The Water Magician

Volume 3 - Capítulo 4

The Water Magician

Nils, Eto e Amon, os três membros do grupo chamado Quarto 10, haviam chegado do lado de fora das muralhas da cidade de Lune.

— Cara, que bom que esse trabalho não demorou tanto quanto pensávamos.

— Tudo graças às poções de mana que o Ryo fez para nós. Elas encurtaram consideravelmente o tempo necessário para a recuperação de mana.

— Espero que ele goste deste crepe...

Ryo havia feito as poções de mana durante sua prática de alquimia e as deu ao trio como amostras grátis. Graças a elas, o trabalho correu muito mais tranquilamente do que eles esperavam. Como um gesto de gratidão, decidiram visitá-lo em sua casa e, no caminho, compraram um crepe em uma barraca de comida recém-inaugurada.

— Oh, chegamos. Realmente é super perto do portão leste, hein? — disse Nils ao ver a ampla morada de um andar, com seu exterior singularmente equipado com três portas separadas. A nova casa de Ryo. A entrada principal tinha portas duplas. As portas nas duas laterais do prédio pareciam ser de serviço...

— Certo, vamos entrar pela porta da direita — disse Nils, recusando-se estranhamente a usar as portas duplas centrais.

— Não entendo por que você está deliberadamente evitando a entrada principal... — Eto comentou.

— Porque somos amigos dele, e amigos não se prendem a formalidades. Seria uma coisa se fosse nossa primeira vez, mas já estivemos aqui muitas vezes.

Com isso, Nils abriu a porta do lado direito da casa. Dentro, havia uma mesa bastante larga cercada por várias cadeiras. Em uma dessas cadeiras, uma visão quase inacreditável os saudou: uma mulher de beleza inigualável sentada lendo um livro. A luz do sol que entrava pela janela fazia seus cabelos loiros platinados brilharem, o que, junto com a leve inclinação de sua cabeça, lhe conferia uma aura celestial.

Pelo simples fato de existir, ela transformava a atmosfera ao redor em algo completamente de outro mundo... A mulher, uma verdadeira deusa da beleza, olhou para o trio. Tendo estado congelados até aquele momento, os três voltaram a si.

— Desculpe a intromissão! — gritou Nils antes de fechar a porta apressadamente.

Vinte segundos muito longos se passaram e ninguém falou. No final, Nils finalmente quebrou o silêncio constrangedor.

— Uhhh — disse ele, fazendo uma pausa. — Acho que esta é a casa errada. — Ele se virou e começou a se afastar.

— Não, seu idiota, não é. — Eto agarrou seu ombro para detê-lo. — *Esta* é a casa do Ryo.

— Bem, certamente foi uma surpresa ver uma mulher tão chocantemente bonita.

Embora surpreso com a presença dela, Amon ainda estava mais calmo que os outros dois.

— S-Sim, com certeza foi — disse Nils. — Ela definitivamente não era uma ilusão, certo? — Mesmo depois de fechar a porta, ele ainda não tinha certeza se o que vira era real ou não.

— Ok, tudo bem, vamos tentar mais uma vez. Calma — disse Nils para si mesmo.

Nenhum deles sugeriu entrar pelas portas principais, nem mesmo Eto. Se você falha uma vez, simplesmente tenta de novo... Era assim que os membros do Quarto 10 eram.

— Com licença — disse Nils educadamente, usando o mesmo decoro que usaria ao entrar no escritório do mestre da guilda. Claro, Nils era Nils, e ele havia se esquecido de bater primeiro...

Quando ele abriu a porta, a mesma visão de antes se estendeu diante de seus olhos: a mulher deslumbrante sentada na cadeira. Desta vez, porém, ela olhou diretamente para eles. Antes que qualquer um deles pudesse dizer algo, uma voz do interior da casa chamou.

— Ugggh, Sera, me desculpe, mas eu simplesmente não consigo fazer a combinação alquímica funcionar, não importa quantas vezes eu tente. Pode me mostrar mais uma vez... Oh, Nils, Eto, Amon, bem-vindos.

Era Ryo, o dono da casa.

— Esta é Sera, uma aventureira de Rank-B. Sera, estes são meus colegas de quarto dos meus tempos de dormitório. Rank-E... Não, espera, eles são Rank-D agora. Nils, Eto e Amon do grupo Quarto 10.

Sera assentiu firmemente. — Prazer em conhecê-los. Sou Sera. Então vocês três eram os colegas de quarto do Ryo, hm?

— E-Eu sou Nils.

— Sou Eto.

— Sou Amon.

Os três estavam nervosos demais para responder com mais do que seus nomes.

Nesta cidade de Lune, o nome “Sera” era ainda mais conhecido do que “Abel” e “Phelps”. Na verdade, era praticamente uma lenda a essa altura... Porque embora todos soubessem que ela era de Rank-B, a maioria nunca a tinha visto pessoalmente, já que ela raramente visitava a guilda.

Ela de repente olhou para o relógio na parede.

— Ah, já é tão tarde? Ryo, estou voltando para a propriedade. Voltarei em breve. Espero ver vocês três por aí também, hm?

Com isso, Sera saiu de forma animada.

Instantaneamente, o trio se moveu novamente, como se abruptamente libertado de sua paralisia temporária.

— R-Ryo, aquela era *realmente* a famosa ‘Sera do Vento’? Por que ela está aqui, de todos os lugares? — perguntou Nils.

— Ela não é também a instrutora dos cavaleiros? A aura dela é diferente do que eu imaginava... — disse Eto.

— Você realmente anda com as pessoas mais surpreendentes, não é, Ryo? — Amon se perguntou.

Embora Nils, Eto e Amon expressassem suas próprias opiniões, a única coisa que tinham em comum era a surpresa.

— Sera está me ensinando todo tipo de coisa, sendo a alquimia o assunto atual, como vocês viram...

Com a resposta de Ryo, Nils e Eto começaram a sussurrar um para o outro.

— Sem ‘Senhorita’ nem nada. Falando dela de forma tão casual...

— Fico me perguntando quando eles ficaram tão próximos...

Claro, Ryo ainda os ouvia. Era natural, já que eles obviamente queriam que ele ouvisse.

— Ah, qual é, não sejam assim. — Ryo baixou a cabeça um pouco desanimado. — Eu trato Abel da mesma forma também...

Nesse momento, Amon ofereceu a ele o que haviam trazido. Seu timing foi excelente.

— Aqui, Ryo, um presente para você. Há uma nova barraca de comida na cidade.

— Crepe! Que nostálgico. Acho que não como um desde os que comemos em Whitnash. Um homem mais velho e robusto estava vendendo lá, hm? Ele tinha vindo de outra cidade por causa do festival.

Ryo deu uma mordida. Uma combinação sublime de chantilly e bananas imprensada suavemente dentro do crepe. Perfeitamente harmonioso.

— Isso tem um gosto tão delicioso quanto o de Whitnash...

Amon ficou feliz em ver Ryo comer com tanto gosto.

— A barraca aparentemente abriu apenas ontem em Lune. Quando fomos mais cedo, uma jovem estava cuidando dela.

Então Amon continuou, dizendo a Ryo a localização exata da barraca. Ryo silenciosamente prometeu a si mesmo que compraria mais no dia seguinte.

Enquanto Ryo e seus três amigos estavam ocupados se deliciando com crepes, uma negociação acalorada acontecia no escritório do mestre da guilda.

— As pedras mágicas de atributo ar são de fato soberbas. Além disso, são uniformes em tamanho. O que você me diz de uma oferta de um bilhão por elas?

— Mestre Gekko, eu agradeceria se deixasse as piadas pra outra hora. Pode procurar nas Províncias Centrais inteiras e não vai achar nada igual a isso de novo na sua vida. Três bilhões por duas. Não posso aceitar menos que isso, sabe.

— Ahhh, Mestre McGlass, você certamente me colocou em uma saia justa. Hmmm, tudo bem, que tal isso? Dois bilhões! Eu lhe pagarei dois bilhões por duas! Acho que é um compromisso razoável.

— Mestre Gekko... Eu o convidei especialmente porque você é um comerciante de boca fechada e confiável, e um podre de rico, pra completar. Este é o tipo de negócio que seu próprio senhorio está contando. Droga, é um que certamente impressionará até o próprio Margrave Lune. No entanto, farei o meu melhor para lhe dar o maior desconto que posso. 2.8 bilhões. Oferta final. O que me diz?

A negociação acalorada entre o Mestre da Guilda Hugh McGlass e o comerciante chamado Gekko continuou por mais um tempo — até que finalmente concordaram com um preço de 2.6 bilhões de florins pelas duas pedras mágicas de atributo ar.

— Estou saindo deste negócio um homem muito feliz, de fato.

