
Volume 13 - Capítulo 604
The Runesmith
“Lá está ele. Prepare-se e lembre-se do que eu lhe disse.”
“Sim, mãe.”
Ivan assentiu levemente quando a porta do salão da assembleia começou a se abrir. Os nobres ao seu redor voltaram a atenção para a entrada, com uma exceção: sua esposa. A nora da duquesa permaneceu um passo atrás dos outros, como se seu status fosse inferior ao deles. Seu olhar se fixou na grande porta ao longe, mas logo se desviou para os lados, onde outros olhos aguardavam para encontrar os dela.
‘Está na hora…’
Ela pensou enquanto dava um pequeno passo para trás. Os nobres próximos estavam tão absortos na entrada do duque que não notaram sua fuga. Até mesmo seu marido Ivan, que parecia cativado por sua beleza, não virou a cabeça. Seu foco permanecia em seu pai, o senhor da ilha e o homem que ditava o destino de todos os que viviam ali.
Ela se virou e entrou nos corredores escuros da Mansão Valerian. Cada passo era assustadoramente preciso, como se ela deslizasse pelo chão em vez de caminhar sobre ele. Os guardas posicionados nas proximidades não deram sinal de notar sua presença, como se seus olhos se recusassem a reconhecer sua passagem pelos corredores. Ela se movia mais rápido agora, suas saias roçando nas paredes de pedra, sua respiração estável e controlada. No entanto, seu coração batia forte com uma excitação sombria. Este era seu momento de se levantar, sua única chance de provar aos outros que ela pertencia à sua posição.
“Sua Sacerdotisa ordena que você se apresente. Chegou a hora de provar seu valor.”
Das sombras, algo começou a emergir. As paredes de pedra se moveram de maneira sobrenatural, curvando-se como tecido. Símbolos ocultos tremeluziram fracamente na superfície antes que uma figura se libertasse da rocha.
“Arqui Sacerdotisa. Viemos para servir ao abismo.”
A voz era baixa e áspera, nem totalmente masculina nem feminina. Perturbou o ar, mas ainda mais perturbador era o fato de não estar sozinha. Mais sombras surgiram, saindo dos muros do castelo como se estivessem ali há eras. Suas formas estavam escondidas sob vestes escuras e máscaras confeccionadas com tentáculos retorcidos, cada uma com um único olho grande no centro.
A mulher, antes conhecida apenas como a dócil esposa de Ivan, ergueu o queixo quando a primeira figura vestida de túnica se curvou diante dela. O véu que lhe escondia as feições escorregou até o chão, revelando um sorriso cruel. Seus olhos violetas vívidos brilharam enquanto seu vestido se torcia e se transformava na vestimenta de uma cultista, as vestes de alguém que servia ao deus do abismo.
Seu vestido se moveu como se estivesse vivo, transformando-se em uma túnica abissal esvoaçante. O que antes eram rendas e adornos tornou-se um tecido pesado gravado com símbolos tênues e mutáveis. Os padrões se distorceram em olhos que se abriam e piscavam através de suas mangas. Um manto de sombras cobria seus ombros, preso por tentáculos vivos que se contorciam em silêncio.
Em sua cintura, cordões de linha preta prendiam a vestimenta, pulsando levemente como veias. Por um breve momento, seu rosto ficou nu, mas então uma máscara deslizou sobre seus olhos. Por baixo dela, um brilho violeta inquietante irradiava, pulsando no ritmo de sua voz cada vez que ela falava.
Só com a presença dela, o quarto ficou mais frio, como se o próprio abismo tivesse se infiltrado no mundo através de suas vestes. As figuras em túnicas curvaram-se diante da mulher, suas vozes se unindo em um coro sussurrado que deslizava pelos corredores de pedra como cobras:
“Pelo Abismo, nós sangramos. Pelo Abismo, nós servimos. Tudo é pelo sonho eterno.”
Seu sorriso se aprofundou ao observar a lealdade deles ao abismo e ao glorioso. Ela ergueu a mão pálida, e os sussurros silenciaram. Restaram apenas os raios moribundos do sol poente, lançando longas sombras sobre as máscaras dos cultistas.
“Vocês têm as relíquias secretas?”
Ela se dirigiu a um dos homens encapuzados, o primeiro a se aproximar. Sua máscara era diferente das demais, marcada com três olhos em vez de um.
“Sim, Arqui Sacerdotisa.”
