Depois de Dez Milênios no Inferno

Capítulo 780

Depois de Dez Milênios no Inferno

A porta gigante estava envolta em correntes vermelhas. Uma energia demoníaca altamente concentrada vazava por debaixo dela.

— O que... é aquilo?

Oh Kang-Hyun ficou confuso com o surgimento repentino da Porta. Ele se virou para Jeon Yeong-Woong, imaginando se ele a havia criado.

— Hã?

Yeong-Woong estava parado, completamente imóvel.

— Que porra é...?

Não era só Yeong-Woong, mas também Kim Si-Ah, Kang-Hee e até o exército de moscas grotescas — tudo estava congelado no lugar, como um vídeo pausado.

— O que está acontecendo?

Kang-Hyun estreitou os olhos e encarou a porta negra diante dele. Ele não sabia o que era, mas tinha certeza de que aquilo estava causando tal fenômeno anômalo.

Nada mudaria se ele continuasse parado. Ele respirou fundo e caminhou cautelosamente em direção à porta coberta de correntes vermelhas. Ele estendeu a mão lentamente até a porta e...

— AAAAAAAARRRRRRRGGGGGGGHHHHHHHHHHHH!!!

Doía como se metal líquido fervente fosse despejado em suas veias, ou como se lâminas afiadas estivessem fazendo incontáveis cortes por todo o seu corpo. Doía. Doía. Doía.

— A-Arrghh. Argh.

Não, aquilo nem podia ser descrito apenas como dor. Era a condensação de toda a dor do mundo. A dor era infinita.

— P-Papai. M-M-Mamãe...! — gritou Kang-Hyun, com o rosto coberto de lágrimas e meleca.

Ele se contorcia no chão como um inseto com as patas arrancadas.

— Urgh... Por favor... Por favor, ajudem... Uaaa. Dói tanto.

O garoto choramingava alto, implorando por ajuda. Ele desejava que alguém aparecesse e acabasse com aquela dor excruciante. Ele desejava isso desesperadamente.

— Uf... Ofend! [1]

No entanto, o mundo congelado não se movia. O vídeo pausado não voltava a rodar. Ele sentia como se estivesse afundando em um mar negro e sem fundo.

— BLEEEEEEEEGHHH!

Kang-Hyun agarrou o chão e vomitou. O kimbap [2] que sua mãe havia feito para ele se transformou em vômito e molhou o solo.

— E-Eu não quero isso.

Ele se levantou cambaleando e se afastou da Porta engatinhando, como se estivesse fugindo. Ele precisava ficar o mais longe possível daquela Porta.

— Você não precisa de energia demoníaca para se tornar forte.

Nesse exato momento, as palavras do tio Balrog vieram à sua mente.

— Medo. Para se tornar mais forte... você deve superar o medo que jaz adormecido dentro de você.

— Hã — zombou Kang-Hyun.

Era absurdo — como ele supostamente deveria superar aquilo?

— A-Até o tio Balrog fugiria com medo desta Porta.

Não se tratava de fortaleza mental — ninguém conseguia ficar diante de um medo que corroía a alma, a própria essência da vida.

— Vou apenas ficar assim. É, afinal, este mundo congelado não vai durar para sempre. Tenho certeza de que o tempo voltará a passar daqui a pouco.

— Então...

— O que vai acontecer assim que o tempo voltar?

— ...

Kang-Hyun se virou e olhou para Yeong-Woong e as duas garotas em seu poder.

— O que vai acontecer com elas quando o tempo voltar?

— Eu pouparei a que você escolher.

Yeong-Woong havia mandado ele escolher uma para salvar.

— Não há a menor chance de eu conseguir escolher.

Kang-Hee ou Si-Ah — sua irmãzinha ou sua amiga de infância. Ambas eram insubstituíveis em sua vida. Ele jamais conseguiria escolher qual era mais importante ou quem matar e quem salvar.