— Fico feliz que pense assim. E deixe-me estender meus mais profundos agradecimentos por seu negócio.

— O prazer é todo meu. Espero que você arranje as escoltas adequadas para mim quando eu voltar para o Principado em cinco dias.

— Pode deixar. Cinco aventureiros, certo? Passe por aqui novamente no dia anterior à sua partida, para que eu possa apresentá-los a eles.

Então eles apertaram as mãos e Gekko deixou o escritório de Hugh.

O comerciante chamado Gekko era fornecedor da família governante do Principado de Inverey, o país a sudeste imediato do Reino de Knightley. Era uma pequena nação que conquistara sua independência como estado vassalo da Federação Handalieu, uma das três principais potências da região, após a Grande Guerra, uma década atrás. A independência era um sonho acalentado por Inverey há muito tempo, e após alcançá-la dez anos atrás, o Principado passou por um rápido desenvolvimento.

A Grande Guerra foi uma guerra total entre o Reino de Knightley e a Federação Handalieu, as principais potências das Províncias Centrais, daí sua denominação de Grande Guerra. Durante a guerra, houve um homem que fez seu nome praticamente da noite para o dia — Hugh McGlass. Por seus feitos heroicos, o Campeão McGlass era uma figura incrivelmente popular no Principado de Inverey. Mesmo agora, dez anos após a Grande Guerra, ele ainda comandava um respeito tremendo de seu povo.

Ser capaz de chegar a um acordo satisfatório com um homem tão grande naturalmente trouxe um largo sorriso ao rosto de Gekko.

Tenho certeza de que o Príncipe Loris ficará satisfeito com essas magníficas pedras mágicas. Fiquei preocupado com o desafio que seu pedido representava quando ele me pediu há um ano... Hm, pensar que eu acabaria por encontrá-las nas mãos do Mestre McGlass. O que acho ainda mais inacreditável é que existe um *par* de pedras tão incríveis. Devo garantir sua entrega segura para a preservação da independência de nosso país.

A distância da cidade de Lune até a capital do Principado, Aberdeen, era de cerca de oitocentos quilômetros em linha reta, em direção ao nordeste. Não era perto de forma alguma. Apesar disso, era uma viagem de ida e volta que Gekko fazia frequentemente. Além disso, ele havia treinado pessoalmente cada um de seus guardas. No entanto, a caminho de Lune, eles sofreram uma série de ataques que deixaram cinco de seus vinte guardas mortos, para nunca mais fazerem a viagem de volta para casa. Normalmente, quinze escoltas para dez carroças não seriam um problema. Nesta ocasião, ele estaria transportando itens de alto valor, então queria estar preparado para qualquer coisa.

Foi por isso que ele disse a Hugh sobre seu desejo de contratar cinco aventureiros.

— O quê? Os grupos de Abel e Phelps não estão aqui? — Hugh perguntou.

— Isso mesmo, senhor — respondeu Nina, a recepcionista. — A Espada Carmesim está em uma missão para o margrave e atualmente está viajando de Wingston, no leste, para Redpost. Da mesma forma, A Brigada Branca não deve retornar por mais duas semanas.

Ele queria resolver o pedido de Gekko imediatamente. Infelizmente para ele, ambos os dois habilidosos grupos de Rank-B que lhe vieram à mente não estavam em Lune no momento...

— Bem, isso é um problema, não é? Mesmo que Sera não estivesse fora de questão...

— Mestre da Guilda, posso lembrá-lo de que a viagem de ida daqui até a capital de Inverey leva vinte dias? Mesmo que um grupo decida retornar no dia em que um trabalho termina, eles estão olhando para um total de quarenta dias fora, o que é uma proposta difícil para a maioria dos aventureiros considerar...

— Sim, eu sei que você está certa, mas... eles serão pagos mais do que o suficiente para compensar quaisquer perdas enquanto estiverem no trabalho, já que é uma comissão direta do Principado. É por isso que não me importo se a guilda adiantar os fundos para garantir alojamento e dar-lhes um adiantamento.

Nina ficou surpresa com a generosidade financeira que as palavras de Hugh implicavam. Isso apenas provava o quão importante o trabalho era para o governo de Inverey.

— Quantos grupos de Rank-C ainda estão na cidade que podem assumir um trabalho deste escopo?

— Nenhum que possa fornecer exatamente cinco aventureiros. Dos seis membros que atualmente compõem o grupo de Lord Kreis e Camaradas, quatro estão em Lune no momento. Depois, há os quatro que fazem parte do Switchback...

— Entendido. Vamos passar Kreis e seu pessoal. Switchback significa Rah e seu grupo, eh? Vamos com eles. Mas isso ainda nos deixa com um a menos...

— Sim, bem — começou Nina, suspirando. — Rah admira Abel, por isso ele só tem quatro membros, assim como A Espada Carmesim...

— Ele não precisa ir tão longe para copiá-lo... Tem que haver alguém poderoso que trabalhe sozinho para preencher a vaga... Mas não consigo pensar em ninguém. Sera é a única? Sera significa o margrave e sua propriedade, e isso me faz pensar em pedras mágicas...

Profundamente imerso em pensamentos, Hugh de repente sorriu como o gato que comeu o canário.

— Na verdade, *existe* um aventureiro solo perfeito para o trabalho.

No dia seguinte.

Como alguém que vivia sozinho, Ryo sempre começava seu dia cedo. Primeiro, ele começava com a prática de magia ao amanhecer. No momento, ele estava focado no Avanço Demolidor — ou pelo menos em seu primeiro passo.

Uma explicação é necessária para entender como Ryo chegou ao nome fantasioso para o ataque onde “lâminas sônicas são liberadas de três clones, e um ataque rápido segue em seu rastro”—

...era assim que deveria funcionar, aparentemente.

No entanto, como um mago da água, Ryo não conseguia disparar o ataque de lâminas sônicas baseado em ar, o que descartava a parte “sônica” do nome. Depois, havia a parte dos “três clones” da descrição, mas nomear sua estratégia com algo assim não faria sentido. Então, isso também estava fora.

Isso só deixava Ryo usar a parte do “ataque rápido” da descrição, que descrevia o salto instantâneo — facilmente confundido com teletransporte — usado por Leonore, a akuma[1], e Sera. Ryo queria replicar isso com magia da água. Ele vinha praticando junto com sua corrida durante seus dias no anexo da guilda, mas... era surpreendentemente difícil. Para facilitar seu treinamento, todas as manhãs ele transformava o espaçoso quintal em frente à sua casa em uma pista de patinação no gelo, usando o feitiço Pista de Gelo para cobrir o chão com uma camada de gelo. Em sua mente, ele iria deslizar rapidamente sobre o gelo, impulsionando-se com Jato de Água.

Na realidade...

— Argh! Ai!

— Gaaah!

— Duah.

— Nããão.

Todos esses gritos vinham de Ryo.

— Por que isso é tão difícil... Não é um clichê em histórias isekai[2] sair voando por aí atirando jatos da sola dos pés? Poxa, existem jogos que te deixam voar com apenas um par de sapatos especiais!

Ao contrário daquelas histórias, *esta* era a realidade.

Para se mover instantaneamente de um lugar para outro, ele teria que disparar Jatos de Água de toda a parte de trás do corpo. Se ele usasse apenas as pernas ou as costas, desestabilizaria o resto do corpo, o que seria perigoso.

Ele sabia de tudo isso. A parte difícil era calcular quanta força propulsora alocar para cada parte de trás de seu corpo. Se ele gerasse x newtons de força da parte de trás da cabeça, quanto teria que produzir de suas costas para equilibrar tudo? E assim por diante.

Atualmente, ele estava tateando em busca de respostas. Em sua última tentativa, ele emitiu 1.024 Jatos de Água da parte de trás de seu corpo, cada um produzindo uma magnitude uniforme de força. Ele tentou várias combinações, como emitir trezentos de suas costas, vinte de seu ombro direito e assim por diante. A partir daí, ele fez ajustes minuciosos nas localizações dos jatos para encontrar um equilíbrio...

E essa era a extensão de sua situação atual.

Até o momento, Ryo conseguia controlar até 256 Jatos de Água perfeitamente e instantaneamente. Se ele dobrasse a quantidade para 512, conseguia controlar a maioria deles, mas não instantaneamente. Quando o número dobrou novamente para 1.024, ele *sentia* que podia controlá-los, mas havia um atraso considerável.

Bem, ele não tinha pressa, desde que pudesse dominar pelo menos os 256 instantaneamente em combate básico. Ainda assim, ele sonhava em ir além de seus limites. Tal era a natureza dos sonhos, afinal...

Enquanto ele passava por sua tarefa matinal diária, ouviu a torre do sino na cidade tocar nove horas.

— Ah, preciso me preparar para sair.

Pelo menos ele teve tempo para aperfeiçoar seu Avanço Demolidor... provavelmente...

