
Capítulo 773
Depois de Dez Milênios no Inferno
Uma brisa refrescante varreu a cobertura do apartamento. Luzes brilhantes preenchiam a cidade de concreto, parecendo contemplar o céu noturno.
— Peço desculpas. Ficou meio barulhento demais para o seu primeiro dia aqui, né?
Oh Kang-Woo inclinou-se para a frente no parapeito da cobertura e entregou uma lata de cerveja a Kwon Oh-Jin.
— Imagina. Eu é que deveria agradecer por nos dar uma recepção tão grandiosa.
— Não chamaria de grandiosa... minha esposa estava me dando bronca agorinha por eu ter servido ensopado de kimchi numa situação dessas.
— Haha. Que nada. Ajudou bastante a me adaptar.
Um silêncio constrangedor pairou após a conversa. Kang-Woo planejava construir uma boa relação com os indivíduos de outro mundo para evitar conflitos desnecessários, mas não conseguia pensar em sobre o que conversar com Oh-Jin agora que estavam a sós.
Kang-Woo abriu a boca depois de pensar um pouco: — Hmm... Ha-Eun, era esse o nome? Ela parece estar se dando super bem com a minha esposa.
— Ah, ela tende a ser um pouco... não, bem despreocupada.
Kang-Woo lembrou-se de como elas estavam bebendo animadamente com os braços enlaçados nos ombros uma da outra, como se se conhecessem desde crianças. As duas mulheres, com personalidades e aparências semelhantes — tirando os seios —, estavam se dando tão bem que nem perceberam quando Kang-Woo e Oh-Jin escapuliram.
— Fora isso, vocês dois não eram um casal? Você chama ela de noona.
Mesmo quando um homem namorava uma mulher mais velha, costumavam falar de igual para igual.
— Ah, eu a chamo assim desde os tempos de orfanato, então é mais confortável chamá-la de noona do que pelo nome.
— Orfanato?
— Sim.
— Você também foi criado em um orfanato, Oh-Jin?
— Ah, você também, Kang-Woo?
Kang-Woo e Oh-Jin se encararam surpresos. Eles riram ao descobrir que compartilhavam de mais uma coisa em comum: ambos cresceram sem os pais.
— Parece que temos muito em comum, Oh-Jin.
Eles possuíam duas das Escuridões Primordiais, foram criados em origens semelhantes e também tinham uma relação complicada com as mulheres. Era como olhar para um espelho.
— E mais uma coisa.
Eles não tinham baixado a guarda, apesar de beberem cerveja amigavelmente juntos.
— Um ataque surpresa... não funcionaria.
Kang-Woo simulou um ataque surpresa contra Oh-Jin, mas falhou. Era impossível subjugar Oh-Jin com um único golpe.
— Sim, concordo. Temos... muitas coisas em comum.
Oh-Jin concordou com a cabeça, sorrindo, e jogou a lata de cerveja vazia em direção à sua própria sombra.
Croc.
A lata de cerveja amassou assim que encostou na sombra de Oh-Jin e desapareceu sem deixar vestígios. Por coincidência, desde o momento em que chegaram à cobertura, Kang-Woo havia se posicionado naturalmente em uma direção que a sombra de Oh-Jin não conseguía alcançar — como se fosse por acaso.
— Ele percebeu — pensou Oh-Jin.
Ele não sabia se Kang-Woo era cauteloso ou se conhecia uma parte do que o Céu Negro era capaz de fazer, mas uma coisa era certa.
— Mentiras não funcionam com ele.
Oh-Jin era um mentiroso extraordinário. Não só conseguia enganar os outros, como a si mesmo. Ele havia tentado vinte e três vezes desde o momento em que conheceu Kang-Woo colocá-lo dentro de seu alcance de ataque. Ele agia com mentiras tão perfeitas que enganavam até a si mesmo, mas todas falharam.
— Tenho que admitir, é fascinante — disse Kang-Woo, olhando para a sombra de Oh-Jin. — Como você consegue se mover sem demonstrar nenhuma sede de sangue... não, nenhuma intenção sequer?
Os seres humanos sempre se moviam com intenção, pois até os menores movimentos, como pegar algo, olhar para alguma coisa ou dar um passo, carregavam um propósito.
— Mas...
Kang-Woo não conseguia sentir nenhuma intenção desse tipo nas ações de Oh-Jin. Era como se ele estivesse se movendo sem nem perceber.
— Bem... você pode chamar isso de um truquezinho — respondeu Oh-Jin.
— É incrível demais para ser chamado apenas de truque.
Kang-Woo deu um sorriso irônico e encostou-se mais no parapeito. Era engraçado como riam enquanto travavam uma guerra de nervos invisível.
— Vamos parar?
— Sim, isso já basta.
Aquilo era mais do que suficiente para confirmar que não guardavam nenhum rancor um do outro. Não havia necessidade de lutarem só por lutar, como guerreiros Saiyajins obcecados por batalhas.
— Sabe... para falar a verdade, estou um pouco curioso — comentou Kang-Woo.
— Sobre o quê?
— O poder que você possui se chama Céu Negro, né?
— Sim.
— Não fica curioso para ver o que aconteceria se o céu e o mar batessem de frente?
Kang-Woo não perguntou por desejo de lutar — era puramente por curiosidade. Oh-Jin sorriu e assentiu.
