
Volume 14 - Capítulo 638
The Runesmith
“O que você disse?”
Uma voz alta ecoou, e várias pessoas viraram a cabeça.
“Você me ouviu. Você tem problemas de audição? Entrou mijo nos seus ouvidos?”
“Imbecil!”
O insulto ecoou quando dois homens corpulentos se encararam, com uma pequena multidão reunida ao redor deles.
“Briga, Briga!”
Os espectadores incitavam enquanto a dupla desembainhava suas armas. Um era um anão robusto empunhando uma alabarda. O outro, um humano, segurava uma espada longa. Eles estavam no meio da rua, perto do que parecia ser a entrada da guilda local de aventureiros. Os guardas próximos desviaram o olhar. Claramente, não tinham interesse no confronto nem na possibilidade de um dos lutadores morrer.
O aço raspou contra a pedra quando o anão atacou. Suas botas deslizaram pela rua gasta, e sua alabarda mergulhou num golpe preciso, destinado a dilacerar seu oponente.
“Vamos lá, pernas compridas!”
Ele gritou enquanto avançava. O humano rugiu em resposta e brandiu sua espada longa em um amplo arco.
“Vou arrancar essa barba da sua cara podre e usar para limpar a bunda depois!”
Os aventureiros rapidamente formaram um círculo frouxo ao redor deles. Alguns sorriam com expectativa. Outros trocavam moedas e faziam apostas. Sabiam que ninguém os impediria e que aquela cidade aparentemente pacífica tinha suas próprias leis. O distrito em que estavam ficava longe da nobreza, dividido e em grande parte negligenciado.
A menos que um nobre fosse morto ou o prédio da guilda pegasse fogo, a nobreza não intervinha. Enquanto os problemas ficassem longe do distrito nobre, eram ignorados. “Longe dos olhos, longe do coração” poderia muito bem ser o lema deles, e os aventureiros aproveitavam cada momento disso. Pelo menos, era assim que parecia para quem estava de fora.
A alabarda do anão encontrou a espada longa com um estrondo retumbante, faíscas cortando a pedra. O humano avançou, confiando mais na força do que na destreza, forçando o lutador mais baixo a recuar passo a passo. A multidão rugiu enquanto o aço batia no aço repetidamente.
Então, alguém mais resolveu se envolver. Uma caneca se estilhaçou contra o ombro do anão, espirrando cerveja em sua armadura. A briga cessou, e ambos os aventureiros turbulentos se viraram para o lado.
“Ei! Quem jogou isso? Eu vou te mat—” O anão interrompeu-se ao ver quem estava ali. Um homem com armadura leve ostentava a insígnia da Guilda dos Aventureiros no ombro. Ao lado dele, estava outro homem vestido de forma quase idêntica.
“Você ia fazer o quê?”
“Ah… nada. Estávamos só brincando.”
O anão desviou o olhar, olhando para o humano com quem lutava. O homem mais alto também parecia pálido e logo percebeu o que estava acontecendo. Os dois recém-chegados eram os agentes locais. Não eram guardas da cidade, nem funcionários comuns de guildas. Suas armaduras eram mais leves, práticas e marcadas com discretos encantamentos rúnicos, feitos para ficarem escondidos sob o tecido. A insígnia em seus ombros era sutil, mas qualquer aventureiro que se prezasse a reconheceria instantaneamente.
O cântico cessou quase imediatamente. Moedas desapareceram de volta nos bolsos. Algumas pessoas deram passos desajeitados para trás, subitamente fascinadas pela textura das pedras da rua ou pelo clima. O aventureiro humano engoliu em seco e embainhou a espada num único movimento rígido.
“Desculpe, me exaltei um pouco, só isso…”
O anão imitou o gesto, baixando a alabarda e inclinando a cabeça o suficiente para demonstrar respeito sem parecer submisso.
“Não tive nenhuma intenção com isso…”
‘Então, esses são os Corretores da Guilda.’
De perto, um homem solitário observava a cena se desenrolar. Seu corpo inteiro estava coberto por um manto com capuz, o que o fazia parecer bem grande. Ele estava ali desde o início, optando por esperar até que tudo terminasse. Embora não fosse sua primeira vez na cidade, nunca havia percorrido completamente aquele distrito, que era governado por diversas guildas.
O que ele observou foi uma espécie de milícia operando dentro do distrito. Eles eram responsáveis por resolver disputas entre aventureiros e plebeus. Essas pessoas tinham um contrato com a Casa Valerian, que lhes concedia autoridade limitada para fazer cumprir a lei.
