaram para deixar a residência do visconde naquele dia. O chefe de cozinha de lá lhes pedira para provar seus novos pratos. Os Westwoods eram conhecidos como gourmands por gerações.
O atual chefe da família, Harvey, era o chefe de cozinha das estalagens estatais do país e era responsável pela comida servida nos três locais em todo o Reino, incluindo o da capital. Essas instalações foram projetadas para receber dignitários visitantes. Em outras palavras, Visconde Westwood era um nome e título frequentemente associado à boa comida.
Era natural supor que o chefe de cozinha da residência do visconde era excepcional. Se a esposa de Westwood pedisse para você provar seus novos pratos, você simplesmente não recusaria. Além disso, o chefe de cozinha conhecia muito bem os nomes desses dois graças à sua irmã, a proprietária do pub, Deixe os Afogados se Afogarem em Seus Copos, que por acaso era o estabelecimento frequentado pela Aliança dos Segundos Filhos.
Na verdade, mesmo entre os frequentadores da taverna, os membros da Aliança eram conhecidos como jovens de bom gosto. Talvez fosse porque eles se divertiam de uma forma ou de outra desde adolescentes e haviam desenvolvido paladares sofisticados... Então, quando o chefe de cozinha soube que eles estavam vindo, ele implorou à viscondessa para deixá-los provar sua comida. Claro, ela não se opôs. Nem eles. E foi assim que eles agora se encontravam desfrutando de um verdadeiro banquete na sala de jantar do visconde, bem depois de terem cumprido sua tarefa de entrega.
Assim que Zach e Scotty estavam elogiando a nova sobremesa que o chefe de cozinha trouxe como prato final, o grito de uma mulher veio do jardim. Os dois se entreolharam, então rapidamente pegaram suas espadas e correram para fora. Lá, uma empregada atordoada sentou-se no chão, olhando para o portão da propriedade, com suas finas barras de ferro entrelaçadas.
Quando seguiram seu olhar, viram um esqueleto olhando de fora. Considerando que nunca se esperaria ver um esqueleto de verdade na capital real, a dupla imediatamente se perguntou se era uma brincadeira. Mas então um segundo esqueleto apareceu — um arqueiro esqueleto, ainda por cima, e começou a atirar flechas neles...
A flecha de um arqueiro esqueleto te machucaria se acertasse o alvo e, desnecessário dizer, te mataria se atingisse o lugar errado. Ninguém seria cruel ou estúpido o suficiente para fazer uma brincadeira como essa. Neste ponto, eles tiveram que admitir que algo estava errado.
Eles cortaram as flechas que vinham com suas espadas e correram para o portão. Zach enfiou sua espada por uma fresta nas barras de ferro e perfurou a testa do monstro. Scotty fez o mesmo, cravando sua lâmina na testa do esqueleto restante. Os dois esqueletos desmoronaram no local.
Armas contundentes, como porretes e martelos, eram as mais eficazes contra esqueletos. Se você pudesse esmagar seus crânios com uma, eles parariam de se mover. No entanto, espadachins e lanceiros preferiam matá-los perfurando seus crânios. Claro, isso era mais difícil do que parecia. Se a espada não atingisse no ângulo perfeito, a curvatura do crânio desviaria a espada para o lado. O fato de Zach e Scotty terem conseguido executar isso era um testemunho de suas habilidades como espadachins acima da média.
Depois de matar os esqueletos, eles olharam para a estrada através das frestas do portão. Lá, eles viram não apenas esqueletos, mas também goblins, hobgoblins, orcs e até ogros.
— Ei... o que é tudo isso?
— Como diabos eu vou saber, cara? Mas isso é ruim. Muito, muito ruim.
Zack e Scotty estavam confusos com essa situação, uma que nunca haviam encontrado antes.
— Então vamos subir para o segundo andar e ver o que está acontecendo no resto da vizinhança.
— Sim, boa ideia.
Então eles carregaram a empregada, ainda mole no jardim, de volta para a mansão.
No castelo real.
— Em outras palavras, o bairro dos nobres está no epicentro do surto de monstros — murmurou o Rei Stafford IV.
Um mapa razoavelmente grande da capital estava estendido sobre a mesa redonda usada para o Conselho Real. A cidade tinha uma forma aproximadamente circular, com o templo central no meio. O quartel da Ordem Real dos Cavaleiros ficava adjacente ao norte imediato do templo. Como o palácio foi construído no lado norte da cidade, esta área abrigava muitas mansões de comerciantes e nobres ricos, e era comumente conhecida como o “bairro dos nobres”. E era lá que os monstros estavam atualmente causando estragos.
— O que diabos está acontecendo...? — murmurou o Ministro das Finanças Fuca.
