Depois de Dez Milênios no Inferno

Capítulo 771

Depois de Dez Milênios no Inferno

— Por favor, entrem.

Oh Kang-Woo abriu a porta da frente de sua casa e convidou Kwon Oh-Jin e suas acompanhantes para entrarem. Embora convidar indivíduos de um mundo exterior para sua casa pudesse parecer extremamente imprudente, era a melhor maneira de construir uma relação amigável.

O gesto de Kang-Woo ao convidá-los para sua casa equivalia a dizer que ele não tinha interesse em lutar contra eles. Mas, é claro, ele havia enviado seus filhos para a casa de Kim Si-Hun, por precaução, caso algo acontecesse.

— Com licença.

Oh-Jin curvou-se levemente para Kang-Woo e entrou. Ele e suas namoradas sentaram-se à mesa de jantar, e Han Seol-Ah serviu-lhes café. O aroma único de café soltou preencheu o ambiente.

— Muito obrigado — disse Oh-Jin enquanto ele e suas companheiras tomavam o café.

— Hein...? — Song Ha-Eun, a mulher com um tapa-olho cobrindo o olho direito, virou-se para Seol-Ah assim que terminou de beber e perguntou: — Por acaso o nome deste café é... Maxim?[1]

Seol-Ah respondeu: — Ah, sim. Desculpem. Faltou tempo para passar um café de verdade, então decidi fazer um solúvel mesmo...

— Não, não foi por isso que perguntei... — Ha-Eun balançou a cabeça em descrença e continuou: — Como pode existir café Maxim neste mundo também?

— O nosso mundo tem o mesmo café solúvel. O nome também é igual.

— ...

Ter exatamente a mesma marca de café solúvel em ambos os mundos não podia ser mera coincidência.

— Este lugar também é a Terra, não é? — perguntou Oh-Jin, virando-se para Kang-Woo.

Kang-Woo estalou a língua e assentiu, como se já esperasse por isso.

— Vendo pelo modo como você fala, você também deve ser da Terra.

— Não acho que seja exatamente igual, mas... sim, nós também somos da Terra.

— Huu — suspirou Kang-Woo.

Ele não conseguia acreditar que aqueles seres de outro mundo, vindos de além da Fenda, também fossem da Terra.

— O que é isso, universo Marvel? Agora temos universos paralelos? Isso tá me deixando maluco.

Ele já conhecia a ideia de universos paralelos por causa de vários desenhos e filmes, mas sua cabeça doía só de ter a confirmação de que aquilo era real.

— Então, os Nove Infernos existem lá também? — perguntou Kang-Woo.

— Perdão? Não, nunca ouvi falar de nada parecido.

— Hmm.

— Nossos mundos não parecem ser exatamente iguais.

— Sobre os Nove Infernos eu não sei, mas... o nosso mundo tem entidades conhecidas como Celestiais[2].

— Celestiais?

— Sim. São seres divinos... Acho que é melhor mostrar do que explicar. — Oh-Jin fez um gesto para a fada em seu ombro e disse: — Por favor, Vega.

[Hmm. É difícil manifestar minha verdadeira forma em um mundo exterior, mas... não posso recusar seu pedido.]

A fada voou para o ar e seu corpo brilhou intensamente. Em um piscar de olhos, ela cresceu do tamanho da palma da mão para o de uma mulher adulta. Ela abriu os olhos lentamente, revelando suas íris douradas e brilhantes. A fada — não, a deusa que parecia uma estrela solitária brilhando no céu noturno — virou-se para Kang-Woo e suas esposas enquanto seus cabelos prateados, que chegavam até a cintura, esvoaçavam suavemente.

[Eu sou Vega, a Celestial de Lira.]

A presença dela era avassaladora. Kang-Woo finalmente entendeu o que Oh-Jin quis dizer ao chamar os Celestiais de seres divinos.

Oh-Jin continuou: — Os Celestiais concedem estigmas aos humanos e os transformam em Transcendentes[3].

— De fato, nós não temos entidades assim no nosso mundo. Ou, para ser mais exato, não tínhamos — esclareceu Kang-Woo.

— ...

A expressão de Oh-Jin endureceu. Kang-Woo estalou a língua e recostou-se na cadeira.

— Você disse antes que veio a este mundo perseguindo aquela mosca. Pode nos contar mais detalhes?

Era hora de descobrir a verdadeira identidade daquele inseto que voava por aí fazendo o que bem entendia.