O homem se endireitou e tirou um pequeno obelisco de dentro do manto. Seu poder ainda estava adormecido, mas as runas ocultas brilhavam fracamente, prontas para despertar. Embora pequeno, irradiava uma força estranha. Ele não era o único. Logo, muitos outros revelaram as mesmas relíquias, cada uma idêntica à primeira.
“Muito bem. O Duque é um homem poderoso. Mesmo enfraquecido, ele ainda pode encontrar uma maneira de escapar do grande mundo dos sonhos. Siga o plano. Coloque as relíquias nos locais combinados e aguarde meu sinal.”
“Como desejar, Arqui Sacerdotisa.”
O sorriso nunca abandonou seu rosto. Finalmente, era hora de provar seu valor. Tudo dependia daquele dia, mas o fracasso não era algo que ela se permitia considerar. Ou teria sucesso ou pereceria. Em sua mente, o senhor do abismo jamais a deixaria morrer uma morte inútil. E se o fizesse, seria por sua vontade, pois através dele o sonho sem fim que tanto almejavam um dia se realizaria.
Os cultistas mascarados logo desapareceram, suas formas sombrias deslizando pelas paredes. Os nobres estavam ocupados demais torcendo pelo Duque para perceber o que estava prestes a acontecer.
“Verdadeiramente patético.”
Ela sussurrou para si mesma enquanto voltava para o grande salão. Ninguém lhe dava atenção. Tudo corria bem, e ela sabia que os anos passados presa naquele poço de nobreza estavam prestes a acabar. Depois daquele dia, ela finalmente estaria livre. Livre do papel de esposa linda e silenciosa, livre de Ivan, livre da mãe tola dele.
“Todos se tornarão um com o abismo. Quando esta ilha nos pertencer, meu lugar no conselho estará garantido e eu finalmente ascenderei. Oh, que dia glorioso.”
A mulher gargalhou, e seu riso ecoou pela câmara. Ela não se importava se os nobres a ouvissem. Aquele era o seu momento. Com uma das relíquias secretas em suas mãos, ela não tinha nada a temer. Deu um passo à frente em um ritmo lento e deliberado antes de falar novamente.
“Verdadeiramente repugnante.”
O salão ficou em silêncio. Suas palavras deslizaram pela vasta câmara como veneno, silenciando até mesmo o duque e paralisando os nobres. Os rostos passaram do choque à confusão. Alguns se encolheram instintivamente, enquanto outros se encheram de indignação diante da audácia de uma mulher falando tão ousadamente na presença do duque.
“Qual é o significado disso? Alguém a tire imediatamente!”
A mãe de Ivan se inclinou e sussurrou algo para os nobres próximos. Um deles assentiu bruscamente. Muitos não reconheceram a mulher em seu novo traje, mas ela sim. Um homem se adiantou, estendendo a mão para agarrar o pulso da intrusa. No momento em que seus dedos estavam prestes a se fechar em volta dela, ele foi atingido.
Um tentáculo irrompeu de seu manto sombrio, golpeando-o e o arremessando contra a parede de pedra com um forte estrondo. Os olhos do homem reviraram-se enquanto ele desabava no chão, com sangue escorrendo pelo canto da boca. Suspiros ecoaram pela câmara. Alguns nobres recuaram cambaleando enquanto outros gritavam, suas compostura se estilhaçando como vidro. Alguns guardas avançaram, suas lâminas brilhando à luz do lustre enquanto uma escuridão pesada se abateu sobre o salão.
“Patético.”
A Arqui Sacerdotisa não se mexeu. Ela permaneceu ereta, com o olhar vendado percorrendo a sala. Ela estava inebriada pelo medo, e sua voz soou para silenciar a todos.
“Criaturas patéticas. Vocês se pavoneiam em suas riquezas, se afogam em vinho e chamam isso de poder. Mas o que vocês realmente são? Cordeiros gordos esperando pelo açougueiro. Vocês me enojam. Mas não se desesperem, pois uma vez que aceitarem as dádivas do Senhor, todos serão salvos.”
Os nobres se libertaram do transe e ergueram a voz em protesto. Guardas avançaram com espadas em punho. Em resposta, ela ergueu a mão. O pequeno obelisco que segurava resplandecia com luz, runas espiralando em sua superfície. Um zumbido estranho sacudiu os ossos dos presentes antes de explodir em uma pulsação de força invisível.
THRUUM.
A onda atravessou o salão como um trovão, ressoando com múltiplas ondas sonoras vindas de outras direções. Os nobres congelaram no meio da respiração, com as taças de cristal tremendo nas mãos e as bocas entreabertas em gritos meio formados. Os guardas pararam no meio do golpe, com as lâminas pairando a pouca distância das vestes dela, cada músculo preso por correntes invisíveis. Até o Duque se enrijeceu, sua postura orgulhosa se desfazendo ao cair no chão.
