
Capítulo 782
Depois de Dez Milênios no Inferno
— D-Demônio...?
Mus tremeu levemente ao pronunciar aquele título perturbador. Fosse o homem o Demônio Celestial ou o Rei Demônio, uma coisa era certa.
— Eu não posso vencer.
Não havia como derrotar um monstro capaz de devorar um santuário. Mus mordeu o lábio e fechou os punhos com força.
— Como... Como eu posso...
Ele vasculhou a mente em busca de uma forma de sair daquela crise. Foi então que um raio de esperança inesperado o atingiu.
— Hyung-nim[1], eu gostaria de cuidar dele pessoalmente — disse Si-Hun friamente enquanto se aproximava de Kang-Woo.
— Hm? Você, Si-Hun?
— Sim. Só assim ficarei satisfeito.
Kang-Woo havia deixado Kang-Hyun cair em perigo de propósito porque queria que ele descobri-se como abrir a sua Porta[2], mas esse não era o caso de Si-Hun. Ele apenas cumpriu o plano de Kang-Woo e conteve sua raiva vulcânica, apesar de saber que Si-Ah estaria em perigo.
— Si-Hun cedeu para mim desta vez.
Portanto, Kang-Woo não podia recusar o desejo dele de lidar com o Celestial de Musca.
— Entendido. Vou ficar totalmente fora disso, então faça o que quiser.
— Obrigado, hyung-nim.
— Não me agradeça. Eu é que deveria te agradecer.
Kang-Woo havia preparado um seguro para qualquer situação inesperada, mas, como outro pai de duas filhas, ele podia entender como Si-Hun se sentia ao ser forçado a ficar de braços cruzados enquanto um deus de outro mundo mirava sua filha.
— Urgh... — Mus rangeu os dentes ao ver os dois homens discutindo quem iria se livrar dele.
— Desgraçados!
Ele nunca tinha se sentido tão desrespeitado em sua vida como Celestial. Ele não se sentira tão patético nem mesmo quando foi forçado a se tornar um fantoche após cair nas palavras da Cobra.
— De qualquer forma, esta é a minha chance.
Mus sabia que o Deus Marcial também não podia ser subestimado, mas ele seria cem vezes — não, mil vezes mais fácil de lidar do que o monstro conhecido como Rei Demônio.
— Eu tenho que fugir.
Ele não tinha intenção de lutar contra o monstro que devorou seu santuário. Ele precisava agarrar qualquer oportunidade que encontrasse para escapar.
— Tentando fugir, é? — Si-Hun fuzilou Mus com o olhar e ergueu sua espada, com uma energia azul flamejante envolvendo a lâmina. — Vá em frente e tente.
A luz azul brilhou de repente como um relâmpago e Si-Hun desapareceu. Sua velocidade estava muito além da supersônica — como se ele estivesse saltando através do próprio espaço. A terra se abriu, incapaz de suportar sua velocidade, criando uma tempestade e varrendo o lixo ao seu redor.
— Ah! — Mus esticou os braços para a frente, chocado, reunindo um exército de moscas para formar uma parede.
— Técnica da Espada do Dragão Celestial, Primeira Forma.
Estrondo—!
A energia azul da espada causou um estrondo trovejante ao surgir além do fio da lâmina.
— Lampejo.
━━━━━━━!
Um relâmpago despencou, dividindo instantaneamente a parede criada com milhões de moscas, junto com a cabeça de Mus.
— Urgh! Argh! Ugh!
Sangue verde jorrou de sua cabeça dividida, mas apenas por um momento. Vermes grotescos se contorceram nas partes separadas e religaram as extremidades, regenerando instantaneamente o ferimento.
— Seu... desgraçado...!
Mus fuzilou Si-Hun com o olhar e canalizou seu poder sagrado.
Vzzt—!
O enxame de moscas infundido com a energia da doença engoliu Si-Hun como um tsunami.
— Técnica da Espada do Dragão Celestial, Primeira Forma: Fúria.