***

Resumindo a história de Oh-Jin, ele era o mestre do Céu Negro, uma das duas trevas nascidas do Primordial[4]. Ele havia descoberto rastros do Celestial de Musca, que possuía uma fração do Céu Negro, tendo cruzado para outro mundo. Por isso, Oh-Jin estava ali para recuperar o Céu Negro que o Celestial levava consigo.

— Entendi — Kang-Woo assentiu após ouvir a explicação.

— Então ele veio recuperar o poder do Céu Negro.

Ele entendeu qual era o objetivo de Oh-Jin, mas havia um problema.

— Me desculpe, mas você poderia desistir de perseguir o Celestial? — perguntou Kang-Woo.

— Desistir...? — Os olhos de Oh-Jin se estreitaram.

Kang-Woo explicou calmamente: — Como deve ter percebido no caminho até aqui, não existe nenhuma Lei neste mundo.

A Lei dos Titãs, que regulava os vários fenômenos de um mundo e o protegia de invasões de outras dimensões, simplesmente não existia na Terra de Kang-Woo.

— Sem Lei?

Oh-Jin olhou surpreso para Vega. A fada, ainda em sua verdadeira forma, assentiu.

[Parece que ele está dizendo a verdade. Não sinto nenhuma restrição ao meu poder, mesmo na minha verdadeira forma.]

— O qu... —

Oh-Jin franziu a testa. A Lei dos Titãs em seu próprio mundo também havia enfraquecido devido à influência do Céu Negro, mas não tinha desaparecido completamente como no mundo de Kang-Woo.

— Se você, um indivíduo poderoso de outro mundo, usar seus poderes em um lugar que não é protegido por uma Lei... a Fenda pela qual você passou pode crescer descontroladamente — comentou Kang-Woo.

— Compreendo.

Em outras palavras, aquele mundo era como um caracol sem concha.

— Quer dizer... este lugar parece bem seguro, apesar de tudo.

Não ter uma Lei para proteger o mundo não importava muito se ele fosse habitado por alguém mais poderoso do que a própria Lei.

— Um humano capaz de substituir a Lei dos Titãs...

Oh-Jin sorriu com amargura enquanto encarava o homem chamado Kang-Woo. Ele pensava que ninguém no mundo seria páreo para ele agora que conseguia controlar dois Céus Negros.

— Acho que eu não passava de um reles sapo no fundo do poço.

Ele sentiu medo — uma emoção que não experimentava há muito tempo — quando apertou a mão de Kang-Woo. A sensação era a de estar afundando em um oceano sem fim.

— O céu e o mar.

As duas trevas nascidas do Primordial: o Céu Negro e o Mar Demoníaco. Ninguém seria capaz de julgar qual das duas era mais forte.

— Mas, pelo menos... eu não sairia ileso se lutasse contra este homem.

Eles ainda não haviam medido forças, mas Oh-Jin sentia que não conseguiria vencer Kang-Woo.

— E eu também não tenho motivos para isso.

Oh-Jin não era tonto a ponto de não entender o verdadeiro significado de Kang-Woo tê-los convidado para sua casa. No entanto...

— Não estou duvidando das suas capacidades, mas gostaria de confirmar com meus próprios olhos que o poder do Céu Negro foi recuperado em segurança.

— Ou seja, você ainda não pode ir embora?

— Com todo o respeito, você não espera que a gente vá embora depois de vir até aqui atrás daquele desgraçado só porque você mandou, né?

— Hmm...

Oh-Jin tinha um ponto.

— Sendo assim, vamos fazer o seguinte — Kang-Woo sorriu após pensar um pouco e continuou: — Eu capturo aquela mosca e a entrego a você. Enquanto isso, por que vocês não aproveitam para tirar umas férias neste mundo?

— Férias?

— Sim. Afinal, nossas Terras não são exatamente iguais. Tirem o tempo que precisarem para explorar este mundo e encontrar o que há de diferente em relação ao de vocês.

— Entendo.

Não era uma ideia ruim. Eles não precisariam ter o trabalho de caçar os rastros daquela mosca irritante, e as pessoas daquele mundo fariam todo o serviço pesado por eles.

— O que acha, noona[5]? — perguntou Oh-Jin, virando-se para Ha-Eun.

Ha-Eun cruzou as pernas esbeltas e cruzou os braços.

— Olha, eu adoraria passar umas férias relaxantes com você, mas... pelo que vi no caminho até aqui, não parece haver tanta diferença entre o nosso mundo e este. Será que vamos achar alguma diferença?

— Claro que vão — respondeu Kang-Woo, balançando a cabeça positivamente.

