
Capítulo 767
Depois de Dez Milênios no Inferno
— Huuu, — Oh Kang-Hyun soltou um suspiro profundo ao retornar à escola depois de lidar com Jeon Yeong-Woong.
Um sentimento incômodo permanecido, ao se lembrar de Yeong-Woong com o rosto pálido e cheio de lágrimas. Ele estalou a língua.
— Bem feito.
Kang-Hyun tirou Yeong-Woong da cabeça e continuou a caminhar.
— Oh, você finalmente chegou.
— Oppa[1]! Por que demorou tanto?!
Assim que voltou para a escola, suas irmãzinhas se aproximaram dele irritadas. Ele havia pedido para elas esperarem só um pouco, mas passou mais de meia hora sem dar notícias — era natural que agessem assim.
— Hã? — Kang-Hee franziu levemente a testa ao se aproximar e cheirou Kang-Hyun de cima a baixo como um cão farejador.
— O que você está fazendo...? —
— E-Ei? Por que diz isso? —
— Quer dizer, você cheira a suor. Suas roupas estão meio desarrumadas e sua respiração está um pouco mais ofegante do que o normal. —
— ... —
— Como ela percebeu tudo isso? —
— O que você esteve fazendo nessa última meia hora? — perguntou Kang-Hee.
— Nada demais. Estava ajudando meu professor com umas tarefas. —
— No primeiro dia de aula? —
— Sabe que sou um aluno exemplar. Tenho a confiança incondicional do meu professor. —
— Humpf! Isso não é confiança! Estão só se aproveitando de você! —
Kang-Hee bateu os pés com raiva. Kang-Hyun deu tapinhas na cabeça da irmã que fazia manha, apagando a raiva dela na hora, e ela deu uma risadinha.
— Vamos para casa. —
Kang-Hyun seguiu para casa com as irmãs. Ele parou antes de entrar no prédio do apartamento e empurrou levemente as costas das irmãs.
— Hm? Não vai subir com a gente, querido irmão? —
— O que foi, oppa? —
— Ah, meus colegas me convidaram para ir ao fliperama. Não fica longe daqui, então vou lá com eles. —
— Hmm. Um fliperama... Achei que você não se interessasse por jogos. —
— Eu também! Quero ir também! —
— Ãh... I-Isso é meio... —
Lilia agarrou a gola de trás da blusa de Kang-Hee enquanto Kang-Hyun gaguejava.
— Chega de besteira e vamos logo. Meninos devem passar tempo com outros meninos. —
— Ahh! Oppa! —
Kang-Hee foi arrastada por Lia, que piscou para Kang-Hyun bem antes da porta do prédio se fechar.
[Vou segurar a Kang-Hee aqui, então divirta-se com a Si-Ah unnie[2]~]
A voz de Lia ecoou na cabeça de Kang-Hyun.
— Caramba. —
Kang-Hyun achava que tinha inventado uma boa desculpa, mas Lia tinha sacado tudo na hora.
— Como ela é tão rápida no raciocínio? —
De qualquer forma, seu plano deu certo graças a Lia.
— Muito bem, então... —
Kang-Hyun engoliu em seco e ligou para Si-Ah.
Brrr, brrr...
Ele esperou ansioso, imaginando se Si-Ah atenderia. Logo em seguida, ouviu uma voz familiar.
[O que foi?]
A voz dela estava fria como gelo, mas Kang-Hyun percebeu que ela tinha abaixado o tom de propósito e que tremia levemente de expectativa. Ele sorriu, sentindo a ansiedade se dissipar.
Ele perguntou: — Você já almoçou? —
[I-I-Ih? Por que essa pergunta do nada?]
[Queria que a gente comesse junto, caso ainda não tenha comido.]
[Me dá um segundo.]
Kang-Hyun ouviu Si-Ah colocar o smartphone sobre a escrivaninha. Em seguida, ouviu ao fundo, bem de leve: — Mãe—! Não coloca o miojo na água ainda! O quê? Já colocou? Até tirou o kimchi? Argh... Que seja! Vou comer fora! —
Um breve silêncio se seguiu.
