The Runesmith

Volume 15 - Capítulo 681

The Runesmith

“Perdão?”

A voz confusa de Arthur ecoou enquanto ele encarava a mulher de cabelos dourados. A pilha de tesouros continuava a crescer, brilhando ao sol da tarde como se o tesouro de um dragão tivesse sido despejado em sua mansão.

Lady Aurélia não respondeu de imediato. Em vez disso, aproximou-se de Agni, o olhar distante, quase em transe. Os sacerdotes atrás dela já haviam se ajoelhado, sussurrando orações. Até mesmo os paladinos pareciam incertos se deviam guardar ou venerar a besta sagrada.

“Não vou repetir a mesma coisa uma terceira vez.”

Ela falou em voz baixa, mas o peso de suas palavras oprimiu todos os presentes.

“Diga o preço.”

A expressão de Arthur se fechou. Por um instante, a compostura de um lorde em ascensão se esvaiu. Seus olhos se voltaram para Julius, buscando qualquer sinal de que aquilo fosse uma brincadeira ou, ao menos, um exagero. Julius não interveio. Simplesmente observou, como se também estivesse sendo tentado pela besta divina.

Arthur então lançou um olhar para Roland, o verdadeiro dono de Agni. A confusão sobre a propriedade do lobo da luz solar estava se tornando cada vez mais constrangedora.

“Milady…”

Arthur escolheu suas palavras com cuidado.

“Agni não é uma mercadoria para ser negociada. Ele é um companheiro desta casa.”

Quando ele terminou de falar, Aurélia inclinou ligeiramente a cabeça.

“Agni?”

“Esse é o nome da besta, dado por seu verdadeiro dono, não por mim.”

Arthur corrigiu-se rapidamente. Ele não tinha nenhum desejo de argumentar em nome de Roland.

“Dar nomes a bestas sagradas… quem ousaria fazer tal coisa?”

Julius franziu a testa ao ouvir a irritação surgir na voz de sua mãe. Roland não tinha certeza de quão rigorosamente ela seguia os ensinamentos da igreja, ou como os interpretava. Pelo que sabia, a fé tinha várias vertentes. Algumas eram rígidas, enquanto outras aceitavam que criaturas divinas podiam formar laços com mortais, em vez de existirem apenas como símbolos distantes de reverência.

Roland expirou lentamente e deu um passo à frente. O leve arrastar das botas blindadas contra a pedra chamou a atenção. Os paladinos e cavaleiros ao lado de Julius se enrijeceram ao sentirem o poder que envolvia a figura blindada.

“Ah, este é Sir Wayland. Ele desempenhou um papel crucial em nossa vitória contra aqueles cultistas. Você se lembra, mãe?”

Julius finalmente se manifestou em apoio a Arthur. Aurélia assentiu levemente com a cabeça.

“Sim. Aquele homem…”

Roland permaneceu em silêncio, aguardando que lhe dirigissem a palavra. Era evidente que Aurélia não se deixava influenciar facilmente. Parecia convencida de que a besta sagrada pertencia à igreja, ou talvez a ela.

“Então você é a pessoa certa.”

Sua voz estava mais baixa agora, mas não menos imponente.

“Aquele que o nomeou.”

Roland baixou a cabeça o suficiente para manter o respeito, embora não se ajoelhasse. Sua postura permaneceu firme e serena. Agora que ela estava falando diretamente com ele, finalmente podia responder.

“Sim, milady.”

Houve uma breve pausa. As chamas ao redor de Agni oscilaram. O olhar de Aurélia percorreu os dois, o cavaleiro de armadura e o lobo radiante. Algo em sua expressão se contraiu, como se a conexão entre eles a incomodasse.

“Um mortal dando nome a uma besta divina. Criando um laço que não pode ser rompido facilmente… ”

Roland permaneceu em silêncio enquanto ela falava. Era verdade que um vínculo entre um mestre e uma fera não podia ser rompido facilmente. Ou ele precisaria transferir o contrato ou morrer antes que pudesse ser encerrado. Havia também complicações quando o vínculo entre uma fera domesticada e seu mestre atingia tal nível.

A partir desse ponto, o vínculo tornava-se praticamente permanente. A menos que a criatura aceitasse um novo mestre, ela não se transferiria sem o uso de feitiços e rituais poderosos. Essas eram práticas desaprovadas pela igreja quando envolviam suas bestas sagradas, às quais era concedida a liberdade de escolher seu próprio destino. Forçar Roland a renunciar ao que já havia sido estabelecido iria contra esses ensinamentos, mas parecia que aquela mulher ainda estava disposta a tentar.

