
Capítulo 486
O Retorno do Professor das Runas
Capítulo 480: Experimentos Fracassados
Renewal estava ganhando peso. Ela tinha certeza disso. Com toda a comida que comeu sentada observando o grupo de Noah, seria difícil não ganhar. Nem mesmo deuses são imunes às leis da natureza. Não no nível dela, pelo menos.
— Devo dizer que estou surpreso — disse Decras ao lado dela. Ele se recostou na cadeira e cruzou os braços na frente do peito. — Se eu não soubesse, pensaria que Noah realmente planejou cada detalhe disso. Ele é notavelmente bom em enrolar os outros.
— Me faz pensar se ele roubou uma runa de outro deus — Renewal concordou com um aceno de cabeça. Ela mal conseguia desviar os olhos da tela. Seu olho se contraiu levemente ao ver o gato ao lado de Noah. — Ele certamente é bom em roubar coisas.
— Não é tão engraçado quando é você quem está sendo roubado, não é? — Decras perguntou com altivez. — Eu poderia ter lidado com ele se você não tivesse ficado tão perturbada com isso.
— Estou recebendo meu pagamento em entretenimento. Não preciso que você interfira — Renewal disse com um olhar fulminante. — E, se bem me lembro, sua tentativa foi frustrada por outro mortal que conseguiu roubar de você.
— Bah — Decras disse. Ele se virou e concentrou totalmente sua atenção na tela. Era bastante embaraçoso. Ele tinha sido roubado não duas, mas três vezes. Três mortais diferentes conseguiram roubar poder dele. Um deles era até mesmo seu próprio homem.
*Isso deve doer. Ah, bem. Ele vai superar… e talvez aprenda a parar de deixar as pessoas darem mordidas nele. Sério. Há hora e lugar para tudo. Mas, pensando bem, não sei o quão convencida posso estar. Noah conseguiu roubar de mim duas vezes. Pelo menos os pequenos ladrões de Decras só o venceram uma vez.*
Renewal inflou as bochechas e soltou um suspiro irritado. Ela se distraiu estudando a tela brilhante à sua frente. O pequeno demônio que Noah recrutou — Aylin — estava olhando para Noah com uma mistura de admiração abjeta, medo e descrença. Noah de alguma forma conseguiu se esquecer de sua audiência durante a conversa com seu companheiro roubado, e Renewal praticamente podia ouvir os pensamentos de Aylin apenas por sua expressão.
— Ele está se perguntando o quão forte o gato é se consegue pegar Noah de surpresa — Decras disse com uma risada baixa. — Imagino se eles também começarão a adorar o gato.
Adorar era a palavra certa. A maneira como Aylin e Violet olhavam para Noah não era como soldados tratavam um general. Era como seguidores olhavam para um deus. A nuca de Renewal formigou.
Não era totalmente incomum para alguém conseguir formar um culto em um plano mortal. Mortais eram motivados e estúpidos, uma combinação que funcionava incrivelmente bem para gerar energia. Havia uma razão para Renewal e Decras se darem ao trabalho de cuidar de seus respectivos seguidores nos reinos mortais.
Mas Noah não estava *tentando* se tornar um deus. Pelo menos, Renewal tinha quase certeza de que não estava. Ela não assistia cada segundo de sua vida — mais como algo em torno de noventa por cento dela.
— Você não acha… — Renewal começou.
— Claro que não — Decras disse com um balançar de cabeça. — Ele mal registrou isso, Renewal. Ele quer tentar consertar as runas da garota demônio e impedir o outro ladrão. É isso. Ele não está tentando aproveitar a divindade ainda.
— Ainda? — Renewal arqueou uma sobrancelha. — Eu diria que ele tem um longo caminho a percorrer antes de sequer considerar tentar formar uma Runa Divina — e se ele depender da fé dos outros para formá-la, ele não chegará muito longe. Não estou preocupada com ele alcançando a divindade tão cedo. Estou mais me perguntando se ele terá sucesso com as runas de demônio.
Decras balançou a cabeça. — São experimentos fracassados. Não importa o quanto ele tente, é isso que são. Não há como consertá-los. Demônios nunca podem formar uma Runa Divina. Eles são pouco mais que animais, controlados cada vez mais por seus desejos quanto mais fortes se tornam.
Renewal jogou um pedaço de chocolate na cabeça de Decras. Ele o pegou antes que pudesse cair, apenas para um segundo pedaço acertá-lo entre os olhos.
— Você está falando com muita confiança para alguém que desistiu do experimento depois de brincar com ele por o que equivale a um piscar de olhos. Você mal tentou.
