
Capítulo 766
Depois de Dez Milênios no Inferno
Havia muitos indivíduos poderosos ao redor de Oh Kang-Hyun. Sendo mais exato, só havia indivíduos poderosos ao redor dele. Sem mencionar Oh Kang-Woo e Kim Si-Hun, mas Balrog, Lilith, Han Seol-Ah e sua mãe biológica, Cha Yeon-Joo, estavam todos entre os dez indivíduos mais fortes da Terra e dos Nove Infernos combinados.
Não só isso, mas Oh Kang-Hee, a criança fruto da união entre um anjo e um demônio, conseguia usar energia demoníaca desde os três anos de idade, e Lilia era tão forte quanto, tendo herdado o poder dos sonhos ilusórios, o símbolo da Rainha Súcubo. Até mesmo Kim Si-Ah havia se tornado uma espadachin prodigiosa por ter sido treinada por Si-Hun desde que aprendeu a andar, fazendo jus ao seu título de filha do Deus Marcial.
— Você não me ouviu? Eu mandei você me mostrar o seu verdadeiro poder!
Portanto, Kang-Hyun só podia interpretar erroneamente que Jeon Yeong-Woong estava pegando leve para zombar dele.
Pá! Vup! Soco!
— Ai! Ai! Is-Isso dói! Urgh!
Kang-Hyun, fortalecido pela energia demoníaca que o envolvia, espancou Yeong-Woong sem dó, imaginando por quanto tempo Yeong-Woong pretendia segurar sua força. Foi bem nessa hora que ele percebeu algo estranho.
— Jeon Yeong-Woong. Que diabo você está fazendo?
— Snif... para... E-Eu vou pedir desculpas, então por favor p-para de me bater...
Yeong-Woong, com o rosto coberto de hematomas, abaixou a cabeça enquanto agarrava a barra da calça de Kang-Hyun. Aquela não era a atitude de alguém que estava reprimindo seu verdadeiro poder.
— O que está acontecendo? Ele estava indo com tudo desde o começo?
Kang-Hyun olhou para baixo, sem entender nada, encarando Yeong-Woong com o rosto tomado por lágrimas e cuspe. Se aquilo tudo fosse um teatro para fazê-lo baixar a guarda, ele estaria mais impressionado do que traído.
— Eu pus o Jeon Yeong-Woong para correr? Desse jeito, de lavada?
Kang-Hyun franziu a testa, descrente. Havia mais uma coisa que ele não estava entendendo direito: o próprio nível de poder. Ele não fazia ideia porque Kang-Woo e Si-Hun escondiam a informação, mas o agressor misterioso contra quem lutara e de quem perdera no resort era um Jogador que havia recebido o poder de um deus conhecido como Celestial.
O homem não só tinha o dobro da idade de Kang-Hyun, como estava entre os Jogadores do alto escalão. E ainda por cima havia adquirido o poder de uma divindade. Embora não passasse de um fantoche desprovido de razão, sua força era absurda. Era como dar de cara com o chefão final logo no início do jogo. Era mais do que natural que Kang-Hyun, que só havia aprendido a usar energia demoníaca três meses antes, não fosse páreo.
— Ngh — gemeu Kang-Hyun.
Sem saber de nada disso, Kang-Hyun só conseguia concluir que havia perdido porque era fraco.
— Eu não entendi muito bem o que está rolando, mas...
Não parecia haver necessidade de continuar a luta. Ele respirou fundo e tirou o smartphone do bolso.
Ele chamou:
— Jeon Yeong-Woong.
— H-Hein?
— Deixa eu te perguntar de novo. Foi você que mandou isso, né? — perguntou ele, erguendo o envelope cheio de insetos mortos.
— Isso é... — Yeong-Woong começou a suar frio enquanto encarava o envelope. Ele baixou a cabeça e respondeu: — É... fui eu que mandei.
— Ótimo. — Kang-Hyun guardou o smartphone de volta no bolso e continuou: — Eu gravei tudo.
— ...!
— Vou mandar isso para o pai da Si-Ah.
— E-Espera! O-O-O que você está dizendo?!
O pai de Si-Ah era o Deus Marcial Kim Si-Hun.
— Se o Deus Marcial descobrir o que eu fiz...
— V-Você não pode...!
Yeong-Woong, pálido como um papel, partiu para cima de Kang-Hyun. Se Kim Si-Hun visse aquele vídeo, a vida dele e de sua família estaria arruinada.
Pá!
Kang-Hyun deu um chute em Yeong-Woong, que vinha correndo em sua direção, e o encarou friamente de cima a baixo.
— O caralho que eu não posso. Você deve arcar com as consequências dos seus atos. Não é como se você tivesse feito tudo isso sem saber quem era o pai da Si-Ah.
— N-Não fui e—
— Você acabou de dizer que foi.
Kang-Hyun tirou o smartphone do bolso de novo e o balançou no ar.
— Urgh...
Yeong-Woong engoliu em seco e cerrou os dentes. Ele planejava colocar a culpa em outra pessoa caso suas maldades fossem descobertas, mas tudo iria por água abaixo se Kim Si-Hun visse aquele vídeo.
— Eu só tenho que destruir esse smartphone...!
Ele canalizou o que lhe restava de mana para usar psicocinese.
— Nem ouse ter ideias idiotas. Eu configurei para que qualquer vídeo que eu grave seja enviado automaticamente para a nuvem — avisou Kang-Hyun.
— N-Nuvem?
— Ah. Bom, resumindo, o arquivo do vídeo vai continuar lá mesmo se você quebrar o meu smartphone.
— ... — O desespero tomou conta dos olhos de Yeong-Woong. — A-Aaaahh. N-Não... P-Por favor... Por favor, não envia.