Aurélia deu mais um passo à frente. A luz dourada em seus olhos intensificou-se, como se ela estivesse tentando lançar um feitiço sobre Agni.

“Então, libere-o.”

As palavras saíram com simplicidade, quase casualmente, mas carregavam o peso de uma ordem, e não de um pedido. Uma mudança sutil percorreu os cavaleiros reunidos. Vários paladinos ajustaram o pé, não por hostilidade a Roland, mas por incerteza. Pareciam reconhecer o tom dela e talvez soubessem que já havia levado a conflitos antes.

“Mãe, por favor.”

Julius deu um passo à frente e se colocou entre Roland e Aurélia. Ele havia percebido claramente a tensão no ar e compreendido que qualquer oferta que sua mãe tivesse preparado não seria suficiente. Levantou a mão, visivelmente perturbado pela situação. Sua expressão serena começou a ruir à medida que ela se tornava mais assertiva.

“Este não é o momento nem o lugar.”

Aurélia não desviou o olhar de Agni. A luz dourada em seus olhos pulsava levemente.

“Você também sente isso, não é?”

Sua voz permaneceu calma, embora agora carregasse uma intensidade mais aguda.

“Esta não é uma besta contratada comum. É uma manifestação da vontade divina. Ela pertence a nós. Deve permanecer dentro do templo principal, nos jardins de Solaria, onde possa verdadeiramente cumprir seu propósito.”

“… ”

O capacete de Roland ocultava seu rosto, mas ele franzia a testa. Acima dele, seus golens flutuantes observavam o grupo, já os examinando. Antes, ele não tinha motivos para usar sua habilidade de identificação. Agora, tinha. As pessoas à sua frente não demonstravam apenas animosidade contra ele, mas também contra Arthur, alguém que ele jurara proteger. Os outros sentiram a mudança na mana, mas, em uma situação como essa, nenhum deles podia se opor.

Embora seu nível não ultrapassasse o duzentos, ela ainda era considerada de alto nível para alguém que era esposa de um duque poderoso. Ele não tinha certeza do que ela fazia quando estava fora da casa, mas parecia provável que tivesse sido uma curandeira ativa. Alcançar tal nível teria exigido que ela participasse de batalhas, seja contra monstros ou outras pessoas, talvez até mesmo cultistas.

Algumas das pessoas que chegaram com ela e Julius estavam acima do nível duzentos, mas estavam longe do nível de Lady Bernadette e não possuíam nenhuma classe de prestígio notável. Julius provavelmente entendia isso e estava preocupado que Roland, que havia demonstrado sua força durante o incidente da luz, pudesse ser difícil de controlar.

“Lady Aurélia, por que não vamos até a mansão tomar um chá? Tenho certeza de que os bolos serão do seu agrado.”

Arthur interveio, tentando amenizar a tensão antes que a situação piorasse. Aurélia, porém, não se moveu. Seu olhar permaneceu fixo em Agni, como se tudo o mais tivesse desaparecido. Só se desviou quando o lobo da luz solar ergueu a cabeça em protesto e virou o rosto.

“A besta divina está me rejeitando?”

Agni bufou e se levantou. Ele não avançou. Em vez disso, Roland recuou um pouco e colocou a mão na juba flamejante do lobo, o que não o feriu.

“Se me permite…”

Roland voltou-se para os nobres, fixando o olhar em Arthur, que acenou levemente com a cabeça.

“Agni não é realmente uma fera domesticada para mim, nem um símbolo de divindade. Ele é um companheiro que está ao meu lado há anos. Nosso vínculo vai muito além do de mestre e fera. Devo me desculpar, mas não posso me separar dele, e não acredito que ele também queira partir.”

Os paladinos e clérigos podiam ver que Roland permanecia ileso, um sinal claro de que o lobo o aceitara. Ao mesmo tempo, sentiam a mana divina se tornando hostil a eles. Irritar uma besta sagrada, mesmo uma presa por um contrato, ia contra seus ensinamentos. Ainda assim, não podiam desafiar a dama, que ainda não havia ordenado que recuassem.

“Absurdo!”

Após uma breve pausa, a mulher falou novamente, revelando mais de sua verdadeira natureza, que não havia se manifestado durante a reunião nobre entre as outras damas Valerian. Naquela ocasião, Aurélia parecera calma, serena e gentil. Agora, diante de algo ligado à sua fé, demonstrava que não podia deixar o assunto passar tão facilmente.

