Depois de Dez Milênios no Inferno

Capítulo 765

Depois de Dez Milênios no Inferno

— O quê...?

Parecia que o tempo havia parado. Jeon Yeong-Woong sentiu calor e frio ao mesmo tempo, como se chamas gélidas estivessem queimando seus vasos sanguíneos. As sensações contraditórias eram idênticas às suas emoções misturadas: amor e ódio. As chamas frias engoliram Yeong-Woong.

— Que diabo você acabou de dizer?

Ele fuzilou Oh Kang-Hyun com o olhar. Kang-Hyun, satisfeito com a reação, deu um sorriso de canto, zombeteiro.

— Tá surdo? A Si-Ah e eu nos beijamos.

— Você...? Com a Kim Si-Ah?

— Por quê? Por que logo com alguém como você? Você nem é um Player[1], não tem grana e nem é alto como eu. Você não passa de um aluno exemplar medíocre que a gente acha em qualquer turma.

— Como é que você...?

Os olhos de Yeong-Woong dispararam loucamente, como se tentassem encontrar a resposta para uma pergunta impossível.

— Amigos de infância? Vocês dois?

— É.

Era natural que Yeong-Woong ficasse surpreso. Apenas as famílias de Kang-Hyun e Si-Ah sabiam que eles eram amigos de infância.

— E daí que vocês são amigos de infância? Isso não é motivo para vocês se beijarem.

Yeong-Woong fez careta para Kang-Hyun. Como ele mesmo mencionou, só o fato de se conhecerem não era motivo suficiente para um beijo. Eles tinham acabado de entrar no ensino fundamental — não tinham acumulado memórias ou afeto suficientes para o relacionamento avançar tanto. Provavelmente só tinham frequentado o mesmo jardim de infância ou se encontrado algumas vezes porque os pais eram amigos.

— Aposto que foi quando vocês eram pirralhos. Só para ver como era, né?

— Bem... Dá para dizer que éramos pirralhos, sim.

— Há, eu sabia...

— Você consideraria alunos da segunda série como pirralhos, né?

— ...

Yeong-Woong tremeu, com a expressão dura como pedra. Kang-Hyun sorriu com zombaria e relembrou a memória daquele dia.

— A Si-Ah e eu estávamos bem exaltados naquele dia.

— Porque estávamos treinando.

— Nossos olhos se encontraram... e ela correu na minha direção do nada.

— Para esmagar minha cabeça com uma espada de bambu.

— E então... nós nos beijamos.

— Por acidente, quando a segurei depois que ela tropeçou.

— Haha. Quer saber de uma coisa? Ela fica com vergonha fácil.

— Tão comvergonha que depois me deu um olhar mortal.

— ...cala a boca — murmurou Yeong-Woong, tremendo de cabeça baixa.

— Hã? O que você disse?

— Cala a... boca!

Yeong-Woong denteou com força, encarando intensamente Kang-Hyun, que gargalhava ao saborear aquela sensação inexplicável de prazer.

— Por quê? Achei que você não gostasse da Si-Ah?

— Urgh... Is-Isso é...!

— Tá pistola porque a Si-Ah e eu nos beijamos?

— S-Seu filho da puta...!

Yeong-Woong explodiu de raiva, incapaz de suportar a provocação implacável de Kang-Hyun. Ele usou a psicocinese para levantar as garrafas de cerveja vazias espalhadas pelo beco.

— Vai recorrer à força porque não consegue me vencer com palavras? A cara de um pirralho mesmo.

Kang-Hyun não conseguiria acalmar Yeong-Woong nem se prostrasse diante dele para pedir desculpas, mas, em vez disso, estalou a língua e o provocou ainda mais.

— Uma briga é inevitável a essa altura.

Kang-Hyun já estava decidido a lutar contra Yeong-Woong no instante em que o viu com o garoto que colocou o envelope na gaveta da escrivaninha de Si-Ah.

— Se eu não posso evitar...

Provocá-lo ainda mais para fazê-lo perder a cabeça era a estratégia mais eficaz. Não havia oponente mais fácil de enfrentar do que alguém cegado pela raiva.

— O problema é...

Kang-Hyun era pateticamente fraco a ponto de nem saber se conseguiria vencer um pirralho furioso. Embora Yeong-Woong não fosse nem de longe tão forte quanto Si-Ah, ele já era considerado um gênio antes mesmo de entrar naquele ensino fundamental.

— Será que eu dou conta do Jeon Yeong-Woong?

A sensação sufocante de impotência que sentira ao enfrentar o agressor desconhecido e a estagnação, como se estivesse diante de um muro intransponível, tomaram conta dele. Havia passado um mês desde o incidente, mas ele ainda continuava no mesmo lugar — protegido pela garota que jurara a si mesmo proteger.

— Não posso ficar parado para sempre.

Kang-Hyun respirou fundo e se preparou. Ele puxou a energia demoníaca que jazia dormente em seu coração e a espalhou por todo o corpo. O tempo que havia parado para o garoto voltou a correr.

— Morre, desgraçado! — gritou Yeong-Woong, esticando o braço para a frente.

O aviso de seu pai para não tocar em Kang-Hyun por motivo algum havia sido completamente apagado de sua mente. As garrafas de cerveja flutuando no ar voaram em direção a Kang-Hyun.

— Hup!

Uma lâmina negra brotou do dorso da mão de Kang-Hyun. Ele se lembrou da esgrima que Si-Ah lhe ensinara enquanto desferia um golpe com a espada. Era a Técnica da Espada do Dragão Azul, a raiz da Técnica da Espada do Dragão Celestial usada pelo Deus Marcial Kim Si-Hun. Segundo Si-Ah, era bem mais simples em comparação à esgrima de seu pai, mas a essência daquela técnica não ficava atrás da Espada do Dragão Celestial.