O Conde Harold Lawrence, Ministro de Assuntos Internos, levantou a mão. — Permitam-me explicar usando as informações que consegui reunir.
Atrás dele estava o Vice-Capitão Lex da Guarda da Capital.
— Monstros foram avistados em vários locais na parte norte da cidade — continuou Harold. — Entre estes, foi confirmado que um grande número deles apareceu nas tumbas subterrâneas do templo central em particular. No entanto, com a ajuda de aventureiros, parece que o templo conseguirá continuar a repeli-los.
Desnecessário dizer que muitos ficaram aliviados ao ouvir isso. O templo central não era apenas o centro da capital, mas também o centro da fé. Se monstros o invadissem, a fé no templo despencaria e inevitavelmente levaria à instabilidade política. Os presentes sabiam que a religião poderia ser uma ferramenta poderosa de governança se usada adequadamente. A perspectiva positiva de defesa do templo central foi a primeira boa notícia desde que esta série de eventos infelizes começou.
Mas as boas notícias terminavam aí.
— Infelizmente, porém, os monstros de lá conseguiram chegar à superfície no segundo campo de treinamento da Ordem Real, que estava conectado à tumba subterrânea do templo. Eles então atacaram o primeiro campo de treinamento e o quartel antes de se espalharem para o bairro dos nobres e convergirem com os outros monstros.
— Você tem alguma ideia do porquê o quartel foi atacado? — perguntou o Rei Stafford IV após ouvir a explicação de Harold Lawrence.
— Não sabemos a razão exata. Dito isso, nossos especialistas teorizam que eles podem ser atraídos para áreas densamente povoadas. Em outras palavras, lugares repletos de força vital. Como sabem, esta é uma característica dos mortos-vivos, dos quais há muitos desta vez, incluindo esqueletos e espectros. Esta pode ser uma consequência natural dos monstros se originarem da tumba subterrânea. No entanto, a mesma tendência foi observada em goblins e orcs, já que também há relatos de eles atacando e matando humanos vivos e depois comendo-os.
Ninguém falou depois que Lawrence terminou de fazer seu relatório, como se temessem que até mesmo uma única palavra pudesse alertar a horda... Alguns dos presentes nesta sessão do Conselho Real realmente temiam tais delírios.
— Ouvi dizer que os cavaleiros no quartel foram exterminados. É verdade? — perguntou o Ministro das Finanças Fuca.
— Lamentavelmente, sim — respondeu Harold Lawrence, com a expressão sombria.
— Os únicos membros sobreviventes da Ordem Real são os cerca de duzentos dentro da sede do palácio, que eles estão atualmente guardando.
— E o Bureau de Magos Reais e a Segunda Guarda Real?
— O primeiro deixou a capital ontem para fins de treinamento. Quanto ao segundo, acompanhou o príncipe herdeiro como sua escolta de proteção para a embaixada da Monarquia de Joux.
— Em essência, então, a única força militar restante para lutar no palácio é...
— Correto. Excluindo os Cavaleiros Reais sobreviventes, apenas a Primeira Guarda Real permanece.
Os participantes do Conselho Real ficaram sem palavras com a pura falta de poder de luta. Ninguém podia negar que a Primeira Guarda Real consistia em soldados de elite, mas eram apenas cem no total. Com os duzentos membros sobreviventes da Ordem Real, isso totalizava trezentos cavaleiros. Mesmo considerando a presença de alguns escudeiros, esse número era simplesmente muito baixo.
Como uma força individual, a Guarda da Capital não era forte. No entanto, havia relatos de seus membros se movendo para várias partes da cidade e lutando com a ajuda de nobres próximos.
— Lorde Lawrence, o que você propõe que façamos agora? — perguntou Fuca.
— Deveríamos mobilizar os Guardas da Capital para o castelo real. Apenas quinhentos permanecem no quartel, já que os outros já estão espalhados por toda a cidade — respondeu o Ministro de Assuntos Internos.
De pé atrás dele, o Vice-Capitão Lex franziu a testa. A Guarda da Capital foi projetada para manter a ordem na capital real, como seu nome sugeria, não no palácio. Em vez de proteger os cidadãos como deveriam, eles agora defenderiam o castelo real... Mesmo entendendo a necessidade do comando em tal emergência, Lex ainda se sentia impotente.
No entanto, eles enfrentavam um problema ainda maior. O fato era que os Cavaleiros Reais, a maior força de combate da cidade, haviam sido aniquilados sem muita resistência. Muitos dos presentes haviam ouvido rumores sobre o acúmulo ilegal de riqueza do Comandante dos Cavaleiros Baccala, mas nenhum o havia denunciado. Provavelmente porque alguns deles haviam feito coisas semelhantes... mais ou menos. Alguns deles até haviam recebido seus cargos desejados graças à sua petição em nome deles... Alguns também pensavam que se guardassem as informações e as provas, poderiam usá-las algum dia.