[Ahem. Felizmente, minha mãe ainda não tinha preparado o almoço.]
— Não foi bem isso o que pareceu. —
[O que vamos comer? Só para constar, íamos comer macarrão com creme de trufas e canapé de caviar.]
— Era miojo com kimchi, né? —
— Ãh... H-Há algo em específico que você queira comer? —
Kang-Hyun queria almoçar com Si-Ah, mas não tinha pensado em nada para comer.
[O quê? Quer que eu decida?]
— N-Não! Só estava curioso para saber se você tinha vontade de comer alguma coisa... —
[Hmm. Para mim tanto faz.]
— Droga. Essa é a pior resposta possível. —
— Hmm... nesse caso... que tal... t-tteokbokki[3]? —
Era a comida mais comum possível, mas era o máximo que um aluno do primário conseguia pagar com a mesada. Mesmo que Kang-Hyun tivesse dinheiro, seria estranhíssimo crianças do primário irem a restaurantes sofisticados.
— E dizem que garotas adoram tteokbokki! —
Kang-Hyun engoliu em seco e esperou pela resposta de Si-Ah.
[Tteokbokki...?]
— É. —
[H-Humph. Não sou particularmente fã, mas não é uma má escolha.]
— Ufa. Por pouco não fui reprovado. —
[Então, em qual barraca de tteokbokki vamos? A que fica do lado da nossa escola capricha na pimenta, e a do lado da estação é super macia e mastigável! Ah, e o caldo que vem com o bolinho de peixe é incrível! Também tem uma que eu frequento perto de casa onde o tteokbokki rosé é divino!]
— Ãh... —
— Acho que fui bem melhor do que apenas 'não fui reprovado'. —
***
Depois de muito pensar, Si-Ah escolheu a barraca perto de sua casa que ela costumava frequentar. Kang-Hyun chegou primeiro e esperou no ponto combinado até que ela apareceu logo depois. Ela vestia uma blusa branca e uma saia azul-escura plissada... com sua inconfundível espada de bambu em mãos.
— Te fiz esperar muito? — perguntou Si-Ah.
— Não, acabei de chegar. —
Eles se cumprimentaram como um casal no primeiro encontro e caminharam em direção à barraca de tteokbokki.
— Por que você me chamou para almoçar do nada? —
— Porque... eu queria te contar uma coisa. —
— Contar o quê? —
— Te conto depois que comermos. —
Kang-Hyun e Si-Ah entraram na barraca de tteokbokki e pediram a versão rosé que ela havia recomendado, embora meio a força.
— O que achou? É bom, né? —
— É, é delicioso. —
Ele teria preferido um pouco mais apimentado, mas não era tão insensível a ponto de jogar água fria na garota à sua frente que estava aproveitando tanto a comida. Eles terminaram as duas porções de tteokbokki rosé e ficaram se encarando em silêncio enquanto tomavam a raspadinha de frutas vendida no estabelecimento.
Kang-Hyun quebrou o silêncio primeiro. — Primeiro... eu gostaria de pedir desculpas. —
— Hm? Desculpas por quê? —
— Por não ter te ligado nenhuma vez durante as férias de verão. —
— Ah, — ela expressou, fazendo de propósito uma cara zangada. — Veiou a si finalmente? —
— Não sei bem, mas... pelo menos aprendi que me trancar em casa não era a solução. Tenho que ficar mais forte para proteger quem é precioso para mim. —
— Hmm. É mesmo? Significa que você vai continuar treinando comigo? — perguntou Si-Ah cruzando os braços, com os olhos brilhando.
— É. Três dias por semana, como antes — não, quero que a gente se encontre pelo menos um dia no fim de semana também. —
— A-Até no fim de semana? —
— Por quê? Ah, seria um incômodo para você? —
Si-Ah balançou a cabeça rapidamente e exclamou: — N-Não mesmo! Não é incômodo nenhum! A gente pode se ver no fim de semana! —
Kang-Hyun sorriu aliviado. — Obrigado. —
— Urgh... E-Então, você queria me encontrar para falar só disso? —
— Não, tem mais uma coisa. —
O olhar de Kang-Hyun escureceu. Já que ele havia pedido desculpas, agora era hora de ouvir as dela.
