Depois de Dez Milênios no Inferno

Capítulo 774

Depois de Dez Milênios no Inferno

'O quê? Dez milênios?'

Kwon Oh-Jin encarou Oh Kang-Woo com uma expressão de total confusão. Era normal dar aquela exagerada na idade, mas dez milênios já era demais.

'Na verdade, eu vivi um pouco mais de dez milênios, mas... eu nunca fiquei contando.'

Muita gente para de contar a idade depois dos quarenta, então fazia todo o sentido Kang-Woo ter parado de contar depois de todo esse tempo. Ele até mantinha um registro dos dias em que passou nos Nove Infernos porque tinha um desejo ardente de voltar para a Terra na época, mas perdeu a necessidade disso depois que retornou.

'Hã, se for pra mentir, pelo menos inventa algo crível...'

Oh-Jin soltou uma risada sarcástica enquanto encarava Kang-Woo, mas recuou de relance ao ver o olhar dele. Sendo um vigarista de longa data, ele sabia muito menosprezar quando alguém estava mentindo. No entanto...

'Ele não tá mentindo?'

Oh-Jin examinou a expressão facial de Kang-Woo às pressas — os movimentos sutis dos olhos, a respiração, os lábios e as sobrancelhas. Seus instintos diziam que as palavras de Kang-Woo eram a pura verdade.

'Impossível...'

'Caramba', resmungou Oh-Jin.

Era natural que o mais jovem chamasse o mais velho de *hyung*[1] [1] - *Hyung*: Termo em coreano usado por homens para se referir a um irmão mais velho ou a um homem mais velho com quem se tem intimidade., mas ele e Kang-Woo tinham tanta coisa em comum que ele se sentiu derrotado.

'Certo, então~ por que você não me chama de *hyung*?'

Kang-Woo sorriu de forma matreira. Oh-Jin fez careta, com os lábios tremendo, mas suspirou fundo logo em seguida.

'Droga.'

'Bem, não tem jeito. Ele é o mais velho.'

'Vai logo, manda ver', instigou Kang-Woo.

'Beleza, para de me apressar, senhor.'

'O quê?'

'Eu disse senhor. Ou você prefere velhote Kang-Woo?'

'Eu mandei você me chamar de *hyung*. Que história é essa de senhor?'

Kang-Woo franziu a testa e fuzilou Oh-Jin com o olhar, que apenas sorriu e deu de ombros.

'A questão é que não estamos separados por alguns anos. São milênios de diferença. Não é mais do que natural que eu te chame de senhor? Hã?'

'E-Essa é…'

'Dá pra acreditar nesse pirralho?'

'Me chamar de senhor faz parecer que sou um Matusalém.'

'E não é?'

'Que porra é essa?! Com que cara eu pareço um velho?!'

'Eu ainda tenho que mostrar identidade na loja de bebidas!'

'Só porque você parou de envelhecer.'

'E quanto a você então? Estamos na mesma situação, o que te dá o direito de me chamar de senhor?'

'Se você tem algum problema com isso, desiste de tentar me fazer te chamar de *hyung*.'

'Ah, seu descarado sem vergonha.'

As esposas de Kang-Woo teriam dado uma bronca nele para agir de acordo com a idade, mas os homens continuavam infantis com certas coisas não importa quantos anos tivessem.

'*Hyung*.'

'Senhor.'

A guerra de nervos sem fim continuou até que eles próprios ficaram com vergonha de quão infantis estavam sendo, e ambos viraram o rosto, pigarreando.

'V-Vamos voltar?'

'Aham. É. Vai saber em que tipo de confusão minha *noona*[2] [2] - *Noona*: Termo em coreano usado por homens para se referir a uma irmã mais velha ou a uma mulher mais velha com quem se tem intimidade. vai se meter se eu deixar ela sozinha por muito tempo.'

A festinha de beber ainda estava a todo vapor quando os dois homens desceram do telhado.

'Mozão~! Onde diabos vocês estavam?!'

'Ehehe, Oh-Jin! Essa cerveja foi misturada com uma parada chamada, ahm... néctar, era isso? E é bom pra caralho~!'