Todos nesta câmara entendiam que tudo isso havia corrompido a Ordem Real e levado à situação atual. Claro, ninguém admitiria isso em voz alta. Mesmo agora, com as coisas tão sem esperança, ninguém o fez.
O colapso do país estava próximo.
Uma nação deve suportar uma exposição interminável e contínua à pressão externa. Não importa quão pacífica uma nação possa parecer por dentro, ela só pode continuar a existir porque há pessoas que lidam com essa pressão externa.
É como estar em um submarino no fundo do mar. Se você negligenciar o trato com a pressão, ou falhar, a água o esmagará impiedosamente. Mesmo um único ponto fraco será explorado.
É tarefa de um órgão administrativo lidar com essa questão. No entanto, quando essa organização se torna muito grande, como um governo nacional, seus membros individuais perdem de vista essa missão. Quem poderia culpá-los, realmente? Assim, os burocratas ficam presos fazendo a mesma coisa, junto com os ministros que os lideram, e a nação perece. Infelizmente, nenhuma nação está imune ao processo.
Atualmente, dois infelizes cavaleiros estavam prestes a se tornar vítimas da burocracia de seu país: Zach Kuhler e Scotty Cobouc.
Eles definitivamente não eram vítimas de sua própria preguiça. Não — definitivamente não. E eles definitivamente não se envolveram nessa confusão apenas porque estavam muito ocupados vadiando naquele dia para chegar em casa a tempo... Não, não era o caso. Eles eram simplesmente mais duas vítimas infelizes de sua nação!
— Somos os únicos dois que podem lutar. A viscondessa, sua filha, o chefe de cozinha, o mordomo e as empregadas — todos os dez são não combatentes, afinal... — disse Zach.
— Quer dizer, você não está errado. Há cerca de vinte lanças na coleção do visconde que podemos usar. Podemos usá-las para atacar à distância para não sermos pegos no portão. A dona da casa nos deu permissão para usá-las também.
— No momento, não há muitos monstros focados nesta propriedade. Eles estão apenas caminhando pela estrada à direita.
— Então algo deve estar atraindo a atenção deles naquela direção. Vamos derrubar os monstros no portão primeiro e ver o que acontece a partir daí. Não vai aguentar muito, já que não foi projetado para combate.
Com o curso de ação decidido, eles se puseram a defender a mansão. Ambos se arrependeram brevemente de terem ficado para desfrutar de um jantar tranquilo em vez de terem ido direto para casa após seus turnos. Se tivessem, no entanto, as pessoas aqui teriam sido vítimas dos monstros... e isso os teria deixado com a consciência pesada.
O pátio do Enclave dos elfos havia se tornado um abrigo para as pessoas da vizinhança. Os moradores das três mansões de cada lado do Enclave haviam fugido para lá depois de verem a linha de defesa inicial dos elfos. Muitas das pessoas no bairro dos nobres tentaram se defender, mas não demorou muito para que os monstros invadissem as instalações, levando a baixas.
A rua em frente à entrada do Enclave era uma das principais vias que se estendiam do templo central da capital real. No Japão moderno, seria facilmente de três pistas de cada lado, totalizando seis. Cruzava uma avenida que se estendia do palácio, tornando a área bastante ampla.
No momento, monstros enxameavam por toda a largura da rua, vindo de todas as direções. Se esta fosse a propriedade de um aristocrata comum, teria sido invadida em cinco minutos. No entanto, a linha de defesa de arqueiros élficos do Enclave era excepcionalmente forte.
Se Ryo visse a cena, provavelmente diria: “Como eu pensei! Não se pode ter elfos sem arcos!” Talvez fosse uma característica racial, but as armas com as quais os elfos se destacavam não eram espadas, lanças ou machados; eram arcos. Claro, havia casos excepcionais como Sera, que era particularmente habilidosa com uma lâmina. Mas eles eram poucos e raros.
E embora ela ostentasse uma esgrima soberba, ela também era uma arqueira de primeira linha, sua habilidade em plena exibição nesta batalha defensiva. Suas flechas, assim como as dos outros elfos que participavam da batalha defensiva, quase nunca erravam o alvo. A única diferença era se atingiam uma parte vital do corpo ou o ponto ao lado. Nenhuma flecha foi desperdiçada.
— Sera, conseguimos acomodar a maioria dos nossos vizinhos que buscaram refúgio aqui. Infelizmente, aqueles que não o fizeram devem ter se resignado à sua sorte. Oremos para que cada um possa resistir.
— Também espero, minha senhora.
— É hora de concentrarmos nossos esforços na defesa dos terrenos agora, em vez da estrada. Pois nossos recursos — tempo, pessoas, armas e mais — são limitados.