Devido à proximidade da supermasmorra, a área estava repleta de aventureiros de nível três e, ocasionalmente, até mesmo de nível quatro apareciam. Era uma situação complicada que, se administrada diretamente pelos nobres, exigiria supervisão militar constante e o destacamento de cavaleiros comandantes altamente treinados que já tinham outras funções.
Como resultado, decidiu-se que as guildas se autogovernariam. Contanto que mantivessem a paz e os conflitos não se tornassem muito sangrentos, os exércitos nobres permaneceriam afastados. Esse arranjo criou um distrito com sua própria estrutura de poder e um delicado equilíbrio.
Havia três forças distintas em ação ali. A primeira era a Guilda dos Aventureiros, que supervisionava a supermasmorra. Depois, havia a Guilda dos Mercadores, que controlava o fluxo de suprimentos, hospedagem e transporte de e para a masmorra. A terceira força era menos visível, mas todos sentiam sua presença: a Guilda dos Ladrões, ou como eram conhecidos ali, os sindicatos.
Eles não tinham bandeiras, contratos oficiais ou sede pública, mas estavam entrelaçados no distrito como madeira podre em madeira velha. Contrabandistas, corretores de informações, agiotas e assassinos de aluguel. Alguns trabalhavam de forma independente, enquanto outros eram discretamente patrocinados por patronos influentes que preferiam manter as mãos limpas. Enquanto a Guilda dos Aventureiros impunha a ordem abertamente e a Guilda dos Mercadores ditava os preços por meio de livros-razão e contratos, os sindicatos operavam por meio de sussurros, favores e sangue derramado em becos que ninguém se dava ao trabalho de limpar.
O homem encapuzado observou a postura dos Corretores enquanto eles dispersavam a multidão. Suas mãos repousavam casualmente perto das armas, mas era evidente que não esperavam nenhuma resistência. Um deles começou a olhar ao redor, seus olhos percorrendo a área enquanto a multidão se dispersava. Por um instante, seu olhar se deteve no homem encapuzado parado perto da entrada do beco escuro. Então, como se não tivesse visto nada, ele se virou e gritou para os aventureiros seguirem em frente.
“Awoo!”
“Está tudo bem, Agni. Eles não podem nos ver.”
De dentro do beco, um uivo alto escapou, mas ninguém do lado de fora ouviu sequer um sussurro. Uma força invisível envolvia a área, bloqueando todo som e movimento. Dentro dela, estava um lobo enorme, sua pelagem cravejada de gemas que brilhavam em azul, uma cor que lhe era desconhecida.
“Não gostou do novo visual? Você que escolheu. Eu te disse para escolher com sabedoria, não disse?”
“Grrrr!”
Agni respondeu com um rosnado baixo. Ele tinha que escolher entre verde e azul, as duas cores que sua espécie também podia manifestar no mundo. Lobos rubi eram criaturas raras com duas variantes adicionais: uma verde-esmeralda e a outra azul-safira. Agni decidiu abocanhar a gema azul, que transformou todos os seus rubis em pedras azuis. Sua aparência permaneceu inalterada, exceto pela mudança de cor.
“Não se preocupe. Sua cor voltará ao normal eventualmente, mas somente depois de um mês.”
De um Lobo Rubi Místico Alfa, ele havia se transformado para imitar um Lobo Safira Místico Alfa. As criaturas eram quase idênticas às suas contrapartes rubi, sendo a principal diferença o fato de suas chamas serem azuis. Com essa forma, Roland esperava impedir que a verdadeira identidade de Agni fosse descoberta e rastreada até ele.
“Worf.”
“Por enquanto, mantenha a calma. Assim que nos encontrarmos com o agente, iremos embora.”
Roland deu um tapinha na cabeça de Agni com a mão enluvada por uma manopla preta como breu. Eles haviam chegado a Isgard apenas uma hora antes, através do portal principal. De lá, seguiram para este distrito, em direção a um ponto de encontro preparado por um de seus homens. Ele esperava evitar tal farsa, mas o comportamento de certo ferreiro o obrigou a isso.
“Worf.”
Exatamente como planejado, alguém apareceu no beco, emergindo de uma entrada subterrânea escondida. Agni percebeu movimento no chão e uma pequena abertura logo se revelou, permitindo que uma figura saísse rapidamente.
“Está tudo bem. Eles é um dos nossos.”
Roland ergueu a mão quando Agni estava prestes a atacar o estranho.
“Sir.”
A pessoa vestia um manto escuro semelhante ao de Roland e uma máscara que lhe ocultava o rosto. Seu gênero era impossível de discernir, e esse anonimato seria preservado. Ao alcançá-lo, curvou-se profundamente, claramente ciente de quem ele era, e entregou-lhe um envelope antes de retornar ao buraco de onde viera.
