
Capítulo 784
Depois de Dez Milênios no Inferno
Uma garota com um cateter de soro no braço esquerdo suspirou enquanto encarava a televisão na parede de seu quarto de hospital do tipo VVIP [1], que mais parecia um quarto de hotel. Apesar de sua tenra idade, o termo bonita combinava muito mais com ela do que fofa.
— Haaa… Pai, eu não posso ter alta logo?
— Não — respondeu Kim Si-Hun, balançando a cabeça firmemente enquanto lia um livro ao lado da cama de Si-Ah.
Frustrada, Si-Ah se cobriu com o cobertor e balançou os braços.
— Eu já estou totalmente boa — comentou ela.
— Mesmo assim, você deve descansar por mais alguns dias.
Si-Ah havia sofrido com várias doenças, desde um resfriado comum até enfermidades mais graves, após ser exposta à energia de doença da Divindade de Musca [2]. Elas enfraqueceram exponencialmente assim que Mus morreu, mas, como pai, Si-Hun não conseguia ficar tranquilo ao se lembrar da filha com uma febre perigosamente alta.
— Você tem cuidando de mim por dias sem dormir.
— Está tudo bem.
— Isso é… — Si-Hun gaguejou, preocupado.
Como Si-Ah havia mencionado, Si-Hun não podia tirar vários dias de folga. Afinal, ele era o líder dos Guardiões e o Deus Marcial, o salvador da humanidade. Ele só pôde ficar ao lado da filha porque Layla estava realizando suas tarefas em seu lugar, mas isso estava chegando ao limite.
— Eu estou certa, não estou?
— E-Eu posso ficar mais alguns dias!
— Não é como se eu for melhorar ficando deitada no hospital. Focar no cultivo no nosso jardim seria muito melhor.
O jardim da casa de Si-Hun era repleto de várias formações e itens espirituais que facilitavam o acúmulo de Qi [3] puro, fazendo com que fosse tão limpo quanto uma ilha deserta. Seria uma forma muito melhor de recuperação ter alta do hospital e ir para o jardim.
— Haaa. Tá bom, tá bom. Vou chamar o médico e dar entrada na alta... hã?
Vrrrr.
Nesse exato momento, o celular de Si-Hun vibrou e uma mensagem chegou.
— É a mamãe? — perguntou Si-Ah.
— Não. Só um segundo… Oh, parece que o Kang-Hyun veio te visitar.
— Hã…?
— Já que você vai ter alta mesmo, vou falar para ele voltar para casa—
— E-Espera, pai! Para! — Si-Ah rapidamente impediu Si-Hun. — C-Cof!
— Hã?
— Cof! Cof! Acho que ainda não estou cem por cento recuperada. Vamos deixar a alta para depois.
Si-Ah desviou o olhar de Si-Hun. A esposa dele vivia dando broncas nele por ser tão lesado, mas ele conseguia perceber o que a atuação desajeitada da filha significava.
— H-Haha — Si-Hun soltou uma risada fraca enquanto o livro em sua mão era esmagado como se estivesse sob uma prensa hidráulica. — Minha princesa deve ter gostado daquele filho de uma... quer dizer, daquele garoto, o Kang-Hyun.
— N-Não é nada disso! É que eu de repente comecei a me sentir mal…!
— É, é. Se você está se sentindo mal, acho que não tem jeito.
— Argh! Pai!
— Hahaha! — Si-Hun caiu na gargalhada ao ver Si-Ah gritando para ele com as bochechas vermelhas como pimentões.
— Eu sabia que ela ia sair do meu lado um dia, mas nunca imaginei que seria tão cedo.
Si-Hun não sabia se ficava feliz ou triste com o crescimento da filha.
— O hyung-nim [4] provavelmente sentiu a mesma coisa.
Ele se levantou, pensando que deveria tomar um trago com Kang-Woo hoje à noite.
— Vou indo trabalhar, então divirta-se com o Kang-Hyun.
