
Capítulo 770
Depois de Dez Milênios no Inferno
Uma Fenda colossal havia se aberto a cerca de 12.000 quilômetros acima de Seul, bem acima da espessa camada de nuvens. Parecia que alguém havia estilhaçado o céu com um martelo gigantesco. A Fenda, com centenas de quilômetros de extensão, dava a impressão de que o Apocalipse tinha chegado.
— É essa a Fenda de que você falou?
[Sim!]
— Ela é... com certeza maior do que qualquer coisa que eu já tenha visto.
Kang-Woo estalou a língua enquanto encarava a Fenda com centenas de quilômetros de comprimento. Considerando que Fendas com mais de duzentos metros já eram conhecidas como Fendas grandes, o tamanho daquilo superava em muito qualquer Fenda que Kang-Woo já tivesse fechado.
— Ainda BEM que o tempo está uma merda.
Haveria um pânico em massa em Seul se o céu estivesse limpo. O país inteiro perderia a cabeça se visse algo assim depois das invasões de demônios anos atrás.
— A-Amor... tem problema isso?
Han Seol-Ah se aproximou por trás, batendo suas asas pretas e olhando com preocupação para a Fenda que cobria o céu. Ele costumava ir sozinho fechar Fendas porque só ele conseguia fazer isso, mas pediu para que elas viessem como reforços potenciais, já que aquela Fenda não se parecia com nada que ele já tinha visto. Elas não chamavam tanta atenção perto de Kang-Woo, mas cada uma de suas esposas estava entre os seres mais fortes do mundo.
Ele queria tranquilizar Seol-Ah, mas a situação era tão grave que não conseguia mentir e dar falsas esperanças a ela.
— Por que você está com essa cara de tacho? Não parece coisa sua, maridinho. Que se dane se a Fenda é enorme! A gente só tem que descer a porrada no que sair de lá e mandar de volta para o inferno de onde vieram — gritou Yeon-Joo, tentando encorajar o ansioso Kang-Woo.
— ... — Kang-Woo encarou Yeon-Joo. — Acho que você não encorajaria ninguém nesse estado.
— C-Cala a boca! Eu não sei voar que nem vocês! O que mais você quer de mim?!
Eles estavam a 12.000 quilômetros de altitude no céu. Ao contrário de Kang-Woo com a Autoridade do Céu, e de Lilith e Seol-Ah com suas asas, Yeon-Joo era apenas humana — ela não podia planar livremente pelos céus.
— Droga... Não é como se eu quisesse estar nessa posição!
Portanto, a única maneira de ela acompanhá-los era grudando nas costas de Lilith como uma cigarra. Mesmo não tendo escolha, Kang-Woo não pôde deixar de rir ao vê-la.
— Fufu. Não poderia estar mais feliz por carregar minha irmãzinha nas costas.
— Ah! C-Unnie! Onde diabos você está pondo a mão?!
— Ora~ Yeon-Joo, você tem um bumbum bem grandinho, hein.
— Argh! Para de tocar, droga!
Kang-Woo sorriu enquanto as duas faziam piadas mesmo diante de uma super Fenda que nunca tinham visto antes. No entanto, elas não conseguiram manter essa atitude por muito tempo. Kang-Woo se aproximou de Yeon-Joo e colocou a mão no ombro dela.
— Ãh? E-Estou voando! Estou voando!
— Você está sendo erguida pela Autoridade do Céu. Como tem uma parte da minha Divindade, pode usar temporariamente as minhas Autoridades.
— Seu...! Usa uma coisa dessas antes se você tem! — reclamou Yeon-Joo enquanto descia das costas de Lilith.
Ela não devia estar acostumada, já que era a primeira vez que usava a Autoridade do Céu, mas ainda seria bem melhor do que lutar agarrada nas costas de Lilith.
— Eve, como está a situação da Fenda?
[Urgh... E-Ela está extremamente instável. Qualquer ser do outro lado da Fenda pode atravessar a qualquer segundo!]
Kang-Woo pôde perceber o quão ansiosa Eve estava, mesmo sem ela usar nenhum emote.
— Você tem alguma ideia do que há do além da Fenda?
[Não, além de ser colossal... e possuir um poder no nível de um Titã.]
— Hmm, é mesmo?
Kang-Woo já havia devorado dois Titãs, mas não podia subestimar o poder insondável deles.
— A Terra quase foi destruída quando lutei contra Akart.
Não era uma questão de saber se Kang-Woo conseguiria vencer — a Terra inteira poderia ser arrasada por causa de uma batalha transcendental daquelas.
— Na melhor das hipóteses, isso se resolve sem luta.
No entanto, era improvável que as coisas saíssem do jeito que ele esperava.
— Tsc — Kang-Woo estalou a língua e olhou para a Fenda colossal.
Se vissem aquilo, qualquer um acreditaria que o fim da Terra havia chegado. Ele se perguntou se o céu iria se estilhaçar e desabar no chão.
— Hm...?p
Nesse exato momento, ele sentiu uma energia muito familiar fluindo de dentro da Fenda.
— O que é isso?
