
Volume 5 - Capítulo 1000
Release that Witch
Tradutor: FlorestNerd
Um fogo ardia alegremente em um fogão, lançando um brilho avermelhado sobre o chão da sala.
Azima se sentia aquecida em sua casa. Ela observava os flocos de neve flutuando ao vento do lado de fora da janela enquanto ouvia o crepitar das chamas na lareira. No passado, quando o inverno chegava, ela sofria queimaduras severas nas mãos, e a pele rachava com muita facilidade. Era uma lembrança de sua infância. Naquela época, ela tinha que vasculhar o lixo em busca de comida durante todo o inverno. Depois de se mudar para a Ilha Adormecida, suas mãos pioraram ainda mais por causa da exposição prolongada à água salgada do mar.
Depois de todos esses anos, ela já estava acostumada com a dor causada pelo frio. Para ela, não era nada comparado à miséria de ser uma vagabunda nas ruas. No entanto, agora havia apenas algumas rachaduras superficiais em seus dedos. Ela não sentia dor nem via sangue neles. Estava desfrutando daquele inverno sem sofrimento. Havia muitos anos que não tinha uma experiência tão confortável.
Ela entendia que o ambiente da Cidade de Primavera Eterna era excepcionalmente bom, e até mesmo as casas comuns eram muito melhores do que suas equivalentes em outras cidades.
Por exemplo, uma camada espessa de argamassa havia sido aplicada em ambos os lados das paredes daquela casa de tijolos, e cada canto das janelas estava perfeitamente vedado. Não importava o quão forte fosse a tempestade de neve do lado de fora; as pessoas dentro da casa nunca seriam afetadas. Sem uma construção tão resistente, o fogo dificilmente conseguiria aquecer toda a sala. Se Azima estivesse agora em uma residência comum de Valência, ouviria o assobio do vento atravessando as frestas das portas, das janelas e de inúmeras outras rachaduras da casa.
Além disso, havia um duto dentro da lareira, conectado ao quarto ao lado da sala de estar. Graças a esse sistema de aquecimento, a cama estaria quente quando ela e suas irmãs apagassem o fogo e fossem dormir à noite.
E esses detalhes eram apenas uma pequena parte das novidades que ela descobrira na Cidade de Primavera Eterna. Soluções semelhantes podiam ser vistas por toda parte. Quanto mais tempo morava ali, mais ela pensava:
“Talvez eles não tenham construído esta cidade apenas para sobreviver neste lugar.”
“Eles a construíram para aproveitar a vida.”
“Quanto ao motivo de terem escolhido a Região Oeste, a área mais atingida durante os Meses dos Demônios, deve ser justamente por causa do contraste. Em um lugar onde é primavera o ano inteiro, uma sala aquecida não pareceria nada especial. Em contrapartida, em uma terra de gelo e neve, qualquer pessoa ficaria profundamente impressionada e satisfeita com o calor. Eles devem acreditar que apenas aquilo que parece impossível realmente vale a pena fazer e se orgulhar de conquistar.”
Por um momento, ela realmente acreditou nessa hipótese.
“A sopa está pronta. Vamos jantar.” Doris saiu da cozinha segurando uma panela de sopa e a colocou sobre a mesa baixa da sala de estar.
“Obrigada.” Azima entregou uma almofada a Doris e depois se sentou à mesa.
Havia dois pratos e uma sopa. Todos eram preparados com cogumelos-de-bico-de-pássaro como ingrediente principal. Esses cogumelos carnudos e suculentos eram uma especialidade da Região Oeste. Eram saborosos, fáceis de preparar, precisavam apenas de um pouco de sal e dispensavam temperos sofisticados ou técnicas especiais de cozimento. Mais importante ainda, eram o ingrediente mais barato da Cidade de Primavera Eterna, custando praticamente o mesmo que o trigo.
“Comprei muitos cogumelos em uma liquidação e os guardei em nosso quarto”, disse Doris, feliz. “Mesmo que não consigamos encontrar comida suficiente durante o inverno, esses cogumelos serão suficientes para encher nossos estômagos até a primavera, embora possam perder um pouco do sabor com o tempo.”
Azima pegou um pouco de sopa com a colher. Sob o reflexo do fogo, a gordura que flutuava na superfície brilhava com uma cor dourada bastante atraente. Quando levou a primeira colherada à boca, sentiu o aroma preencher sua boca instantaneamente. Em seguida, a sopa quente desceu até o estômago e aqueceu todo o seu corpo.
A sopa estava tão deliciosa quanto sempre, mas, naquele momento, ela não tinha apetite.
Depois de tomar apenas duas colheradas, Azima pousou a tigela.
“Algo errado?” Doris rapidamente percebeu que Azima parecia diferente naquele dia.