“O que um simples cavaleiro, não abençoado pelo sol, saberia sobre as suas criações?”

Ela apontou para Roland como se ele fosse algum demônio tentando seduzir sua besta sagrada. Roland não sabia como reagir. Ficou claro que aquela mulher era muito mais fanática do que ele esperava. O plano era deixar Agni brincar no jardim enquanto ele se comportava como um cachorrinho dócil, mas as coisas estavam saindo do controle.

“Grrrr!”

Sem aviso prévio, a juba de Agni se intensificou em chamas, e seus olhos se fixaram na mulher que acusava Roland. No instante em que ela percebeu a hostilidade em seu olhar, recuou, não por medo, mas por perplexidade.

“A besta sagrada está zangada comigo? Mas…”

“Já é o suficiente!”

Um grito alto cortou a tensão. Não veio de Arthur nem de Roland, mas de Julius. Ele colocou a mão firmemente no ombro da mãe e a puxou para trás. A autoridade dela era grande, mas o jovem lorde também não era nenhum fraco.

“Meu filho, o que você está fazendo?”

“Vou encerrar isto antes que você envergonhe ainda mais, a mim e à igreja, mãe.”

Sua expressão mudou. O que antes era um leve incômodo transformou-se em clara raiva. Ele se virou para os dois paladinos que estavam atrás dele.

“Minha mãe está cansada. Leve-a para algum lugar onde ela possa descansar.”

Os paladinos hesitaram por apenas uma fração de segundo antes de inclinarem a cabeça.

“Como você ordenar.”

Os olhos de Lady Aurélia se arregalaram enquanto a incredulidade brilhava em seu rosto, guiando-a para longe de Agni. Por um instante, pareceu que ela poderia resistir. O brilho em seu olhar não se apagou. Contudo, ao encontrar a expressão de Julius, as palavras que pretendia dizer morreram em sua garganta.

“Irmão Arthur, poderia pedir a alguns dos seus homens que cuidem da minha mãe? Tenho certeza de que ela gostaria de um bolo e um chá.”

“Claro, irmão Julius.”

Arthur não hesitou. Olhou para Mary, que imediatamente se moveu com algumas outras criadas para lidar com a situação. Aurélia ficou em silêncio e pareceu recuperar a compostura, mas mesmo ao sair, seu olhar permaneceu em Agni, que apenas bufou e virou a cabeça.

Aquela mulher era mais problemática do que Roland havia previsto, e seu comportamento era perturbador. Sabia que as pessoas podiam ser dissimuladas, mas ela parecia se transformar em uma pessoa completamente diferente na presença de Agni. Alguém como ela era difícil de decifrar. Será que agiria movida por essas emoções e faria algo perigoso?

Após esse encontro, sua suspeita sobre o envolvimento dela no que acontecera com a mãe de Arthur aumentou. Ela era uma devota seguidora da Igreja de Solaria, enquanto Aeloria, a mãe de Arthur, estava ligada à crença oposta nas deusas da lua. Era possível que Aurélia a tivesse prejudicado por causa desse conflito, mesmo sem qualquer ligação com a disputa pelo título de duque. Poderia ter sido apenas um choque de crenças.

Julius permaneceu em silêncio até que sua mãe fosse levada para longe o suficiente para que sua presença não pressionasse mais a reunião como um torno. Só então ele expirou, como se estivesse liberando algo que vinha reprimindo há muito tempo.

“Devo um pedido de desculpas a ambos.”

Seu olhar se desviou primeiro para Arthur, depois para Roland. O sorriso polido havia desaparecido, substituído por um leve tremor nos cantos dos olhos.

“A devoção da minha mãe pode ser… avassaladora quando despertada.”

Arthur acenou levemente com a cabeça, um ligeiro sorriso se formando em seu rosto.

“Estar diante de algo como Agni não é pouca coisa. Uma fé forte muitas vezes provoca reações fortes. Não pense nisso.”

Roland permaneceu em silêncio. Sua mão repousou contra a juba de Agni, sentindo o calor lento e constante sob a palma. O lobo havia se acalmado, embora não completamente. As chamas ainda tremeluziam, mas com menos intensidade. Seu olhar então se voltou para Julius, que também era um devoto crente em Solaria.

“Lorde Julius… Agni aqui é bastante dócil, se assim o desejar…”

Ele recuou. Agni permaneceu sentado onde estava e inclinou a cabeça, demonstrando leve confusão. Seu olhar voltou-se para Julius, como se estivesse avaliando seu valor, e então ele soltou um latido agudo.