Ele não sabia como descrever a sensação — era como se estivesse se reunindo com um membro da família que nãovia há muito tempo.
— O... Mar Demoníaco?
Não, não era o Mar Demoníaco. Era parecido, mas diferente — como dois lados da mesma moeda.
ESTRONDO —!
Uma nuvem negra de Nimbus saiu da Fenda junto com o som de um trovão, cobrindo o céu. Um homem saiu de dentro da nuvem — para ser mais exato, um homem e uma fada do tamanho da palma de uma mão.
— Hm? — Os olhos do homem se arregalaram ao cruzar o olhar com Kang-Woo. — Ãh? Q-Que diacho é isso?
[O que foi, meu filho?] — perguntou a fada sentada no ombro do homem, inclinando a cabeça.
— O quê... como isso é possível...
O homem encarou Kang-Woo, incapaz de fechar a boca.
— ...
— ...
Os dois homens encararam um ao outro, paralisados. O ar ficou tomado por um silêncio constrangedor. Três mulheres saíram da Fenda logo depois do homem, quebrando o silêncio.
— O que você está fazendo aí parado, Oh-Jin?
— Aconteceu alguma coisa, Oh-Jin?
— Ora... parece que temos convidados para nos dar as boas-vindas.
Havia uma mulher ruiva com um tapa-olho preto cobrindo um dos olhos, uma mulher de belos cabelos dourados e uma mulher tão magrinha que poderia ser confundida com uma criança. Não era algo que um homem casado devesse dizer, mas a beleza daquelas mulheres estava no mesmo nível das esposas de Kang-Woo.
— Quem diabos são eles, maridinho...?p
— Cuidado, amor.
— Hmm. Pelo menos não parecem ser feras sem raciocínio.
As seis mulheres se encararam ao lado dos dois homens. A mulher com o tapa-olho cutucou as costillas do homem chamado Oh-Jin e quebrou o silêncio constrangedor.
— Oh-Jin, tem certeza de que este é o mundo para onde a mosca fugiu?
— Uhh... é, sim.
— Então quem são eles? Os capachos da mosca?
— Não, acho que não.
— Então o quê?
— Eu... também não tenho certeza. Esperava encontrar outras formas de vida, mas...
As pessoas vindas de além da Fenda pareciam tão confusas quanto eles. O homem chamado Oh-Jin gemeu e se virou para Kang-Woo e seus companheiros.
— Hmm... bem, se você não sabe, é só perguntar. Ei! Quem diabos são voc—
<p>— E-Espera, noona! Fica quietinha aí!</p><p>— Mmrp! Mmrp!</p><p>O homem agarrou a mulher do tapa-olho bem quando ela estava prestes a se aproximar de Kang-Woo de forma imprudente e tapou a boca dela. A mulher se debateu nos braços dele.
— Hmm.
Kang-Woo inclou a cabeça, curioso, encarando a mulher que o lembrava tanto a Yeon-Joo.
— Que sensação de empatia é essa que estou sentindo?
A energia daquele homem parecia tão familiar ao Mar Demoníaco. Pela forma como as mulheres olhavam para o homem, Kang-Woo percebeu que elas não eram apenas conhecidas, e que o homem estava tendo trabalho com o comportamento impulsivo daquela mulher. Era como olhar para um espelho. Kang-Woo tinha certeza de que nunca tinha visto aquele homem na vida, mas achava ele estranhamente familiar.
— Pelo menos... parece que consigo conversar com ele, ao contrário do Akart.
Kang-Woo sentia que jamais conseguiria se entender com Akart, não importava o que fizesse — eles eram como linhas paralelas que nunca se cruzavam. No entanto, sentia que ele e aquele homem eram como duas linhas originadas de uma mesma raiz, como um irmão há muito perdido. Pelo menos, ele não sentia nenhuma hostilidade vinda dali.
— Eles disseram algo sobre vir a este mundo atrás de uma mosca.
Se a mosca a que se referiam era a Divindade que havia atacado Kang-Hyun e Si-Ah...
— Não há... necessidade de ser hostil com eles por enquanto.
Kang-Woo deu um sorriso fraco de alívio ao ver a possibilidade de que as coisas pudessem ser resolvidas na base da conversa, como ele esperava.
— Não, é muito cedo para aliviar a guarda.
Ele precisava causar uma boa primeira impressão para resolver o assunto conversando.
— Uma boa impressão, hein?
Havia um método que era o mais eficaz para causar uma boa impressão em alguém sobre si mesmo.
— Hmm... Posso te chamar de Oh-Jin?
— Ah, sim. Meu nome é Kwon Oh-Jin.
— Eu sou Oh Kang-Woo.
Kang-Woo sorriu e estendeu a mão na direção do visitante de outro mundo. Eles apertaram as mãos enquanto Kang-Woo usava a maneira mais eficaz de causar uma boa primeira impressão — encontrar algo em comum.
— Estas moças são suas esposas?
— Ah... ainda não fizemos uma cerimônia, mas... sim, dá para dizer que são.
— Haha. Que coincidência.
— Eu também tenho três esposas!