A Matriarca tinha razão. Mesmo que estivessem tentando conservar sua magia e munição, era uma batalha de atenção neste ponto.
Mas Sera havia notado algo. A propriedade na diagonal do Enclave ainda resistia obstinadamente. Seus moradores estavam repelindo os monstros em seu portão, espetando-os com lanças de dentro. E com apenas duas pessoas. No entanto, sua eficácia vinha diminuindo nos últimos minutos. Eles estavam se cansando.
— Minha senhora, aquela casa ali no canto oposto. É a única que conseguiu evitar sucumbir ao ataque. Eles estão revidando usando lanças, mas logo estarão no limite.
— Oh? Se bem me lembro... acredito que pertença ao Visconde Westwood.
— Isso não parece bom, Scotty. Mal consigo levantar meus braços.
— Suponho que finalmente estamos vendo os resultados de relaxar durante o treinamento, hein?
Zach e Scotty estavam à beira da exaustão. Eles conseguiram proteger o portão até agora, mas à medida que o cansaço aumentava, também aumentava o número de monstros no portão. O grande número de monstros estava desgastando o portão. Nesse ritmo, ele certamente cairia e as criaturas invadiriam.
Ambos sabiam que todos nas residências vizinhas já estavam mortos. E seu último raio de esperança, a Ordem Real dos Cavaleiros, não estava em lugar nenhum. Claro, eles entendiam a extensão da corrupção da organização melhor do que ninguém — assim como o quanto de poder ela havia perdido como resultado. Mesmo assim, ainda era um dos ativos de combate mais poderosos à disposição da capital real. Portanto, que suas fileiras tivessem sido dizimadas era inimaginável...
Até onde podiam ver, os únicos sobreviventes próximos estavam no Enclave dos elfos, a mais de cem metros de distância. Infelizmente, muitos monstros perambulavam na distância entre aqui e lá. Se fossem apenas os dois, talvez tivessem uma chance. Mas eles e dez civis? Eles nunca conseguiriam.
— Então, o que fazemos agora?
Justo quando Zach decidiu que precisava se preparar para o pior, ele de repente olhou na direção do Enclave e viu uma mulher com longos cabelos loiros platinados que parecia uma oficial comandante. Ela então levantou a mão em um comando silencioso de “Venham aqui!”
Ele não estava alucinando. Ele sabia que não estava. Esse foi o momento em que Zach se decidiu.
— Scotty, vamos para o Enclave.
— N-Nenhuma objeção aqui, mas... como? Como vamos conseguir?
— Acho que vamos ficar bem. A capitã lá vai nos dar cobertura.
Scotty ficou um pouco mistificado com a sugestão de Zach, mas não disse nada. No mínimo, ficar aqui era uma sentença de morte, considerando suas circunstâncias cada vez piores. Se alguma coisa, a recém-descoberta determinação de Zach neste momento precário lhe deu a coragem de que precisava.
Então eles decidiram que Scotty iria primeiro, os dez não combatentes em seguida, e então Zach ficaria na retaguarda em sua jornada para o Enclave. A única coisa que restava a fazer era esperar o momento certo para colocar seu plano em ação.
De longe, Sera viu pessoas saindo para o pátio da mansão.
— Parece que eles estão prontos — ela murmurou. Então ela olhou para o primeiro esquadrão. — Assim como planejamos.
E com isso, ela levantou a mão na direção da outra propriedade. Um dos homens acenou de volta para ela em resposta.
— Tudo bem, comecem as operações! Esquadrão um, fogo!
Até agora, eles só estavam atirando em monstros que entravam no alcance. Agora, sob o comando de Sera, eles dispararam salva após salva contra aqueles entre o Enclave e a casa do Visconde Westwood. Em um piscar de olhos, eles abriram uma rota completamente desprovida de qualquer ser vivo.
Assim que os sobreviventes na propriedade de Westwood se certificaram de que o caminho estava livre, os portões da mansão se abriram e eles correram em direção ao Enclave. O homem na liderança chegou primeiro e ajudou a conduzir os que vinham atrás. Mas então o homem que estava na retaguarda, muito atrás dos outros, tropeçou e caiu.
— Merda! — Zach cuspiu. Suas pernas finalmente sentiram o esforço de toda aquela luta. Antes de cair, ele notou um orc perto demais para o seu conforto. Então ele caiu, sabendo que não conseguiria mais lutar para sair... Mesmo sendo um otimista, essa era a única coisa que ele conseguia pensar.
Então, uma fração de segundo depois, um brilho prateado passou entre ele e o orc... Então a cabeça do orc voou.
— Consegue ficar de pé? — a mulher de cabelo loiro platinado perguntou sem olhar para ele.
— S-Sim.
— Bom. Então levante-se e corra.