O silêncio que se seguiu foi sufocante. Apenas o som fraco do obelisco persistia, ressoando pela câmara como o batimento cardíaco de uma criatura imensa e invisível.
“Bom. Assim está melhor.”
Seu tom se suavizou, ironicamente doce, como se estivesse se dirigindo a crianças assustadas. Ela alisou as mangas, e seu sorriso cruel se alargou.
“Vocês viveram tempo demais em suas gaiolas douradas, achando-se intocáveis. Mas suas risadas, seus planos, seus títulos… nada significam. Em breve, todos vocês se juntarão a nós no abismo eterno. Vocês sonharão para sempre, como todos devem, e seu império oco será esquecido.”
Ela caminhou entre os nobres congelados, passando os dedos por seus ombros e bochechas rígidos. Onde quer que ela tocasse, a carne deles tremia grotescamente, como se resistisse a uma corrupção invisível.
“Alguns de vocês podem ter dificuldades, mas isso não faz sentido diante do grande Senhor do Abismo. Sua descida não pode ser interrompida. Assim que nos unirmos, seu orgulho, sua linhagem e toda a sua riqueza serão reduzidos a nada.”
Suas palavras pingavam como doce veneno, mas ninguém conseguia responder. Não podiam protestar ou concordar. Estavam presos em uma ilusão, impotentes, esperando que ela terminasse sua tarefa. De dentro de um objeto espacial, ela sacou uma adaga dentada em forma de tentáculo negro, com o cabo adornado com um olho piscante. Seu primeiro alvo era o Duque. Mesmo preso à relíquia sagrada, sua força permanecia perigosa. Ele precisava morrer.
A Arqui Sacerdotisa ergueu a adaga bem alto, sua sombra se estendendo pelo chão de mármore. Seu riso ecoou pelo salão, ecoando contra as formas congeladas dos nobres. Ela saboreou o silêncio e a impotência daqueles que um dia a desprezaram. Todos os nobres agora lhe pertenciam. Em breve, eles seriam infectados e verdadeiramente reivindicados pelo abismo.
“Você vê, meu senhor do abismo?”
Ela sussurrou, seus olhos violetas brilhando por baixo da máscara.
“Eles já são seus. E eu, sua mão escolhida, serei lembrada como aquela que abriu o portão e começou tudo.”
Ela girou pela pista de dança, esbarrando nos nobres imóveis e rindo quando eles tombavam. Seu sorriso torto se alargou enquanto ela se entregava à vitória. A Arqui Sacerdotisa girou com um deleite maníaco, suas vestes abissais rodopiando, sua adaga brilhando à luz dos lustres. Então ela parou, seu riso se interrompendo, ao notar algo.
“Aquela pessoa estava ali?”
Uma figura solitária com uma máscara estranha estava em algum lugar que não deveria, pois ela tinha quase certeza de que ele estivera em outro lugar momentos antes. Era o cavaleiro do tolo chamado Arthur, o mesmo homem que derrotara o tolo maior, Ivan. Ela tinha que admitir que ele era forte, talvez até capaz de se tornar um sacerdote abissal. No entanto, ela não conseguia entender por que ele estava ali quando deveria estar preso em outro lugar.
“O cachorro do bastardo? Estou imaginando coisas?”
Ela murmurou enquanto caminhava em direção a ele.
O homem não respondeu. Permaneceu imóvel como uma pedra, como todos os outros, enredado pela ilusão da relíquia. Tudo deveria estar bem, mas seus instintos sussurravam que algo estava errado. Ela apertou a adaga com mais força enquanto se aproximava com uma curiosidade cautelosa.
“Resistir à relíquia secreta não é algo que alguém neste nível seja capaz de fazer.”
Ela falou enquanto pressionava a lâmina escura contra a bochecha dele. Ela a puxou lentamente para o lado, abrindo um corte superficial. O sangue jorrou e escorreu por sua pele, mas ele não se moveu, confirmando a ela que estava preso na ilusão.
“Eu não duvidaria dos milagres do Senhor.”
Não havia motivo para ficar, então ela se virou e seu olhar se voltou para seu verdadeiro alvo, o Duque. Logo ela estava dando alguns passos à frente, mas então congelou. Desta vez não era um palpite. Era real. Seus sentidos gritavam. Ela estava em perigo.