Roland aceitou com um aceno de cabeça e não disse nada. O agente tinha a missão de seguir Ermes, o ferreiro que parecia determinado a ser morto. Dentro do envelope havia informações detalhadas sobre o homem, juntamente com anotações sobre possíveis alvos. Também continha o pergaminho da missão que Roland precisava entregar à guilda para obter acesso à super masmorra. Tudo estava organizado para que ele pudesse simplesmente entrar e começar sua jornada sem perder tempo.
“Eles partirão em meio dia, e a viagem pode levar até três. É melhor nos apressarmos, Agni.”
Agni baixou a cabeça e soltou um resfolego baixo. As gemas azuis em sua pelagem brilharam com mais intensidade à medida que a barreira tênue ao redor deles se dissipava. O beco voltou ao normal, e os dois finalmente saíram para a rua aberta em frente à principal guilda de aventureiros.
‘Não estou recebendo tantos olhares quanto esperava. Ótimo.’
Roland avançou com Agni logo ao seu lado. Agni usava seu arnês para mostrar que não era apenas um monstro qualquer vagando pelas ruas. Embora sua aparência normalmente causasse espanto, os cidadãos daquele distrito já tinham visto coisas muito mais estranhas. Agni nem era a única criatura incomum por perto, pois um estranho pássaro amarelo passou por eles com uma pessoa empoleirada em suas costas, como se estivesse numa sela.
“Au au?”
“Não, você não pode comer isso. Agora vamos embora.”
Primeiramente, ele precisava cuidar de Agni, então dirigiu-se a uma grande área cercada ao lado da Guilda dos Aventureiros. Lá, avistou várias outras criaturas grandes demais para entrar no prédio. Agni não ficou muito contente em ser levado para um cercado, mas para feras de nível três como ele, isso era a lei.
“24C, aqui está.”
“Obrigado.”
Roland respondeu ao tratador, que lhe entregou uma chave grande com o número 24C gravado. O lugar lhe lembrou o estacionamento de um shopping, pois era numerado e espaçoso. O cercado de Agni era um dos maiores e exigia um pagamento considerável. Mesmo assim, o preço lhe dava confiança na qualidade do serviço.
“Aguarde aqui por enquanto. Eu te busco mais tarde.”
Seu companheiro não ficou contente por ser deixado sozinho, mas não protestou muito. Uma vez dentro do cercado, suas patas afundaram em uma espessa camada de palha que parecia ser reposta após cada uso, proporcionando ao lobo um lugar confortável para descansar. Agni deu uma volta, cheirou os cantos do cercado e finalmente se deitou, com os olhos semicerrados, mas ainda alerta.
Roland afastou-se da cerca e olhou para trás, em direção à guilda. As ruas estavam mais calmas do que antes; o caos de brigas e gritos havia desaparecido como se nunca tivesse existido. Ele sabia que não era bem assim. A calmaria tinha seus limites, e existia por um motivo principal. As verdadeiras batalhas eram travadas em outro lugar, nas profundezas da supermasmorra, onde nenhum nobre ou membro da guilda se atrevia a interferir.
Ele guardou o envelope com cuidado em sua mochila e dirigiu-se para a entrada principal da Guilda dos Aventureiros, misturando-se ao fluxo constante de aventureiros que entravam e saíam.
Lá dentro, a guilda fervilhava de gente. Era muito maior do que a de Albrook, ou qualquer outra que ele já tivesse visto na vida. Em primeiro lugar, a diferença mais marcante era a sua disposição. O prédio tinha quatro andares, cada um dividido por nível de aventureiro. O andar térreo era reservado para iniciantes, que em Isgard eram considerados aventureiros de nível dois, já que os de nível um sequer podiam entrar na masmorra sozinhos.
O andar térreo era o maior, mas também o mais espartano de todos. Tinha todas as instalações habituais: um longo balcão com atendentes, fileiras de quadros de avisos repletos de pedidos em pergaminhos, estações de avaliação vigiadas por funcionários com ar entediado e uma sala de espera cheia de mesas desgastadas e bancos riscados. O ar cheirava a suor, cerveja barata e polidor de metais.
Roland avançava sem parar. Os aventureiros de nível dois mal lhe dirigiam um olhar. Embora emanasse a aura de um portador de classe de nível três, havia muitos outros como ele. Os aventureiros de nível três estavam no segundo andar, para onde ele se dirigia, mas para chegar lá, primeiro precisava apresentar seu cartão de aventureiro, já que o acesso aos andares superiores era monitorado pelos mesmos agentes que ele vira dispersando a briga mais cedo.