— ... — Kang-Hyun olhou em silêncio para Yeong-Woong, que tremia de pavor. Ele perguntou em voz baixa: — É para eu não enviar?
— S-Sim! Por favor! Eu faço qualquer coisa!
— Qualquer coisa, é...? — O olhar de Kang-Hyun desviou-se para o envelope. Ele o virou e chacoalhou para esvaziar o conteúdo, fazendo os insetos mortos caírem no chão do beco. — Come.
— O quê...? — Yeong-Woong ergueu os olhos para Kang-Hyun, atordoado. — V-Você quer que eu coma isso?
— É. Por quê? Não consegue?
— ...
— Lembro de ter ouvido uns boatos... de que você obrigou um colega de classe a comer suas sobras de comida ano passado.
— Isso é...
Yeong-Woong havia forçado um colega solitário a comer tudo porque eles davam notas baixas a quem não terminasse a comida.
— M-Mas inseto não é comida!
— Sobra dos outros também não.
— Ngh...
— Me responde logo. Vai comer ou não?
— ...
Yeong-Woong cerrou os dentes e fuzilou Kang-Hyun com o olhar. Seus punhos fechados tremiam.
— Que foi? Está achando uma bosta porque eu estou mandando você comer os insetos que você enfiou na gaveta da carteira dos outros? — Kang-Hyun debochou e continuou: — Quando é você que faz, tá tudo bem, mas quando fazem com você, aí é uma merda?
— K-Kang-Hyun... Por favor...
— Por favor, o quê? Por favor, para? — Kang-Hyun achou graça em ouvir aquilo vindo de Yeong-Woong. — Aposto que você já ouviu isso várias vezes.
— Ouviu o quê...?
— As pessoas te implorando para parar enquanto você fazia bullying com elas.
— ...
— Você já atendeu ao pedido de alguém?
Kang-Hyun nem precisava de resposta. A fama de Yeong-Woong jamais teria se espalhado pela escola inteira se ele fosse o tipo de pessoa que parava só porque alguém pedia. Não só os veteranos, mas até os professores sabiam.
No entanto, os professores ignoravam os boatos porque subestimavam a maldade de Yeong-Woong, achando que uma mera criança do fundamental não podia ser tão cruel assim. Contudo, Kang-Hyun sabia que quanto mais jovem a pessoa era, mais cruel ela podia ser.
— Vou te perguntar pela última vez. — Kang-Hyun levou um dos insetos mortos até a boca de Yeong-Woong e continuou: — Vai comer ou não?
Será que Yeong-Woong engoliria o orgulho para fazer o que Kang-Hyun mandava, ou recusaria e perderia tudo? Ele não precisou pensar muito.
— A-Arghh...
Com a mão trêmula, Yeong-Woong pegou alguns insetos amassados, fechou os olhos e os enfiou na boca. Um gosto amargo espalhou-se por todo o seu paladar e um fedor nojento invadiu seu nariz.
— Urgh. B-BLEEEEGH!
Yeong-Woong vomitou, incapaz de engolir os insetos. Kang-Hyun aproximou-se de Yeong-Woong, que soluçava.
— Acredito que mandei você comer.
— Huf, huf... K-Kang-Hyun...
— Tá bom, chega. Vamos deixar isso para hoje. Afinal, eu não sou nenhum demônio.
— O quê...?
— Para hoje? Quer dizer que isso vai continuar?
— Que foi? Você achou que ia acabar aqui, achou? — Kang-Hyun deu um sorriso de canto e agarrou o cabelo de Yeong-Woong. — Não tem a menor chance de acabar assim.
Sim, ele não podia parar por ali. Precisava pisotear Yeong-Woong de um jeito tão profundo a ponto de ele nunca mais sequer pensar em revidar.
— Eu preferia simplesmente mandar o vídeo para o Tio Si-Hun e deixar ele resolver, mas...
Se Si-Hun descobrisse aquilo, ele poderia acabar com Yeong-Woong e com o pai dele, a quem Yeong-Woong tanto respeitava. Por mais bom que Si-Hun fosse, ele não era bondoso a ponto de perdoar quem mexesse com sua filha.
— Mas há um limite para o que o Tio pode fazer.
Si-Hun não podia mandar o pirralho de nove anos do Yeong-Woong para a cadeia só por ter feito pegadinhas com sua filha, por mais maldosas que fossem. O máximo que ele conseguiria fazer seria expulsar o pai de Yeong-Woong de seu cargo na associação e forçar Yeong-Woong a mudar de escola.
— E ele continuaria fazendo a mesma coisa na outra escola.
Apesar de Yeong-Woong ainda ser uma criança, Kang-Hyun sabia que as pessoas não mudavam com facilidade.
— A-Aaaahh — gemeu Yeong-Woong, pálido.
Ele viu a silhueta de um demônio se sobrepondo a Kang-Hyun mais uma vez.
— Pensando bem, você... adora machucar cachorros, né? — perguntou Kang-Hyun.
— H-Hein?
— Nossa bela relação começou por causa disso, não foi?
— Ah, m-me desculpa por aquilo...
— Não, não. Não precisa pedir desculpas. — Kang-Hyun sorriu, ainda segurando o cabelo de Yeong-Woong. — Eu também estava um pouco curioso.
— Curioso...?
— Sobre como é a sensação de machucar um cachorro. — As íris douradas de Kang-Hyun brilharam de forma gélida. — Jeon Yeong-Woong.
— H-Huh? O— Kurgh!
Kang-Hyun agarrou o pescoço de Yeong-Woong com violência e aproximou a boca do ouvido dele.
— A partir de hoje, você é o meu cachorrinho. Entendido?
— Late o quanto quiser. Vou arrancar todos os seus dentes para que você nem ouse pensar em morder os outros.