
Capítulo 768
Depois de Dez Milênios no Inferno
— A-A-Atchim! O-O que eu disse agorinha foi... hum... a-um acidente! É melhor você esquecer isso! Entendeu?! — gritou Kim Si-Ah, com o rosto vermelho igual a um tomate.
Oh Kang-Hyun se perguntou como alguém podia falar formalmente com um amigo da mesma idade, mas resolveu não perguntar porque Si-Ah parecia que ia explodir ao menor toque.
— Entendi, então para de puxar minha roupa. Você vai esgarçar ela.
— É porque você não para de sorrir!
— Eu não tô sorrindo.
— Mentiroso! Você tá sorrindo bem agora!
Ele não conseguiu evitar um sorriso ao ver Si-Ah batendo os pés com as bochechas bem vermelhas.
— Vamos lutar!
— Hã?
Si-Ah fuzilou Kang-Hyun com o olhar, decidida a arrastá-lo para a sala de treino e dar uma surra nele. Kang-Hyun sorriu sem jeito enquanto um suor frio escorria pelas suas costas.
— Mmm... Talvez hoje não.
— Ah, por que não? Você tá tratando o nosso treino que nem sanfona de regime[1]?
— Não, não é isso—
— Então vem comigo pra sala de treino agora mesmo! — gritou Si-Ah, dentes apertados.
— Acho que vou apanhar o dia todo se seguir ela pra sala de treino.
Deixando de lado a diferença absurda de nível entre eles, Kang-Hyun não estava nas melhores condições no momento. Mesmo tendo conquistado uma vitória esmagadora contra Jeon Yeong-Woong, fazia apenas algumas horas desde que ele havia dado tudo de si.
— Mas duvido que ela vá me ouvir mesmo se eu disser isso.
Por isso, ele deu outro motivo.
— É um desperdício treinar vestida tão bonito, não acha? — disse ele, apontando para a blusa branca de Si-Ah.
— A-Ah? O-O que você acabou de dizer? — gaguejou Si-Ah, com os olhos arregalados.
— Eu disse que é um desperdício treinar vestida tão bonito.
— Ngh...!
O rosto de Si-Ah ficou vermelho vivo de novo, parecendo soltar fumaça. Ela respirava fundo enquanto se aproximava de Kang-Hyun e beliscava o flanco dele com força.
— Oh Kang-Hyun, seu...!
— Ai! Qual é a sua do nada?!
— P-Por que você fica falando essas coisas?! Hã? Qual é a sua intenção?!
— Q-Que intenção, o quê?
— Argh! Eu odeio essa sua cara de quem não tá entendendo nada! — Si-Ah suspirou fundo enquanto beliscava a costela de Kang-Hyun com toda a força. — Haaa. Tá bom, beleza. Vamos começar a treinar amanhã.
— M-Muito obrigado...
— Em troca, sai comigo hoje.
— Hã? Sair?
Kang-Hyun encarou Si-Ah confuso. Vendo aquilo, ela franziu a testa e cruzou os braços.
— Você não ia só almoçar e dar o fora depois de chamar uma garota pra sair, ia?
— Hã?
— Esse era o plano.
— Sério?
— C-Claro que não! Seria ridículo dar o fora depois de só almoçar! Tem algum lugar que você quer ir?
— Qualquer lugar tá bom.
— ...
— Droga. Lá vai ela com essa resposta de novo.
Kang-Hyun expressou frustração enquanto quebrava a cabeça tentando pensar em um lugar para irem. Ele conseguia pensar em vários lugares no resort, já que estava cheio de instalações diferentes, mas sua mente estava em branco bem naquela hora.
— Uhhh... B-Bem...
Foi aí que ele lembrou dos colegas de classe perguntando se ele queria ir a um fliperama.
— Que tal um fliperama?
— Fliperama?
— É. Você já foi?
— Não, nunca. — Si-Ah balançou a cabeça, com os olhos brilhando de interesse.