Ele passou pelo portão leste e, depois de caminhar um pouco, chegou em frente à barraca de crepe que Amon mencionara no dia anterior. Estava aberta para negócios. Ao mesmo tempo, ficou curioso sobre a loja ao lado, que parecia ter aberto bem recentemente. Arcos e bestas estavam pendurados em exposição até mesmo nos beirais do prédio... uma visão familiar.

Enquanto ponderava, um homem idoso saiu da loja e começou a arrumar ainda mais arcos. Ryo definitivamente o tinha visto em algum lugar antes. Ele se parecia exatamente com o dono da loja em Whitnash que vendeu a Eto a besta de tiro rápido.

Ryo o chamou antes que pudesse se conter.

— Hum, com licença.

— Olá e bem-vindo à minha... Nós já nos encontramos antes, não é? Você estava com o rapaz que comprou uma das minhas bestas de repetição em Whitnash.

Para a surpresa de Ryo, o lojista se lembrava dele. Pode ter sido incrivelmente importante para os comerciantes se lembrarem daqueles que conheceram, mesmo clientes de uma única vez, mas muitas vezes era difícil na realidade fazê-lo...

— Isso mesmo. Você é Abraham Louis, certo?

— Uau. Você se lembra do meu nome...

De fato, Ryo se lembrava. Por quê? Porque era o mesmo nome de um famoso relojoeiro da Terra. Sem mencionar que o homem idoso à sua frente também fazia relógios, relógios mecânicos inigualáveis, como hobby, apesar de se especializar na construção de arcos e armas semelhantes excepcionais.

— Mas e a sua loja em Whitnash?

— Bem, a razão pela qual eu estava lá em primeiro lugar foi por causa da minha longa conexão com o senhor daquela cidade. Mas com tudo o que aconteceu na festa no jardim...

— Ah, sim, claro...

Ryo também ouvira dizer que o prefeito de Whitnash fora destituído de seu título e terras após o incidente da festa no jardim. Um nobre diferente fora empossado em seu lugar.

— Eu sempre quis tentar viver aqui em Lune, então decidi me mudar. Em circunstâncias normais, eu teria apenas fechado a loja e vivido uma vida tranquila, considerando minha idade e tudo mais. Um pouco embaraçoso para um velho, eh?

— De jeito nenhum. Não acho que ninguém precise se preocupar com a idade quando se trata de realizar seus sonhos. Acho maravilhoso o que você está fazendo — disse Ryo com sinceridade.

Abraham Louis sorriu timidamente.

Trabalhar duro para alcançar seus objetivos, independentemente da idade, era algo que Ryo achava deslumbrantemente fantástico.

Aliás, após o encontro deles, pessoas da equipe do Margrave Lune visitaram a loja de Abraham Louis e o escoltaram até a propriedade do senhor.

Ryo não sabia disso, no entanto.

Quando a conversa terminou, Ryo foi direto para a barraca de crepe ao lado, comprou um crepe e se dirigiu para a guilda dos aventureiros.

— Na Terra, os crepes eram originalmente um tipo de galette na França. No reinado de Luís XIII, que por acaso era o cenário de Os Três Mosqueteiros, era um alimento bem estabelecido entre os plebeus... Mas este crepe, com seu recheio de chantilly e banana, é puramente uma iguaria, hm? Se eu levar em conta a origem deste tipo de crepe na segunda metade do século XX na Rua Takeshita em Shibuya... quase parece o trabalho de um reencarnado...

Ele murmurou baixinho para si mesmo no caminho para a guilda. Quando chegou, já havia terminado de comer o crepe.

— Olá, Nina.

— Fico feliz em vê-lo novamente depois de tanto tempo, Ryo. O mestre da guilda está esperando em seu escritório. Deixe-me acompanhá-lo.

Ele mal visitara a guilda desde que se mudou para sua nova casa, cinco meses atrás.

Definitivamente parece que faz muito tempo... Porque mesmo sem pegar trabalhos regularmente, nós nos víamos todos os dias na cafeteria quando eu morava no dormitório.

Ele seguiu Nina enquanto sorria com amargura por dentro.

Ela bateu na porta do escritório do mestre da guilda e a abriu.

— Oh, Ryo, você está aqui. Sente-se ali e já estarei com você em um instante.

Hugh sentou-se em frente a Ryo três minutos depois, após terminar sua papelada.

— Eu te convidei aqui hoje porque há um trabalho que espero que você aceite. Espere, deixe-me terminar primeiro, depois você pode decidir. — Ele ergueu a mão para impedir a tentativa de Ryo de intervir. — É um trabalho de escolta para um comerciante, mas algumas das coisas que ele está transportando são justamente as pedras mágicas que você e Abel conseguiram. Ele comprou *duas* também.

— Entendo... Baseado no quanto você me transferiu da última vez, posso presumir que conseguiu um bom preço desta vez também?

— Melhor ainda que da última vez. Você vai ver um depósito de dez dígitos na sua conta, Ryo.

— Dez... — disse Ryo, chocado. — Isso é... Isso significa mais de um bilhão...

Isso estava além de qualquer coisa que ele tivesse imaginado.

— Com certeza. Essa será sua parte depois de descontar os impostos e as taxas da guilda. Quanto ao próprio comerciante, ele está procurando escoltas para sua viagem de volta para casa, mas ele e eu nos conhecemos há muito tempo. Ele trabalha diretamente para o governo dele, mas é um homem honesto, então duvido que algo suspeito aconteça.

— Entendido. Quanto tempo vai levar? Com base no que você disse, parece que ele é de outro país, o que significa que a viagem será longa, não é?

— Basicamente, sim. O nome dele é Gekko e seu destino é Aberdeen, a capital do Principado de Inverey. Para chegar lá, você precisará passar por Redpost, localizada na fronteira leste do Reino. Daqui até lá, eu diria que são cerca de oitocentos quilômetros em direção ao nordeste. Leva cerca de vinte dias de ida por carruagem. O Mestre Gekko tem seu próprio bando de guardas pessoais, então tudo o que você precisa fazer é trabalhar junto com eles. Estamos enviando cinco aventureiros de Lune, você e o grupo de Rah, o Switchback.

— Ahhh. Rah, hm...

Rah era o espadachim que ele conhecera na festa de boas-vindas de Abel, aquele que respeitava e adorava Abel. Ele gostara muito de Ryo pelo retorno seguro de Abel e falara sem parar com ele. Eles haviam se encontrado e conversado algumas vezes depois na guilda e na cantina, então Rah era alguém que Ryo conhecia relativamente bem. No mínimo, ele estava aliviado por saber que não estava sendo emparelhado com um estranho.

— Os membros do Switchback são um grupo de Rank-C com uma reputação sólida. Contanto que você faça o que Rah lhe disser, não deve haver problemas. Ryo, você só viajou internamente, já que apenas aventureiros de Rank-C e superior podem aceitar trabalhos que cruzam fronteiras, certo? Bem, embora este trabalho o leve para além de nossas fronteiras, será para uma nação com a qual o Reino tem boas relações. Então, o que você me diz de ampliar seus horizontes, eh?

Além de viagens à propriedade do margrave, à biblioteca e à estação Fill-Up, Ryo se escondera em sua nova casa desde que a comprou. Nesse caso, talvez fosse bom ver outras cidades de vez em quando.

— Muito bem. Eu aceito.

— Ah, é mesmo? Fico feliz em ouvir isso. Vou apresentá-lo ao Mestre Gekko daqui a três dias, às 10 da manhã. Você parte no dia seguinte.

A apresentação de Ryo ao comerciante Gekko ontem correu bem. Então hoje era o primeiro dia de seu trabalho escoltando-o até a capital do Principado, Aberdeen. Ele chegara ao ponto de encontro mais cedo do que o horário combinado, pois acreditava que chegar cedo significava ser pontual.

Junto com o manto habitual que lhe fora presenteado pelo Dullahan, ele usava o conjunto de roupas resistentes, mas baratas, que Abel lhe comprara, e botas, com Murasame e a faca feita por Michael penduradas em seu cinto. Além disso, ele modificara um pouco a bolsa que fizera durante sua jornada com Abel e ela estava atualmente pendurada em seu ombro. Nela, havia várias variedades de suas poções caseiras, bem como condimentos que não ocupavam muito espaço, como sal e pimenta do reino. Ele os trouxe consigo na eventualidade de poder usá-los.

As dez carroças com cobertura de Gekko e seu quadro de escoltas estavam reunidos no ponto de encontro perto do portão leste. Uma inspeção minuciosa das mercadorias estava sendo realizada antes da partida.

— Ah, Ryo, bom dia.

— Bom dia, Gekko. Estou ansioso para trabalhar com você.

Ryo inclinou a cabeça educadamente.

