
Volume 14 - Capítulo 657
The Runesmith
“Os cavaleiros rúnicos irão puni-lo!”
Uma mulher vestida com roupas simples de plebeia gritava com um homem enquanto permanecia desafiadora diante de um grupo de mulheres e crianças. Seus olhos estavam fixos em um óbvio bandido, cujo sorriso era largo enquanto falava.
“O quê? Me punir? Você acha que vale alguma coisa?”
Ele se aproximou e a agarrou pelo rabo de cavalo. Seu hálito cheirava a álcool e tabaco.
“Por que você acha que estou aqui? Porque um lorde me permitiu. Agora cale a boca. Não é minha culpa que você tenha nascida fraca.”
O homem atirou a mulher para o pequeno grupo de pessoas encolhidas num canto. O lugar em que se encontravam era úmido e escuro. Nem sequer era uma prisão propriamente dita com paredes de pedra. Em vez disso, era uma caverna com grades de ferro que os impediam de fugir.
“Você vai ver. As coisas mudaram…”
Embora a mulher tivesse sido espancada, o brilho em seus olhos não se apagou. O bandido que a havia derrubado começou a franzir a testa, incomodado com a estranha determinação que ela demonstrava.
“O que há de errado com esses desgraçados?”
Ele saiu, batendo a porta de ferro, e olhou para as outras celas. Havia mais pessoas amontoadas lá dentro. Não estavam ali há muito tempo, mas algo lhe parecia estranho.
“Eles geralmente não se comportam assim. Será que o que eles estão dizendo é verdade?”
Ele se virou para outro bandido que estava por perto, coçando a barriga enorme e bocejando.
“Eles provavelmente são apenas malucos. Não dê ouvidos a eles. Ninguém vai vir salvar um bando de camponeses inúteis. Os nobres não se importam com eles quando podem vender algumas partes de monstros para comprar comida.”
“Hah. Você provavelmente tem razão.”
“E mesmo que alguém apareça, contanto que tenhamos aquele cara conosco, tudo ficará bem.”
“Sim. Não tem a menor chance desse cara perder para uns cavaleiros e guardas caipiras. Temos sorte de termos conseguido esse trabalho.”
“É melhor do que trabalhar nas minas.”
Os dois homens começaram a rir ao olharem para os prisioneiros nas celas. Por algum motivo, todos pareciam quase alegres. Eram diferentes das pessoas que os bandidos haviam sequestrado em outras regiões. Normalmente, era nessa hora que os cativos mais imploravam. Em vez disso, esses prisioneiros não paravam de gritar sobre cavaleiros rúnicos que viriam vingá-los.
“Espera… o que é isso?”
Quando estavam prestes a voltar para a mesa onde tinham acabado de comer e beber, enquanto vigiavam os prisioneiros, ouviram. Um sino alto, aquele que seus aliados deveriam tocar caso seu acampamento secreto fosse atacado.
“Ah, viu só? Eu te disse!”
A mesma mulher aproximou-se das grades e apontou para os dois homens, que começaram a entrar em pânico. Eles trocaram olhares, os rostos empalidecendo ligeiramente, embora o medo ainda não os tivesse dominado completamente. O acampamento deles era grande. Havia muitos bandidos e guerreiros, mais do que o suficiente para repelir um grupo de aventureiros, que era o que eles presumiam ser aquele grupo.
“Cala a boca, vadia!”
Um dos homens gritou enquanto ambos pegavam armas da parede. Elas não eram de má qualidade, surpreendentemente bem feitas para pessoas que supostamente eram meros bandidos.
“Espere só até voltarmos. Vou me divertir muito com você quando voltar.”
Após ameaçarem a mulher, os dois saíram. Juntaram-se aos outros bandidos, que estavam trajados com equipamentos de alta qualidade, armaduras de aço espessas e, em alguns casos, até mesmo armas e escudos anões encantados. Estavam equipados como soldados de verdade, apoiados por um nobre ou um rico mercador. Contudo, assim que chegaram ao fim do corredor, suas risadas cessaram abruptamente.
O acampamento secreto havia sido escavado na encosta de uma pequena montanha, escondido atrás de árvores e com um portão magicamente oculto. Não era algo que pudesse ser facilmente descoberto ou invadido. Lâmpadas mágicas iluminavam o interior, e um quartel completo estava abastecido com flechas e armas de reposição. Não se tratava de um simples acampamento de bandidos, mas de um movimento organizado que existia antes mesmo da substituição do governante da cidade. Sobreviveu por anos sem ser descoberto, então, quando os bandidos viram seu portão ceder sob imensa pressão, a visão foi chocante.
