Depois de Dez Milênios no Inferno

Capítulo 785

Depois de Dez Milênios no Inferno

'K-Kang-Hee?'

Kang-Hyun ficou pasmo com o aparecimento repentino de sua irmã mais nova logo quando Kim Si-Ah estava prestes a dar sua resposta sincera à declaração dele.

'Como ela sabia que eu estava no hospital? O pai contou para ela?'

Kang-Hee se aproximou dele com um olhar feroz antes que ele pudesse obter uma resposta para suas perguntas.

'Oppa… O que está acontecendo?'

'O-O que você quer dizer?'

'Hmph. O papai me disse que você tinha ido fazer um favor no supermercado. Como isto aqui é um supermercado?'

Kang-Hee estreitou os olhos com os braços cruzados. Si-Ah, observando o comportamento de Kang-Hee, removeu o cateter do braço e levantou-se da cama.

'Ah, Kang-Hyun. Me dê seu celular', disse Si-Ah.

'Agora.'

'E-Espera, oppa! Não dê para ela!'

Kang-Hyun, pasmo, entregou o celular a Si-Ah. Ela examinou o conteúdo do aparelho e zombou, como se suas suspeitas estivessem certas.

'Hmm. Eu sabia', expressou ela.

'Sabia do quê? Tem alguma coisa instalada no meu celular?'

'Ngh…'

Kang-Hee recuou e mordeu o lábio. Não importava o quão compreensivo seu irmão fosse, ele com certeza ficaria chateado por ela ter instalado um aplicativo rastreador no celular dele sem o seu conhecimento.

'N-Não, oppa… é-é que…', gaguejou Kang-Hee.

No entanto, Si-Ah a interrompeu: 'Não. Eu pensei que sua irmã pudesse ter instalado um aplicativo rastreador no seu celular em segredo, mas não há nada do tipo.'

Ela deu de ombros e devolveu o celular a Kang-Hyun. Ele riu levemente e balançou a cabeça.

'Um aplicativo rastreador? Nem mesmo a Kang-Hee faria uma coisa dessas.'

'...'

Os olhos de Kang-Hee se arregalaram em descrença e ela se virou para Si-Ah. Ela havia configurado o aplicativo para que passasse despercebido, mas Si-Ah provavelmente o encontrou porque disse "Eu sabia". Ela não conseguia entender por que Si-Ah havia mentido apesar de tê-lo encontrado.

'Hmm… Estou com sede. Talvez seja por causa do tteokbokki.' Si-Ah virou-se para Kang-Hyun e perguntou: 'Kang-Hyun. Tem uma loja de conveniência do lado de fora do hospital. Você pode comprar algo para eu beber?'

'Ah, é! Com certeza!', disse Kang-Hyun alegremente. Ele precisava de tempo para organizar seus pensamentos após a aparição repentina de Kang-Hee. 'O que você gostaria?'

'Bebida de broto de pinheiro.[1]'

'Seu gosto é tipo… o de um homem de meia-idade.'

'O que você disse?' Si-Ah fuzilou Kang-Hyun com o olhar.

'N-Nada! Vou buscar para você agora mesmo! Ah, você quer alguma coisa também, Kang-Hee?'

'Hã? Ah… E-Eu quero uma coca.'

'Beleza. Não briguem, vocês duas.'

Kang-Hyun virou-se e saiu do quarto como se estivesse fugindo. Apenas Si-Ah e Kang-Hee ficaram no quarto de hospital que parecia um quarto de hotel, preenchido por um silêncio constrangedor.

Kang-Hee quebrou o silêncio e perguntou: 'Por que você mentiu…?'

'Mentir sobre o quê?' Si-Ah se fez de desentendida enquanto se sentava na cama.

As sobrancelhas de Kang-Hee se contraíram. 'Não se faça de desentendida. Você achou o aplicativo rastreador, não achou?'

'Achei.'

'Então por que você mentiu para o oppa dizendo que não achou?!'

'Você queria que eu contasse para ele?'

'I-Isso é…', Kang-Hee gaguejou e mordeu o lábio.

Si-Ah suspirou fundo e jogou o cabelo para trás da orelha.

'Bem, eu fiquei bastante surpresa. Eu sabia que você era uma brocon[2], mas nunca esperei que fosse a esse nível.'

'E-Eu não sou uma brocon!'

'Você está falando sério…?'

'Urgh…' Kang-Hee gemeu e abaixou a cabeça. Ela apertou a barra da saia e murmurou: '...eu.'

'Hã?'

'Não tire o oppa de mim!'

Lágrimas se formaram ao redor de seus olhos brilhantes de raiva.

'Hah…' Si-Ah zombou. 'Quem está roubando quem?'

'V-Você…'

'Além disso, por que você trata o Kang-Hyun como se ele fosse sua propriedade? Eu não estou roubando nada.'

'...' Kang-Hee permaneceu em silêncio, incapaz de refutar Si-Ah.

'Haaa', Si-Ah suspirou enquanto encarava a desolada Kang-Hee. 'Quer saber de uma coisa? Duvido que você saiba disso já que desmaiou.'

'Saber… o quê?'

'Quando eu e você fomos capturadas por Jeon Yeong-Woong… o Kang-Hyun estava prestes a salvar você primeiro.'

'...?'

Kang-Hee inclinou a cabeça, confusa. Ela havia fingido estar inconsciente, mas nem mesmo ela havia percebido algo assim, apesar de observar de perto o comportamento de Kang-Hyun.

'Isso não é coisa da sua imaginação?', perguntou Kang-Hee.

'Não. Tenho certeza de que o Kang-Hyun agiu inconscientemente, mas… tenho certeza de que ele tentou te salvar primeiro.'

