Depois de Dez Milênios no Inferno

Capítulo 786

Depois de Dez Milênios no Inferno

Ventos frescos sopravam no terraço do apartamento. Fumaça subia da carne na churrasqueira em um canto do terraço, e o aroma de álcool envolvia a mesa ao ar livre.

'Kaaah! Essa desce redonda! Isso que é vida!', Cha Yeon Joo gritou enquanto enrolava a carne assada na alface e virava um goró de soju de uma vez só[1]. 'Huuu. Então, o Kang-Hyun está namorando a Si-Ah agora?'

'É', Oh Kang-Woo respondeu.

'Pera, eles nem têm dez anos e já estão namorando... tsc, tsc. Crianças de hoje em dia...'

'Caramba, você tá chateada só porque seu filho já arrumou uma namorada, Yeon-Joo ajumma[2]?'

'Eu não tô chateada! E eu não sou ajumma!'

'Você tem um filho de quase dez anos. Vai te chamar do quê?'

'Heh, já viu ajumma tão gata quanto eu?'

Yeon-Joo bufou enquanto fazia pose de modelo de revista. Embora um pouco desajeitada, ela ficava deslumbrante porque era alta e esguia.

'Tem jeito de falar com o seu marido, não? Hein?!' Yeon-Joo pisou com toda a força no pé de Kang-Woo debaixo da mesa e mandou pra dentro mais um goró de soju. 'Haaa. Parece que foi ontem que ele só engatinhava.'

Yeon-Joo mastigou um pedaço de carne com uma expressão confusa. Ela parecia estar sentindo o mesmo que Kang-Woo.

'Fufu. Tá se sentindo chateada?', perguntou Lilith, dando tapinhas nas costas da abatida Yeon-Joo.

'Na verdade não, mas... não sei explicar. É complicado.'

'Hmm. Quero ver quando a Lia arrumar um namorado~'

'Acho que ela nunca vai arrumar enquanto o Kang-Woo estiver por perto.'

Yeon-Joo estreitou os olhos e se virou para Kang-Woo.

Kang-Woo soltou uma risadinha e balançou a cabeça.

'Ora, garotas da idade dela adoram os pais. Tenho certeza de que a Lia vai começar a se interessar por outros garotos conforme for crescendo.'

'Sei não, com o jeito que ela é...', observou Yeon-Joo.

'Que tal isso, então?', Lilith sugeriu.

'O quê?'

Lilith encarou Kang-Woo de sossego e sorriu. 'Vi na internet que existe um prato chamado oyakodon[3].'

'Isso não é um prato japonês?'

'Isso mesmo. O oyakodon é frango com ovo... Em outras palavras, pai e filho.'

'E daí...?'

'Então, um trio de pai e fi—'

'Tá bom, chega.'

'Que porra essa mulher maluca tá falando?'

'Hohoho. Eu só tava brincando. Não precisa fazer essa cara assustadora, meu amor.'

'Nada do que você diz soa como brincadeira, Lilith.'

Kang-Woo suspirou, levando a mão à testa como se estivesse com dor de cabeça.

'Deixando isso de lado, como a Kang-Hee reagiu?', perguntou Han Seol-Ah enquanto colocava um prato cheio de carne assada na mesa e se sentava ao lado de Kang-Woo.

Kang-Woo deu um sorriso sem graça ao se lembrar de Kang-Hee berrando a plenos pulmões quando Kang-Hyun e Si-Ah se beijaram.

'Bom, acho que ela levou um choque, mas... já aceitou mais ou menos', ele respondeu.

'Que alívio.'

'Hehe. Tava preocupada, meu bem?'

'Claro que tava.'

'Ah, qual é, filha de quem você acha que a Kang-Hee é?'

'Não, eu não tava preocupada com a Kang-Hee... Eu tava, hã... preocupada com a Si-Ah.'

'Ah, por esse lado. É, não te culpo.'

'Fufu. Tenho orgulho dela. Não é fácil reprimir os impulsos da própria obsessão', comentou Seol-Ah.

Ela sabia melhor do que ninguém quão poderosa era a obsessão de um anjo.

'Até agora, sempre que vejo você e a Yeon-Joo grudadas, me dá vontade de... opa.'

'O quê? O que você ia fazer comigo?', Yeon-Joo deu um sobresalto enquanto comia a carne que Seol-Ah tinha trazido.

Seol-Ah sorriu e balançou a cabeça. 'Nada.'

'Mentira! M-Me conta! O que você ia fazer comigo se a sua obsessão saísse do controle?!'

'Como você espera que eu diga uma coisa dessas?!'

'É tão grave assim pra caralho?!'

As alfinetadas entre Seol-Ah e Yeon-Joo já tinham virado rotina. Kang-Woo deu um sorriso de canto e encheu o copo de bebida.

'Certo,chega de briga, vamos brindar ao nosso garoto Kang-Hyun que finalmente virou homem.'

'Psh. Homem? Ele nem terminou o ensino fundamental ainda. A gente não vira adulto só porque arrumou namorada', disse Yeon-Joo.

'Bom, então digamos que ele deu mais um passo rumo à idade adulta.'

Clin.

O som dos copos batendo ecoou, e o gosto amargo do soju permaneceu em suas bocas.

'Haaah... Mozão...'

Conforme a bebedeira avançava, Yeon-Joo, já bêbada, cambaleou na direção de Kang-Woo.

Ela se aninhou nos braços de Kang-Woo e perguntou: 'Você acha que... eu tô sendo uma boa mãe pro Kang-Hyun?'

'O quê? Já tá bêbada, minha mulher?'

'E-Eu não tô bêbada!'