“Eu estava me perguntando… se minha decisão foi errada.” Depois de um longo silêncio, Azima sussurrou. “Foi minha decisão deixar a Cidade de Primavera Eterna, mas, por causa disso, todas perderam a chance de ter uma vida melhor junto de suas famílias nesta cidade. Se Pêra Branca não tivesse deixado seu emprego na Adormagia, agora viveria em uma casa grande equipada com um sistema de aquecimento, em vez desta pequena casa que mal nos permite nos movimentar livremente.”
“Por que você está dizendo isso de repente…?” Doris ficou surpresa, mas logo tentou confortá-la. “Não importa o quão pequena seja nossa casa, ela ainda nos protege do vento e da chuva. Quando seus parentes tiverem dinheiro suficiente para pagar a entrada mínima, eles também poderão se mudar. Talvez não seja tão boa quanto a casa da Adormagia, mas acho que já é boa o bastante para duas pessoas viverem. Pense nos nossos velhos tempos nas ruas…”
“Mas agora é diferente!” Azima interrompeu Doris ansiosamente.
Ela vinha se sentindo frustrada nos últimos dias. Havia superestimado suas próprias capacidades e não avaliou corretamente a situação. No passado, conduzia suas irmãs para procurar comida no lixo e disputá-la com cães selvagens, mas agora se recusava a fazer algo assim. Não queria dar a Tilly e às suas bruxas nenhuma oportunidade de rir delas, mesmo que suas irmãs não se importassem de viver daquela maneira.
Ela havia enviado muitos pedidos de emprego à Prefeitura como uma moradora comum da cidade, mas nenhum fora aprovado. Saber ler e escrever era um requisito básico para a maioria das vagas, e os empregos melhor remunerados normalmente exigiam diploma do ensino primário. Ela não atendia a esses requisitos. Tentou conseguir trabalho em obras ou na Área do Forno, mas tanto o Ministério da Construção quanto o Ministério da Indústria recrutavam apenas homens adultos. Um funcionário da prefeitura lhe disse que deveria voltar à escola e concluir os estudos antes de pensar em uma carreira promissora.
Entre as seis irmãs, apenas Doris e Pêra Branca tinham emprego. Doris trabalhava para a União das Bruxas, refinando as hastes de cobre magnetizado produzidas por Lunna com seu encantamento. Ela ganhava cerca de 30 ou 40 moedas de prata por dia, quase tanto quanto as bruxas que viviam no castelo. No entanto, era apenas um trabalho de meio período. Às vezes, trabalhava apenas um dia por semana.
Pêra Branca trabalhava como funcionária comum em uma alfaiataria. Como não precisava usar seu poder mágico, recebia apenas um salário comum. Dependendo dos dias trabalhados, normalmente ganhava entre 15 e 20 moedas de prata por mês.
As outras irmãs também estavam desempregadas, assim como Azima.
Em outras palavras, Doris e Pêra Branca sustentavam as despesas das seis irmãs.
Por isso, Azima se sentia culpada pela vida confortável que levava agora. Ela recusou firmemente o convite de Wendy porque queria provar a Rouxinol que não era uma pessoa fraca e que poderia viver por conta própria, sem depender da Adormagia. Agora, porém, sentia vergonha da situação em que se encontrava.
Foi por isso que acabou falando com tanta impaciência.
Ela se arrependeu imediatamente de ter interrompido Doris.
“Me desculpe… Não era minha intenção.”
“Está tudo bem.” Doris segurou as mãos de Azima. “Eu sei como você se sente, mas quero dizer que deixar a Adormagia não foi apenas uma decisão sua. Nós também concordamos com você. A culpa não é sua. Quanto às despesas da casa, por favor, não se preocupe. Você fez tanto por nós… agora é a nossa vez de retribuir.”
“Vocês não me devem nada. Eu ajudei vocês sem esperar receber nada em troca.”
“É exatamente assim que nós pensamos também. Entende o que quero dizer?” Doris piscou e sorriu.
“Mas…”
Azima não soube o que responder. Ficou profundamente comovida com a sinceridade de Doris. Havia muitos anos que não se sentia tão tocada, e ainda não sabia como lidar com esse sentimento. Mesmo assim, logo recuperou a compostura e lembrou-se de que, como líder das irmãs, jamais deveria voltar a dizer aquelas coisas tolas.
Nesse momento, alguém bateu à porta.
“Quem é?” Ela virou a cabeça rapidamente, soltou as mãos de Doris e se levantou, tentando esconder sua emoção.
“Sou eu, Wendy”, respondeu a pessoa do lado de fora. “Sua Majestade quer falar com você.”
N/T: E lá vem mais uma bruxa pra lembrar.