— Achei que você ia ficar mais alguns dias…?
— Oh? Quer que eu fique então?
— N-Não, não foi isso que eu…
— Haaa. Acho que é verdade quando dizem que criar filha só traz dor de cabeça.
— P-Pai!
— Hahaha! — Si-Hun soltou uma gargalhada e deu um tapinha na cabeça de Si-Ah, que estava com o rosto ruborizado. — Minha garotinha. É melhor você me contar se o Kang-Hyun fizer você se preocupar ou partir seu coração, entendeu?
Ele… já faz isso.
— O quê? Como ele ousa? Mesmo sendo filho do hyung-nim, vou ter que dar uma boa bronca nele—
— E-Estou brincando! Dá o fora logo, pai! — gritou Si-Ah, empurrando o traseiro de Si-Hun com o pé.
Si-Hun deixou o quarto de hospital com um sorriso sofrido no rosto.
— Haaa. Sério… Que história é essa de visita surpresa ao hospital? Quem não soubesse pensaria que eu estava à beira da morte — murmurou Si-Ah enquanto calçava seus chinelos e seguia em direção à pia. — Hm, hm~♬
Ela lavou o rosto levemente, ajeitou o cabelo com uma escova, trocou sua roupa de hospital amassada por uma nova e deitou-se novamente na cama.
Toc, toc.
— Si-Ah, sou eu, o Kang-Hyun… você está acordada?
A voz de Kang-Hyun soou do outro lado da porta após alguns minutos.
— É, pode entrar.
Clack.
Kang-Hyun abriu a porta e entrou cautelosamente.
— Como você está se sentindo? — perguntou ele.
— Cof… Ainda estou um pouco mal, mas já estou quase cem por cento.
— Que ótimo.
Kang-Hyun sorriu aliviado ao ver que Si-Ah estava em um estado muito melhor do que ele temia.
— Eu deveria te perguntar isso. Você está bem? Fiquei sabendo que você estava sentindo muita dor depois de, ahm… abrir o Portal, não foi?
— Ah, agora eu estou bem.
Kang-Hyun havia sentido tanta dor logo após abrir o Portal que queria morrer, mas agora estava perfeitamente bem, como se nada tivesse acontecido.
— Humpf. Bem feito por ter se metido onde não foi chamado…
— Eu não podia fugir quando você e a Kang-Hee foram capturadas.
— Humpf — Si-Ah tencionou os olhos e encarou Kang-Hyun. Ela desviou o olhar de leve e perguntou, fingindo desinteresse: — Quem você queria salvar mais? Eu ou a Kang-Hee?
— As duas, obviamente.
— …
— Ai! Por que você está me beliscando?
— Quem sabe? — Si-Ah soltou um suspiro profundo e olhou para a sacola plástica preta na mão de Kang-Hyun. — O que você trouxe?
— Ah, algo que você gosta.
Kang-Hyun sorriu e tirou com confiança o que estava dentro da sacola preta.
— Tteokbokki… [5]?
— Haha. Pensei que você só estivesse comendo aquela comida de hospital sem graça, então…
— Bem, você não está errado, mas deveria trazer tteokbokki para um paciente no hospital comer?
— Ah, ahm… isso seria ruim?
— Humpf. Tenho certeza de que vou levar bronca do médico depois, mas… vou dizer que você me obrigou a comer.
— V-Você não precisa se forçar!
Si-Ah deu um sorriso disfarçado e puxou a mesinha de refeições da cama do hospital. Eles transferiram o tteokbokki fumegante para um prato, preenchendo o quarto com aquele aroma de dar água na boca que ela não sentia desde que fora internada.
— Toma, hashis de madeira.
— Hmm… — Si-Ah ficou pensativa enquanto olhava para o tteokbokki.
— O que foi?
— Cof, cof. Sinto uma febre chegando do nada.
— S-Sério? Devo chamar o médico?