'Dá pra ver de longe que você tá bêbada.'

Kang-Woo deu um sorriso de canto e afagou a cabeça de Yeon-Joo.

'Uma boa mãe, hein...?'

Ele se perguntava se estava sendo um bom pai para Kang-Hyun.

'Não faço a menor ideia.'

Ele era pai há quase uma década, mas o papel continuava tão estranho e desconfortável quanto no primeiro dia — parecia usar à força uma roupa que não servia. O peso de ser pai era muito mais pesado do que o título de Rei Demônio quando ele governava o Inferno.

'Duvido que eu seja o único.'

Yeon-Joo tremendo de leve em seus braços, Seol-Ah guardando a louça em silêncio e Lilith bebendo vinho com elegância de uma perna cruzada sobre a outra provavelmente estavam sendo esmagadas pelo peso da paternidade — só não demonstravam.

'Tudo bem', Kang-Woo respondeu.

'Hmm?'

Kang-Woo abraçou Yeon-Joo com mais força e continuou: 'Mesmo que às vezes sejamos desajeitados e imperfeitos...'

Ninguém faz nada com perfeição de primeira. Assim como seus filhos estavam se tornando adultos passo a passo, eles só precisavam se tornar pais melhores com o tempo.

'Não se preocupe, Yeon-Joo. Você tá indo super bem.'

'Que que deu em você...? Não é do seu feitio me consolar de verdade.'

'Quê? Não gostou?'

'Aham. Eu nunca disse isso.'

Yeon-Joo mudou de posição para sentar no colo de Kang-Woo e o beijou. A língua dela e o gosto agridoce do álcool estimularam a boca dele.

'Eu te amo, mozão.'

Muito mais sentimental do que o normal, Yeon-Joo beijou a bochecha de Kang-Woo e sorriu. Ela ou estava bêbada, ou suas emoções estavam à flor da pele depois de saber sobre o Kang-Hyun.

'Ora, ora~ Não achei que você fosse desse tipo, Yeon-Joo. Fica esperta que nem raposa quando bebe.' Lilith levantou-se da cadeira com um sorriso sedutor, sentou-se no outro colo de Kang-Woo e acariciou de leve a bochecha dele. 'Não console só a Yeon-Joo. Por favor, me console também, meu amor.'

Desta vez, foi Lilith quem beijou Kang-Woo. O aroma do vinho, em vez da cerveja agridoce, estimulou a língua dele.

'E-Ei! Não vale, vocês duas!'

Seol-Ah parou de guardar a louça e correu até Kang-Woo. Lilith sorriu e cedeu o colo de Kang-Woo para Seol-Ah.

'Hehe.'

Tendo beijado as três esposas, Kang-Woo levantou-se e ajudou Seol-Ah a guardar a louça.

'Ah, eu faço isso, amor.'

'Não, querida. Descansa um pouco.'

'Não tem nada pra fazer mesmo se eu descansar.'

'Por que a gente não limpa junto, então?'

'Tá bom!'

Kang-Woo e Seol-Ah limparam tudo enquanto Lilith ajudava a bêbada da Yeon-Joo. Eles juntaram os pratos que precisavam ser lavados em casa e recolheram o lixo do chão. Um silêncio se instalou logo depois.

'Umm... amor', Seol-Ah chamou.

'Oi?'

Kang-Woo virou-se para Seol-Ah, que olhava para o céu noturno com um sorriso fraco.

'Às vezes eu fico com medo', comentou ela.

'De quê?'

'De... se tá tudo bem em ser tão feliz assim.' Seol-Ah aproximou-se cautelosamente de Kang-Woo e segurou sua mão. 'Sou tão feliz que... fico com medo de que isso acabe de repente um dia. Haha. Certeza que as pessoas me criticariam por reclamar estando num lugar tão bom.'

'...'

Kang-Woo pensara a mesma coisa várias vezes. Cada momento era tão precioso e ele era tão inacreditavelmente feliz que não conseguia evitar imaginar tudo aquilo desaparecendo.

'Não se preocupe, querida.'

Nem mesmo Kang-Woo, que adquirira o poder do Primordial, conseguia prever o futuro, mas uma coisa era certa. Mesmo que o tempo passasse e seus filhos se tornassem adultos a ponto de terem os próprios filhos, que chamariam Kang-Woo e suas esposas de Vovô e Vovó...

'O final desta história vai ser feliz.'

O Rei Demônio Oh Kang-Woo já havia decidido.

'Eu vou garantir isso.'

'Amor...'

O aperto de Seol-Ah se firmou. Ela o puxou para perto e encostou o ouvido no peito dele. O coração dele batendo forte a acalmou.

'Eu confio em você', disse ela.

A inquietação em seu coração desapareceu.

'Amor~! Vamos logo lá embaixo beber mais!'

'As crianças parecem estar dormindo, por que a gente não faz todo mundo junto?'

Yeon-Joo e Lilith acenavam da entrada do terraço. Kang-Woo estava prestes a caminhar na direção delas quando Seol-Ah de repente o abraçou.

'Ah, é verdade. Não esquece, amor', ela sussurrou, 'A gente ainda tem... mais dois para fazer.'

Uma página de uma nova história começou no fim da última página da história.

[Após Dez Milênios no Inferno - Epílogo]

- FIM -

1. Goró de soju: Na tradução, optou-se por usar um termo coloquial para transmitir a descontração da cena com bebida alcoólica. ☜

2. Ajumma é um termo usado para se dirigir a uma mulher de meia-idade. ☜

3. Oyakodon: Prato japonês cujo nome significa literalmente "pai e filho" (geralmente frango e ovo). ☜

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