
Capítulo 775
Depois de Dez Milênios no Inferno
Um mês se passou desde que Kwon Oh-Jin e seus amores cruzaram para a Terra onde Oh Kang-Hyun residia. Nesse meio tempo, Kang-Woo cooperou com Oh-Jin e viajou pelo mundo em busca de Mus, a Divindade de Musca, mas sem sucesso. Nem mesmo Oh-Jin, o mestre do Céu Negro, conseguiu encontrar a Divindade que havia se escondido em uma fenda entre as Fendas, sem deixar pistas.
'Bem, é perfeitamente natural.'
Para fazer uma comparação, era como tentar encontrar uma barata embaixo de um armário do tamanho da Terra — não, seria ainda maior se as Fendas fossem incluídas.
'Quer dizer... Oh-Jin poderia encontrá-lo se liberasse o poder do Céu Negro.'
'No entanto, isso seria o equivalente a incendiar a casa com um lança-chamas para matar uma barata. A teimosia de Oh-Jin cedeu após um mês de buscas infrutíferas e ele decidiu aproveitar a folga com seus amores, conforme Kang-Woo havia sugerido.
Kang-Woo voltou à sua vida normal depois que Oh-Jin partiu com seus amores e simplesmente esperou que a barata saísse de baixo do armário — como um pescador esperando por um peixe com uma isca à qual não se podia recusar.
***
O verão deu lugar ao outono. O calor sufocante diminuiu e uma brisa leve e refrescante começou a soprar. Ao voltar da escola, Kang-Hyun entregou a Kang-Woo um pedaço de papel cinza.
'Papai, nossa escola vai fazer um passeio amanhã para o Parque da Copa do Mundo.'
'Ah, hã... para ser mais exato, vamos limpar o parque como trabalho voluntário, mas...'
'Então é só uma excursão ao parque.'
'Bem... sim.'
Era de se esperar o quanto crianças do ensino fundamental conseguiriam limpar o parque. A maioria provavelmente ficaria conversando com os amigos no parque com sacos de lixo na mão em vez de recolher o lixo.
'É só a sua série?' Kang-Woo perguntou.
'Não, são o primeiro e o segundo ano, mas as áreas que vamos limpar são diferentes.'
Em outras palavras, Kang-Hee e Lilia também iriam.
'Haaa. Uma excursão, que tédio... Eu preferia que mandassem a gente mais cedo para casa para eu poder passar um tempo com nosso queridíssimo Papai.'
'P-Oppa! Eu vou para onde é a sua turma amanhã!'
'Não. Você não ouviu a professora dizer que o primeiro e o segundo ano vão ficar em áreas diferentes?'
'Não é como se a gente fosse limpar de verdade! Eu quero ficar com você, oppa!'
'Eu já disse que não.'
'Risadinha chateada.'
Lilia reagiu de forma apática à excursão, enquanto Kang-Hee choramingava por ser separada de seu irmão mais velho. Nenhuma das duas parecia animada com o passeio, que costumava ser um dos eventos mais empolgantes para os alunos do ensino fundamental.
'Não é bom para crianças serem tão precoces.'
Kang-Woo deu um sorriso irônico, pensando que seria bom se elas agissem mais de acordo com a idade que tinham.
Seol-Ah caminhou da cozinha e perguntou: 'Ah, então devo preparar as marmitas amanhã?'
'Tudo bem, Mãe. A gente pode só comprar sanduíches na loja de conveniência...'
'Loja de conveniência?! Nem pensar! Eu vou fazer as marmitas de vocês!' gritou Seol-Ah, arregaçando as mangas com um entusiasmo radiante.
'Mãe, hum...' gaguejou Kang-Hyun, sem saber como lhe dizer a verdade.
Lia e Kang-Hee ainda não tinham passado por aquilo, mas Kang-Hyun havia ficado traumatizado com as marmitas que Seol-Ah preparara para a excursão do seu primeiro ano.