“Cartão de aventureiro.”
Duas pessoas estavam ali, semelhantes às que ele vira antes. Suas armaduras eram as mesmas e carregavam espadas longas como armas principais. Roland não hesitou e mostrou seu novo cartão de aventureiro, aquele que o mestre da guilda de Albrook lhe havia dado.
Eles usaram algo semelhante a um scanner, que neste caso parecia um cubo coberto por vários símbolos rúnicos. Assim que o cartão era inserido em uma fenda lateral, as runas brilhavam intensamente. Embora ele pudesse adulterar o dispositivo, não havia motivo para fazê-lo, já que o brilho emitido era verde.
“Parece tudo bem, Siegfried, não é? Entre e fique longe de problemas.”
Os dois homens rapidamente perderam o interesse nele. Mesmo que o cartão o identificasse como um aventureiro de nível Platina, ninguém naquela guilda se importava, a menos que alguém tivesse alcançado o nível Mithril ou superior. Oricalco era uma raridade ali, mas o terceiro andar era reservado para esses níveis, juntamente com o Adamantium. O quarto andar, por outro lado, não era destinado a aventureiros e era reservado para o mestre da guilda e seus convidados pessoais.
‘São muitos de nível três…’
Uma vez lá dentro, ele começou a se sentir menos especial. A multidão era menor do que no andar de baixo, mas ainda havia muitos, muitos mesmo, usuários de classes de nível três. Isso dava a impressão de que o que ele havia conquistado não era mais uma raridade, mas sim a norma, e não uma façanha. No entanto, isso se devia principalmente à super masmorra que todos eles frequentavam. Era um ponto de encontro que atraía aventureiros não só de todo o reino, mas também de outras terras.
Isso deixou uma coisa clara. Ele não podia mais confiar apenas em seu poder. Mesmo sendo capaz de derrotar vários inimigos acima do seu nível, sempre havia um limite. Essa constatação o acompanhou enquanto ele avançava para o segundo andar e se juntava à fila com os outros. O poder era comum ali, e enquanto em Albrook e outros lugares ele teria recebido tratamento preferencial, ali ele era apenas mais um entre muitos.
Enquanto esperava, ele lançou um olhar para um dos quadros de missões. O papel que segurava na mão correspondia ao que estava escrito ali, confirmando que o agente que enviara fizera um bom trabalho. Finalmente, parou diante da secretária da guilda, uma mulher que lhe lembrava sua esposa. Usava óculos e tinha uma postura profissional, mas não era nem de longe tão encantadora quanto Elódia.
“Acompanhamento até o terceiro anel. Por favor, assine aqui.”
Ela disse pouco, apenas conferindo rapidamente seu cartão e o documento da missão. Assim que suas credenciais foram confirmadas, ele foi aceito. Poucas pessoas se aventuravam nas regiões mais profundas, e quanto mais pessoas, mais seguro se tornava. Consequentemente, nenhum portador de classe de nível três era recusado.
O papel que ele tinha em mãos estava carimbado com o selo da guilda, e nele foram dadas instruções sobre o grupo com o qual ele viajaria. Isso apenas confirmou o que ele já sabia, pois todas as informações já constavam nos documentos fornecidos pelo agente.
Roland dobrou o pergaminho carimbado e o guardou de volta em sua sacola. Com as formalidades concluídas, não restava nada a fazer senão esperar a partida e buscar seu companheiro. Ele se virou e retornou pela guilda, descendo as escadas e saindo para a luz do dia mais uma vez.
O barulho do distrito o envolveu novamente, com vozes alteradas, o tilintar de armaduras e os mercadores oferecendo seus produtos. Depois de pegar Agni, ele voltou pelas ruas, repletas de lojas de armaduras e armas. Tudo ali girava em torno da masmorra, e os aventureiros eram a principal clientela.
O ponto de encontro ficava perto do portão leste do distrito, próximo a um grande restaurante e pousada. Lembrou-lhe o dormitório que construíra para as crianças, embora muito maior. Lá dentro, muitos aventureiros aguardavam suas missões, alguns tendo passado metade da vida em Isgard, onde tudo o que precisavam lhes era fornecido.
‘Bem, espero que tudo corra bem… ’
Ele pensou isso consigo mesmo enquanto estava prestes a virar a esquina quando, do nada, ouviu alguém gritando.
“O que eu te disse?”
“Eu não fiz nada!”
“Hah, então você está me chamando de mentiroso?”
Seu olhar se voltou para a confusão. Desta vez, não se tratava de um conflito entre dois aventureiros, mas sim com alguém que ele reconheceu. Era o próprio homem que ele havia se proposto a proteger…