O comerciante Gekko era um homem rico que representava seu país. Na cabeça de Ryo, alguém de seu status deveria estar sentado na cadeira do presidente na sede, dando ordens... No entanto, lá estava ele, liderando uma caravana de comerciantes ele mesmo, de e para o Principado.

Curioso sobre o homem, ele perguntara a Hugh no dia anterior e o mestre da guilda respondera: — Veja bem, a rota entre Aberdeen e Lune é especial. Apenas essa, no entanto. Claro que parte da razão pela qual o Mestre Gekko a percorre ele mesmo tem a ver com o desejo de que os jovens sob seu comando ganhem experiência. A outra é simples — para ele, é basicamente um passatempo.

Um comerciante excêntrico, de fato. No entanto, ele parecia uma boa pessoa, o que aliviou Ryo.

— Não, não, o prazer é todo meu. O Mestre McGlass estava praticamente cantando seus louvores, dizendo-me que posso depositar minha fé em sua proeza de combate. Então, realmente, eu devo agradecer a *você*. Deixe-me apresentar o capitão da minha unidade. Max!

Ao ouvir o comerciante chamar seu nome, um lanceiro em seus trinta e poucos anos se aproximou. Ele emanava a aura de um lutador poderoso e experiente.

— Max, este é Ryo, um dos aventureiros que nos auxiliam nesta viagem. Como mencionei ontem, ele é um aventureiro de Rank-D que tem o selo de aprovação incondicional do Mestre McGlass.

— Sou Max, capitão da equipe de escolta. Você já deve ter ouvido, mas perdemos cinco de nossos homens no caminho até aqui, e é por isso que você e os outros quatro estão preenchendo as vagas. Na maior parte do tempo, vocês nos ajudarão a lutar e a vigiar à noite. Teremos bastante tempo para nos conhecermos nos próximos vinte dias, então estou ansioso para trabalhar com você.

Então Max apertou a mão de Ryo antes de retornar aos seus preparativos.

— Aí está. Ele lidera meus homens nos últimos cinco anos. Um jovem excelente que lida com a maioria dos desafios com facilidade — disse Gekko.

Ryo se preocupara que o líder do grupo fosse inacessível, mas ficou aliviado ao descobrir que Max parecia ser uma pessoa sensata.

Depois disso, ele e Gekko discutiram uma variedade de tópicos, como as mercadorias transportadas, as cidades em que parariam no caminho e a rota que tomariam. Aliás, as pedras mágicas não surgiram em momento algum quando falaram sobre as mercadorias, o que fazia sentido considerando a segurança da caravana. Embora os aventureiros nesta missão de escolta tivessem sido todos recomendados pelo próprio mestre da guilda, quanto menos pessoas soubessem de informações tão importantes, mais seguro seria o trabalho. Essencialmente, eles não queriam compartilhar nenhuma informação que não precisasse ser compartilhada...

Pouco tempo depois, Rah e o resto do Switchback chegaram. O grupo de Rank-C era composto por Rah, o líder e espadachim; Sue, uma batedora; Tan, um mago do ar; e Nuda, um sacerdote. Assim, incluindo esses quatro, o grupo inteiro deixou a cidade de Lune e partiu em um caminho reto em direção a Aberdeen, a capital do Principado de Inverey.

Ryo e o Switchback foram posicionados perto da quinta e sexta carroças. A estrada que saía do portão leste de Lune era a mesma que levava a Kailadi até o meio do percurso. Como também passava perto de sua casa, o caminho era familiar para ele. E naquela mesma estrada, o grupo passou por um cavaleiro em um cavalo veloz.

— Ei, aquele não é um dos cavalos do margrave? — Rah comentou depois que o cavaleiro passou.

— Embora eu também esteja curiosa, qualquer que seja o motivo da urgência, não tem nada a ver conosco — comentou Sue, a batedora do Switchback. Ela era uma jovem de vinte e quatro anos, atraente, com seus cabelos castanho-escuros presos em um rabo de cavalo e seus grandes olhos negros constantemente examinando os arredores. A única razão pela qual Ryo sabia sua idade era porque ela mesma lhe contara. — Sou mais velha que você, sabe — dissera ela deliberadamente, como uma irmã mais velha mandona.

E, infelizmente para eles... a situação com o cavaleiro veloz definitivamente teria algo a ver com eles.

Três horas após o encontro com o cavaleiro, o grupo parou para uma pausa para o almoço. A menos que os aventureiros ficassem em vilas e cidades, suas refeições consistiam basicamente em alimentos preservados. No caso de missões de escolta, os clientes geralmente preparavam as refeições, e desta vez não foi diferente, pois os subordinados de Gekko distribuíram carnes secas e outros itens. Enquanto comiam, um cavaleiro em um cavalo veio da direção de Lune. Ryo e os outros observaram um dos homens de Gekko escoltar o cavaleiro até o comerciante.

— Aquele é... um aventureiro de Lune — murmurou Rah.

— Hã? — Ryo piscou, perguntando-se se algo inesperado havia acontecido...

O aventureiro entregou uma carta a Gekko à vista de todos. Gekko a leu, entregou-a a Max, o capitão do esquadrão de escolta, e depois falou com o aventureiro.

— Por favor, informe ao Mestre McGlass que recebi sua carta.

Ao ouvir isso, o aventureiro montou em seu cavalo novamente e galopou de volta para Lune. Depois de se despedir dele, Gekko e Max caminharam até Ryo e o Switchback.

— Rah, você o conhece? — perguntou Gekko.

— Conheço. Ele é Shusnaka, um aventureiro de Rank-D em Lune. Por que a pergunta?

— Eu pensei. O que significa que a carta do Mestre McGlass era genuína.

Com a resposta de Gekko, Max entregou a carta a Rah.

— A Ponte Lowe na Estrada Leste desabou? Mas que...?

— Você se lembra do cavaleiro que passou por nós pouco depois de sairmos de Lune? Aparentemente, ele estava a caminho para informá-los sobre isso. E nós deveríamos cruzar aquela ponte em nossa jornada. Lune, a Ponte Lowe, Llandewi, Halwill e Redpost na fronteira do país — estes são os principais locais na Estrada Leste. Mas se não podemos cruzar a Ponte Lowe, então... teremos que ir para Kailadi e pegar a estrada antiga como um desvio antes de voltarmos para a estrada novamente para Llandewi e o resto. Francamente, estou preocupado porque a estrada antiga não é tão segura quanto a Estrada Leste, e é por isso que eu queria avisar a todos com antecedência para que possam permanecer vigilantes.

— Entendido — respondeu Rah. Ele, o resto do Switchback e Ryo assentiram firmemente.

Depois de passar uma noite em Kailadi, o grupo finalmente se viu na estrada antiga no dia seguinte. Desde a construção da Ponte Lowe, que conectava Lune, a maior cidade fronteiriça na parte sul do Reino, diretamente a Llandewi, a segunda maior cidade na parte leste do país, a quantidade de tráfego de pedestres que a estrada antiga via diminuiu consideravelmente. No entanto, era razoavelmente larga, considerando que costumava ser uma das principais estradas comerciais do leste.

— Levará cerca de cinco dias para chegarmos a Llandewi daqui de Kailadi. Não há nenhum lugar onde possamos ficar no caminho — explicou Rah a Ryo, que caminhava ao seu lado.

— Quando esta estrada estava ativa, muitas aldeias e cidades-pousada surgiram ao longo do caminho, mas... a maioria delas se tornou vilarejos agrícolas desde então.

Ryo balançou a cabeça um pouco e lamentou a crueldade do mundo. — O mundo pode ser uma amante cruel, hm?

— Dito isso, Gekko mais seus subordinados somam vinte, e então adicione-nos mais a equipe de escolta, significa que somos um grupo enorme de quarenta pessoas. Não que conseguiríamos ficar em uma pequena pousada de qualquer maneira — disse Rah com um encolher de ombros. Como alguém muito mais experiente do que Ryo em aventuras, até ele achava que sua caravana de comerciantes de quarenta pessoas era massiva. — Temos muitas pessoas e estamos em movimento com um monte de guarda-costas também, então talvez os bandidos não nos ataquem.

— Bandidos! — Ryo deixou escapar. Embora as palavras de Rah tivessem a intenção de ser tranquilizadoras, Ryo não pôde deixar de gritar — não de medo, no entanto. Não, não, de jeito nenhum. Ele gritou de empolgação porque essa informação se encaixava em sua suposição sobre outro clichê em histórias isekai — virar o jogo contra bandidos saqueadores! Claro, Rah não sabia de nada disso, então interpretou a voz elevada de Ryo como medo de um ataque de bandidos. O que explicava por que ele continuou falando na tentativa de acalmar a mente de Ryo.