Cha Yeon-Joo e Song Ha-Eun estavam de braços dados.

[Hmm. Essa bebida consegue deixar até os deuses bêbados?]

Vesta estava beberiscando um pouco de vinho misturado com Néctar.

'Nossa, sério? Ele te pediu para ter três filhos dele logo no primeiro encontro de vocês?'

'Hehe, sim.'

'Hmm. Já a nossa Bella só conseguia pensar em devorar o senhor Oh-Jin... Oh, não de um jeito sexual, mas literalmente.'

'E-Unnie!'

'Fufu. Vocês duas parecem se dar muito bem.'

'A gente se dá...?'

As outras quatro mulheres aproveitavam a conversa de comadres ao redor da mesa de jantar. Assim como Kang-Woo e Oh-Jin, elas haviam ficado muito próximas enquanto os dois estavam fora.

'Ah, bem-vindo de volta, amor.'

'Valeu. Fui tomar um ar com o Oh-Jin.'

'Hm?' Seol-Ah inclinou a cabeça ao perceber que Kang-Woo estava chamando Oh-Jin pelo primeiro nome sem formalidades e sorriu. 'Parece que vocês já ficaram mais próximos.'

'Bom, ele parece ser um cara legal depois que você o conhece.'

'Isso se a gente ignorar o fato de que ele é metido pra caralho.'

'Quanto à Yeon-Joo... acho que nem preciso comentar. E vocês, querida? Estão se dando bem?'

'Fufu. Sim. Isabella e Cassia são maravilhosas.'

'Que alívio.'

Kang-Woo estava meio preocupado, pois já tinha ouvido falar que a relação entre mulheres podia desandar por qualquer bobagem, mas parecia que elas estavam se dando bem.

'Ah, vamos comer bolo de sobremesa. Vocês querem?' perguntou Seol-Ah.

'Parece bom.'

'E você, Oh-Jin?'

'Eu aceito com certeza.'

Os dois homens ouviram as zombarias dos bêbados enquanto caminhavam em direção à mesa de jantar.

'Dane-se o bolo! Venham aqui e tomem mais uma, caralho!'

'Vocês se chamam de homens?! Hã? Por que tão comendo sobremesa?! Vão se castrar!'

[C-Calminha, vocês dois!]

A deusa tentava ao máximo acalmar os dois bêbados. Kang-Woo e Oh-Jin deram um sorriso amarelo e caminharam até a mesa, ignorando as provocações.

'Vocês tiveram uma boa conversa com o Kang-Woo?'

'É, foi boa.'

'Fufu. Senhor Oh-Jin. Senta aqui do meu lado.'

'Ah, unnie! Sem graça!'

As duas irmãs sentaram-se de cada lado de Oh-Jin. Kang-Woo também se acomodou naturalmente entre Seol-Ah e Lilith.

'Mudando de assunto, Kang-Woo... Eu fiquei sabendo pela Seol-Ah que você pediu para ela ter três filhos seus no primeiro dia em que vocês se conheceram.'

'Ah... É, eu pedi.'

Pensando nisso agora, ele se arrependia de ter agido como um louco com a Seol-Ah no primeiro encontro, mas não conseguia raciocinar direito na época porque tinha acabado de voltar do Inferno.

'Vocês são casados há mais de uma década, né? Têm filhos?'

'Ah, sobre isso...'

Elas pareciam ter entendido mal já que não havia crianças na casa.

Kang-Woo esclareceu: 'Na verdade, nós temos três filhos, embora eles não tenham nascido só da Seol-Ah.'

Como ele tinha passado a confiar em Oh-Jin, não havia necessidade de esconder os filhos deles do grupo de extradimensionais.

'Ah, entendi', assentiu Isabella.

Ela não foi indelicada ao ponto de perguntar por que eles haviam mantido os filhos escondidos do grupo.

Ela continuou: 'Já que estamos falando de crianças, nós também estamos, ahm... pensando em ter filhos.'

'Hã?' Oh-Jin expressou confusão, como se fosse a primeira vez que ouvia aquilo.

