Depois de Dez Milênios no Inferno

Capítulo 781

Depois de Dez Milênios no Inferno

O lixão putrefato, para onde era enviado todo o lixo das dezenas de milhares de visitantes do Parque da Copa do Mundo, estava repleto de sacos plásticos de lixo.

— Merda! — gritou um homem vestido com um manto esfarrapado sobre uma colina de detritos. — Pirralho inútil! Ele desperdiçou o estigma que lhe concedi!

Ele bateu o pé e esfregou as mãos como uma mosca. Os olhos vermelhos do homem, compostos como os de um inseto, brilharam enquanto ele rangia os dentes. Sua visão era compartilhada com seu Familiar por meio de seus milhares de olhos. Seu Familiar estava perto de um riacho do parque, a uma boa distância de sua localização, encarando uma criança morta com o pescoço quebrada e outro garoto olhando para ele friamente. Eram Jeon Yeong-Woong e Oh Kang-Hyun.

— Huuu — suspirou o homem, reprimindo sua raiva fervilhante e fechando os punhos.

— Desde quando...?

Ele se perguntava quando seu plano perfeito começara a dar errado.

— Droga.

No início, tudo estava saindo conforme o planejado. O garoto a quem concedera seu estigma obsequiou informações de que a filha do Deus Marcial faria uma excursão, razão pela qual ele enviara seus Familiares para causar o caos. Ele não conseguiu provocar tanta confusão quanto gostaria porque os membros dos Guardiões apareceram muito mais rápido do que o esperado, mas tinha certeza de que pelo menos conseguiria capturar a filha do Deus Marcial.

— Mas que porra de garoto é esse?!

— Kurgh.

Mus, a Divindade de Musca[1], piscava repetidamente. Ele planejava sequestrar a filha do Deus Marcial e usá-la para ameaçá-lo, a fim de tomar posse de seu corpo.

— Mas, desse jeito, vai ser tarde demais.

O Deus Marcial ainda não estava no parque, mas era apenas uma questão de tempo até que chegasse. Como o assunto envolvia a segurança de sua filha, ele largaria tudo para ir até lá.

— Tenho que garantir a segurança da filha antes que ele chegue.

Mus suspirou, expirando pelo seu boca anormalmente proeminente.

— Eu suponho... que não tenho escolha.

Ele não queria usar aquele método, pois isso consumiria sua Divindade, mas não havia outro jeito.

— Expansão do Santu—

— Ah, era aqui que você estava se escondendo — comentou alguém despreocupadamente. — Caralho, mano. Mesmo sendo a Divindade de Musca, tem que se esconder logo num lixão?

— Quem... é você?

— Quem mais? Sou da Cesco[2] e vim aqui para capturar uma mosca.

— Cesco?

— Ah, você não precisa saber. Isso não vai mudar nada.

— ...

Mus acenou com a mão para espantar as moscas ao seu redor e encarou Oh Kang-Woo. Ele não sabia quem era o homem, mas havia duas coisas de que tinha certeza.

— Primeiro, ele sabe quem eu sou.

Segundo, o humano era louco o suficiente para dizer que o capturaria mesmo sabendo quem ele era.

— Hah — riu Mus.

Sua irritação havia chegado ao limite depois que um humano louco desperdiçara o pouco tempo que lhe restava.

— Morra, humano.

Mus estendeu a mão em direção a Kang-Woo. Sua palma se abriu e incontáveis moscas jorraram de dentro dele. A energia da doença infundida nas moscas estava em um patamar totalmente diferente comparado às moscas que Yeong-Woong havia invocado. As moscas, carregando uma enfermidade poderosa o suficiente para matar instantaneamente qualquer Jogador neste mundo, voaram em direção a Kang-Woo.

Fwoosh —!

No entanto, chamas douradas e negras devoraram as moscas em um instante.

— O que...?!

Os olhos compostos de Mus se arregalaram em choque. Kang-Woo, que queimara milhões de moscas com apenas um aceno de mão, caminhava descontraidamente em direção a Mus.

— Primeiro, permita-me agradecer. Você ajudou meu filho a abrir a sua Porta.

— Porta...? —

— Eu planejava ensiná-lo a abri-la muito mais tarde, mas... suponho que as crianças crescem mais rápido do que os pais pensam. Parece que foi ontem que ele ainda estava engatinhando.

Kang-Woo olhou para o céu de forma sentimental. Os olhos compostos de Mus brilharam em vermelho enquanto ele encarava Kang-Woo. Ele não sabia o que o humano queria dizer com abrir uma Porta, mas lembrou-se de como o garoto das correntes negras subjugara facilmente Yeong-Woong.

— Aquele pirralho... era seu filho? — perguntou Mus.

— É. Ele é incrível, não é?

— ...

Mus foi tomado por uma sensação de mal-estar. Era como se estivesse preso em uma rede de insetos insondavelmente colossal. Não demorou muito para ele descobrir de onde vinha aquele sentimento incômodo.

— Entendi. Caí na sua armadilha.

Os Guardiões haviam chegado muito antes do esperado, como se estivessem esperando. Um garoto desconhecido derrotara o rapaz que ele havia escolhido, e o pai do garoto desconhecido apareceu assim que a batalha terminou. Tudo havia sido uma armadilha meticulosamente planejada.