— Não se preocupe. Tenho quase certeza de que os bandidos não atacarão. Embora isso não signifique que podemos baixar a guarda. Nunca se é cuidadoso demais, certo?

Depois de deixar Kailadi, tudo correu bem até a manhã do segundo dia. Então Ryo falou com Rah durante a pausa para o almoço.

— Já faz um tempo que duas pessoas estão seguindo nossa caravana à distância.

— O quê?!

Levando Ryo consigo, Rah imediatamente correu para Max, o capitão do esquadrão de escolta.

— Max, Ryo disse que há pelo menos duas pessoas nos vigiando.

— Batedores de bandidos, talvez. Ryo, me diga a localização aproximada deles, mas não olhe.

— Um está a quatrocentos metros à frente, em uma árvore, e o outro está aproximadamente à mesma distância atrás de nós, mas no chão — disse Ryo sem hesitar, seus olhos fixos nos de Max.

— Quatrocentos metros... Você consegue saber a localização exata deles de tão longe, hein?

— Bem, é porque eu tenho o feitiço de magia da água perfeito.

Max ficou surpreso que Ryo tivesse notado vigias posicionados a uma distância tão inacreditável. Quanto ao próprio Ryo, o Sonar Ativo lhe permitia averiguar tais detalhes a uma distância de mais de quinhentos metros. No entanto, a magia podia ser detectada por oponentes particularmente astutos. No mínimo, eles perceberiam que alguém estava procurando por eles.

Na verdade, a primeira vez que ele usou o Sonar Ativo quando estava selado no “claustro” por Leonore, a akuma, ela havia contra-atacado de fora de seu alcance, tornando-a indetectável para ele. Era assim que funcionava. Desta vez, ele usou a versão passiva do feitiço, que ele convenientemente nomeou de Sonar Passivo, então ninguém notou sua sondagem.

Nesse exato momento.

— Presença.

— A sensação de que algo está lá.

Tais palavras e frases existem neste mundo. Claro, os cientistas da Terra do século XXI não encontraram evidências para apoiar esses fenômenos, mas poucos duvidariam de sua existência.

Por exemplo, qualquer entidade ou objeto pode emitir um odor, afetar a corrente do ar ao redor por sua mera presença, ou até mesmo mudar a forma como o som é transmitido... mas as composições elementares dessas perturbações eram tão minúsculas que era difícil realizar experimentos para determinar definitivamente sua existência. Esta foi a explicação possível, supostamente lógica, que Ryo elaborou com base em suas próprias suposições. De qualquer forma, a pessoa que sente a presença não age. Ou o objeto em questão se move, ou uma mudança na atmosfera pode ser detectada por causa de sua presença... Era provável que funcionasse assim, segundo ele.

Por exemplo, digamos que você se mantenha imóvel na água. O que você acha que acontecerá se um peixe de repente saltar da superfície perfeitamente nivelada da água por perto? Se você esperar, as ondulações criadas pelo salto do peixe eventualmente chegarão até você. A partir disso, você poderá deduzir o tamanho do peixe e sua distância de você. Durante todo o tempo, o peixe permanece inconsciente se outros estão ou não cientes de sua presença.

O Sonar Passivo de Ryo era uma extensão disso. As moléculas de água suspensas no ar transmitiam todas essas informações e ele as analisava. Mudanças induzidas por algo que não estava lá antes, mudanças induzidas por alguém que não estava lá antes, ou mudanças induzidas pelo movimento de alguém ou algo que *estava* lá o tempo todo.

Max, o capitão do esquadrão de escolta, pediu a Ryo e Rah que continuassem fazendo o que estavam fazendo até agora e ordenou que seus batedores vigiassem os potenciais inimigos. Tendo terminado de retransmitir a informação, os dois aventureiros voltaram para os outros e começaram a almoçar.

— Fico feliz que tenhamos conseguido ajudar — disse Ryo.

— Sim. Magia da água é incrível. Você conseguiu avistar aqueles batedores de tão longe.

— Ouvi dizer antes que não há outros magos da água na guilda dos aventureiros. Isso é realmente verdade?

— Hmmm... É, agora que penso nisso. Em vez de trabalhos perigosos como o de aventureiro, os magos da água geralmente acabam trabalhando em assentamentos ou são requisitados por comerciantes como Gekko. Por exemplo, além de seus guarda-costas, alguns de seus outros subordinados podem usar magia da água.

— Fascinante! Se uma caravana de comerciantes tem magos da água, não precisa estocar água!

— Isso mesmo.

Além de beber, a água era necessária em outras situações também, como lavar as mãos ou limpar a sujeira do corpo. Então a habilidade de usar magia da água tornava as viagens significativamente mais fáceis.

Quando Ryo observou o grupo de Gekko, viu algumas pessoas reabastecendo seus suprimentos de água através da magia da água. Embora nunca tivesse falado com nenhum deles, ele sentiu uma afinidade com eles enquanto observava.

Naquela noite, todos na caravana se ocuparam em montar o acampamento. No centro do acampamento, o jantar para quarenta pessoas estava sendo preparado em lotes. De onde Ryo estava, ele podia ver que itens do tipo sopa estavam sendo feitos em um caldeirão para a caravana.

— Ouvi dizer que os aventureiros supostamente recebiam carne seca e pão para todas as três refeições quando se trata de pedidos de escolta, mas... esta empresa de comércio em particular parece diferente, hm?

— Sim, provavelmente porque ele é um comerciante a serviço oficial de seu governo e aquelas são suas pessoas. O almoço pode ter sido charque, mas o jantar é outra história, hein? Não consigo decidir se ele está apenas acostumado a viajar ou se é apenas bom em manter a moral alta... De qualquer forma, o Mestre Gekko entende o que é necessário em termos de comida em uma longa jornada.

Rah respondeu a Ryo apontando todas as maneiras pelas quais Gekko era um líder excepcional.

— Então o normal *é* carne seca e pão?

— Praticamente — disse Rah com um aceno vigoroso.

Então Max, o capitão dos guarda-costas, se aproximou deles.

— Eu queria atualizá-los sobre o que aconteceu esta tarde. Com base nos relatórios dos meus batedores, as pessoas que vocês detectaram eram definitivamente batedores de bandidos. Se eles atacarem, acho que será em algum momento nas próximas vinte e quatro horas.

— O que significa que há a possibilidade de eles atacarem durante o dia? — Ryo deixou escapar. Não seria mais eficaz para eles se atacassem nas sombras da noite?

— Eles podem, se tiverem superioridade numérica e acharem que podem nos forçar a render simplesmente se mostrando. Essa é uma das razões pelas quais provavelmente enviaram seus batedores.

— Entendo...

Vencer sem lutar era a vitória suprema.

— De qualquer forma, esteja ciente de que há uma chance de eles atacarem à noite também. Oh, Ryo, ouvi dizer que sua magia defensiva é incrível. Alguma verdade nessa afirmação?

— Isso me lembra — Rah interveio. — Abel disse a mesma coisa. Qualquer oponente aparentemente fica indefeso contra sua muralha de gelo, Ryo.

— Uma muralha de gelo, eh?! Tenho um favor a lhe pedir então, Ryo. Se formos emboscados à noite, você irá correndo para o lado do Mestre Gekko imediatamente e o protegerá?

— O que você quer dizer?

— Bem, ele e o resto de sua equipe civil montam o número mínimo de tendas no acampamento para descansarem, para facilitar para nós, guarda-costas, protegê-los. Se algo acontecer e não pudermos, eu ficaria grato se você pudesse erguer uma muralha de gelo ao redor deles. O que me diz?

Proteger Gekko e seus subordinados era prioridade. Claro, as mercadorias em si também eram importantes, mas a segurança deles era a principal prioridade. Afinal, o capital humano em si é o maior tesouro de todos. A essência do comércio... na maior parte.

— Sem problemas. Para confirmar então, no caso de um ataque noturno, a primeira coisa que devo fazer é ir até Gekko e os outros e protegê-los construindo uma muralha de gelo ao redor deles, certo?

— Exatamente. Obrigado. Agora podemos lutar sem nos preocupar com eles, se o pior acontecer. — Max sorriu agradecido. — Oh, mais uma coisa. O cronograma e os grupos da vigia noturna são os mesmos de ontem.

Depois de dizer o que tinha a dizer, ele se afastou dos dois.

Os vinte escoltas foram divididos em quatro grupos de cinco para o serviço de vigia noturna, com cada grupo fazendo um turno de duas horas.

— Ryo, você estava na primeira vigia? Não me lembro.

— Estou. Acredito que você está na terceira, Rah?

— Sim, das duas às quatro, eu acho... Sinto que eles podem atacar durante a primeira vigia — comentou Rah com um sorriso irônico.