— Eu também estou um pouco curioso...
Os dois se encararam fixamente. Nuvens Negras e Chamas da Voracidade surgiram de forma explosiva. No entanto, eles pararam simultaneamente bem na hora em que o Céu Negro e o Mar Demoníaco estavam prestes a colidir diretamente.
— Mas é melhor a gente não testar isso.
— É verdade.
Kang-Woo e Oh-Jin sorriram sem sinceridade e retraíram seus poderes. Ambos eram poderosos demais para se enfrentarem por pura curiosidade. O ambiente ao redor pagaria o preço por essa curiosidade.
— Já que é o destino termos nos encontrado assim, por que a gente não começa a falar de tu?
— Hmm... mas a gente acabou de se conhecer.
— Ah, qualé, minha esposa e a sua noona já estão xingando uma a outra.
Oh-Jin riu e assentiu. — É porque elas são as esquisitas. Mas sim, parece uma boa ideia. Para falar a verdade, eu não tenho experiência nenhuma em ser próximo de caras da minha idade.
— Hm? Você só era próximo da Ha-Eun mesmo nos tempos de orfanato?
— Sim. Mesmo depois que saímos... eu não tive oportunidade de fazer amigos homens.
— Caramba~ e você tem três namoradas... não, você disse que aquela deusa também é sua namorada, né? Você tem quatro namoradas e não teve a chance de fazer amigos homens? Isso é meio... — Kang-Woo sorriu de forma provocativa.
— E-Ejem. Acho que você não tem moral para falar muito, não — retrucou Oh-Jin.
— Hehe. Pelo menos eu tenho dois caras que considero meus irmãos mais novos.
— Isso é... — Oh-Jin resmungou e desviou o olhar de Kang-Woo. Kang-Woo soltou uma risadinha e recostou-se no parapeito.
— Talvez essa seja a sua chance — comentou ele.
— Bem... se você faz questão, acho que não tenho escolha. Vou falar de tu também.
Oh-Jin sorriu fracamente e assentiu. Ele queria se aproximar de Kang-Woo desde o momento em que o conheceu. Por algum motivo, sentia uma certa familiaridade com ele.
— Valeu — disse Oh-Jin.
— Hm? Pelo quê?
— Sabe... eu não teria conseguido tratar alguém de outro mundo com tanta gentileza.
— Podemos vir de mundos diferentes, mas eles não são tão diferentes assim.
— Nesse ponto você tem razão.
Kang-Woo perguntou orgulhoso: — Ah, o que achou do ensopado de kimchi? Você nunca tinha comido um ensopado tão gostoso no seu mundo, né?
Oh-Jin deu um sorriso maroto. — É. Sua esposa cozinha muito bem.
— Meu Bem é uma cozinheira fenomenal.
Bah, a Bella também cozinha muito bem. Ah, mas ela é melhor em culinária ocidental do que coreana.
— A Bella é... aquela loira alta, né?
— É.
— Agora que lembrei, ela e a baixinha têm aparências e auras muito parecidas.
— Ah, a Cassia e a Bella são irmãs. A Cassia é a mais velha e a Isabella é a mais nova.
— O quê...? — Os olhos de Kang-Woo se arregalaram. — Espera um segundo. Isso é um *shimaidon*—[1]
— Caramba~ vocês têm uma vista ótima! A paisagem noturna é de matar!
Oh-Jin suou frio enquanto desviava descaradamente o olhar de Kang-Woo. Kang-Woo bufou, boquiaberto.
— Maldito pervertido.
— Cala a boca.
— Como você teve coragem de pegar duas irmãs biológicas...?
— Não quero ouvir isso de um cara com três esposas.
— Pelo menos eu não tenho quatro namoradas.
— Não tem tanta diferença assim entre três e quatro.
— O que você disse?
— Olha esse folgado, já metido a besta só porque pegou intimidade. Não posso deixar isso passar.
— Pensando bem, quantos anos você tem? — perguntou Kang-Woo.
— Eu?
— É, mano. Já que estamos falando de tu, pelo menos precisamos decidir quem é o mais velho.
— Hmm... — Oh-Jin resmungou.
Como Kang-Woo havia mencionado, determinar quem era o mais velho e o mais novo era algo muito importante entre os homens coreanos. Eles frequentemente exigiam saber a idade do outro quando entravam em uma discussão.
— A Ha-Eun tem pouco mais de trinta, então você também tá nessa faixa de idade, né? — perguntou Kang-Woo.
— Eu... — Oh-Jin caiu em reflexão. Ele assentiu como se tivesse tomado uma decisão e disse firmemente: — Para falar a verdade, eu sou um regressor.
Kang-Woo ficou de queixo caído com a declaração chocante.
— Um regressor?
— É, então, se você levar em conta o tempo que eu já vivi, sou muito mais velho que a noona.
— Entendi. E quantos anos?
— Não tenho certeza. — Oh-Jin olhou para o céu noturno, sorriu e continuou: — Não me lembro exatamente, mas... diria que por volta de mil anos.
— Mil, é? Mhm, entendi. Então acho que o mais velho sou eu.
— O quê...?
— Eu tenho mais de dez milênios de idade, seu pirralho ranhento.
1. Shimaidon é um termo japonês que se refere a uma situação em que um homem se envolve com duas irmãs ao mesmo tempo. ☜