'Nós paramos de usar anticoncepcional, mas... não tá indo tão bem quanto eu achei que ia.'

'Espera um segundo. Do que você tá falando? Eu faço questão de usar camisinha.'

'Ah, eu fiz furinhos em todas elas.'

'O quê?'

Oh-Jin ficou pálido, com a boca aberta e sem reação. Isabella sorriu e deu de ombros.

'A bem da verdade, foi ideia da *unnie*.'

'Nossa, Bella. Você concordou. Não é legal ficar jogando a culpa nos outros.'

'...'

Oh-Jin ficou em choque ao ouvir a verdade, mas a conversa continuou sem ele.

'A gente controla o ciclo e tenta garantir que aconteça durante a ovulação, mas... não tem dado certo.'

'Ah, isso é normal', observou Seol-Ah.

'Como assim?'

'A gente só descobriu isso por experiência própria. Quanto mais poderoso a gente é, menores são as chances de engravidar.'

'Sério?'

'Sim, embora a gente não saiba o porquê.'

Kang-Woo teorizou que a vontade infundida no poder delas julgava a gravidez como um ato que despojava o indivíduo de sua força, tornando-a difícil. No entanto, era apenas uma teoria.

'E-Então o que a gente deve fazer?' Isabella olhou para Seol-Ah com preocupação.

Seol-Ah sorriu gentilmente, como se dissesse para ela não se preocupar, e comentou: 'Não precisa se preocupar. Tem um jeito.'

As irmãs engoliram em seco e esperaram pela resposta de Seol-Ah.

Seol-Ah sorriu e continuou: 'Quantidade esmagadora.'

As irmãs arregalaram os olhos.

'Perdão? O que você...'

'Sua chance de ganhar na loteria aumenta quanto mais bilhetes você compra, não aumenta?'

'...'

'V-Você tem certeza de que é por aí?'

'Fufu, sim. Não é como se fosse impossível para vocês engravidarem. Só é mais difícil.'

'Hmm.'

'Entendi...'

Cassia e Isabella viraram-se para Oh-Jin e o encararam fixamente.

'E-Espera um segundo! Não tem cabimento alguém engravidar com um método tão imbecil assim...!'

'Ah, mas já foi comprovado três vezes.'

'Droga...!' Oh-Jin resmungou e virou-se para Kang-Woo em busca de salvação.

No entanto, Kang-Woo estava aproveitando a vida adoidado.

'Esse prédio inteiro é nosso. Tem suítes de hóspedes nos andares de baixo, vocês querem usar alguma?' sugeriu ele, entregando às irmãs um controle remoto para abrir as suítes de hóspedes.

'E-Ei! Que diabos você tá fazendo?!'

Oh-Jin tentou impedi-lo, mas o controle já estava nas mãos das irmãs.

'Fufu. Muito obrigada, Kang-Woo.'

'Como já está tarde... Nós vamos nos retirar.'

As duas irmãs arrastaram Oh-Jin enquanto acenavam. Oh-Jin olhou para Ha-Eun em busca de ajuda, mas ela já estava tão bêbada que havia desmaiado abraçada com Yeon-Joo e Vesta.

'F-Filha da puta...!' Oh-Jin percebeu que não havia mais ninguém para salvá-lo. Como se estivesse recorrendo à sua última tábua de salvação, Oh-Jin gritou para Kang-Woo: 'H-Hyung! Me ajuda, hyung!!!'

Ele havia abandonado o orgulho. Atendendo às suas preces desesperadas, Kang-Woo levantou-se e aproximou-se dele.

'Não se preocupe, meu mano! Eu vou derrotar a Divindade de Musca por você! Fique firme com seus amores até lá! Eu cuido de tudo!'

'V-Seu demônio desgraçado... Arghh!'

Bum.

A porta da frente bateu com força, cortando os gritos de Oh-Jin. Kang-Woo cerrou o punho e firmou sua determinação.

'Divindade de Musca...'

Kang-Woo ia dar cabo dele a todo custo, pelo sacrifício nobre de seu mano.

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