Vinte e dois homens se reuniram em frente a uma caverna localizada a cerca de quatro quilômetros do acampamento da caravana. Por todas as aparências, eles *pareciam* bandidos... Não, eles deviam ser, porque certamente não pareciam do tipo que tem ocupações respeitáveis.

— Vinte guardas, hein... É uma unidade bem grande.

— Isso só mostra o quão rico o comerciante é.

— Mas a informação que eu recebi dizia que deveria haver apenas quinze deles...

— Talvez tenham contado errado.

O homem claramente no comando possuía uma aura aterrorizante, talvez devido à cicatriz medonha ao redor de seu olho esquerdo. Quando ele falou, todos se calaram, oprimidos por ele.

— Não importa. Tudo o que pudermos roubar pertencerá a nós. Em troca, tudo o que temos que fazer é matar o comerciante, Gekko ou seja lá qual for o nome dele, contra quem o cliente tem um ressentimento. Que trabalho estranho.

— Mesmo assim, o cliente foi gentil o suficiente para preparar o terreno para nós, nos dando todas as informações que precisamos, hein?

— Eu não teria aceitado de outra forma, seu idiota, considerando que ninguém quer lidar voluntariamente com esta estrada antiga, muito menos nós.

Depois de cuspir essas palavras, o homem com a cicatriz ao redor do olho esquerdo bebeu o álcool em seu copo antes de continuar.

— Um ataque noturno no horário de sempre, três da manhã. Preparem-se, seus cães inúteis.

Três da manhã. Vinte e duas sombras espreitavam perto do acampamento.

— Ataquem! — gritou o homem com a cicatriz no olho esquerdo.

Os bandidos atacaram de uma só vez, cortando e empurrando o cercado do acampamento. Mas...

— Não há ninguém aqui!

— A fogueira ainda está acesa, no entanto...

— Que diabos é isso?!

Como se respondesse aos gritos dos bandidos, uma chuva de flechas e magia veio voando em direção a eles de fora do acampamento.

— Gah! Fomos enganados!

— É uma armadilha!

Os gritos dos bandidos podiam ser ouvidos por toda a área. Metade deles já havia sido derrubada pela saraivada de flechas e magia.

— Carregar!

A voz de Max ecoou pelo acampamento e os guardas de Gekko, mais Rah e seu grupo, correram em direção ao centro de todas as direções. Eles cercaram o grupo de bandidos em um instante e começaram o combate corpo a corpo.

Foi uma luta intensa, mas unilateral, que terminou em menos de cinco minutos. Enquanto os outros lutavam, Ryo fizera o que Max lhe pedira e garantira a segurança de Gekko e seus subordinados, vinte pessoas ao todo, construindo uma Muralha de Gelo ao redor deles. Ele se divertiu ao ver os magos da água do comerciante tocarem a barreira curiosamente e testá-la socando-a. Ele manteve sua diversão para si mesmo.

De qualquer forma, completei minha tarefa sem expô-los ao perigo. Bom, bom.

Assim pensou Ryo. Por alguma razão, ultimamente ele tinha a sensação de que as pessoas que conhecia em Lune o viam como uma espécie de maníaco por batalhas. Eles chegaram a tal julgamento, aparentemente, porque ele estava sempre sorrindo durante suas batalhas simuladas... Até mesmo Sera, sua parceira de treino mais frequente, dissera com ironia: — Ryo, você sempre parece estar se divertindo.

Isso, é claro, era o sujo falando do mal lavado, já que ela fazia o mesmo durante as lutas deles...

Em suma, se ele era um maníaco por batalhas, então ele definitivamente não era o único! Ele queria gritar isso para o mundo inteiro... Em vez disso, ele se enfureceu internamente...

De volta à batalha. Por causa de sua natureza unilateral, nem a unidade de escolta nem os aventureiros sofreram baixas, mortes ou ferimentos. Quando a luta terminou, apenas dois de seus números tinham arranhões.

Dos vinte e dois bandidos derrotados, vinte já estavam mortos. Os dois restantes que se renderam foram deixados vivos apenas para serem interrogados.

— Normalmente, uma vez que os bandidos são capturados, eles são todos mortos no local — explicou Gekko, o comerciante, a Ryo, que havia dissipado a Muralha de Gelo após o término da batalha.

— Independentemente de quão perto esteja a cidade ou vila mais próxima, os bandidos se recusam a atacar lugares como esses em primeiro lugar... e é por isso que geralmente se baseiam longe de assentamentos adequados. Então, transportá-los para o assentamento mais próximo é um incômodo *e* ninguém sabe o que pode acontecer na jornada. E libertá-los significa apenas dar-lhes a oportunidade de atacar outra caravana... É por tudo isso que existe uma regra não escrita nas Províncias Centrais de matar bandidos no local.

A tez de Gekko permaneceu pálida durante todo o tempo em que ele falou.

— Não existe algo como torná-los escravos como punição por seus crimes?

— Correto, porque a escravidão de humanos foi completamente proibida nas Províncias Centrais. A escravidão de demi-humanos também é proibida em todos os lugares, exceto no Império. Reconheço que o assassinato é um problema ético e um desperdício, economicamente falando. Mas... isso não significa que a escravidão seja o próximo passo lógico.

Um desperdício econômico... típico de um comerciante usar essas palavras para descrever o assassinato.

Quanto à escravidão ser completamente proibida, na verdade era a primeira vez que Ryo aprendia sobre isso. Ao mesmo tempo, ele descobriu que o Império mantinha demi-humanos como escravos... A palavra “demi-humano” também era nova para ele... Elfos e anões se enquadravam nessa categoria?

— No Império, qualquer um que não seja humano é considerado um demi-humano. Incluindo elfos e anões...

Gekko assentiu afirmativamente, sua expressão preocupada. Parecia que qualquer ser vivo bípede capaz de se comunicar com humanos era definido como demi-humano. Por exemplo, então, os homens-lagarto que Ryo encontrara nos pântanos da Floresta de Rondo não eram reconhecidos como demi-humanos, mas como “monstros”. Tal era a ordem das coisas em países construídos por humanos com leis feitas por humanos...

Enquanto Ryo discutia o assunto com Gekko, Max se aproximou deles acompanhado por um de seus subordinados.

— Mestre Gekko, a área está segura. Não há mais bandidos por perto também.

— Muito bem. Você conseguiu tirar alguma coisa dos sobreviventes?

— Sobre isso... Gûn, conte a ele.

Max instruiu a pessoa que estava atrás dele, um batedor presumivelmente.

— Sim, senhor. Eles são um grupo de bandidos que se autodenominam os Lobos do Leste e operam perto da Estrada Leste. Em meu interrogatório, priorizei descobrir por que bandidos como eles estavam justamente na estrada antiga ao mesmo tempo que nós. Aparentemente, o líder deles recebeu informações sobre uma caravana de dez carroças passando por aqui e que a Estrada Leste seria temporariamente suspensa.

Gekko ficou chocado ao ouvir tudo isso. — Então isso significa que o colapso da Ponte Lowe não foi acidental, mas deliberado? Um esquema projetado para nos atrapalhar?

— Sim — respondeu Max. — A probabilidade é alta.

— Mas... a Ponte Lowe é um ponto chave. Deveria ter sido protegida por um grande número de tropas estacionadas lá. Pelo amor de Deus, levou mais de cinco anos para construir aquela maldita coisa. Então, se as pessoas conseguiram passar por suas defesas e derrubá-la... elas devem fazer parte de uma facção terrivelmente poderosa. E com base no que você está me dizendo, eles podem estar nos mirando...?

Gekko parecia estar organizando as informações enquanto falava.

— Infelizmente, os dois membros restantes dos Lobos do Leste não sabem nada sobre quem quer que tenha fornecido os dados ao seu líder. No entanto...

— O que foi, Gûn? — Gekko insistiu.

— De acordo com a diretriz que seu líder recebeu, eles deveriam matar você, Mestre Gekko...

Essas palavras chocaram a todos, exceto Gekko. Pelo que podiam ver, o próprio comerciante não parecia particularmente agitado com a notícia... Então ele falou novamente com calma.

— Entendo. Muito bem. Max, Ryo, gostaria de discutir algo em particular. Gûn, por favor, peça a Rah para se juntar a nós também.

Assim que Rah entrou na tenda, Gekko começou a falar.

— No que diz respeito a esta emboscada, alguém está movendo os pauzinhos nos bastidores.

— Em suma, não foi um ataque a uma caravana que passava coincidentemente, mas uma emboscada deliberada e premeditada, certo? — Max esclareceu.

— Correto. Eles claramente queriam me matar, embora eu não saiba se havia mais em seu plano. O cliente ou clientes dos bandidos podem ter outros objetivos também, considerando os bens preciosos que estamos transportando desta vez...

Gekko explicou, depois tomou um gole de seu chá.