'Hm? O que foi? Tem alguma coisa em especial que você gostaria de comer? Quer que eu faça tonkatsu[1]? Ou salsicha frita com vegetais?'
'Não, não é isso...'
'Ah, não dá para ir sem kimbap[2] em uma excursão! Vou fazer de vários tipos: atum, queijo, bulgogi[3] e um monte de outros, então não se preocupem!'
Seol-Ah bufou empolgada, com os olhos brilhando. O amor dela pelos filhos sempre transbordava, mas ultrapassava o limite crítico em eventos especiais, o que resultou no incidente da marmita do ano passado — também conhecido como o incidente do caminhão de comida do Oh Kang-Hyun.
'Mãe, não importa por onde se olhe, fazer marmitas para trinta pessoas é um pouco exagero.'
'Ngh. V-Vocês podem dividir com os colegas...'
'Eles trazem as próprias marmitas. Até no ano passado, tive que trazer mais de três quartos de volta porque a gente não conseguiu comer tudo.'
'Mas...'
'Por favor, não faça tanto quanto no ano passado.'
'Tá bom...'
Os ombros de Seol-Ah caíram, com a expressão tomada pela decepção. Kang-Woo deu leves tapinhas nas costas de Seol-Ah e virou-se para Kang-Hyun.
'A Si-Ah vai amanhã também?'
'Ah, sim. Com certeza.'
'Entendo.' Kang-Woo deu um sorriso fraco. 'Certo! Divirtam-se amanhã, filhão! Cuide da Si-Ah também.'
'Sim, pode deixar.'
Kang-Hyun se perguntou por que Kang-Woo havia pedido para ele cuidar de Si-Ah, mas não pensou muito sobre isso. Afinal, ele já planejava ficar com Si-Ah mesmo que o pai não tivesse mencionado.
'Ah, e...' Kang-Woo colocou a mão na cabeça de Kang-Hyun. 'Posso te pedir uma coisa, filho?'
'Sim, claro.'
'Quanto você estaria disposto a sacrificar pelas pessoas que ama?'
'O quê?'
Kang-Hyun inclinou a cabeça, incapaz de entender a pergunta inesperada do pai. Tinha vindo tão do nada que sua mente ficou em branco por um momento.
'Hum... eu...' Ele hesitou por um segundo e respondeu com uma expressão séria: 'Tudo.'
Poderia parecer a ostentação de um pirralho nariz-de-cera, mas Kang-Woo pôde perceber nos olhos do garoto que a determinação dele era verdadeira.
'Bom.' Kang-Woo sorriu e bagunçou o cabelo do filho. 'Você é meu filho mesmo.'
***
O dia seguinte chegou.
'Encham seus sacos de lixo com o lixo que vocês virem daqui até ali~! Todo mundo sabe que não pode sair do parque, né?'
'Sim!'
'Muito bem, então podem ir! Um presente especial meu aguarda a pessoa que juntar mais lixo!'
'Oba!'
'G-Gente! Vocês esqueceram os sacos de lixo!'
Apesar dos esforços da professora para fazer as crianças recolherem o lixo, elas se espalharam pelo parque sem sequer pegar os sacos de lixo e os pegadores.
'Haaa', Kang-Hyun suspirou enquanto pegava um saco de lixo e os pegadores, encarando as crianças que se dispersavam como um rebanho de ovelhas solto em um campo aberto.
Ele não deu importância às crianças se agrupando para brincar e recolheu bitucas de cigarro, lenços de papel, latinhas de bebida e coisas do gênero. Vendo aquilo, um dos amigos de Kang-Hyun se aproximou dele.
'Caramba, olha pra você. Tá mesmo catando lixo?'
'Tem o quê de errado em catar lixo quando é pra isso que a gente veio?'
'Quem liga pra isso? A professora nem tá falando nada.'
Kang-Hyun virou-se na direção apontada pelo amigo e viu a professora titular suspirando enquanto encarava as crianças correndo pelo parque. Ela parecia já esperar que isso acontecesse.
'Você também, Kang-Hyun. Larga esse saco e vamos brincar.'