“O que está acontecendo? Como nos encontraram? Alguém nos traiu?”
A pergunta mal havia saído da boca do bandido quando um estrondo ensurdecedor rasgou o ar. Não vinha do teto, mas do portão reforçado. A ilusão claramente falhou quando a entrada se despedaçou sob um colossal pilar de gelo. Era enorme, maior que um aríete, e cresceu ainda mais ao forçar a passagem pelo portão. Momentos depois, o gelo se partiu, dissolvendo-se em uma tempestade de neve.
“Q-quê?”
Através da abertura irregular, soldados blindados invadiram. Cada um estava fortemente armado, suas armas encantadas fazendo com que o equipamento dos bandidos parecesse ferro enferrujado. No instante em que o aço encontrou o aço, a diferença foi óbvia. Runas brilharam com uma luz ofuscante enquanto as armas encantadas dos bandidos se dobravam e rachavam sob a onda avassaladora de magia.
“Não entrem em pânico. Ainda temos as balistas. Fogo!”
Nem tudo estava perdido. Dentro do quartel-general, eles ainda tinham armas de cerco posicionadas e apontadas para a única entrada. Seus aliados já as haviam carregado e estavam prontos para disparar.
No entanto, quando um dos enormes projéteis foi lançado para a frente, atingiu um escudo de luz cintilante e se estilhaçou.
“M… Mago!”
Um dos bandidos gritou enquanto tentava romper a barreira que bloqueava seu ataque. Então, eles viram a figura claramente. Uma pessoa vestida com uma mistura de túnica, armadura e encantamentos rúnicos estava diante deles. Suas vestes brilhavam intensamente enquanto runas coloridas se moviam pelo tecido. Seus braços estavam erguidos e entoava cânticos em voz baixa. Mesmo com as balistas disparando sem parar, os projéteis não conseguiam perfurar o escudo mágico. Pior ainda, seus inimigos também possuíam armas de longo alcance.
Uma fileira de besteiros avançou, carregando bestas comuns carregadas com virotes estranhos. As hastes eram de madeira, mas tiras de pergaminho cobertas com inscrições rúnicas estavam enroladas nelas. Os bandidos entenderam no instante em que a primeira explosão ocorreu.
“E-essas flexas têm pergaminhos mágicos! Protejam-se!”
Uma das equipes de balista desapareceu em meio a um rugido de fogo e estilhaços de madeira. O projétil encantado que acabavam de carregar detonou diante deles, explodindo em múltiplos projéteis menores que se espalharam em rápida sucessão. A onda de choque reverberou pela caverna, extinguindo metade das lâmpadas mágicas e mergulhando o acampamento na escuridão. Gritos logo se seguiram enquanto a batalha se desenrolava.
“Recuem! Formação em volta do líder!”
Os bandidos se dispersaram, com a bravata inicial se dissipando. Eles já haviam lutado contra milícias, guardas mercantes e até mesmo aventureiros de alto escalão, mas desta vez era diferente. Esses soldados avançavam em formação cerrada. Seus escudos se sobrepunham com precisão. Cada golpe deixava um rastro de mana, reforçado por magia e apoiado por um mago que parecia ser de nível três. Com tantas adversidades, apenas uma pessoa poderia reverter a situação: seu líder.
“Preciso fazer tudo sozinho?”
O homem era corpulento e empunhava um par de machados forjados em metal encantado que brilhavam com uma aura vermelha. Quando os bandidos o viram, vibraram de alegria. Ele era um usuário de aura, um guerreiro próximo do nível duzentos, de uma classe rara e difícil de derrotar. Para aumentar suas chances, vários outros de patente semelhante se aproximaram dele. Sua força mais poderosa havia chegado, e a confiança se espalhou por todas as fileiras.
“Então, você é a porquinha tentando estragar a minha diversão? Você é uma mulher?”
Sem hesitar, o líder dos bandidos avançou. Os projéteis explosivos lançados contra ele foram desviados por seus machados envoltos em aura. Ele parecia poderoso e absolutamente confiante enquanto se aproximava dos soldados blindados e da maga que parecia comandá-los.
“Larguem suas armas e rendam-se. Se fizerem isso, suas vidas serão poupadas.”
A voz da maga ecoou pelo acampamento secreto, reforçada por magia. A luta cessou por um instante, mas em vez de se render, o líder dos bandidos jogou a cabeça para trás e riu.
“Essa voz? Então você não é nenhuma velha rabugenta. Sua voz é linda. Decidi. Você será meu próximo brinquedinho!”