Ele fez o que ela disse e correu em direção ao Enclave. Normalmente, ele teria se recusado a deixar uma mulher para trás, mas esse pensamento nem passou por sua cabeça. Estava claro como o dia que ela estava completamente fora de seu alcance como espadachim.
Enquanto Zach entrava no pátio do Enclave, o comando da mulher ecoou pela rua.
— Recuem.
Os elfos que formavam a linha de defesa imediatamente se retiraram para os terrenos do Enclave. A mulher entrou por último. Assim que ela o fez, os portões se fecharam atrás dela. Eles não eram nada parecidos com os portões da residência do visconde. Estes eram sólidos, duráveis.
— Zach... Você está vivo. — Scotty parecia um pouco choroso. Quando viu seu amigo cair, temeu que fosse o fim dele. Então era natural que suas lágrimas fluíssem com a reviravolta dos acontecimentos.
— Com certeza estou. Tivemos sorte, muita sorte. — Seus olhos permaneceram na mulher que o salvara. Ele sabia que ela era a oficial comandante aqui. E havia sua aterrorizante demonstração de habilidade com a espada momentos antes.
Scotty seguiu o olhar de Zach. — Ouvi dizer que todos os elfos são lindos, homens e mulheres, — ele disse, — mas ela se destaca mesmo entre eles, eh?
— Com certeza. — Um olhar determinado brilhou no rosto de Zach, então ele caminhou em direção a ela.
— E-Ei, espere aí, Zach.
— Ela me salvou, então o mínimo que posso fazer é agradecê-la e perguntar seu nome — ele respondeu, seus passos não vacilando. Quando a alcançou, Zach inclinou a cabeça.
— Muito obrigado por nos deixar entrar. Sou Scotty Cobouc, um cavaleiro da Ordem Real.
— Obrigado por me salvar mais cedo. Zach Kuhler, também da Ordem Real.
— Oh, não se preocupem com isso — Sera respondeu com indiferença, virando-se para seguir em frente.
— Espere, posso perguntar seu nome? Trabalhar com o Enclave assim significa que teremos que redigir um relatório de incidente mais tarde, então... — Zach distorceu um pouco a verdade. Sim, havia regras para relatórios de incidentes, mas... ele não escrevia um há anos.
— Entendo. Bem... a verdade é que, na verdade, não faço parte da equipe do Enclave. Apenas estava aqui na hora certa. Meu nome é Sera e sou a instrutora de espada dos cavaleiros do Marquês de Lune.
— A instrutora de espada dos cavaleiros do Marquês de Lune... — Zach ficou sem palavras.
Lune era a maior cidade da fronteira e, além da capital, uma das maiores do Reino como um todo. Além disso, os cavaleiros de Lune eram renomados por sua força. Diante do declínio da Ordem Real dos Cavaleiros, dizia-se que eles eram uma das ordens mais poderosas do país. Então, se ela era sua instrutora de espada... sua tremenda demonstração de habilidade mais cedo fazia todo o sentido.
— Caramba... Não é à toa... — Zach murmurou enquanto se lembrava de como sua lâmina brilhou quando ela o salvou.
— Por enquanto, sugiro que todos descansem. Não sabemos quando essa agitação terminará. — Com isso, Sera se dirigiu à Matriarca.
— Ryo. Ee-ei, Ryo. Estou ficando cansado, sabe... Não podemos trocar logo...?_
— Do que você está falando, Abel?! Se é só isso que é preciso para você choramingar como um bebê, você nunca se tornará um espadachim de primeira!
— Mas... tenho quase certeza... que já sou... um espadachim de primeira... acho.
A onda de monstros continuava sem diminuir no primeiro subnível do templo central. Ryo ajustava sua Muralha de Gelo conforme necessário para continuar afunilando os monstros em sua zona de abate. Atualmente, Abel e Roman, o Herói, estavam derrubando inimigos com suas espadas.
— Siga o exemplo de Roman! Olhe para ele. Nenhuma reclamação enquanto ele corta os monstros. Roman, como você está se sentindo? — perguntou Ryo.
— Estou completamente bem! Com certeza posso continuar — respondeu Roman com um sorriso pronto.
— Você o ouviu, Abel! Esse é o tipo de resposta exemplar que espero de um espadachim. Então você fica muito a desejar quando comparo seu comportamento recente ao dele.
— Ei, não é justo! Roman é o maldito Herói! Com H maiúsculo! Um Herói é o ápice da humanidade. Claro que não vou me comparar a ele.
Mesmo enquanto conversavam, tanto Abel quanto Roman continuavam brandindo suas espadas sem pausa.
— Parece que estamos lutando há uma eternidade a essa altura — resmungou Abel.
— Concordo. Gostaria de saber quando isso vai acabar — respondeu Roman com um sorriso irônico.