— Não — Si-Ah balançou a cabeça, agindo com timidez. Suas bochechas coraram enquanto ela murmurava baixinho: — M-Me dá na boca, Kang-Hyun.
— O quê…?
Kang-Hyun congelou no lugar, com os olhos arregalados. Si-Ah rapidamente balançou a cabeça e esticou a mão para pegar os hashis de madeira.
— Brincadeira. Eu comerei sozinha—
— N-Não! Eu te dou! — gritou Kang-Hyun, nervoso, puxando os hashis de volta no momento em que Si-Ah estava prestes a pegá-los.
— T-Tá bom.
Kang-Hyun soprou o tteokbokki e o levou até a boca de Si-Ah.
Ñoc, ñoc.
Si-Ah virou o rosto, envergonhada, assim que comeu.
— …
— …
Um silêncio constrangedor pairou entre os dois. Outras pessoas teriam estalado a língua diante da cena, dizendo que parecia saída direto de uma comédia romântica barata, mas os envolvidos não conseguiam acalmar seus corações acelerados.
— Pft — Kang-Hyun soltou uma risadinha para quebrar o silêncio.
Ele não pôde deixar de achar a situação engraçada depois de pensar calmamente sobre isso.
— O quê…? Por que você tá rindo?
— Por nada.
Kang-Hyun não sabia quando Si-Ah havia passado a ocupar uma parte tão grande de seus pensamentos.
— Os adultos provavelmente pensariam nisso como simples brincadeira de criança, mas…
Isso não importava — Kang-Hyun não queria negar seus sentimentos só porque ainda era jovem. Pelo menos naquele momento, Si-Ah era mais preciosa para ele do que qualquer outra pessoa.
— Si-Ah — chamou Kang-Hyun.
— Oi?
— Eu gosto de você.
— … — Si-Ah, surpresa com a confissão repentina, gaguejou: — G-Gosta? V-V-Você… g-g-g-gosta de mim?
— É. Eu gosto de você.
— Ah! O-Oh Kang-Hyun, é melhor você parar com as brincadeiras—
— Eu não estou brincando.
Mesmo que os outros zombassem dele por isso ou dissessem que ele estava apenas confundindo seus sentimentos por ser jovem, ele não se importava.
— Eu… não estou brincando.
— …
Si-Ah, com o rosto tão vermelho que parecia soltar vapor, baixou a cabeça. Ela tinha ouvido dizer que os adultos de hoje em dia começavam a namorar sem sequer dizer que gostavam um do outro. Eles simplesmente ficavam juntos em um dia e terminavam de forma abrupta no outro — era assim que funcionava o amor para os adultos, pelo que Si-Ah havia ouvido.
— Então acho que… eu ainda não sou adulta.
Ela ainda estava longe de ser adulta, já que seu coração estava batendo enlouquecidamente só por ouvir a confissão de Kang-Hyun.
— …também — sussurrou Si-Ah.
— Hã?
— Eu também… E—
BUM!
Nesse exato momento, a porta do quarto do hospital se abriu violentamente.
— S-SAIA LONGE DO MEU OPPA [6]!
A cunhada intrometida havia aparecido.
[1] - VVIP: Abreviação de "Very, Very Important Person" (Pessoa Muito, Muito Importante), um termo usado para designar um nível ainda mais exclusivo e luxuoso do que o VIP tradicional.
[2] - Musca: Uma divindade ou entidade mencionada na obra, associada a temas de pragas ou doenças.
[3] - Qi: O conceito oriental de energia vital ou força espiritual que flui através de todas as coisas.
[4] - Hyung-nim: Um tratamento honorífico coreano usado por homens para se dirigirem a um irmão mais velho, mentor ou superior masculino com muito respeito.
[5] - Tteokbokki: Um prato tradicional coreano feito com bolinhos de arroz macios cozidos em um molho apimentado à base de gochujang.
[6] - Oppa: Um termo coreano afetuoso usado por uma mulher para se referir a um irmão mais velho ou a um amigo/interesse romântico mais velho.