— Talvez. Eles eram inúteis para mim. Quando ficou claro que eles não podiam governar seus próprios poderes, tornou-se inútil dar-lhes mais atenção. Eles são uma espécie falha sem potencial para deixar o plano mortal. — Decras hesitou por um momento mais do que o normal. Renewal desviou o olhar da tela para olhá-lo e ergueu uma sobrancelha. O outro deus notou seu interesse e franziu os lábios. — Devo admitir que Lee chamou minha atenção. Ela é… interessante.
— Então você admite que estava errado? — Renewal insistiu. — Os demônios são mais do que um experimento fracassado se um deles tem sua atenção. Isso também significa que há uma chance de as runas de Lee serem reparadas.
— Não tente forçar uma confissão de mim — Decras disse com uma carranca irritadiça. — Um único demônio não salva uma espécie. Ela é… única. Talvez haja uma maneira de repará-la. Talvez haja uma maneira de reparar os demônios como um todo. Eu não sei. Eu não me importo.
— Você diz isso, mas me pediu para mudar nossa visão para Lee com bastante frequência. Acho que você está bastante interessado no sucesso dela.
Os olhos de Decras se estreitaram. — Chega disso. Estou cansado de seus questionamentos — e já vi o suficiente das crianças demônios boquiabertas em admiração. Isso me lembra demais meus próprios apoiadores idiotas. Vamos ver outra coisa.
— Como o quê? — Renewal perguntou. — Eu estava gostando bastante. Noah deve se encontrar com Moxie novamente em breve. Eles não tiveram tempo juntos recentemente. Estou ansiosa por isso.
Essa história foi roubada de sua fonte original, e não deve estar na Amazon; denuncie qualquer avistamento.
— Você é uma pervertida.
Renewal se endireitou na cadeira e engasgou com a própria saliva, tossindo no punho. Depois que se recompôs, ela olhou para Decras. — Não era isso que eu estava insinuando. Eu só gosto de ver os mortais interagirem. Eles são tão cheios de paixão e… ah, deixa pra lá.
Decras sorriu para ela. — Não, por favor. Continue. Você gosta de assistir paixão? Os outros deuses sabem de seus hobbies paralelos?
— Não aja como se você sequer falasse com algum deus além de mim — Renewal murmurou enquanto afundava de volta em sua cadeira. — Você alienou todos os deuses e deusas da área com sua natureza vil. Apenas me diga o que você queria ver.
— O outro ladrão — Decras disse. Sua testa se apertou e seus nós dos dedos clarearam enquanto sua mão segurava o braço da cadeira. — Ele não me pareceu um tolo, mas tem planos nas Planícies Amaldiçoadas. Quero saber o que ele busca… e qual a probabilidade de ele ter sucesso.
— Por que você se importa? — Renewal perguntou, inclinando a cabeça para o lado.
— Porque quero saber se ele entrará em conflito com Noah novamente — Decras disse.
— Aha! Agora você não pode nem negar que se importa — Renewal disse triunfante. Para sua surpresa, Decras não negou a acusação. Ele apenas olhou para ela pelos cantos dos olhos.
— Eu me importo. O que você acha que acontecerá se Noah colocar as mãos na Runa Mestra que o outro ladrão tem — ou pior, se o oposto acontecer?
Renewal fez uma careta. Ela não disse mais uma palavra. Ela apenas se virou para a tela e acenou com a mão. Noah e seu crescente grupo de seguidores desapareceram, substituídos por uma onda brilhante de ouro.
***
Wizen se apoiou pesadamente em seu cajado e soltou um suspiro lento. — Suponho que isso terá que servir.
— É certamente uma reforma e tanto — Barb concordou ao lado dele. Ela verificou o colar em volta do pescoço com sua mão boa, então assentiu. — Não parece que nenhum dos outros teve alguma dificuldade.
— Espero que não tenham tido — Wizen disse com uma risada seca. — Nós nem sequer começamos. Se algum de nós estivesse tendo problemas depois de nos prepararmos por tanto tempo, eu estaria mal preparado, de fato. Estes primeiros passos são apenas preparando o terreno. Levará algum tempo até que nossa influência se estenda à Cidade de Ouro.
Barb assentiu. O chão estalou sob seus pés e ela fez uma careta. Ela limpou a mão no avental, deixando uma mancha de sangue em sua superfície já manchada. — Podemos limpar este lugar um pouco? Se vamos morar aqui pelos próximos meses, eu preferiria torná-lo um pouco mais aconchegante. Talvez um tapete de boas-vindas na porta. Uma placa esculpida à mão.
— Faça o que quiser — Wizen disse com um aceno. — Você tem seus brinquedos. Eu tenho os meus.
Ele se virou. O sangue espalhado pelo chão na caverna a seus pés estalou novamente enquanto ele caminhava pela sala, passando pelas pilhas de demônios mortos espalhados por ela. Apenas um permaneceu vivo.
Sua armadura prateada antes brilhante estava rachada e quebrada. Um grande corte profundo corria pelo centro de seu peito e um de seus olhos havia sido arrancado. O demônio estava à beira da morte.