O olho de Ha-Eun brilhou com genuíno interesse diante da certeza de Kang-Woo.

— Ah é? Tipo o quê? — perguntou ela.

— Haha, pois é...

Kang-Woo sorriu para atiçar a curiosidade dos convidados.

— Consegui construir uma relação amigável com eles.

O próximo passo era estreitar ainda mais os laços de amizade.

— Afinal de contas, não precisamos ser inimigos.

Kang-Woo não sentia que perderia para Kwon Oh-Jin, mas uma batalha entre eles causaria destruição em massa na Terra. Ele venceria a luta, mas perderia de alguma forma ou de outra.

— Deixando tudo isso de lado... eu fui com a cara dele.

Apesar de ser a primeira vez que se encontravam, Kang-Woo sentia uma estranha sensação de familiaridade com Oh-Jin. Ele sentia que poderia se tornar tão próximo dele quanto era de Si-Hun e Kang Tae-Soo.

— Sendo assim...

Era da natureza humana querer proporcionar a eles algo que jamais conseguiriam provar em sua própria Terra. Kang-Woo soltou um muxoxo animado e encarou Oh-Jin e suas companhelas.

— Vocês já comeram ensopado de kimchi[6]?

— Perdão?

— Hein?

— Ensopado de kimchi...?

Oh-Jin e as mulheres encararam Kang-Woo com uma expressão de total confusão. Obviamente, o ensopado de kimchi também existia na Terra deles.

— É claro que j—

— NÃO! O ENSOPADO DE KIMCHI QUE VOCÊS COMEM NÃO É UM ENSOPADO DE KIMCHI DE VERDADE!

— Hã?

— Do que diabos esse maluco tá falando? — pensaram eles.

— Só o ensopado de kimchi que a minha querida faz pode ser chamado de ensopado de kimchi de verdade! — berrou Kang-Woo, desferindo um soco na mesa.

— A-Amor! O que você tá dizendo?!

O rosto de Seol-Ah ficou rubro enquanto ela corria até Kang-Woo para tapar a boca dele. Ha-Eun, boquiaberta com a cena de comédia pastelão que se desenrolava diante de seus olhos, virou-se para Oh-Jin.

— Oh-Jin, esse cara tem uns parafusos a menos.

— Ah... é. — Oh-Jin sorriu sem jeito e deu de ombros. — Bem, vamos provar primeiro para ver qual é a diferença.

Foi assim que o encontro histórico entre o Céu Negro e o Mar Demoníaco começou com uma repentina festa de ensopado de kimchi.

***

— Caramba! Tenho que admitir, isso aqui tá espetacular. Seol-Ah, é esse o seu nome? Você cozinha demais! — exclamou Ha-Eun.

— Oh, muito obrigada — respondeu Seol-Ah.

— Ei, quem você pensa que é para falar desse jeito informal com a Seol-Ah?

— Ah? E quem é você?

— Meu nome é Cha Yeon-Joo.

— Ah, eu sou a Song Ha-Eun. Muito prazer. Desculpa falar informalmente logo no nosso primeiro encontro. É o meu jeito, então não leva a mal. Pode falar de igual para igual comigo também.

— Ah, tsc... bem, tudo bem. Vou fazer isso. Eu também não curto muito essa formalidade toda.

— Olha só, parece que a gente se deu super bem! Não é à toa que a cor do nosso cabelo é igualzinha!

— Ah, para, o que é que a cor do cabelo tem a ver com isso? Quer dizer... é, preciso admitir que a nossa personalidade é bem parecida.

— Pena que o tamanho dos nossos peitos seja completamente diferente.

— O que foi que você disse, sua desgraçada?!

Surpreendentemente, o ensopado de kimchi de Seol-Ah serviu como a ponte perfeita entre os dois mundos.

[1] - Maxim é o nome de uma famosa marca coreana de café solúvel.

[2] - Celestiais: Seres divinos e poderosos que concedem stigmata (marcas sagradas) aos humanos, transformando-os em Transcendentes.

[3] - Transcendentes: Seres humanos que ultrapassaram seus limites mortais após receberem o poder de um Celestial.

[4] - Primordial: A entidade ou essência original que deu origem às forças primordiais do universo, como o Céu Negro e o Mar Demoníaco.

[5] - Noona: Termo coreano usado por homens para se dirigir a uma mulher mais velha ou a uma amiga íntima.

[6] - Kimchi: Prato tradicional coreano feito à base de vegetais fermentados (geralmente acelga), conhecido por seu sabor apimentado e marcante.

Comentários