Uma tempestade de energia de espada dizimou o exército de moscas.
— Haha! É inútil, humano!
Mesmo que o humano cortasse as moscas, ele não podia cortar a energia da doença que elas liberavam ao morrer. Dezenas de enfermidades invadiram o corpo de Si-Hun em um instante.
— Mesmo sendo o Deus Marcial, não há nada que possa fazer uma vez infectado com doenças morta—
Corte!
O clarão de uma espada cruzou o espaço e os braços de Mus caíram no chão.
— Hã...?
Corte!
Seu peito, ombros, clavículas e coxas foram perfurados.
— E-Espere um m— Urgh, argh!
Sua garganta, sua boca protuberante, seus olhos compostos hediondos — tudo foi retalhado. Cada movimento fazia seu corpo ser cortado como se o mundo inteiro fosse feito de espadas.
— GAAAAAAAAAAAHHH!
Ele canalizou o poder de seu estigma para se regenerar, mas a destruição era mais rápida do que sua velocidade de recuperação.
— D-Droga!
Mus havia se enganado. Ele pensava que podia derrotar qualquer um, desde que não fosse o monstro que devorara seu santuário. Não, mesmo que não pudesse vencer, tinha certeza de que pelo menos conseguiria fugir.
— Kuh! Argh! Krrrk!
Ele estava sendo cortado em todos os lugares. Mus cambaleou para trás enquanto gritava em agonia.
— Você é tenaz... vou te dar isso.
Si-Hun acalmou sua respiração ligeiramente ofegante e parou de golpear. À primeira vista, parecia que Si-Hun estava dominando Mus, mas não era bem assim.
— Cof, cof!
Várias doenças haviam se espalhado por todo o seu corpo. Ele as estava reprimindo o máximo possível com seu Qi, mas estava chegando ao limite.
— Então...
Vruum!
A energia azul da espada brilhou ainda mais forte.
— Vamos acabar com isso.
A energia flamejante da espada se comprimiu na forma de uma lâmina. Não parecia tão afiada quanto antes, capaz de cortar tudo ao seu redor, mas Mus pôde perceber instintivamente:
— Se eu for cortado por isso... eu vou morrer.
Mus engoliu em seco.
— N-Não.
Ele havia fugido do Demônio Celestial para aquele mundo e lutado para recuperar seu poder e glória como Celestial. Portanto, não podia deixar aquilo terminar de forma tão patética.
— Há uma última coisa...
Mus tinha uma última carta na manga. Ele não teve escolha a não ser usar o seguro que havia preparado para o pior cenário possível.
— Droga, droga, droga!
Ele nunca quisera usar aquilo, mas não havia outra saída. Ele colocou a mão sobre o coração e despertou o poder do Céu Negro que jazia dormente em seu interior.
— Guh... Kurgh!
A energia do Céu Negro despertou e começou a devorar sua Divindade. Mus suportou a dor esmagadora de alma e transferiu uma porção do poder do Céu Negro — para sua cria, cujo pescoço estava quebrado.
— Kurgh! Arf! Arf!
— O que você fez...? — perguntou Si-Hun.
— H-Hehe. Curioso?
Mus sorriu e estalou os dedos. Os olhos de uma das moscas ao redor deles brilharam e um vídeo holográfico apareceu, mostrando o cadáver do falecido Yeong-Woong se contorcendo e se levantando.
— Eu transferi uma porção do meu poder para a minha cria.
Como resultado, o Céu Negro devorou quase metade de sua Divindade, mas era melhor do que morrer ali.
— Seu filho de uma—
— Pare! Não se mexa! Basta um movimento em falso e eu mato sua filha.
Kang-Hyun, que derrotara Yeong-Woong após abrir sua Porta, havia desmaiado devido aos efeitos colaterais. Ninguém ali podia proteger Si-Ah.
— Hehe. Nem mesmo você conseguirá chegar a tempo de salvar sua filha.
— ...
Si-Hun permaneceu em silêncio enquanto seus lábios tremiam.
— Certo. Isso vai me dar tempo suficiente para escapar!