Si-Ah sorriu amargamente e lembrou-se do que havia acontecido naquele dia. Sua visão estava embaçada, mas Kang-Hyun, assim que subjugou Yeong-Woong com suas asas feitas de correntes negras, correu direto para Kang-Hee em vez de Si-Ah.

'Eu não sei quem deve ser priorizado entre a amiga de infância por quem você tem sentimentos e sua irmã, mas… eu tive muita inveja de você.'

'...' Kang-Hee permaneceu em silêncio, encarando Si-Ah que expressava tristeza.

Ela não sabia que Si-Ah tinha inveja dela.

'É por isso que eu entendo perfeitamente o que você sente.'

'Ngh…'

Kang-Hee engoliu em seco e desviou o olhar de Seol-Ah, que parecia muito mais madura do que ela.

'Eu prometo que não vou roubar o Kang-Hyun de você, mesmo que a gente comece a namorar', comentou Si-Ah.

'Você disse… para não tratar o oppa como propriedade.'

'É só uma figura de linguagem. De qualquer forma, você não vai se afastar do oppa que você tanto ama, entã não tem o que se preocupar.'

'...' As lágrimas nos olhos de Kang-Hee desapareceram ao ouvir as palavras calorosas de Si-Ah. 'Tá bom… Eu sei o que o oppa sente por você, unnie[3]. Então… E-Eu permito que vocês dois namorem.'

'Hmm. Finalmente está me chamando de unnie, hein?'

'C-Cala a boca!', gritou Kang-Hee, bufando. 'Quanto tempo você acha que vai durar um namorico de primário? Aposto que o oppa vai terminar com você antes de vocês se formarem, mesmo que eu não me intrometa!'

Acontecesse o que acontecesse, seria a vitória de Kang-Hee, já que ela poderia ser a irmã mais nova de Kang-Hyun para sempre.

'Uau~ Acho que não dá para confiar em nenhuma palavra que sai da boca de uma brocon com uns parafusos a menos.'

'O quê? Uns parafusos a menos?'

'Eu não vou largar o Kang-Hyun tão fácil assim, então pode tirar o seu cavalinho da chuva.'

'S-Sua desgraçada!'

'Sabe o quão rude é chamar sua unnie de desgraçada?'

'Cala a boca!'

A atmosfera calma tornou-se escaldante novamente. Justo nesse momento, Kang-Hyun retornou com sacolas plásticas em cada mão.

'Voltei com as bebidas!'

'Aham.'

'B-Bem-vindo de volta, oppa.'

As duas garotas sorriram sem jeito, fingindo que nada havia acontecido.

'Aconteceu alguma coisa?', perguntou Kang-Hyun.

'Do que você está falando? Não aconteceu nada.'

'Mais importante, nos dê logo as bebidas, oppa.'

'Tá bom, tá bom. Aqui está a sua coca.'

'Ah…! Você deveria ter comprado Coke Zero! Por que comprou coca normal?!'

'Você é magrinha, então pode consumir um pouco de açúcar, Kang-Hee.'

'Oppa…'

Si-Ah suspirou profundamente enquanto encarava Kang-Hee, que sorria sem conseguir se conter. Ela teve dor de cabeça só de pensar em quão agitada seria a vida amorosa deles.

'Ah, Kang-Hyun', chamou Si-Ah.

'Hã?'

'Deixe-me responder à sua pergunta.'

No entanto, ela ainda queria seguir seu coração acelerado em vez de sua cabeça doente.

'Eu também gosto de você.'

'Q-Quê?'

'U-Unnie! O que você está—!'

'Você disse que permitiria, não disse?'

Si-Ah sorriu e levantou-se da cama. Ela se aproximou de Kang-Hyun e o puxou pelo braço em direção a ela.

'Mmrp…!'

Os lábios do garoto e da garota se encontraram. Kang-Hyun cambaleou para trás e caiu sentado no chão, sem sequer ter a chance de aproveitar os lábios macios dela.

'KYAAAAAAAAAAAAAAAHHH! Q-QUE DIABOS VOCÊ ACHA QUE ESTÁ FAZENDO COM O MEU OPPAAAAAAAAAAA?!!'

Os gritos de Kang-Hee ecoaram por todo o hospital.

***

'Parece que… correu tudo bem.'

Kang-Woo, observando a situação dentro do quarto de hospital com a Autoridade do Observador, suspirou aliviado. Ele tinha ido lá porque estava preocupado que Kang-Hee, controlada tanto pela obsessão de um anjo quanto pelo desejo de um demônio, pudesse fazer mal a Si-Ah, mas felizmente nada de ruim aconteceu.

'Fora isso, seu desgraçado… você nem tem dez anos ainda e já arrumou uma namorada, seu pirralho ranhento?'

'O papai passou dez milênios sem namorada…'

'Droga', praguejou Kang-Woo, tomado pela miséria.

'As crianças crescem tão rápido hoje em dia.'

Ele não esperava que seu filho arrumasse uma namorada antes de completar dez anos. Ele estava feliz por ele, mas também tinha sentimentos conflitantes como pai.

'É melhor eu beber com minhas esposas hoje à noite.'

Kang-Woo se espreguiçou e foi embora. Era fim de outono e a brisa ficava cada vez mais fria. Restava apenas uma página em sua longa história.

[1] - É como uma bebida de ervas. É um gosto adquirido, não algo que uma criança apreciaria. ☜

[2] - Termo usado para descrever alguém que tem uma obsessão ou fixação doentia/excessiva pelo próprio irmão (abreviação de *brother complex*). ☜

[3] - Termo em coreano usado por mulheres para se referirem a uma irmã mais velha ou amiga mais velha. ☜

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