— Eu não estava lá, então não sei ao certo, mas ouvi dizer que a batalha na masmorra de Lune durante a última Grande Maré de Monstros durou bastante tempo — observou Ryo. — É verdade, Abel?
— Sim, é. Alguns milhares de monstros é muito em circunstâncias ‘normais’, mas havia mais de trinta mil este ano. Não importava quantos derrubássemos, eles simplesmente continuavam vindo e vindo... — Abel respondeu, lembrando-se do evento.
— Espere, — Roman perguntou, surpreso, — então algo assim ocorre em outros lugares também?
— Com certeza. Bem... monstros inundam a cidade, mas essa é a única coisa que isso e aquilo têm em comum, já que o fenômeno em Lune acontece periodicamente. O que significa que temos várias maneiras de lidar com a situação. Mas quanto ao que está acontecendo aqui agora... Nem Rihya nem o Sumo Sacerdote Gabriel ouviram falar de algo assim antes, então isso não pode ser comparado à Grande Maré de Monstros de Lune — explicou Abel enquanto continuavam lutando. Apesar de suas reclamações, ele ainda não havia descansado o braço da espada, o que impressionou Roman, o Herói.
— Você é realmente notável, Abel... Eu não esperava menos de um aventureiro de rank B.
— Heh heh heh. Continue, não pare agora com os elogios.
— Roman, Abel tem uma tendência a se empolgar, então não o elogie demais. Você conhece aquelas placas que avisam as pessoas para não alimentar animais selvagens? O mesmo princípio.
— Quem diabos você está chamando de animal selvagem?! — Abel retrucou, enfurecido. — No mínimo, acho que meus resultados falam por si, mesmo quando comparados ao ápice da humanidade.
E ainda assim, Abel continuou cortando. Mas uma sombra passou pelo rosto de Roman com essas palavras.
— O ápice da humanidade, eh...
— Viu o que você fez? Você deixou Roman em choque ao se declarar igual a ele — Ryo brincou.
— De jeito nenhum! — Abel protestou.
— Ah, não, não é nada disso. Como nasci como o Herói, não vou negar que meu potencial é considerável. No entanto, ainda há muitos por aí que são muito mais fortes do que eu, então... com certeza não sou o ápice de nada — disse ele com um sorriso forçado.
— Uau, uau, uau. De onde vem isso? Alguém te deu uma surra tão feia assim?
— Bem, na verdade... sim.
— Você ainda é jovem. Nem se preocupe com isso. Você definitivamente ficará ainda mais forte a partir de agora.
— Obrigado. Na minha cabeça, eu mesmo entendo isso, mas... aprendi com a experiência dolorosa o quão inútil uma espada é contra quem usa magia. Então...
— Ah, nesse caso, já passei por isso, e sim, é uma droga. — Abel olhou fixamente para Ryo então. Por um breve momento, ele parou de brandir sua espada.
— Abel, quem disse que você pode fazer uma pausa? Se vai continuar falando sem parar, então por favor, certifique-se de que suas mãos continuem se movendo também — Ryo brincou imediatamente.
— Porque minha espada não terá nenhum efeito naquele suposto mago latindo ordens ali. — E com isso, ele retomou o corte dos inimigos diante deles.
— Entendo — disse Roman com um rápido olhar para Ryo.
— Ei, então, voltando ao que você disse... Você estava falando do Mago do Inferno? — Abel perguntou a Roman, sua espada cortando monstros.
— Ele faz parte disso, sim. Eu não fui páreo para ele. Durante nossa primeira luta de treino, ele ergueu uma Barreira Mágica e uma Barreira Física ao mesmo tempo. Ambas eram tão resistentes que nem mesmo esta espada sagrada, Astarte, conseguiu rompê-las.
— Não me surpreende ouvir isso, considerando o mago de fogo hediondo que ele é. Isso é definitivamente algo que ele faria! — disse Ryo com um aceno de cabeça vigoroso.
— Como você teria lidado com ele então, Ryo? — Abel perguntou.
— A solução é óbvia: eu teria cercado Roman com uma Muralha de Gelo. Não há necessidade de confiar em feitiços duvidosos como Barreira Mágica ou Barreira Física.
— O sujo falando do mal lavado, não acha? Se alguma coisa, sua parede de gelo é mais hedionda — ela nem mesmo deixa suas vítimas atacarem em primeiro lugar!
— Absurdo! Ridículo! Ultra-jante! — Os olhos de Ryo estavam arregalados e sua expressão dizia: “Como ousa dizer isso?!”
Roman caiu na risada então. — Oscar é na verdade uma pessoa maravilhosa. Na verdade, recebi o choque da minha vida de outro oponente...
— A única coisa que consigo pensar que chocaria um Herói é algum tipo de monstruosidade desumana. — Abel parecia intrigado.