— Por que você não me contou? — perguntou ele.
— Hm? Contar o quê? —
— Sobre o envelope. —
— ...! — Si-Ah travou. — C-Como você sabe disso...? —
— Responda minha pergunta primeiro. Por que não me contou? —
— I-Isso é... —
Si-Ah mordeu o lábio e abaixou a cabeça. Não havia jeito de ela admitir que estava sendo evitada pelos colegas de classe.
— Obrigada pelo almoço. Vou indo na frente, — disse Si-Ah, levantando-se de repente e saindo correndo como se estivesse fugindo, humilhada e confusa por Kang-Hyun ter descoberto o segredo que ela tanto escondia.
— Kim Si-Ah! —
Kang-Hyun foi atrás de Si-Ah e segurou o pulso dela bem quando ela estava virando a esquina para entrar num beco.
— Caramba! S-Solta! —
— Você está entendendo errado. —
— O que quer dizer...? —
— Você não está sofrendo bullying dos seus colegas. —
— O quê...? —
Os olhos de Si-Ah se arregalaram. Kang-Hyun contou tudo o que havia acontecido naquela manhã. Quanto mais ele explicava, mais a expressão de Si-Ah se franzia.
— Então... aquele filho da puta do Jeon Yeong-Woong planejou isso tudo? —
— É. —
— E-Esse maldito...! —
Ela bateu os pés com lágrimas de frustração, mostrando o quanto havia sofrido todo esse tempo. O coração de Kang-Hyun doeu ao vê-la assim.
— Eu não vou perdoar esse desgraçado! — gritou Si-Ah.
— Ah, eu já dei um jeito nele, então não precisa se preocupar. —
— O quê...? Você deu? — Si-Ah encarou Kang-Hyun sem acreditar.
— É. É meio difícil explicar em detalhes, mas... ele não vai mais te perturbar. —
— ... — Si-Ah apertou a bainha da saia em silêncio. — Obrigada... —
Ela achava que seu jeito frio e personalidade introvertida faziam com que os colegas de classe a odiassem, mas tudo não passava de um mal-entendendo. Uma onda de alívio invadiu seu coração.
— É só isso que você tem a dizer para si mesma? — disse Kang-Hyun.
— H-Hã? —
Kang-Hyun se aproximou de Si-Ah, que estava com os olhos cheios d'água e aliviada, e continuou: — Você já estava sofrendo bullying antes mesmo das férias, não é? Por que nunca me contou? —
— I-Isso porque... eu não sabia que era o Jeon Yeong-Woong. —
— Mesmo sem saber que era ele! —
Pá!
Kang-Hyun encurralou Si-Ah, que recuava, contra a parede e deu um golpe seco com a mão espalmada na parede.
Ele gritou: — Você deveria ter me contado! —
Por um instante, ele pensou se não tinha pesado um pouco a mão, mas reprimiu a culpa que fervilhava em sua cabeça e encarou Si-Ah fixamente.
'Considerando a personalidade da Si-Ah, tenho que ser firme.'
— A-Aaaahh. —
O rosto de Si-Ah ficou vermelho como um tomate de anime e ela começou a tremer de leve. Gaguejando sem parar, ela agarrou de leve a roupa de Kang-Hyun.
Ela murmurou: — E-Eu... peço desculpas. Serei uma boa menina daqui em diante. —
— Hã? Por que ela está falando tão formalmente do nada? —
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[1] Oppa: Termo coreano usado por mulheres para se referir a um irmão mais velho ou a um rapaz mais velho com quem se tem intimidade.
[2] Unnie: Termo coreano usado por mulheres para se referir a uma irmã mais velha ou a uma garota mais velha com quem se tem amizade.
[3] Tteokbokki: Prato popular coreano feito com bolinhos de arroz cozidos em um molho picante e adocicado.