— Embora eu não faça ideia de que essência seja essa.

Pelo menos, Kang-Hyun sabia qual era a maior força da Técnica da Espada do Dragão Azul.

— É simples, mas rápida.

Clang, clang! Estilhaços!

As garrafas de cerveja que voavam em direção a Kang-Hyun foram cortadas ao meio por sua lâmina e se despedaçaram ao atingirem o chão.

— O que... — Yeong-Woong encarou Kang-Hyun em choque. — V-Você despertou como Player?

— ...

Kang-Hyun apontou a espada para Yeong-Woong em silêncio e assumiu sua postura de combate.

— Eu perguntei se você despertou como Player!

— Quem sabe?

Para ser exato, Kang-Hyun havia aprendido a usar energia demoníaca; ele não havia despertado como Player. Ele não conseguia ver a janela de status que apenas os Players podiam enxergar.

— Mas eu não tenho motivo nenhum para responder a ele.

Kang-Hyun deu um pipipeto para cima com a lâmina, desafiando Yeong-Woong a vir para cima.

— Seu filho da... — Yeong-Woong denteou e abriu um sorriso desagradável, como se tivesse pensado em algo. — Há, era por isso que você tava tão metido? Hã? Acha que é páreo para mim só porque agora é um Player?

Ele não obtivera resposta de Kang-Hyun, mas nenhuma pessoa normal conseguiria tirar uma lâmina debaixo da pele da mão ou cortar instantaneamente garrafas de cerveja que voavam em sua direção.

— Não se ache tanto, droga.

Mesmo que Kang-Hyun tivesse despertado como Player, provavelmente havia sido há poucos meses. Ele não era páreo para Yeong-Woong, que havia ficado mais forte ao longo de vários anos.

— Você não é nada comparado a mim.

Yeong-Woong abriu a mão e concentrou sua psicocinese acima dela.

Fuuu —!

Pedras, lixo e bitucas de cigarro ao redor foram sugados para dentro da energia psicocinética e se transformaram em uma esfera que girava incrivelmente rápido.

— Esfera Psicocinética!

Boom!

Yeong-Woong bateu o pé no chão e disparou a esfera psicocinética contra Kang-Hyun. A esfera se aproximou rasgando as paredes dos lados, dando a impressão de que não havia para onde escapar naquele beco estreito.

— Hup!

No entanto, Kang-Hyun usou a Autoridade da Pressa para aumentar sua velocidade e deu um salto em zigue-zague na parede para desviar da esfera.

— Mas que porra...?! — Yeong-Woong expressou choque quando Kang-Hyun desviou da esfera com maestria.

Kang-Hyun correu pela parede de cima em direção a Yeong-Woong, como um falcão mergulhando para atacar sua presa.

— Urgh! Não importa o quanto você se esforce...

— Cara, você fala demais.

Kang-Hyun pulou da parede e desferiu um chute na cabeça de Yeong-Woong.

Pá —!

Yeong-Woong recebeu um chute direto na cabeça desferido por Kang-Hyun, cuja força estava amplificada pela energia demoníaca, e cambaleou para trás. Reflexivamente, ele usou a psicocinese para arremessar contra Kang-Hyun a caixa de plástico vazia em que estivera sentado.

Vup!

No entanto, a lâmina negra cortou a caixa de plástico em pedaços.

— Argh!

Yeong-Woong caiu de bunda no chão e esticou as duas mãos na direção de Kang-Hyun.

— Tempestade Psicocinética!!!

Era uma habilidade que ele raramente usava porque consumia mana demais. Ele disparou seu ataque mais poderoso contra Kang-Hyun.

Corte!

Contudo, a lâmina negra envolta em energia demoníaca rasgou a tempestade furiosa ao meio.

— O quê...?

A boca de Yeong-Woong ficou aberta em choque. Seu ataque mais forte, que consumia mais da metade de sua mana, desapareceu com um único golpe da espada de Kang-Hyun.

— Q-Quem diabos é você...?

Ele olhou para cima, pálido, encarando Kang-Hyun.

— Hã — zombou Kang-Hyun, franzindo a testa. Ele olhou para Yeong-Woong no chão e perguntou, irritado: — Jeon Yeong-Woong. Você tá brincando comigo?

— O-O quê?

Yeong-Woong não conseguia compreender o que Kang-Hyun estava dizendo. Ele estivera dando tudo de si desde o começo, a ponto de quase se cagar nas calças.

— Eu estive falando sério desde o... —

— Pensei que você fosse chamado de gênio quando era pequeno. Se for esse o caso, isso não pode ser todo o seu poder.

— ...

— Chega desse teatrinho. Posso ser fraco, mas não a ponto de ser zombado desse jeito por você. — Kang-Hyun franziu a testa com desgastou e apertou o cabo da lâmina. — Levanta logo essa bunda daí e luta comigo de verdade, Jeon Yeong-Woong!

— ...

— Para de fingir ser fraco e me mostre o seu verdadeiro poder!

— Ma... — Yeong-Woong cerrou os punhos trêmulos de frustração. — Este é o meu verdadeiro poder, seu filho da puta...

Lágrimas escorreram por suas bochechas enquanto ele experimentava uma sensação inexplicável de miséria que jamais havia sentido antes.


__[1] - Player: Termo técnico usado para designar pessoas que despertaram habilidades especiais e combatem monstros ou participam de sistemas de masmorras.__

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