— T-Tudo bem. Eu passei os números do papai e do tio Si-Hun para a professora.

Além disso, o parque estava cheio de membros dos Guardiões, como se estivessem esperando ali desde o início. Mesmo que Kang-Hyun não escolhesse, ele tinha certeza de que alguém viria salvá-las — assim como aconteceu no resort, como sempre. Sim, outra pessoa iria...

— Posso te fazer uma pergunta, filho?

Kang-Hyun se lembrou de repente do que seu pai lhe perguntara.

— Ele me perguntou... o quanto eu estaria disposto a sacrificar pelos meus entes queridos. O que foi mesmo que eu respondi? Ah, sim. Eu disse que estava disposto a sacrificar tudo.

— Hah... Haha.

Pensando nisso agora, ele não poderia ter sido mais arrogante.

— Eu não passano de um pirralho que não sabe nada da vida.

Ele era apenas um pirralho que havia se encolhido em posição fetal só porque estava com dor e esperava desesperadamente que alguém viesse lhe dar uma mãozinha. Ele não fazia ideia do que estava pensando quando disse que estava disposto a sacrificar tudo.

— ...

Kang-Hyun se levantou, cambaleando. Ele forçou suas pernas congeladas a se moverem e parou diante da Porta novamente. Suas mãos e pernas tremiam incontrolavelmente. Ele sabia que, por mais maduro que agisse, não passava de um pirralho que ainda nem tinha dez anos de idade. Ninguém o criticaria nem mesmo se ele abandonasse sua irmãzinha e sua amiga de infância naquela situação. Pelo contrário, talvez o consolassem, simpatizando com o quão difícil devia ter sido tomar aquela decisão.

— Pelo menos... a mamãe com certeza o faria.

Kang-Hyun sorriu com amargura. Sempre fora assim. Ele dava desculpas por sua falta de talento em comparação com suas irmãs, dizendo que era meio-humano. Ele sempre ficava um passo atrás de todo mundo, torcendo para que outra pessoa desse o primeiro passo.

— Estou farto disso.

Ele subiria mais alto... além de qualquer imaginação.

— Huuu — ele respirou fundo.

ClQUE.

Ele agarrou a maçaneta da porta.

Catapimbas. [3]

— Ah...

As correntes vermelhas envoltas na porta se soltaram e se enrolaram em Kang-Hyun. As correntes cor de sangue tingiram-se de preto, como se tinta nanquim tivesse sido derramada sobre elas.

— ...

Ele percebeu instintivamente qual era a chave para abrir a porta, como se tivesse sido atingido por um raio.

— Vós que passais por mim...

Para a cidade da dor. [4]

***

— Certo, ande logo e escolha quem você vai salvar! — gritou Yeong-Woong, erguendo as duas garotas ainda mais alto.

Ele olhou para Kang-Hyun, que tremia como se suplicasse por perdão, e sentiu uma onda de êxtasis.

— Isso, é isso aí!

Ele não podia estar mais feliz ao ver Kang-Hyun — o mesmo que o obrigara a provar uma humilhação inesquecível — tremendo impotente diante dele. Yeong-Woong sorriu maldosamente e jogou as duas garotas no chão.

— Haha. Eu estava brincando, cara. Que tipo de herói faz reféns?

A irmãzinha do aluno exemplar era outra história, mas seria um desperdício enorme usar Si-Ah como refém. Era apenas para causar dano psicológico a Kang-Hyun.

— Um herói precisa ser justo, não acha?

Vrummm!

Ele ergueu os braços acima da cabeça e criou uma bola psicocinética gigante, dez vezes maior do que as que vinha criando. O poder dela também fazia os menores parecerem insignificantes.

— Morra, seu filho da puta.

Estrondo—!

A bola psicocinética disparou contra Kang-Hyun com um estrondo trovejante. Ela entrou em contato com o caído Kang-Hyun quando—

Puf!