— Fico feliz que você seja inteligente o suficiente para saber disso — comentou Kang-Woo.

— Como sabia que eu apareceria? — perguntou Mus.

— Porque era a chance perfeita para pôr as mãos na filha do Deus Marcial.

Kang-Woo sabia, desde o momento em que percebeu que o objetivo da Divindade era Kim Si-Hun, que ele visaria Si-Ah primeiro.

— Então você não fez nada mesmo sabendo que ela era meu alvo?

Afinal, é difícil pegar insetos escondidos na sua casa sem uma isca.

— Hah, o Deus Marcial não ficaria feliz em ouvir sobre isso.

— Hmm, disso eu não sei. Por que não vamos perguntar a ele?

— O quê?

Swoosh —!

Uma onda de energia de espada disparou contra Mus antes que ele pudesse continuar sua pergunta.

— Kurgh!

Mus girou rapidamente para desviar da onda, que passou raspando por ele e cortou a pilha de lixo atrás de si ao meio.

— Finalmente te achei, mosca desgraçada — disse um homem com uma voz profunda, como se estivesse reprimindo à força sua raiva vulcânica.

— Deus Marcial... — disse Mus ao notar a chegada de Kim Si-Hun.

Si-Hun fuzilou Mus com o olhar e perguntou a Kang-Woo: — Hyung-nim[3]. Você disse que entraria em contato comigo assim que encontrasse a Divindade.

— Eu acabei de achá-lo, cara. Nunca pensei que ele estaria se escondendo num lixão.

— Huuu. Nós o encontramos, isso é o que importa.

Si-Hun suspirou para aliviar sua raiva e apertou sua espada com mais força.

— Hah... — riu Mus.

O surgimento do Deus Marcial significava apenas uma coisa: ele havia concordado com o plano de usar a própria filha como isca. Ele zombou e encarou Kang-Woo e Si-Hun com desdém.

— Malditos... como podem tratar seus filhos como descartáveis?

— Uhh... Eu entendo o que você quer dizer, mas soa estranho ouvir isso vindo de você.

Kang-Woo não esperava ouvir tal crítica de alguém que tentara sequestrar uma criança para chantageá-los.

— Huuu. Certo, muito bem — suspirou Mus para se acalmar.

Ele agora entendia o porquê de seu plano ter dado errado.

— Mal posso acreditar que eles usariam os próprios filhos como isca para me pegar.

Foi um erro seu subestimar a brutalidade dos humanos.

— No entanto, há algo de que vocês se esqueceram — acrescentou ele.

— Hm? O que seria?

Mus abriu os braços enquanto encarava o humano que perguntava com os olhos brilhantes.

— O fato de que eu sou uma Divindade.

Expansão do Santuário.

Morte Negra.

Whoooom!

Uma luz azul escura jorrou de Mus. O poder de um Deus que meros humanos jamais poderiam resistir assumiu o controle do espaço ao seu redor.

— Uau. Você realmente sabe como fazer truques interessantes. Sendo uma Divindade, não se podia esperar menos.

Kang-Woo riu e entrou na área onde a terra apodrecia após entrar em contato com a luz azul escura. Incontáveis doenças fluíram para o corpo de Kang-Woo no exato momento em que ele pisou no santuário.

Sarampo, pneumonia e tuberculose através dos pulmões, e lepra, encefalite, malária e peste bubônica através da pele. Milhares de outras doenças que matariam qualquer humano normal foram despejadas em Kang-Woo.

— Hmm. Então é assim que se sente um santuário.

Kang-Woo estalou a língua apaticamente sob a influência das doenças mortais.

— C-Como...?

Mus arregalou seus olhos compostos de forma incompreensível. O humano deveria ter desabado no mesmo lugar após entrar em seu santuário. Ele não deveria ser capaz de fazer uma expressão tão relaxada. No entanto, os eventos incompreensíveis não pararam por aí.

— Certo, então. Devo dar uma provinha?

Contorção.

Um muco negro emergiu e devorou vorazmente o santuário.

Croc, chomp!

Mus podia sentir seu santuário desmoronando e sua Divindade sendo absorvida pelo muco negro.

— A-Aaaahh — Mus recuou pálido.

— I-Isso é impossível!

Ele conhecia apenas um único indivíduo capaz de devorar santuários.

— O Demônio dos Céus... — murmurou Mus enquanto encarava Kang-Woo. Ele se ajoelhou sem hesitar e curvou-se diante de Kang-Woo. — Ah, Grande Demônio Celestial! Peço sinceras desculpas por não tê-lo reconhecido!

— Ãh? Demônio Celestial? Do que você está falando?

— Você não é... o Demônio Celestial?

— Não, mano — Kang-Woo sorriu para o tremeluzente Mus e respondeu: — Eu sou o Rei Demônio.

1. Musca - Palavra em latim que significa "mosca", associada ao inseto ou a constelações menores históricas.
2. Cesco é um serviço de controle de pragas na Coreia.
3. Hyung-nim - Termo coreano respeitoso usado por homens para se dirigirem a um irmão mais velho ou a um homem mais velho com quem têm proximidade.

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