Hotel Dimensional

Capítulo 136

Hotel Dimensional

(.)

Vovó Lobo jazia na cama na casinha, mantendo suas garras, orelhas e cauda escondidas. Ela engoliu Chapeuzinho Vermelho inteira, e então...

O caçador não veio.

Em vez disso, era um cozinheiro.

Yu Sheng sentiu uma luta repentina e feroz no ar. A Vovó Lobo invisível soltou um grito penetrante. Onde a faca de Yu Sheng cortava o ar, sangue fresco aparecia do nada. Pele, gordura e músculo se desprendiam, curvando-se no ar ao longo do caminho da lâmina. Um momento depois, Yu Sheng sentiu uma explosão de pressão e um aviso inconfundível ao seu lado—uma pata de lobo levantada e uma cabeça rosnando.

Mas este não era o monstro imponente à espreita nos medos mais profundos de Chapeuzinho Vermelho. Era apenas o Lobo Mau imaginado por uma criança de seis anos—poderoso, mas não mais poderoso que Yu Sheng; rápido, mas não mais rápido que um homem adulto. Era cruel, mas Yu Sheng já havia lutado contra coisas muito piores em seu tempo.

Ele avançou, agarrando a cabeça do lobo invisível e prendendo seu pescoço contra a pequena cama. Com a outra mão—ainda segurando a faca—ele continuou cortando a pele do lobo. O sangue jorrava, e os uivos horrorizados do lobo ficavam mais altos, tomando forma à medida que começava a se materializar na frente deles.

Era enorme, muito maior do que um lobo comum—grande o suficiente para devorar uma criança de uma só vez. Seu corpo magro estava envolto em um avental ridículo e um chapéu caído. Seu rosto parecia distorcido além da razão, e sua barriga inchada se projetava grotescamente.

Mas agora, estava morrendo. Aqueles olhos cruéis ficaram fracos, sua garganta rouca cedeu em suspiros fracos, e seus membros tremeram em sua luta final e inútil.

“Shh, shh—está quase acabando…” Yu Sheng se inclinou, seu olhar calmo enquanto perscrutava os olhos do lobo, sua voz baixa e tranquilizadora. “Eu tenho que cortar com cuidado. Não se debata muito—você só vai tornar mais difícil. Aí está… tudo terminado.”

Com a barriga do lobo totalmente aberta, Yu Sheng usou sua lâmina para cortar uma membrana estranha, e uma pequena garota caiu de dentro. Seus olhos estavam fechados, e não havia sangue nela. Ela parecia estar dormindo profundamente, presa em um sonho do qual não conseguia sair.

Chapeuzinho Vermelho correu e pegou a garota antes que ela caísse. Seu olhar ia do corpo meio estripado do lobo, ainda se contorcendo na cama, para Yu Sheng, que estava casualmente limpando sua faca.

“Como… como você conseguiu vê-lo?” ela perguntou, sua voz tremendo. “Por que eu não conseguia vê-lo de jeito nenhum?”

“É… complicado,” Yu Sheng respondeu, esfregando o pelo do lobo com a lâmina para remover o sangue. Então ele se virou para ela. “Eu tenho alguns sentidos extras agora—coisas que os lobos nesta floresta podem sentir, eu também posso sentir. Talvez você não o tenha visto porque esta não era sua Vovó Lobo.”

Chapeuzinho Vermelho congelou, sua expressão nublada com pensamentos conflitantes.

Antes que ela pudesse falar, um coro de uivos irrompeu do lado de fora, quebrando seu foco. Sete ou oito lobos das sombras apareceram ao redor dela, rosnando em resposta aos chamados do lado de fora. Seus gritos rudes ecoavam pela casa, como se estivessem correndo para defender seu “mestre.”

“Eles estão chateados,” Yu Sheng notou, virando-se brevemente em direção à porta. Então ele olhou para Chapeuzinho Vermelho, que estava encolhida como uma mola, pronta para lutar. “Você deveria pegar a criança e ir. Agora que ela está fora da barriga do lobo, tudo o que ela tem que fazer é retornar à realidade e ela vai acordar.”

“Mas ainda não é hora!” Chapeuzinho Vermelho protestou, voz rápida e urgente. “A Floresta Negra tem regras—você não pode simplesmente sair antes que o sonho termine—”

Yu Sheng franziu a testa e gritou em sua mente, “Irene, faça agora—use sua especialidade e tire-os daqui.”

“Entendido,” Irene respondeu. “Você não vai embora também?”

“Eu vou ficar mais um pouco. Eu quero ver se alguma coisa muda neste lugar. Não se preocupe comigo.”

“Tudo bem, mas se você morrer, pelo menos me avise primeiro.”