— Basicamente, o que você está dizendo é que pode haver mais ataques daqui para frente, então devemos nos preparar, certo? Não se preocupe. Ao contrário das aparências, ainda somos aventureiros de Lune. Todos nós estamos acostumados a apostar nossas vidas. — Rah sorriu alegremente.

— Bem... eu estava com medo que você pudesse cancelar o contrato, mas acho que isso me coloca no meu lugar, eh... — Gekko sorriu um pouco. Era difícil dizer o quanto ele estava brincando e o quão sério ele estava.

— Qual é, nos dê um pouco de crédito. De jeito nenhum nós iríamos fugir com o rabo entre as pernas. Temos um trabalho a fazer e vamos fazê-lo, o que significa que vamos levá-lo a Aberdeen são e salvo. Deixe conosco. Certo, Ryo?

— Sim, claro.

Ryo assentiu firmemente em resposta ao incentivo de Rah. Ele também não gostava da ideia de abandonar um trabalho no meio, não quando já o havia aceitado.

— Você realmente não sabe o quanto eu aprecio isso. Obrigado novamente.

Gekko sorriu feliz e inclinou a cabeça.

— Fico me perguntando que tipo de pessoa iria tão longe a ponto de destruir a Ponte Lowe apenas para atingir seu objetivo — disse Rah, sua voz um pouco alta demais para ser um murmúrio.

No dia seguinte à emboscada, os membros da caravana de comerciantes retomaram sua jornada após a rotina matinal de tomar o café da manhã. Três dias se passaram desde que deixaram Kailadi.

— A Ponte Lowe é realmente tão grande? — Ryo perguntou a Rah diretamente após saber o nome da estrutura.

Após o ataque da noite anterior, os outros discutiram a possibilidade de os mesmos bandidos estarem por trás do colapso deliberado da ponte. A conversa surpreendeu Rah também.

— Sim, é bem massiva. O vão da ponte tem quarenta metros de largura e um quilômetro de comprimento. Foi originalmente projetada há mais de um século, mas sua construção foi abandonada e retomada várias vezes antes de ser finalmente concluída há quinze anos. Mesmo assim, levou cinco anos do início ao fim.

— Uau, parece ser uma visão e tanto... Eu adoraria tê-la visto pelo menos uma vez.

Uma ponte de quarenta metros de largura e um quilômetro de comprimento deve ser verdadeiramente enorme. Ryo se sentiu desapontado por não tê-la visto com seus próprios olhos.

— O relatório mencionou apenas um colapso, então não sabemos realmente a extensão do dano. Se tiver a chance, por que não dá uma olhada em algum momento? Deve haver assentamentos ao longo de suas margens leste e oeste. Você pode fazer uma viagem turística.

Rah recomendou que Ryo fosse para a área como turista.

Enquanto Ryo relaxava após o almoço, cinco dos subordinados de Gekko se aproximaram. Se a memória não falhava, todos eram magos da água.

— Hum, Ryo, pedimos desculpas por interromper seu tempo de lazer...

— Como posso ajudar?

— Por favor, nos ensine magia da água.

O jovem mais velho inclinou a cabeça e os outros quatro seguiram o exemplo.

— Hã? Eu... O quê?

O pedido repentino assustou Ryo.

— Sua magia nos salvou ontem, Ryo. Embora sejamos gratos por sua presença nesta viagem, temos muitas outras jornadas a empreender depois que esta terminar. Até agora, estávamos satisfeitos em simplesmente sermos capazes de produzir água. Tal magia é um recurso tremendamente importante para comerciantes em longas jornadas. No entanto... achamos que seria ainda mais benéfico se pudéssemos usar nossa magia para realmente nos defendermos.

— Ahhh... então é por isso que vocês querem aprender a usar o feitiço da Muralha de Gelo?

— Sim! — os cinco rapazes responderam em uníssono. Suas idades variavam de cerca de dezesseis anos — o mais velho que iniciou a conversa — ao mais jovem que não podia ter mais de dez anos...

— Hmmm...

Ele não se importava em ensiná-los, mas Ryo nunca havia ensinado magia a outros antes. Além disso, ele não sabia quanta mana a Muralha de Gelo consumiria. Ele se preocupava que, se alguém além dele tentasse o feitiço, ficaria sem energia mágica imediatamente...

Enquanto ponderava sobre o que fazer, seu Sonar Passivo detectou uma presença. Ele se levantou abruptamente e falou.

— Temos uma emergência. Podemos falar sobre isso mais tarde!

Ryo examinou os arredores, procurando por Max.

— Max! Vários monstros estão vindo em nossa direção do leste!

O capitão da equipe de escolta correu apressadamente em sua direção. — Quantos, a que distância e em quanto tempo eles nos alcançarão? — ele gritou.

— Mais de cem, a cerca de quinhentos metros de distância, e em um minuto. Vou erguer uma Muralha de Gelo ao nosso redor. Diga a todos para entrarem no círculo de carroças.

Em contraste com sua formação de acampamento, as dez carroças foram dispostas em um círculo durante as pausas para o almoço.

— Todos, movam-se para dentro do círculo! Rápido!

Gekko e seus subordinados obedeceram rapidamente ao grito de Max. Em menos de trinta segundos, todos estavam dentro do círculo de carroças.

— Faça isso, Ryo.

— Pacote de Muralha de Gelo de 10 Camadas.

Uma muralha de gelo se formou, cercando as carroças. O primeiro dos monstros chegou ao acampamento quase ao mesmo tempo em que a barreira terminou de se gerar.

Klang. Klang. Klang klang klang... Os monstros se chocaram contra a Muralha de Gelo, criando uma cacofonia de ruídos. Repetidamente. Embora os monstros consistissem principalmente do tipo javali, outras variedades estavam na mistura. Aqueles que se chocaram contra a Muralha de Gelo de Ryo e caíram no chão rapidamente se levantaram antes de correrem em direção ao oeste — como se afugentados por algo do leste.

Isso continuou por cinco minutos antes que a debandada de monstros finalmente desaparecesse. Então o Sonar Passivo de Ryo detectou cinco humanos na floresta.

Eles estão a cem metros de distância... Quando eles sequer apareceram?

— Ryo? — Max questionou, sua voz intrigada. Mesmo que a horda tivesse passado, a Muralha de Gelo de Ryo ainda estava de pé.

Ryo ergueu a mão para silenciá-lo e continuou pensando.

Cem metros... Acho que consigo alcançar por pouco? Prisão de Gelo.

Com mira certeira, ele prendeu os membros do personagem suspeito mais próximo com chicotes feitos de gelo. No mesmo exato momento, no entanto, os sinais vitais de sua vítima pararam. Eles estavam mortos.

— O quê?!

Ryo não esperava por isso. Matar alguém no instante em que foi capturado... nenhuma pessoa normal abandonaria seu aliado assim. Infelizmente, isso não foi o fim de tudo.

Whooom. Chamas explodiram violentamente no céu da área em que ele havia prendido a pessoa.

— Não pode ser! Tempestade. Sarcófago de Gelo.

Ele usou Tempestade para criar uma chuva intensa para extinguir as chamas e Sarcófago de Gelo para proteger o cadáver. Os quatro indivíduos restantes tentaram atacar seu Sarcófago de Gelo, mas quando perceberam que todos os seus ataques eram inúteis, eles recuaram para o leste.

— Ufa.

Ryo suspirou, finalmente tomando um fôlego. Então ele percebeu que todos por perto estavam olhando para ele.

— Ah, me desculpem, Gekko, Max e Rah. Por favor, deixem-me explicar...

Os três homens caminharam em sua direção e os outros deram espaço para os quatro se afastando.

— Eu mais ou menos entendi o que aconteceu, mas...

— Seria difícil não entender, com o incêndio e tudo mais, hm?

— Bem, eu, por exemplo, não estava nem um pouco preocupado porque era você quem estava no comando, Ryo.

Max, Gekko e Rah expressaram suas opiniões.

— Mesmo assim, preciso explicar. Cinco pessoas estavam avançando sobre nós, usando a debandada de monstros como distração.

— O que você disse?! — exclamou Gekko.

— Esperei para ver o que eles fariam, mas eles permaneceram escondidos na floresta, então tentei prender um usando magia. No entanto... os outros mataram imediatamente o que eu capturei.

— O quê...

A explicação de Ryo chocou Max. Nunca em um milhão de anos ele imaginaria algo assim acontecendo nas sombras...

— Então eles atearam o fogo? — perguntou Gekko.

— De certa forma. Acredito que eles tentaram incinerar o cadáver de seu camarada. O que significa que nossos oponentes são do tipo que não deixam nem mesmo os mortos para trás.

— Entendo... Extremamente meticulosos, não são?

Apesar de ser o alvo deles, Gekko reagiu com calma. Ele estava totalmente preparado para tudo e qualquer coisa. Talvez fosse a marca de um grande comerciante, astuto e mundano.