— Engraçado, não acho que aquele inimigo fosse humano. Ela parecia uma mulher bonita e podia falar como nós, mas também tinha chifres e uma cauda fina.
— Aha. Nesse caso, definitivamente não é humano. Mas nunca ouvi falar de uma raça com essa aparência também capaz de falar... Ela te disse sua raça ou nome?
— Sim, logo antes de ela ir embora. Leonore.
— Roman... — Ryo ofegou. — Você acabou de... dizer ‘Leonore’...?
Roman ficou surpreso a princípio com a agitação de Ryo, mas então uma possibilidade surgiu em sua cabeça.
— De fato, eu disse. Ryo, posso estar errado, mas você por acaso lutou com ela?
Roman se lembrou do que ela disse sobre haver alguém dez mil vezes mais forte do que ele. Sua intuição lhe disse que esse alguém era o mago da água que ele estava olhando no momento.
Roman era o Herói. Em sua inexperiência, às vezes se sentia humilhado quando era derrotado em batalhas um contra um. No entanto, não era um eufemismo dizer que seu potencial era inigualável, o que significa que seus instintos superavam em muito os do indivíduo comum. Na verdade, esses instintos — resultado de análises baseadas em experiências passadas e informações subconscientes — são o que lhe diziam que ele ainda tinha espaço para crescer.
— E-e-eu não tenho ideia de quem você está falando. Eu não conheço essa pessoa Leonore...
Qualquer um podia ver o quão suspeito Ryo estava agindo.
— Ryo, — disse Abel, exasperado, — nem se dê ao trabalho. Você não está enganando ninguém.
— Urk... — Ryo não tinha réplica. — Honestamente, — ele suspirou, sem outra escolha, — não quero pensar nela.
— Leonore me disse que há um humano dez mil vezes mais forte do que eu que eu precisava superar. Agora tenho quase certeza de que ela se referia a você, Ryo. — O tempo todo em que falou, Roman, o Herói, continuou derrotando monstros.
— Bem, bem, bem, — Abel zombou, sorrindo. Seu braço da espada continuou o mesmo. — Alguém te tem em alta conta, hein, Ryo?
— Como se eu desse a mínima. Outra luta com aquela coisa? Não, obrigado. Mais importante, como você a encontrou, Roman? — Ryo perguntou-lhe o que estava em sua mente desde que Roman a mencionou pela primeira vez. Ele fora capturado no espaço que ela se referia como um “claustro”, então fora forçado a lutar com ela. E quanto ao Herói, no entanto...?
— A verdade é que, nas Províncias Ocidentais, temos um ritual para invocar o rei demônio. Planejamos derrotá-lo assim que o invocássemos, mas Leonore apareceu em vez disso.
— Isso é... insano — disse Abel, espantado.
— O objetivo dela era o objeto usado no ritual.
— Eu sei que matar reis demônios é seu dever e tudo mais, mas cara — vocês Heróis têm uma vida difícil, hein? — disse Abel.
— Já que você não conhece Leonore de jeito nenhum, permita-me avisá-lo, Abel. Se você a encontrar, não a desafie, sob nenhuma circunstância. Entendeu? Mesmo que você colocasse todos os quatro da Espada Carmesim contra ela, ela os mataria em um instante.
— Ok. Tudo bem. Mas o que eu devo fazer se ela atacar primeiro?
— Contanto que você não dê o primeiro passo, ela vai te ignorar... provavelmente. O que você acha, Roman? — Ryo perguntou, inclinando a cabeça interrogativamente.
A intuição de Ryo lhe dizia que a natureza da existência de Leonore significava que ela simplesmente não se importava com a humanidade. Era como os humanos não sentem nada pelas pedras que encontram por aí.
— Concordo. Porque acabamos partindo para a ofensiva, pois pensávamos que ela era o rei demônio, e bem...
— Ahhh... — Ryo e Abel disseram em uníssono.
— Entendo... Então fico feliz que você também sobreviveu para contar a história, Roman. — Ryo resumiu as coisas com esse comentário.
— A onda de monstros parece estar diminuindo — observou Ryo.
— Concordo — disse Roman.
— Só mais um pouco, hein? — respondeu Abel.
— Abel, momentos como este são precisamente quando você precisa se firmar.
— Ceeerto. Mas por que você está me destacando?
— Uma olhada em Roman e eu sei que ele não é do tipo que baixa a guarda. Quanto a você, no entanto...
— Eu não faço isso!
— Seja como for, você é você, Abel, então pensei que poderia usar um conselho de qualquer maneira.
— Uh-huh. A única ajuda que preciso é para lidar com sua irracionalidade.
Foi nesse ponto que eles finalmente viram os últimos monstros subindo do segundo subnível.