Após lamber os lábios, o homem empunhou os dois machados e invocou sua aura. Ele cortou o ar, e uma onda de energia carmesim disparou para frente, colidindo com o escudo mágico. Embora seus ataques anteriores tivessem falhado em penetrá-lo, este golpe de aura conseguiu. Uma fenda em forma de cruz se abriu na barreira quando a energia explodiu contra ela.
Para surpresa dos bandidos, a maga não se moveu. Permaneceu imóvel como se tivesse certeza de que nada lhe aconteceria. Então, por trás dela, uma segunda figura avançou para interceptar o ataque. A figura brilhava, vestida da cabeça aos pés com mythril prateado. Era um cavaleiro. Em sua mão esquerda, ele segurava um escudo em forma de pipa e, na direita, uma espada longa larga, mais larga que o normal e provavelmente pesada.
Ele ergueu o escudo, e as runas gravadas em sua superfície brilharam intensamente. A aura carmesim o atingiu. O líder dos bandidos esperava que seu ataque o atravessasse, ou ao menos forçasse o cavaleiro a recuar, mas nada disso aconteceu. Em vez disso, a energia oscilou e enfraqueceu, como se o próprio escudo a estivesse absorvendo.
“Eu serei seu oponente.”
A voz do cavaleiro ressoou, profunda e heroica. Por um instante, a luta ao redor deles diminuiu enquanto ambos os lados observavam os dois usuários da classe nível três se enfrentarem, cada grupo confiante em seu líder.
Quando colidiram, o chão sob seus pés rachou. Os machados do líder dos bandidos desceram em mais um golpe brutal em cruz. Eles se chocaram contra o escudo, enviando ondas de energia para fora e derrubando vários bandidos.
“Vou destruir esse escudo frágil e depois você. Você não tem nem um pingo de aura!”
Golpe após golpe se sucederam enquanto o bandido intensificava seu ataque. Seu objetivo era simples: quebrar o escudo com sua aura avassaladora. Ele já havia percebido que seu oponente não possuía esse poder e, sem aura, um lutador físico era considerado inferior. Nem mesmo equipamentos superiores, esgrima refinada ou magia poderiam competir com a aura, ou assim ele acreditava.
Contudo, após repetidos confrontos, o escudo não vacilou. Em vez disso, a fadiga começou a se alastrar por seus membros.
“Como isso é possível? Que truque é esse?”
Ele se sentia exausto, como se o escudo não estivesse apenas bloqueando seus golpes, mas drenando a própria energia por trás deles.
“Uma arma projetada para neutralizar usuários de aura.”
Antes que o bandido pudesse reagir, o cavaleiro avançou. Durante toda a batalha, o bandido notara a espada do cavaleiro se transformar. A cada golpe de seus machados imbuídos de aura, as runas em sua lâmina brilhavam mais intensamente. Agora ele entendia o porquê. Mas já era tarde demais.
A espada brilhava intensamente. Não era aura, mas uma magia poderosa que eclipsava qualquer coisa que o líder dos bandidos pudesse suportar. Ele recuou rapidamente, mas não foi rápido o suficiente. Seu corpo não era feito para movimentos rápidos e ágeis, e logo a espada avançou.
Por um instante, o tempo pareceu parar para o líder dos bandidos. Então, uma energia explodiu ao seu redor. Um arco de força colossal rasgou o ar, abrindo uma profunda fenda no chão à medida que avançava. Ele ergueu os dois machados para se defender, cruzando-os à frente do corpo, na direção do ataque.
“N-não, eu não posso morrer aqui… não foi isso que me prometeram…”
Essas foram as últimas palavras que ele pronunciou. O corte de energia atravessou suas armas e seu corpo. Sua aura carmesim estilhaçou-se como vidro sob a onda mais forte de luz azul. Por um instante, ele permaneceu de pé, com os machados erguidos em desafio. Então, uma fina linha prateada traçou seu peito. Sua armadura encantada se partiu, seguida por suas armas e, finalmente, por seu corpo.
A onda de energia continuou além dele, abrindo uma trincheira no chão de pedra e se chocando contra a parede oposta da caverna. Rochas se romperam. Poeira e estilhaços de pedra caíram como chuva quando parte do teto desabou sobre os bandidos ali reunidos. Quando a luz finalmente se dissipou, apenas o silêncio permaneceu onde o imponente usuário de aura estivera.
Seu líder invencível, o homem que jamais perdera um duelo e sempre saíra vitorioso, havia desaparecido. Pior ainda, bastou um único golpe para acabar com ele. A luta não durou nem cinco minutos.
“N-não… Líder?”
Seguiu-se um silêncio enquanto os bandidos encaravam a figura blindada parada diante deles. Sua lâmina ainda pulsava com poder, e diversas runas cintilavam em sua superfície.