“Uau. Tente ser um pouco mais encorajadora, quer?”

Chapeuzinho Vermelho viu os lábios de Yu Sheng se movendo, mas não conseguiu entender o que ele estava dizendo. De repente, ela sentiu uma força poderosa puxando-a, quebrando sua ligação com a Floresta Negra. Algo de fora estava arrastando-a para longe. A sensação desconhecida a fez exclamar, “O que você está—”

“Irene está tirando vocês duas,” Yu Sheng disse calmamente. “Pode parecer estranho—só não vomite em mim quando acordar.”

“O que—?”

Antes que ela pudesse fazer outra pergunta, ela e a garotinha—Xiao Xiao—desapareceram da casinha. Os sete ou oito lobos das sombras também desapareceram.

Do lado de fora, os uivos não diminuíram depois que Chapeuzinho Vermelho partiu. Na verdade, eles ficaram mais altos e raivosos, e a floresta se arrepiou de tensão.

“Eles vieram por mim,” Yu Sheng comentou sem surpresa. Ele entendeu que era uma “quebra” na história—uma presença que não pertencia. Contos de fadas não gostavam de ninguém que quebrasse as regras.

Especialmente não de adultos. Contos de fadas detestavam adultos acima de tudo.

No entanto, depois de alguns segundos, Yu Sheng notou algo estranho. Embora os lobos circulassem mais perto, eles pareciam não querer ou não conseguir cruzar uma linha invisível ao redor da cabana. Eles rondavam e rosnavam do lado de fora, mas não tentavam invadir.

Intrigado, Yu Sheng estudou a casa sombria e silenciosa. As capas vermelhas por toda parte, a lareira morta há muito tempo e as velas apagadas davam uma impressão sombria, como se a casa tivesse sido abandonada.

Ele se lembrou das palavras do esquilo sobre como uma casa sem fogo ou luzes acesas desapareceria, consumida pela floresta assim como todos aqueles caminhos desaparecidos. Esses “lugares seguros” existiam apenas como ilusões fugazes moldadas por sua luz.

Mas de alguma forma, este lugar ainda estava de pé.

Talvez, como Chapeuzinho Vermelho havia especulado, fosse o “lugar final” da história—poupado de ser engolido, mas deixado abandonado no coração mais escuro da floresta, o lugar onde todas as Chapeuzinhos Vermelhos vinham descansar.

Ignorando o caos lá fora, Yu Sheng começou a explorar a cabana. A criança já havia sido resgatada, então ele se sentiu mais à vontade. Ele virou cada capa vermelha, revistou as cinzas frias na lareira, então empurrou os restos mortais do lobo para o lado e virou a própria cama.

E ali, ele parou.

Talhadas nas tábuas do assoalho sob a cama estavam marcas estranhas e sinuosas.

Yu Sheng se agachou, inclinando-se para perto. Na casa escura, era difícil ver, mas seus olhos brilharam como os de um lobo no escuro. As marcas eram confusas e aleatórias, quase como uma confusão de letras—mas tão quebradas e embaralhadas que ele mal conseguia lê-las.

Forçando os olhos, ele conseguiu identificar algumas palavras:

“… viva… sonhando… escondido em… tudo…”

Sua testa se franziu ainda mais. A escrita estava muito fragmentada para fazer sentido. Em vez de adivinhar, ele passou os dedos sobre os sulcos ásperos, tentando imaginar como foram feitos.

Pareciam arranhões de alguém com unhas afiadas.

Unhas humanas, mas endurecidas como as de um lobo.

Ele seguiu as marcas até o fim, notando que elas ficavam mais claras e rasas à medida que avançavam.

“Frio… faminto… não consigo lembrar… lobos lá fora…”

“Eu sou…”

Os arranhões finais estavam fracos demais para serem vistos claramente, como se a pessoa que os fez tivesse ficado sem forças. A talha parou depois de “Eu sou.”

Lentamente, Yu Sheng se levantou, seu rosto sombrio.

Ele supôs que esses arranhões foram deixados por alguma Chapeuzinho Vermelho anterior. Quem mais teria talhado tais mensagens?

Mas qual delas? Por que aqui? E o que ela havia descoberto?

Seu olhar caiu sobre as primeiras palavras:

“… viva…”

Algo aqui estava vivo? O que estava sonhando? O que estava escondido?

Ele levantou a cabeça.

O corpo do lobo jazia imóvel na cama, a maior parte de seu sangue drenado. Yu Sheng se perguntou brevemente se a carne valeria a pena cozinhar.

Uma tênue luz das estrelas entrava pela janela empoeirada.

Os uivos lá fora haviam desaparecido. Agora, o espaço além da casinha parecia mortalmente silencioso.


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