'Esquece.'
'Por que não?! Olha pra professora, ela não vai brigar com a gente!'
'Não é que ela não vá. Ela não pode.'
'Ãe? O que isso quer dizer?'
'...'
Kang-Hyun estalou a língua e encarou a professora titular deprimida. Ela estava preocupada em ser acusada de abuso infantil ou trabalho forçado pelos pais caso disciplinasse as crianças com rigor.
'Bem... tanto faz, né? Dizem que é limpeza, mas é só um piquenique.'
'Mesmo que seja limpeza só no nome, deveria haver pelo menos resultados mínimos.'
E esses resultados mínimos provavelmente seriam difíceis de lidar para uma professora que estava apenas no seu segundo ano de docência. Kang-Hyun encarou a professora que recolhia o lixo sozinha e voltou a catar os detritos.
'Mmm... eu não entendi muito bem o que você quis dizer, mas você vai continuar catando lixo, né?'
'É.'
'Tsc. O que mais eu podia esperar de um aluno exemplar?'
O garoto balançou a cabeça e correu para junto das outras crianças que estavam escolhendo quem seria o pegador no pique-esconde.
'...'
Kang-Hyun desviou o olhar do amigo e olhou em volta. Como até as turmas da mesma série estavam separadas, ele não viu Si-Ah em lugar nenhum. Ele provavelmente seria impedido pela professora titular caso tentasse ir para a zona de outra turma.
'Vamos ver...'
Kang-Hyun se certifiquei de que não havia ninguém por perto e usou a Autoridade da Pressa para entupir seu saco de lixo. Ele encheu cinco sacos de lixo em um instante. Avaliou que aquilo seria mais do que suficiente para um resultado mínimo.
'Professora'[4].
'E-Hã? Sim, Kang-Hyun?'
'Eu enchi meus sacos.'
'O quê?'
A professora de olhos arregalados sorriu radiantemente, sem esperar que um aluno realmente enchesse o saco de lixo.
'Uau~ Você é o melhor, Kang-Hyun! Eu disse que daria um presente especial, né? Você pode escolher—'
'Não, eu não preciso de presente.'
'S-Sério?'
'Mas a senhora pode fazer outra coisa por mim?'
'O quê?'
Kang-Hyun entregou à professora cinco sacos de lixo cheios até a borda e continuou: 'Por favor, me ajude a ir para a zona de limpeza de outra turma.'
'E-Hã? A zona de limpeza de outra turma?'
'Sim.'
'Isso é meio... As zonas são gerenciadas por professores diferentes...'
'É mesmo...?' Kang-Hyun expressou tristeza e pegou de volta seus cinco sacos de lixo. 'Acho que não tem jeito, então. Vou levar es—'
'N-Não! Me dá só um segundo!' A professora o deteve rapidamente e tirou o smartphone do bolso para ligar para alguém. 'Hum... Ah, sim. A nossa zona não tem tanto lixo assim, então um dos meus alunos se voluntariou para ser transferido para outra zona. Sim... Sim... Não, ele não é um aluno esquisito. A senhora conhece o Kang-Hyun, não conhece? Aquele que ganhou ouro na competição de matemática... Ah, sim. É ele mesmo. Sim... Ah, muito obrigada!'
Kang-Hyun pôde deduzir como foi a conversa ao ver que a professora titular estava suando frio.
'Kang-Hyun! Consegui permissão com o professor da outra turma!'
A professora titular o encarou com os olhos brilhando e um sorriso radiante. Kang-Hyun sorriu e entregou a ela os sacos de lixo lotados.
'A senhora é a melhor, professora.'
É claro que ele não se esqueceu de elogiar a professora que havia dado o seu melhor.
1. Prato japonês de carne de porco empanada e frita. ☜
2. Rolinho de arroz coreano enrolado em alga marinha. ☜
3. Carne bovina grelhada marinada em molho de soja agridoce. ☜
4. É assim que os professores são chamados na Coreia, e não pelo sobrenome. ☜