O ataque poderoso, que parecia capaz de rasgar o mundo ao meio, estourou como um balão e desapareceu.

— Hã? — Yeong-Woong estreitou os olhos, sem entender. — Que diabo acabou de—

Sons de metal ecoaram ao redor antes que Yeong-Woong puder terminar sua pergunta.

Clat, clat—!

Correntes negras como breu brotaram das costas de Kang-Hyun, que estava encolhido, flutuando no ar como se estivessem vivas.

— O que são...

Yeong-Woong congelou ao encarar as correntes negras que brotavam das costas de Kang-Hyun.

— Serão... asas?

Elas lembravam as asas de um demônio.

— Haaa — exalou Kang-Hyun enquanto se levantava lentamente, cambaleando.

Íris douradas brilhavam na escuridão. As asas de correntes negras bateram e centenas de correntes dispararam em direção a Yeong-Woong.

— Curgh!

Yeong-Woong saltou rapidamente para trás e formou uma parede de moscas.

Crach—!

— ARGHHH!

No entanto, a parede de moscas foi instantaneamente estilhaçada e as correntes se enrolaram nos braços de Yeong-Woong. Seus braços foram esmagados como se estivessem sob uma prensa hidráulica.

— D-Dói! DÓI DEEEEMAIS!!! — gritou Yeong-Woong, com o rosto coberto de lágrimas e meleca.

Creck, muf.

As correntes que envolviam seus braços estavam comendo seus membros.

— Qu-Que diabo é isso?! Que diabo são essas coisas?!

Yeong-Woong cambaleou para trás, empalidecido. A dor de ter os braços devorados espalhou-se por todo o seu corpo, mas o pavor de precisar sair dali tomou o controle de sua mente.

— AAAAAAAAAAAAAAHHH!

A luz do estigma brilhou intensamente e milhões de moscas cercaram Kang-Hyun como uma nuvem. As moscas infundidas com a energia da doença colaram-se nele.

— Que aborrecimento...

Kang-Hyun agitou as mãos para espantar as moscas. Uma onda massiva de correntes brotou do chão com aquele simples movimento e devorou os milhões de insetos.

— Hah — Kang-Hyun não pôde deixar de rir diante daquele espetáculo avassalador.

Ele finalmente entendeu o que seu pai quis dizer quando lhe disse que ele não deveria imitar a esgrima do tio Si-Hun.

— Não é que eu não deva imitar.

Simplesmente não havia necessidade para ele fazer isso. Por mais forte que fosse um rio caudaloso, ele nunca se igualaria a um tsunami.

— A-Aaaahh. — Yeong-Woong, com os braços sangrando profusamente, olhou para Kang-Hyun com medo. — K-Kang-Hyun! E-Eu sinto muito! Por favor—

— Por favor, o quê?

Kang-Hyun caminhou em direção a Yeong-Woong e o segurou pelo pescoço. Yeong-Woong balançou a cabeça freneticamente.

— C-Calma! Você não vai me matar, vai? Hã? Is-Isso é assassinato! Você vai apodrecer na cadeia pelo resto da vi—

Craque.

Kang-Hyun quebrou o pescoço de Yeong-Woong antes que ele pudesse terminar suas súplicas.

— Está tudo bem.

Ele jogou fora o cadáver de Yeong-Woong como lixo e sorriu.

— Na minha idade, eu não vou para a cadeia mesmo se matar alguém.

[1] - *Huff/Puff*: Onomatopeias em inglês para respiração pesada ou ofegante; traduzidas mantendo a expressividade.

[2] - *Kimbap*: Prato tradicional coreano feito de arroz cozido e outros ingredientes enrolados em alga marinha (*gim*).

[3] - *Clatter*: Som de chocalho ou barulho metálico de correntes se chocando.

[4] - Referência clássica à *Divina Comédia* de Dante Alighieri ("Vós que entrais, abandonai toda esperança"), adaptada ao tom sombrio da cena.

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