— Acredito que seja isso — disse Roman.
— Abel, por que você não avança para ter certeza? O que me diz? — sugeriu Ryo.
— Eu digo, nem pensar! — disse Abel.
— Uns enormes apareceram no final durante a Grande Maré de Monstros de Lune, certo?
— Sim. Três generais e um rei.
— Mas nada desta vez, hm?
— Bem, sim, porque isso parece semelhante, mas não é a mesma coisa.
— Esperemos que sim. Então, por que nós três não avançamos um pouco de cada vez? Muralha de Gelo, Liberar.
Todas as suas Muralhas de Gelo desapareceram com o canto de Ryo.
— Espere! — disse Abel, parando os outros dois quando estavam prestes a seguir em frente. — Que tal bebermos um pouco de água e fazermos uma pausa? Se descansarmos por cinco minutos, isso deve ser tempo suficiente para ver se algo mais aparece.
— Excelente ideia!
— Você é um gênio, Abel!
— Huh. Na verdade, sinto que você quis dizer isso, Ryo. Porcos vão voar agora?
Após uma pausa de cinco minutos, eles lideraram o grupo pelos degraus que levavam ao segundo andar subterrâneo e verificaram que não havia mais monstros vindo. Eles continuaram sua jornada cautelosa até o quinto subnível, o mais baixo. E lá, encontraram uma bola de cristal enegrecida do tamanho de um punho.
— Nós não vimos isso... na masmorra de Lune...? — disse Ryo ao lado de Abel.
— Sim. Idêntica também — respondeu Abel, tendo tido o mesmo pensamento. Então ele chamou o Sumo Sacerdote Gabriel atrás dele e perguntou: — Você tem alguma ideia do que isso poderia ser?
— Não faço a menor ideia... No mínimo, não a vi no templo nem ouvi falar de tal coisa em nossa tradição.
— Que pena.
Abel e Ryo acreditavam que alguém havia trazido este objeto para cá e o usado para causar esta pseudo-Grande Maré de Monstros. Além disso, a passagem que levava ao antigo mosteiro no terceiro subnível foi destruída. A partir disso, eles podiam supor que os monstros haviam passado por ela para chegar ao segundo campo de treinamento da Ordem Real. Tendo confirmado isso, o grupo decidiu voltar para cima.
Então—
Boom.
— Pacote de Muralha de Gelo de 5 Camadas.
Boom, bang, thump...
No momento em que ouviu o primeiro som estrondoso, Ryo envolveu todos em uma parede de gelo. Imediatamente, um segundo rugido veio, seguido por um terceiro. Ainda mais preocupante do que os sons era a terra tremendo sob eles.
— Um terremoto? Raro para a capital — disse Abel, falando a primeira coisa que lhe veio à cabeça.
Abençoado com instintos mais aguçados que uma pessoa normal, Roman, o Herói, o contradisse. — Não, duvido muito que seja um terremoto. A melhor maneira que posso descrever é... Bem, parece que algo maciço está caindo?
Vinte segundos depois, tanto os sons quanto os tremores pararam.
— Muralha de Gelo, Liberar.
Após confirmar que não houve desabamento ou outro dano no primeiro subnível, Ryo dissipou a Muralha de Gelo. Então ele e Abel se entreolharam, assentiram e correram em direção às escadas que levavam à superfície. Roman correu atrás deles.
Enquanto isso, os membros de seus grupos caminharam. Eles estavam cansados e não tinham o suprimento infinito de resistência dos outros três...
Ryo, Abel e Roman emergiram nessa ordem e correram pelo portão norte do templo central para a praça que se estendia em frente a ele. De lá, a avenida mais larga da capital real se estendia para o norte em linha reta. No final, ficava o palácio. Por causa de sua largura, você podia ver quase a totalidade do enorme castelo mesmo daqui.
E a visão que os saudou foi...
— Aquela ilha está empalada no palácio — murmurou Ryo.
Para um estranho, essas palavras seriam completamente incompreensíveis. Mas Abel e Roman assentiram silenciosamente. Qualquer um que testemunhasse a cena entenderia. Não havia outra maneira de descrevê-la.
Uma ilha — muito maior que a estrutura sobre a qual pairava — havia perfurado a fundação do castelo real em um ângulo de quarenta e cinco graus. Como uma ilha poderia ter atravessado o palácio?
— Caiu do céu... — a voz de Ryo permaneceu baixa.
— Você acha que é um pedaço de um daqueles continentes flutuantes ou algo assim? De jeito nenhum. — Abel tentou encontrar uma explicação lógica.
— Ouvi falar dessa lenda — disse Roman. — Além do continente principal, supostamente existem ilhas menores flutuando no céu também.
Uma coisa era clara: algo extraordinário havia acontecido.