“Au au!”

“Oh…”

Julius estava claramente fascinado pela mana divina que emanava de Agni. Roland já sabia da pureza das chamas. Tal pureza de mana não era facilmente replicada e parecia cativar os adoradores do sol como mariposas atraídas pela chama.

“Posso?”

“Isso depende dele. Se sua intenção for boa, ele permitirá que você o toque, e as chamas não o queimarão.”

Roland falou calmamente, com a mão ainda repousando na juba de Agni. Ele não olhou para Julius enquanto falava. Sua atenção permaneceu fixa no lobo, como se a decisão nunca tivesse sido sua.

Julius pareceu entender. Por um breve instante, hesitou. Não por medo, mas por algo muito mais raro para alguém de sua posição: respeito. Lentamente, tirou uma das luvas e deu um passo à frente.

“Não tenho más intenções, ó besta sagrada.”

Sua voz era calma e ponderada, como se qualquer indício de força ou domínio pudesse levar à rejeição. As chamas ao longo do corpo de Agni oscilaram com mais intensidade, para depois se apagarem novamente. Suas orelhas se contraíram levemente quando Julius colocou uma mão hesitante em sua lateral.

Roland observava de lado. Julius, um lorde reverenciado por muitos e o mais próximo de se tornar o próximo duque, agora parecia quase uma criança. No instante em que sua mão tocou a juba flamejante e ele percebeu que estava ileso, seus olhos brilharam.

“Irmão… a besta divina aceitou meu toque!”

“Sim” Arthur assentiu com um sorriso. A tensão que se acumulava finalmente se dissipou, estourando como uma bolha de sabão. Agora eles podiam relaxar e seguir em frente, talvez até começar a construir confiança e discutir termos. Aquilo era mais do que um simples encontro entre irmãos. Arthur ainda esperava conseguir algo como um cessar-fogo entre eles, pelo menos até que Theodore fosse detido.

Julius não era tão agressivo quanto seu irmão, ou pelo menos não parecia ser. Ele se concentrava mais em ganhar poder ajudando as pessoas e conquistando favores, em vez de dominá-las, como fazia Theodore. Arthur ainda estava na disputa e parecia disposto a tentar também, seja para se tornar o próximo duque ou, pelo menos, para garantir que Theodore não reivindicasse o cargo.

“É… quente e tão radiante, muito mais do que qualquer feitiço divino que eu já tenha presenciado…”

Era evidente que Julius estava fascinado pela pureza do mana de Agni. O lobo, por outro lado, estava simplesmente sentado ali com a língua de fora. A postura régia que tentara manter antes havia desaparecido, e agora parecia um cachorrinho crescido demais depois que Aurélia partiu.

‘Agora deveríamos ser capazes de seguir em frente, mas aquela mulher… ’

Julius ficou extasiado quando Agni permitiu que ele o tocasse. Roland, por sua vez, mantinha os olhos fixos em Aurélia. A mulher fora levada para um dos quartos de hóspedes maiores e lhe ofereceram algo doce. Contudo, ela recusou o chá e os doces, permanecendo sentada em silêncio. Seu olhar estava fixo em uma das janelas, claramente na direção de Agni.

‘Mesmo agora ela quer Agni.’

Roland não tinha certeza se isso causaria problemas mais tarde. Se a mulher tivesse ligações com os assassinos que ele vira na cidade, enviá-los para eliminar o mestre da besta que ela desejava não seria impensável. Ainda assim, o local estava bem defendido e paladinos de Solaria, que lhe eram amigáveis, estavam presentes. Eles não permitiriam que nada acontecesse à besta sagrada ou ao seu mestre.

‘Vou ter que ficar de olho nela…’

Ele olhou para o visor dentro do capacete e analisou a situação. As coisas estavam começando a voltar ao normal, embora não soubesse se permaneceriam assim.

Por um instante, se perguntou se deveria ordenar que Agni cedesse aos desejos de Aurélia. Deixar-se acariciar não era o fim do mundo, mas Roland temia que, se Agni demonstrasse qualquer sinal de afeto, ela se tornaria ainda mais irracional. A pilha de tesouros que lhe ofereceram significava pouco, pois o valor de Agni não podia ser medido em ouro. Ele era alguém que Roland prezava profundamente, e não permitiria que nada lhe acontecesse, nem mesmo se isso significasse se opor ao próprio duque.

Comentários