— Eu encasulei o cadáver em gelo para impedi-los de queimá-lo. Eles tentaram quebrar o gelo, depois fugiram para o leste assim que perceberam que era impossível.

— Hm... — Com um sorriso irônico, Gekko coçou a cabeça. — Algumas pessoas muito perigosas estão claramente determinadas a colocar minha cabeça em uma bandeja.

Os quatro indivíduos desconhecidos restantes poderiam ter armado uma armadilha ao redor do indivíduo envolto no Sarcófago de Gelo de Ryo, uma armadilha que mataria quem quer que viesse verificar o cadáver. Assim que explicou tudo aos outros, Ryo, junto com Max e Gûn, o batedor, foi inspecionar o inimigo morto. Gûn ficou encarregado de procurar e desativar quaisquer armadilhas. Para surpresa de ninguém, a armadilha que eles haviam montado teria reduzido a cinzas qualquer um que se aproximasse descuidadamente, mas Gûn a desarmou com destreza.

— Eu... — Max sussurrou ao ver o cadáver dentro de seu caixão gelado. — Isso é outra coisa.

— Vou dissipar o feitiço então.

Com isso, o Sarcófago de Gelo de Ryo desapareceu. Ele deixou o exame do corpo para Max e Gûn enquanto examinava os arredores.

Incluindo esta pessoa, cinco deles no total se esconderam aqui. Mas... quase não há galhos quebrados. O único vestígio de sua presença são as leves reentrâncias na grama. Eles são apenas proficientes em se mover por uma floresta, ou... poderia haver outra razão...?

Claro que Ryo não possuía nenhum conhecimento de ranger. Tudo o que ele sabia sobre rastreamento vinha de informações aleatórias que ele encontrou na internet ou ouviu de passagem durante conversas com seus amigos no ensino fundamental, médio e faculdade. Enquanto continuava sua vistoria, ele ouvia a conversa de Max e Gûn.

— Nada. Não há uma única maldita coisa no corpo para nos ajudar.

— Certo, nem mesmo qualquer tipo de informação de identificação. Nenhuma arma, exceto uma adaga... Vejo marcas de algum tipo queimadas, mas não sei o que é.

— Então tudo o que podemos deduzir é que essa pessoa estava vestindo preto da cabeça aos pés?

Ryo se virou e encarou os restos que os dois estavam inspecionando.

Roupas pretas da cabeça aos pés? Isso soa familiar... Ah sim, em Whitnash. Os corpos mortos ao redor de Nils e os outros durante a luta contra o mago do fogo na praia. Se bem me lembro, eles me disseram mais tarde que aquelas pessoas tinham como alvo a princesa imperial. Este cadáver... se assemelha... àqueles? Difícil dizer, já que todos os vilões parecem preferir roupas pretas.

Os pensamentos extremamente arbitrários de Ryo eram baseados em suas próprias opiniões e preconceitos.

Espere. Eles queimaram este corpo deliberadamente, não foi? Qual era o ponto de tais precauções se a pessoa não pudesse ser identificada de qualquer maneira?

— O que foi, Ryo? — Max perguntou. Ele pareceu perceber que a mente de Ryo estava fervilhando de possibilidades enquanto ele olhava fixamente para o cadáver.

— Bem... eu estava apenas me perguntando por que eles se deram ao trabalho de queimar o cadáver...

— Porque havia algo que eles não podiam arriscar deixar para trás... O próprio corpo!

Max imediatamente começou a despir as roupas da pessoa morta.

— Capitão, eu não sabia que você gostava desse tipo de coisa...

— Gûn, seu idiota! Estou fazendo isso porque deve haver algo distinto sobre o corpo. Ajude-me.

Os dois despiram o cadáver, revelando queimaduras horríveis por toda a pele e roupas. Mas de alguma forma eles conseguiram tirar tudo e encontraram uma tatuagem no peito, bem sobre o coração.

— Que... *é* essa tatuagem?

— Parece um pássaro de duas cabeças...?

— Com... uma espada perfurando-o...?

Max, Gûn e Ryo falaram em turnos enquanto todos olhavam para ela.

Um brasão de armas com uma águia de duas cabeças perfurada por uma espada? Nunca ouvi falar de algo assim. Bem, suponho que seja um dado, considerando que não sei praticamente nada sobre este mundo chamado Phi.

Os três olharam para ela por um tempo. Então Max de repente pegou uma faca e começou a cortar a parte do peito com a tatuagem.

— C-Capitão, o que você está fazendo?! — Gûn exclamou surpreso.

— Não temos escolha. Esta é nossa única prova. Não é como se pudéssemos carregar um cadáver pela floresta. Talvez o Mestre Gekko saiba algo sobre esta tatuagem — disse ele, continuando a esculpir o pedaço de carne.

— Hmmm, não vi nada parecido com este brasão — comentou Gekko depois de olhar para a tatuagem. Nada em seu acervo de conhecimento se encaixava no desenho.

— Na verdade... sou cético de que isso seja sequer um brasão de armas, por causa da espada perfurando o pássaro. Dito isso, não tenho dúvidas de que o desenho é importante para eles. Tenho a sensação de que esta é uma peça vital do quebra-cabeça que faríamos bem em lembrar. Muito bem, Max. Vocês dois também, Ryo, Gûn.

Então ele deu a cada um dos três uma grande moeda de ouro antes de retornar à sua tenda com a carne tatuada em sua posse. Embora estivesse curioso sobre a tatuagem, não parecia que o problema seria resolvido tão cedo, então Ryo decidiu parar de pensar nisso e voltou para Rah e os outros.

— Ryo, bem-vindo de volta. Parece que vamos partir em breve.

— Entendido. Presumo que você ainda não foi informado, sim, Rah?

Então Ryo deu a ele e a seu grupo um rápido resumo do que aconteceu.

— Uma águia de duas cabeças com uma espada atravessada? Estranho. Quem sabe, talvez eles tenham algum tipo de ressentimento profundo contra águias de duas cabeças — respondeu Rah, com a cabeça inclinada em questionamento.

— Oh, você tem razão. Essa *é* uma possibilidade também.

Nesse ponto, eles ouviram uma voz vindo da frente.

— Estamos partindo.

Em algum lugar na floresta, a cinco quilômetros da caravana de comerciantes, havia cinco pessoas vestidas de preto.

— Perdoe-nos, Senhora Natalia.

A mulher chamada Natalia ouviu o relatório dos quatro ao retornarem.

Depois, ela balançou a cabeça. — Uma muralha feita de gelo... E vocês dizem que as mãos e os pés de Gey também estavam presos por gelo?

— Sim.

— Parece que temos um mago particularmente irritante em nossas mãos, hm? Isso certamente representa um problema... Vocês têm mais alguma coisa a relatar?

Os outros quatro pareceram desconfortáveis com a pergunta dela, mas eles *tinham* que responder.

— Para ser honesto... falhamos em nos livrar dos restos de Gey.

— O quê?!

Pela primeira vez, o desprazer tingiu sua voz. O medo os atingiu quando a ouviram.

— N-Nossas mais profundas desculpas...

— Chega de desculpas. Por que vocês falharam?

Eles lhe disseram que tentaram queimar o corpo, mas uma chuva repentina extinguiu as chamas. Ao mesmo tempo, o corpo de Gey foi envolto em gelo, que eles não conseguiram quebrar, não importa que ataques usassem. Então eles recuaram.

— Gelo, de novo! Isso se tornou muito mais do que um mero incômodo...

Eu me reuni com a força destacada após o colapso da Ponte Lowe apenas para descobrir o fracasso deles em se livrar do corpo de Gey. Não me importa se a caravana tinha aventureiros, eles tinham vários métodos para lidar com os vinte escoltas. No entanto... o fato de haver um mago da água entre esses aventureiros é uma ameaça inesperada, e séria. Não acho que devamos fazer mais nenhum movimento agora. Sem mencionar que o quartel-general me ordenou retornar e fazer um relatório sobre o colapso da ponte. Pensei que poderia assassinar Gekko no caminho, mas ser gananciosa demais neste ponto poderia colocar tudo em risco.

— Estamos retornando à base para relatar o colapso da ponte. Contate o quartel-general agora mesmo e informe-os. Enquanto estiverem fazendo isso, digam a eles que ainda não assassinamos Gekko. Eles provavelmente enviarão outra unidade para terminar o trabalho.

Então Natalia murmurou para si mesma depois de ordenar a seus subordinados.

— Eu honestamente pensava que os magos da água eram inúteis... mas parece que preciso mudar minha perspectiva sobre isso.

[1] - Demônio ou espírito maligno no folclore japonês.

[2] - Gênero de fantasia japonês onde um personagem é transportado para outro mundo.

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