— Beleza, vamos dar uma olhada.
O fliperama localizado perto da estação, bem maior do que os encontrados normalmente na Coreia, estava lotado de máquinas de pegar pelúcia, socadores de força, jogos de ritmo e jogos de tiro.
— Uau, então é assim que é um fliperama.
Si-Ah olhava em volta como uma caipira que tinha acabado de se mudar para a cidade grande. O lugar era cheio de barulhos e cores vibrantes. As luzes baixas davam a sensação de estarem no espaço sideral.
— Você já veio muito a fliperamas, Kang-Hyun? — perguntou Si-Ah.
— Não muito. Só fui arrastado pra cá algumas vezes pelos meus amigos.
— Arrastado... por amigos?
— Qual é o problema?
— V-Você tem amigos, Kang-Hyun?!
— Quê?
Kang-Hyun estava prestes a perguntar qual era o espanto em ter amigos, mas se conteve.
— Mais do que amigos... eu diria que são caras com quem eu ando.
— Isso é o que a gente chama de amigo.
— A gente não sai tanto assim. Eu até recusei quando eles chamaram pra sair hoje.
— Humm... é mesmo?
Si-Ah fez um bico insatisfeita, parecendo chocada por Kang-Hyun ter amigos. Mas durou pouco. Ela logo voltou a olhar cheia de interesse para as várias máquinas e se aproximou de uma que tinha duas arminhas acopladas.
— O que é isso? — perguntou ela.
— Ah, você usa essas armas pra atirar nos zumbis que vêm na sua direção nessa tela.
— Humm. É mesmo?
— Quer tentar?
— Quero.
Kang-Hyun trocou seu dinheiro por fichas e colocou quatro fichas de quinhentos wons cada.
— Beleza. Você aperta aqui pra atirar e usa isso pra recarregar.
— Entendi mais ou menos. Como é que anda?
— Seu personagem anda sozinho, então tudo o que você tem que fazer é atirar.
— Bem simples.
Si-Ah pegou a arma entusiasmada.
Pá! Pá! Pá!
Si-Ah dizimou os zumbis com reflexos insanos, como era de se esperar da filha do Deus Marcial. Kang-Hyun também fez o seu melhor para atirar nos zumbis que vinham em sua direção na tela,
— Hehe, é só isso que você sabe fazer? — provocou Si-Ah.
— Urgh... como é que seus reflexos são tão rápidos?!
— Hoho. Esqueceu de quem eu sou filha? Isso é fichinha!
Eles passaram facilmente pela primeira e segunda fases e entraram num cenário de floresta densa.
Vwee—! Krrrk!
— KYYAAAAAAAAHHH!!
Um mosquito gigante voou na direção deles por entre os arbustos e aterrissou na tela, cobrindo quase metade dela.
— Q-QUE DIABOS É ISSO?! POR QUE TEM INSETO NUM JOGO DE ZUMBI?!
— Urpp! Urgh! E-Espera, Si-Ah... E-Eu não consigo respirar...!
— KYAAAAAAHHH!!
Mais insetos grudaram na tela porque eles pararam de atirar, o que fez Si-Ah gritar ainda mais e abraçar Kang-Hyun com força. A palavra FIM DE JOGO apareceu na tela, deixando os dois colados um no outro.
— Oh... Kang-Hyun? — chamou alguém, com a voz trêmula.
Eram seus colegas de classe, encarando Kang-Hyun chocados.
— Ah... — Kang-Hyun bateu na própria testa.
— Seu imbecil.
Ele tinha sido burro o bastante para não pensar que seus colegas de classe podiam estar ali também.
— Hã, galera...
— O-Oh Kang-Hyun, seu filho da puta!
— Foi por isso que você deu bolo na gente no nosso convite?!
— Boo!
Kang-Hyun foi soterrado por críticas. Ele quebrou a cabeça atrás de uma boa desculpa enquanto transpirava frio.