Os lábios de Wizen se curvaram. Ele já havia esquecido as ameaças que o demônio havia lhe feito quando ele e Barb entraram em sua sala do "trono". Ter um trono em uma mansão dificilmente parecia um trono. Era apenas uma cadeira extravagante.
— Você está preparado para responder minha pergunta agora? — Wizen perguntou.
— Apenas me mate — o demônio sussurrou. — Skolas irá te matar quando você vier atrás dele.
— Skolas. Esse é o rei desta cidade ambulante? — Wizen perguntou, inclinando a cabeça para o lado. — Um Rank 6? 7?
— Rank 7. — Um lampejo de raiva presunçosa, a vitória final de um homem morrendo sabendo que seu assassino não demoraria a segui-lo, cruzou as feições quebradas do demônio. — Você morrerá uma morte agonizante por tentar usurpá-lo.
Uma risada seca escapou dos lábios de Wizen. Ele se ajoelhou e pressionou a mão no crânio do demônio, cravando os dedos no topo de sua cabeça de pele vermelha. — Um demônio Rank 7 não vai me derrubar, verme.
O demônio gemeu de dor enquanto Wizen se levantava, erguendo-o no ar. Seu único olho encontrou o olhar de Wizen.
— Sua raça é fraca — Wizen sussurrou, aproximando seus rostos tanto que ele podia sentir o gosto do medo no hálito do homem morrendo. — Vocês acreditam que governam a emoção. Que podem se fortalecer através delas. Vocês estão errados.
— Pare de divagar e me mate.
Os lábios de Wizen se separaram em uma mistura de rosnado e sorriso. — Vocês não governam suas emoções. Suas emoções governam vocês. Demônios são uma raça de escravos, acorrentados por suas próprias mentes. Eu posso ver que você não acredita em mim, mas eu sou um homem honesto. Permita-me provar isso a você tirando essas correntes de você.
O demônio não teve a chance de responder. Wizen liberou suas Runas Mentais, enviando sua energia serpenteando de seus dedos para o crânio do demônio. As costas do demônio se arquearam enquanto ele gritava de dor, sua vontade se erguendo desesperadamente para lutar contra a Magia Mental.
Wizen varreu sua escassa resistência para o lado como um incêndio florestal devastando um campo seco de trigo. Espinhos de energia rasgaram a psique do demônio. Eles cavaram em sua mente e separaram paredes mentais.
A raiva surgiu para encontrar o ataque mental — os últimos remanescentes do orgulho do demônio. Ele bateu em sua magia. Por um instante, sua força de vontade travou uma à outra no lugar. Ambos ficaram parados, incapazes de se mover.
— Isso é tudo? — Wizen sussurrou. — A extensão da raiva da qual você se orgulha tanto? Você não é um demônio da ira? Do orgulho? E isso é tudo que você pode reunir?
Por um momento, a fúria se intensificou. O último empurrão de um homem morrendo. Ele empurrou a magia de Wizen para trás na menor quantidade. Os lábios do demônio se curvaram em diversão presunçosa enquanto Wizen cedia e seu olho se refocava para encarar o velho.
O demônio congelou.
Wizen encontrou o olhar do demônio e sorriu.
— Perdoe-me. Eu estava me divertindo um pouco às suas custas — Wizen disse.
Então ele liberou toda a força de suas runas. A defesa final do demônio evaporou em menos de um piscar de olhos, enterrada completamente sob uma imensa onda de força. Toda a raiva da qual ele tanto se orgulhava desapareceu em um instante, e tudo o que restou em sua mente foi a imensa presença de Wizen.
O demônio gritou, debatendo-se na tentativa de se libertar da mão do velho mago, mas era impossível. Não importa o quão duro ele lutasse, o aperto de Wizen não se movia nem um pouco.
— Você vê agora? — Wizen perguntou. — Todas essas emoções das quais você tanto se orgulha não são nada diante do medo absoluto. *Você* não é nada.
Wizen soltou-o. O demônio caiu no chão, aterrissando de joelhos e caindo para trás. O branco de seus olhos estava exposto enquanto ele olhava para cima em terror absoluto. Ele não segurava mais suas próprias correntes. Ele não conseguia nem murmurar uma palavra sem a permissão de Wizen.
*Demônios. Bah. Quando você se entrega tão completamente a uma emoção, você se expõe a todas as outras. Tão poderosos — e ainda assim, tão fracos. Tão fáceis de controlar.*
— Responda minha pergunta — Wizen disse. — Você entende agora?
— Sim — o demônio sussurrou.
— Estou satisfeito por ter sido seu professor. — Wizen sorriu e se aproximou, seus olhos escurecendo. — Agora — me fale de Sievan. Me fale do demônio que, segundo os boatos, passou pela vida após a morte e retornou.