“Ca-cavaleiro Rúnico…”
Um dos bandidos sussurrou enquanto largava sua arma. Os outros logo o seguiram, erguendo as mãos diante do lendário cavaleiro rúnico. Muitos acreditavam que as histórias eram exageradas, mas agora sabiam que estavam enganados. Nenhum deles tinha esperança de vencer, e a rendição era sua única chance de sobreviver.
O cavaleiro rúnico baixou sua espada. As runas perderam o brilho, passando de um branco ofuscante para um suave reflexo prateado, com tênues linhas nos vestígios rúnicos ainda se movendo pela superfície enquanto ele examinava a caverna.
“Vocês fizeram a escolha certa. Não há mais necessidade de derramamento de sangue hoje. Sigam as instruções dos meus soldados e nenhum de vocês se ferirá.”
*****
Robert baixou a espada e observou os bandidos obedecerem às suas ordens. Ele lançou um olhar para o usuário de aura que havia derrotado. Para aquelas pessoas, ele poderia parecer um inimigo indomável, um monstro envolto em armadura, mas seu coração batia mais forte do que nunca. O homem à sua frente não era alguém que ele conseguiria derrotar em circunstâncias normais. Somente graças à sua nova classe, juntamente com o escudo e a espada especiais, havia sido capaz de vencer.
Seu inimigo demorou a perceber, mas o escudo, projetado por seu irmão Roland, podia absorver energia de aura até certo ponto e dispersá-la. Quanto mais seu oponente atacava, mais energia fluía para sua armadura e espada. A cada golpe que suportava, sua lâmina começava a brilhar mais intensamente. Uma vez totalmente carregada, ela podia desferir um golpe devastador contra o qual nem mesmo usuários de aura de alto nível conseguiriam se defender.
“Sir Durendal.”
Lucille aproximou-se por trás e colocou a mão no ombro dele. Uma sensação reconfortante o invadiu com o toque dela.
“Estou bem, Lady Curtana. Devemos cuidar dos camponeses presos e levá-los para casa.”
Lucille assentiu com a cabeça e continuou a acalmá-lo com um feitiço rúnico entrelaçado em sua armadura. Robert não entendia completamente como funcionava, mas ela agora podia usar certos feitiços rúnicos, alguns além do alcance de magos comuns, como a magia calmante que acabara de lançar sobre ele.
“Isto deverá ser um duro golpe para eles, mas não creio que fossem bandidos comuns, Sir Durendal.”
“Você tem razão, Lady Curtana. Alguém está patrocinando-os. Muito provavelmente Theodore Valerian.”
Trocaram acenos de cabeça enquanto examinavam o covil subterrâneo. Ele havia sido construído com considerável riqueza e planejamento. Nenhum bandido comum teria conseguido tal feito, e todas as suas armas eram encantadas. Mesmo assim, o equipamento que Roland havia fornecido ainda era superior.
“Felizmente, temos o melhor artesão do nosso lado.”
Lucille disse enquanto levantava um dos machados quebrados.
“Sim, temos. Mesmo assim, devemos levar essas coisas de volta conosco.”
Robert respondeu. Pegou o outro machado que estava por perto e o jogou para um de seus criados. Como líder de fato de Aldbourne, ele era responsável por sua segurança. Desde que o palácio lhe fora confiado, não tivera uma única noite de descanso. Mesmo assim, não se ressentia do fardo. Era com isso que sempre sonhara: servir ao povo do reino como um cavaleiro honrado. Queria ser o tipo de cavaleiro de quem as pessoas falavam em sussurros de esperança, e não de medo.
“São os Cavaleiros Rúnicos. Vida longa aos Cavaleiros Rúnicos.”
“Lá vão eles de novo, nos chamando disso.”
Lucille deu uma risadinha enquanto observava alguns dos prisioneiros sendo conduzidos para fora pelos soldados. Uma das mulheres acenou para eles com um sorriso radiante no rosto.
“Gostei. Cavaleiro Rúnico soa bem.”
Não era apenas Robert que era chamado de Cavaleiro Rúnico. Lucille usava placas metálicas sobre seu manto de maga, o que também a fazia parecer uma cavaleira.
“Enquanto estivermos juntos, não me importo com o que digam sobre nós.”
Ela sussurrou algo para ele e tocou em seu ombro novamente.
“Vamos deixar essa conversa para depois que sairmos daqui, Lady Curtana.”
Ela assentiu. Mesmo usando capacetes, sorrisos radiantes iluminaram seus rostos. Logo, retornaram ao trabalho, pois os deveres de um Cavaleiro Rúnico não terminavam tão cedo.