— Droga.
No entanto, desculpa nenhuma explicava o porquê de ele estar sendo abraçado por uma garota no fliperama. Ele só conseguiu gaguejar enquanto encarava os amigos.
— Quem são vocês?
Si-Ah, nos braços de Kang-Hyun, virou-se e fuzilou os amigos com o olhar. Toda a sua feição aterrorizada sumiu, dando lugar ao seu comportamento frio de sempre.
— Hã? K-Kim Si-Ah?
— Sério mesmo?
Os garotos não conseguiam reconhecer quem era a garota abraçada a Kang-Hyun porque ela estava de costas, mas ficaram de boca aberta e chocados ao perceberem quem era. Si-Ah jogou seu cabelo preto e sedoso para trás da orelha e tencionou o olhar.
— Sim, sou a Kim Si-Ah. Tem algum problema?
— N-Não, nenhum problema...
— Se não tem, vocês poderiam dar o fora? Vocês estão encarando a gente que nem macacos no zoológico, e isso é extremamente irritante.
— A-Ah, d-desculpa!
— Com licença!
Os amigos de Kang-Hyun, intimidados pela aura gélida de Si-Ah, balançaram a cabeça atordoados e saíram correndo do fliperama.
— ...
— O que foi? Vamos jogar mais um pouco.
Si-Ah bufou e puxou pela mão o Kang-Hyun de cara pálida.
Kang-Hyun murmurou baixinho: — Tô ferrado... —
Ele tinha um pressentimento de que o resto de sua vida escolar seria um verdadeiro caos.
Como Kang-Hyun imaginava, a notícia de que Kim Si-Ah e Oh Kang-Hyun estavam namorando se espalhou pela escola inteira no dia seguinte. Adultos pensariam que não existe namoro entre alunos do fundamental, mas isso é porque eles não sabem como são as crianças de hoje em dia.
As crianças desta geração amadurecem muito mais rápido por causa da internet e das redes sociais hiperdesenvolvidas. Por isso, as fofocas sobre o romance entre a filha do Deus Marcial e o melhor aluno da escola se espalharam num piscar de olhos, a ponto de até os veteranos estarem comentando sobre isso.
— Kim Si-Ah e Oh Kang-Hyun... estão namorando?
No entanto, um garoto estava gélido em vez de enfurecido com a notícia.
— Hah... Haha! Hahahaha! — Ele gargalhou cobrindo o rosto com uma das mãos. — Merda. Merda. Merda. Merda. MEEEEEEEERDA!!
O garoto praguejou de um jeito que não combinava com a sua idade.
— AAAAAAHHH! AAARRRGGGHHHHH!! — gritou o garoto enquanto atirava longe tudo o que via pela frente.
Ele achava que era o protagonista do mundo. Acreditava ser um herói, como seu nome sugeria[2]. Era natural, já que o garoto nasceu com muito mais do que os outros da sua idade. Talento excepcional, uma família rica, além de uma altura e porte físico que ninguém esperaria de um aluno do fundamental — todo mundo o encarava com uma inveja e um ciúme tão profundos que ele mal conseguia enxergar lá de cima onde estava.
— Oh... Kang-Hyun...! OH KANG-HYUUUUUUUN—!
No entanto, era a primeira vez que ele precisava olhar para cima para enxergar alguém. Yeong-Woong pensou no demônio que havia roubado toda a glória que lhe pertencia e gritou, afogando-se em sua própria inferioridade.
[Deixe-me ver. Seu nome é... Jeon Yeong-Woong, acertei?]
Uma estrela desceu sobre o garoto miserável.
[1] - São expressões idiomáticas equivalentes para descrever algo que vai e volta ou é inconstante, assim como uma sanfona (ou o movimento de um io-io, no original).
[2] - O nome Jeon Yeong-Woong significa "herói" em coreano.