Mus sorriu, certo de sua vitória.
— Uau, esse era o seu trunfo final? — perguntou Kang-Woo de trás de Si-Hun, soltando uma risada anasalada. — Eu estava me perguntando o que você estava escondendo a ponto de não usar nem quando estava quase morto, mas parece que só podia ser usado sacrificando metade do seu poder, né?
Ele entendia por que Mus não o usara ao ser encurralado da primeira vez. A ganância era uma força motriz poderosa — a pessoa tem dificuldade em largar um pedaço de ouro puro mesmo quando está se afogando por causa dele.
— Mas quer saber de uma coisa? — Kang-Woo sorriu e deu de ombros. — Você não foi o único que preparou um seguro para garantir.
— Kurgh... O quê... Como...?
Yeong-Woong, que havia morrido com o pescoço quebrado, olhou para si mesmo, aparentemente ileso. Pelo contrário, ele estava transbordando de um poder desconhecido.
— A-Aaaahh.
Ele cambaleou de um lado para o outro enquanto caminhava em direção aos caídos Si-Ah e Kang-Hyun, seguindo a ordem em sua cabeça antes de conseguir entender o que estava acontecendo. No entanto—
— Hmm, estranho. Achei que o oppa[3] tivesse acabado com você. Como você ainda está vivo? — disse alguém em tom brincalhão.
— Você é... — Yeong-Woong virou-se para a voz e franziu a testa, confuso. — Por que... você está...
A irmã de Kang-Hyun, a quem ele fizera de refém, levantou-se enquanto sacudia a poeira da saia com a mão.
— Como assim, por quê? Meu trabalho terminou desde que o oppa teve seu momento de herói.
— O quê...?
— Tirando isso, aquela unnie[4] com certeza me irrita. Quem ela pensa que é, chamando a si mesma de namorada do oppa quando eles nem estão namorando?
Kang-Hee franziu a testa enquanto empurrava a inconsciente Si-Ah para longe de Kang-Hyun com o pé.
— Haaah~ Oppa, você foi tão legal~
Kang-Hee abraçou firmemente o inconsciente Kang-Hyun e esfregou a bochecha na dele.
— Sua... desgraçada...!
Yeong-Woong, percebendo que Kang-Hee o enganara, esticou a mão em direção a ela.
— Poxa, estou tentando ter um momento romântico com o oppa. Dá para parar de atrapalhar?
Kang-Hee lançou um olhar irritado a Yeong-Woong e estalou os dedos levemente. Duas asas brotaram de suas costas — uma branca como a de um anjo e a outra preta como a de um demônio.
— Hã...?
Yeong-Woong pôde sentir seu corpo sendo comprimido como se estivesse sendo agarrado por uma mão gigante invisível assim que as asas brotaram.
Aperta, esmaga, estala!
Yeong-Woong foi esmagado até ser reduzido ao tamanho de uma pequena bola e rolou pelo chão. Kang-Hee o pegou com o pegador usado para recolher lixo e o jogou dentro de um saco de lixo vazio.
— Vou dar isso para o Papai mais tarde. Agora...
Kang-Hee jogou o saco de lixo de lado e voltou para junto de Kang-Hyun.
— Hehe. Oppa~
Kang-Hee beijou a testa do inconsciente Kang-Hyun e sorriu como se fosse a pessoa mais feliz do mundo.
[1] - *Hyung-nim*: Termo coreano honorífico usado por homens para se dirigirem a um irmão mais velho ou homem mais velho por quem têm grande respeito.
[2] - *Porta*: No contexto de obras de caçadores/sistema, é o limiar ou limite do poder que o indivíduo deve romper para despertar novas habilidades ou seu verdadeiro potencial.
[3] - *Oppa*: Termo coreano usado por mulheres para se dirigirem a um irmão mais velho, amigo íntimo ou namorado mais velho.
[4] - *Unnie*: Termo coreano usado por mulheres para se dirigirem a uma irmã mais velha ou amiga mais velha.