Sem pensar, ela brandiu a adaga em direção a algo atrás de si. Ao se virar, o homem com um ferimento na bochecha bloqueou seu golpe. Seu pulso estava firmemente preso na palma da mão dele, um claro testemunho de sua força. No entanto, não foi isso que chamou sua atenção. Era a outra mão dele que brilhava com uma luz intensa. Algo se formava ali, algo que lembrava uma armadura feita de obsidiana.
“Como foi que…!”
Antes que pudesse terminar, um soco a atingiu no rosto. O punho de obsidiana atingiu sua bochecha com um som de porcelana se estilhaçando. Sua pele pálida e impecável se partiu em pedaços, e ela foi arremessada pelo ar. Fragmentos de sua máscara facial se espalharam enquanto ela voava, revelando a verdade por trás de sua beleza. Nunca fora seu rosto real, mas uma máscara realista que escondia o ser oculto por baixo.
Seu corpo se chocou contra a parede com um baque pesado, lançando poeira e pedras quebradas. Por um instante, ela não se levantou. Suas vestes abissais se contorciam como cobras em agonia, com seus tentáculos se curvando para dentro como se protegessem seu corpo ferido. Lentamente, ela se ergueu, respirando com dificuldade e sem conseguir compreender a situação.
“V-você…”
A Arqui Sacerdotisa tocou o rosto com dedos trêmulos. A máscara de porcelana que a ocultara por anos estava se partindo, cacos caindo um a um. Sob os pedaços quebrados, não estava a beleza que ela ostentava na corte, mas o rosto distorcido de um corvo murcho. Sua pele era seca e nodosa, esticada sobre ossos afiados. Seu nariz se projetava para baixo como um bico, lançando sombra sobre uma boca anormalmente aberta e repleta de dentes enegrecidos. Seus olhos violeta ainda ardiam intensamente, mas estavam afundados em uma casca grotesca.
“Uma bruxa?”
A voz do homem ecoou pelo grande salão. Ela o encarou, mordendo o lábio até que seus dentes afiados tirassem sangue negro e espesso.
“Impossível. Como você pôde resistir à relíquia sagrada?”
Sua voz se transformou em um grito, cuspe e sangue espirrando de sua boca. Ao cair no chão de mármore, sibilou e soltou fumaça, enchendo o salão com um fedor horrível.
“Você quer dizer essa coisa? Com bastante facilidade.”
“Como você fez isso!?”
Ela olhou para a própria mão. Momentos antes, a relíquia secreta estivera ao seu alcance, mas agora estava nas mãos dele. O corpo dele tremeluzia e se movia enquanto uma luz radiante preenchia o salão, até que uma enorme armadura escura o envolveu completamente.
“Devolva.”
“Claro. Aqui está.”
Para sua surpresa, o homem jogou o obelisco em sua direção. Ela se lançou para frente e o agarrou no ar com uma velocidade sobre-humana, agarrando-o com a ternura de um recém-nascido. Mas algo estava errado. A magia abissal que antes pulsava nele havia desaparecido. As runas ocultas não respondiam mais ao seu chamado. A relíquia estava silenciosa, desativada.
Os olhos dela se voltaram para ele, mas ele já havia se movido. Agora estava ao lado do bastardo. A princípio, ela não entendeu o que ele pretendia, mas então algo impossível aconteceu. Arthur Valerian acordou.
“Inconcebível…”
Sua fé na magia e nas relíquias do culto abissal jamais vacilara, mas duas pessoas agora resistiam ao seu poder. A verdade se tornou inegável. Este homem era a causa de tudo. Kovak, a quem ela enviara para investigar, nunca retornara, e seu destino permanecia desconhecido. A crescente presença da Igreja Solariana em Albrook parecera suspeita, mas ela presumira que estivesse relacionada à besta sagrada que ali aparecera. O desaparecimento dos cultistas que perseguiam aquela anomalia nunca fora explicado, até então.
Ela encarava a resposta. O homem à sua frente não era apenas responsável pela desativação da relíquia, mas também pela perda de seu apoio em Reeka. Seus lábios murchos se curvaram em um rosnado, enquanto sangue negro escorria dos cantos da boca. As mãos esqueléticas da Arqui Sacerdotisa agarraram a relíquia inútil até que rachaduras percorressem sua superfície. Ela tremeu de raiva, e seu corpo magro começou a se expandir.
“Você ousa… Você ousa me despojar do presente do meu Senhor?”
Sua voz havia mudado, não era mais a voz da nora da duquesa, mas o grito estridente de algo antigo e vil…